Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

DEBATE COM O DR. ARNALDO VIDIGAL XAVIER DA SILVEIRA SOBRE O SEU LIVRO QUE TRATA DA HIPÓTESE TEOLÓGICA DE UM PAPA HEREGE. PARTE 2

Continuação das respostas a posição do Dr. Arnaldo Xavier da Silveira publicada aqui.

Argumentos De Rogério Araújo

1-2) Quanto ao momento.

A bula CEAO se tornou fonte do Canon 188 do CIC de 1917, onde o momento é expresso claramente com a sentença IPSO FACTO, os cargos ficam vacantes ipso facto. O IPSO FACTO é uma constante na bula.

ultra sententias, censuras et pœnas prædictas, sint etiam, eo ipso, absque aliquo juris aut facti ministério…

(além das referidas sentenças, censuras e penas, sejam também, pelo mesmo fato, sem alguma providência de Direito ou de fato, inteira e totalmente privadas, perpetuamente…)

“Nec pro legitima in aliqua sui partem habeatur, nullamque talibus in episcopos, seu archiepiscopos, vel patriarcas aut primates promotis, seu in cardinales vel Romanum Pontificem assumptis, in spiritualibus vel temporalibus administrandi facultatem tribuisse aut tribuere censeatur”,

(Não seja ela tida por legítima em parte alguma sua. Seja julgado ter-se atribuído ou atribuir uma faculdade nula para administrar em coisas espirituais e temporais a tais pessoas promovidas a bispos, arcebispos, primazes, ou assumidas como cardeais ou Romano Pontífice)

sed omnia et singula per eos quomodolibet dicta, facta, gesta et  administrata ac inde    secuta, quæcumque viribus careant, et nullam prorsus firmitatem nec jus alicui tribuant; sintque ipsi promoti et assumpti, eo ipso, absque aliqua desuper facienda declaratione, omni dignitate, loco, honore, titulo, auctoritate, officio et potestate privati.

(mas, sem que deva ser feita declaração alguma superveniente, sejam, POR ISSO (pelo mesmo fato), privadas de toda dignidade, posição, lugar, honra, título, autoridade, cargo e poder, as mesmas pessoas assim promovida e assumidas.

A bula deixa claro que tudo o que veio posteriormente à eleição foi nulo porque O MOMENTO da promoção foi nulo. Tudo isto está ligado à verdade de fé expressa na Sagrada Escritura, lembrada pelo amigo Felipe; Essa verdade foi assim interpretada por Pio XII em sua Mystici Corporis, onde a heresia suapte natura separa da Igreja. O momento em que os fiéis se dão conta disso é relativo ao tempo material humano, porém, em absoluto, o eleito que já havia incidido em heresia nunca recebeu de Deus poder para conduzir o rebanho de Cristo ao abismo.

Uma autoridade dada pela concessão dos homens (aceitação pacífica e universal) que não amando a verdade acreditou na mentira de um poder não provindo de Deus é uma aberração e contraria o parágrafo citado (no email anterior) da Bula, onde os fiéis têm o direito/dever de não receber o que traz outro evangelho (Gálatas 1,8).

Aqui sugerir que pode haver um poder que permanece válido na prática, simplesmente porque os homens não souberam recorrer nem àquela verdade de Fé, nem à Lógica (S. Roberto sobre a cabeça e o corpo), nem a Lei da Igreja é afronta ao direito Divino. É como afirmar que a VERDADE OBJETIVA de que o eleito nunca foi papa diante de Deus, não pode ser posta em prática porque os homens permanecem recebendo a FALSA AUTORIDADE. É como o “non serviam” à ordem divina, para servir a prática humana.

3) Questões que precedem a desse “momento

Para atermo-nos ao MOMENTO presente, esses papas conciliares foram encontrados hereges, em vários MOMENTOS essa heresia foi manifesta, em vários MOMENTOS acusada (Mons. Lefebvre, Mons. Antônio de Castro Mayer, Abbé de Nantes, Mons. Thuc, fiéis leigos em várias partes do mundo). O que faltaria conhecer é o momento em que o mundo católico errante toma consciência disso, para que então o usurpador modernista ocultamente infiltrado, Deus sabe desde quando, talvez desde o tempo de seminarista, perdeu realmente sua condição de católico e portanto o poder que se presumiu mais tarde deter, a despeito do direito divino que o eleito papa professe a Fé!

