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Fátima e a Paixão da Igreja

Consumismo sacramental: regra de poder adverso à Fé

Crucifixo

 por Arai Daniele

A graça é gratuita, mas hoje, mesmo em ambientes tradicionais, pode-se verificar quão pouco esta verdade é entendida, e isto de duas maneiras.

A primeira, ao cair na lógica reivindicativa pela qual temos direito a tantas coisas e em religião, aos sacramentos; assim, haveria um direito à graça.

A segunda, que se pode garantir a graça freqüentando os sacramentos onde se apresentam, como se a fé fosse para eles e não o contrário.

Porém, é justamente no contrário que se cimenta a verdadeira fé, para a qual os sacramentos válidos – sinais da graça divina – foram instituídos.

Ao sacramental sempre aspirou a alma espiritual do ser humano, em todo tempo e lugar, através de sacrifícios. Eram ofertas, às vezes para pedir, mas não para reivindicar direitos humanos; estes são do tempo das revoluções, entre as quais não se exclui hoje a mais fingida e interessada: a sacramental.

Atenção, pois, ao reverso da moeda: atrás da ideia reluzente de direitos e vantagens vem o preço do controle de novos poderes, entre as quais não se excluem hoje pactos clericais obscuros em nome do Santo Sacrifício da Missa.

Vejamos o que diz a propósito do sacrifício o livro do Profeta Malaquias.

Javé diz: «Eu amo-vos» e vós perguntais: «De que modo nos amas?»  (1, 2)

… como Pai e Senhor, onde está o respeito que Me é devido? Javé fala-vos a vós, sacerdotes que desprezais o seu Nome. Vós perguntais: «Como foi que desprezamos o teu Nome?» – Vós ofereceis sobre o meu altar alimentos impuros, e ainda perguntais!”

O que há de mais impuro que a intenção interesseira no que é sagrado?

(7) Quem entre vós fecha as portas do Templo, ou acende o fogo sobre o meu altar, gratuitamente? (10) Vós já não Me agradais – diz Javé dos exércitos. Eu não aceito a oferta das vossas mãos. (11) Desde o Oriente até ao Ocidente, é grande o meu Nome entre as nações. E em todo o lugar se oferece incenso ao meu nome e uma oferta pura, pois grande é o meu Nome entre as nações – diz Javé dos exércitos. (12) Vós profanais o meu Nome quando dizeis: «A mesa do Senhor está contaminada e o que está em cima dela não tem valor». A impureza da hipocrisia no altar do Sacrifício.

(13) Dizeis: «Que trabalho!» desprezando-Me – diz Javé dos exércitos.

Aqui se pode perguntar como foi possível que nas palavras de consagração das espécies na oferta da Missa que celebra o Sacrifício do amor de Deus, fosse introduzida a palavra «trabalho»: «fruto do trabalho do homem»?

Como é que para celebrar a oferta divina de um amor infinito, selado no Sangue de N. S. Jesus Cristo, a intellighenzia conciliar se tenha lembrado de agregar a «trabalheira humana para produzir o pão e o vinho»?

Missa nas Filipinas

Foi para agradar sindicatos comunistas com que simpatizavam?

Fato é que até na mais reles etiqueta social, quando se oferece algo se tira o preço do custo. Mas aqui os grandes sacerdotes fizeram de modo sinuoso o contrário, o que é revelador da mentalidade do culto do homem vítima.

E isto justamente quando se ocupavam de adaptar o Sacrifício divino.

O sentido da profecia de Malaquias coloca em cheio esse grave desrespeito diante de Deus. Se era assim com o sangue animal, o que dizer da «Oblatio munda» da Santa Missa da Igreja de Deus?

(2, 2) Se não Me ouvirdes e não tiverdes no coração o desejo sincero de glorificar o meu Nome – diz Javé dos exércitos – mandarei contra vós a maldição, e amaldiçoarei as vossas bênçãos. E vou amaldiçoar-vos porque nenhum de vós as leva a sério. (3) Vou atirar-vos estrume à cara, o estrume das vítimas sacrificadas nas vossas festas; vou varrer-vos junto ao vosso estrume. Assim ficareis sabendo que fui Eu que vos dei esta ordem, para que permaneça a aliança que fiz com Levi – diz Javé dos exércitos.  (5) A minha aliança estava com Levi; significava vida e paz, e era isso o que Eu lhe dava; significava respeito e ele respeitava e honrava o meu Nome. Um ensinamento fiel estava na sua boca, e nada de errado se encontrava nos seus lábios; Levi caminhava comigo na paz e no direito, afastando muitos do pecado. Porque os lábios do sacerdote guardam o conhecimento, e na sua boca se procura o ensino [da Fé íntegra e pura], pois ele é um mensageiro de Javé dos exércitos. Vós, porém, desviastes-vos do caminho e fizestes tropeçar muitos com o vosso ensino. Vós quebrastes a aliança de Levi – diz Javé dos exércitos. Por isso, agora vos tornei desprezíveis e abjetos aos olhos de todo o mundo, porque não seguistes os meus caminhos e fostes infiéis na aplicação da minha Lei.