4) Para que o Papa fiel que se tornou herege perca o cargo, basta que seja herege oculto, que cometa o pecado interno de heresia, ainda que ninguém saiba disso? ─ Basta uma manifestação externa da qual ninguém tenha tomado ciência? ─ Basta que algumas pessoas saibam? ─ Ou o caráter visível da Igreja postula que a heresia papal seja pública, para produzir o referido efeito?

Para que o Papa fiel que se tornou herege perca o cargo... Não é o caso presente, a heresia dos papas conciliares tornou-se manifesta em suas obras. O momento talvez se encontre em foro interno, que os homens não podem julgar, mas o que não crê já está julgado. O momento da perda seria o momento em que foi encontrado em heresia, mas tudo o que veio antes no exercício desse cargo ocupado com o engano na fé foi nulo; estava manchado pela intenção herética.

5) O ponto a que cheguei com aprovação de Dom Mayer, na edição brasileira e enfatizada na edição francesa, de 1975: Não bastaria uma notoriedade qualquer

A notoriedade da heresia dos papas conciliares é «universal».

6) A “Cum Ex Apostolatus Officio” nada diz sobre o grau de notoriedade da heresia do eleito ou nomeado, que implicaria no impedimento, nem sobre o “momento” da perda do Pontificado pelo Papa fiel que decaiu na fé?

São dois os «momentos»: diante de Deus, diante dos homens. A perda na prática é quando os homens encontram-no em heresia e os seus atos são retroativamente nulos, porque sua eleição o foi.

7) Paulo IV não definiu o momento. E um ensinamento do Magistério extraordinário não pode ter interpretação extensiva. O teólogo ou o leigo não podem alargá-lo por conta própria. A exegese simplista da Bula, segundo a qual bastaria a heresia oculta, viola o dogma do caráter visível da Igreja.

A heresia oculta não pode ser conhecida pelos homens, logo, não é disso que a Bula trata, inclusive a Bula usa o termo: “se for encontrado em heresia”. Trata, portanto, do delito público.

RESPOSTA DE ARAI DANIELE

O católico para enfrentar o dilema de um «papa herege no Lugar Santo», previsa voltar às questões fundamentais da nossa Fé, que podem ser expressas em modo simples e não acadêmico.

– A Igreja representa a Autoridade de Deus em Terra.

– Esta Autoridade suprema é representada pelo Pontífice Romano.

– Tal poder de Vigário de Cristo provem imediatamente de Deus e não da Igreja.

– O mundo católico precisa ter certeza da invisível concessão divina de tal poder ao eleito papa num conclave. Mas a certeza absoluta referida à invisível concessão divina depende de um sinal visível e universal de ordem teologal, como seja a virtude da fé professada.

– Um «sinal sobrenatural» para guiar na ordem visível e natural da Igreja é ligado a «momentos» definíveis. Assim, o sinal para confirmar o poder do eleito papa, necessário para a continuação da Igreja, é tido pelo ensinamento comum dos autores como a aceitação pacífica e universal por toda a Igreja unida na Fé; sinal de ordem a um tempo sobrenatural e natural.

– A vida da Igreja é ligada à essência da Vontade divina, portanto é atemporal no sentido do seu «ser substancial», que se sobrepõe à ordem natural.

– No entanto, a vida humana, como a da sua sociedade, é contingente, portanto ligada ao temporal, a «momentos acidentais». Para a vida da Igreja, sociedade do tempo humano, tais momentos devem ser considerados na sua inteira importância para o entendimento dos fiéis. Assim o conclave para eleição de um papa.

– Mais importante do que este, porém, é o que se vê manifesto como delito contrário à vida da Igreja, a heresia no lugar santo em que deveria haver a confirmação da Fé. Este é o é o «momento» diante de Deus, momento real para a fé, que os homens podem e devem reconhecer para recusar e impedir o poder de quem traz um outro evangelho (Gl 1, 8).

– Só neste segundo caso se pode enquadrar a velha questão crucial sobre o “momento” em que um «papa herege» perde o Pontificado; «momento» factual, social, político no sentido amplo, em que a manifestação externa da heresia e sua notoriedade implicam a «perda do cargo» perante os homens.