A relação do Sacrifício com a fé do sacerdote que o oferece

Missa Católica

Tudo isto parece que teve suas razões esquecidas na Igreja conciliar, que deste modo cria uma relação perversa: os fiéis deveriam seguir sacerdotes que não os levam à fé, mas desviam. O mesmo, destes com os bispos.

E ainda o mesmo dos bispos com os papas da fé modernista no culto do homem vítima e reprimido no seu direito à liberdade de consciência e de religião. Tudo como se essa hierarquia não tivesse sido instituída para a Fé íntegra e pura suscitada por Nosso Senhor, mas para o novo poder clerical.

A dúvida sobre essa ordem parece resolvida para muitos crentes na certeza que o valor dos sacramentos, se válidos, é ex opere operato. Logo, não importa, para o valor do sacramento, se são bons ou maus pastores.

O que acontece, porém, quando uma «hierarquia invertida» impõe uma nova «fé», segundo uma «nova consciência da Igreja»? Quem aceita esta, não está aceitando quem corrompe a Fé e, por conseguinte, corrompeu a razão mesma dos sacramentos? Não se coloca então este «complacente» entre os que, não defendem nem a Fé nem os verdadeiros Sacramentos?

Aí voltam a dizer: isso é problema pessoal do sacerdote. Os sacramentos que ele ministra continuam a ser bons para a fé, pois são ex opere operato!

Assim não se defende nem a Fé que agrada a Deus, nem os sacramentos, que a reforça nos fieis, crendo que o testemunho na defesa da Fé vem após, ou é independente de onde e de como se recebem os sacramentos.

Nunca foi esta a prioridade ensinada pela Igreja quando a Fé estava em perigo. Até os monges deixavam sua vida contemplativa para defendê-la.

Imagem de Santo HermenegildoSão Hermenegildo foi declarado mártir por São Gregório Magno por ter sido decapitado (585) ao recusar indignado receber a comunhão da mão de um bispo herege. Este sacrifício sangrento teve frutos para a Igreja porque seu irmão, sucessor no trono de seu pai ariano, tornou-se católico e assim toda a Espanha guiada pelo bispo São Leandro voltou à verdadeira Fé.

Note-se que, à diferença dos sacramentos transformados da Igreja conciliar, os sacramentos arianos não eram essencialmente diversos dos católicos. No entanto deixavam de levar os fiéis a testemunharem a verdade da Igreja onde a Fé é vilipendiada. Podiam servir de «seguro» para uma santificação?

Com esta idéia há uma ruptura doutrinal de tempos apocalípticos, de geral apostasia, pela simples razão que, com a maioria de «católicos» reverentes à falsa «autoridade na fé» de conciliares que a corrompem em tudo, mais do que o fizeram os arianos, a Igreja fica aberta à «hora do Anticristo»; como é que os sacramentos podem ser meio de defesa da Fé e portanto de salvação em modo independentes do testemunho fiel.

E como este pode ser fiel sem a oposição ao que e a quem corrompe a Fé?

Podem tais crentes não se perguntarem se a fidelidade apenas a um grupo, com seu latinorum tradicional, agrada a Deus sem testemunhar a Fé contra quem a corrompe ocupando a Sua Igreja para mudá-la?

Que testemunho é esse se reconhecem a autoridade dos corruptores?

É claro que essa preocupação de assegurar os sacramentos, a despeito desse testemunho posto em surdina, indica a mentalidade pela qual a fé vem depois do reivindicado direito ao «seguro sacramental».

Aqui voltamos então ao reverso da moeda: deste modo não só se abandona a verdadeira defesa da Fé da Igreja, dependente do poder legítimo nos seus vértices, como se cai na submissão a um novo poder clerical comprometido que decide sobre a nova “obediência” e “fidelidade” a quem convém.

Deste modo, com o “consumismo sacramental” se criou uma nova regra de poder que é adverso à Fé. Por exemplo, se os chefes de uma Fraternidade tradicionalista ou um novo «bispo conciliar», como é o caso do P. Rifan, decidem que há que seguir um anticristo e quem não obedece fica sem os sacramentos, os fieis apavorados acabarão por seguir justamente quem altera os sacramentos, com que se preocupam mais do que da própria Fé.

É o caminho mais direto para desagradar a Deus, adotando, sem nem se dar conta do falso testemunho, as ordens dos vigários do inimigo de Deus.

Com isto é também ignorada a Caridade que se manifesta nas obras de conversão à única Igreja, e abandonada a Esperança que ela seja restaurada com o retorno de quem representa a autoridade integralmente católica, apostólica e romana, reconhecível no empenho pela pureza e continuidade dos Sacramentos de Jesus Cristo.

Para a força desta Fé foram instituídos os Sacramentos, assim como para confirmá-la e defendê-la existe o Clero e a Hierarquia católica.

Eis o que deve ser o primeiro testemunho, do qual não está isento nenhum católico, e a tempo e a contratempo da própria tranqüilidade e segurança, bem como do risco de telhados e da periculosidade de nossas catacumbas.

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