Esta mesma questão do «momento» se põe quanto à eleição de um herege que, antes ou depois é reconhecido na notoriedade da sua heresia e esta indica a nulidade da sua eleição.

Por exemplo, se havia a suspeita de modernismo da parte do «papabile». Esta havia sido acusada e só se podia confirmar tardiamente na obra do «eleito».

– Na hipótese teológica do Papa herege há portanto que considerar o «momento» que em outros termos pode ser descrito pelo  verbo «encontrar» ou «reconhecer», próprio do julgamento humano tardio sobre o que Deus, conhecendo o íntimo das consciências, já julgou.

– O sentido da questão passa a ir então além da interrogação se «um papa pode cair em heresia».

De fato, a eleição do decaído em heresia, privado da condição de professar a Fé católica, foi nula e ele nunca foi papa, embora no «primeiro momento», em seguida a eleição, esta parecesse legítima.

– Com isto o reconhecimento imediato do papa, assim como a validade do conclave não pode ter valor absoluto. Pode haver erro humano. Isto ensina a Bula Cum ex apostolatus»  do Papa Paulo IV.

– O «momento» do reconhecimento do papa legítimo não segue o momento da eleição, mas do seu reconhecimento à luz da fé de toda a Igreja.

– Esta fé é, antes e após a eleição do Papa, o termo de juízo ligado ao reconhecimento sucessivo da obra de confirmação e defesa da fé do eleito papa, cuja geral conhecimento da pessoa pode ser falho e contraditório. Por exemplo no caso de um clérigo modernista que havia prestado até juramento anti-modernista, conservando o propósito de «aggiornare» a Igreja com as suas idéias.

– Se isso for reconhecido, ele mantém o cargo? Quem o deporia ou declararia destituído do Papado?

Ora, de fato nada há na Revelação que permita afirmar que um Papa não pode cair em heresia.

– Nessa hipótese, ele não poderia permanecer no cargo porque não pode ser cabeça quem não é membro por carecer da fé católica; fato que se torna público e notório.

– Se houve aceitação «pacífica e universal pela Igreja», esta incorria no erro por desconhecimento da falha na fé ocultada pelo eleito. Logo a aceitação pacífica e universal foi um sinal inicial, mas não infalível da eleição do papa, porque após, pelas obras, se pode apurar que faltava a fé do eleito.

Se a hipótese teológica de um papa herege é válida porque nada há na Revelação que permita afirmar que um Papa não pode cair em heresia, deixa de ser hipótese, mas é certeza, que até um papa pode e deve ser julgado se desvia, desviando a Grei.

Nesse julgamento, feito segundo a fé dos filhos da santa Igreja, pode ser apurado se o desvio se deve à ignorância ou pertinácia, caso este último que, uma vez confirmado pela resposta negativa do acusado às advertências, implica na sua perda do cargo de autoridade na Igreja. Poderia então ser deposto ou declarado deposto pelo concílio, pelos cardeais, enfim por órgão eclesiástico ou humano.

Se não o for é devido, não à falta de lei segundo o direito de Deus e da Igreja, mas dos homens.

Como resolver então o problema desse «momento»? De que modo determinar a perda do cargo depois de haver apontado como «pública e notória» a manifesta heresia desse eleito?

O Direito expõe o que é certo, mas a sua execução depende da força para aplicá-lo da parte humana. Se esta carece, não assim as razões. Perante os homens aplica-se a essa autoridade (o «deponendi»). Mas perante Deus, já é «depositus est». O fiel deve aspirar ver realizada esta Vontade sobre o que «é ou não é, sobre o sim, sim, não, não», que depende da força da fé de toda Igreja.

A fé é hoje carente porque a vida espiritual dos povos abandona a graça. Mas isto não muda a Lei.

Quando no livro “La Nouvelle Messe de Paul VI“, pp. 276-281) se sustenta, com o jesuíta Paulo Laymann (+ 1625) e outros, que «enquanto [o Papa herege] for tolerado pela Igreja e publicamente reconhecido como pastor universal, gozará realmente do poder pontifício” (“Consid.“, p. 61), sobrepõe a visão subjetiva de uma «realidade» aparente à ordem objetiva do que «É»… o poder pontifício dependeria do «tolerar» humano e não da direta «concessão» divina segundo a fé do eleito papa, confirmado pela Lei e pelo Papa Paulo IV na Bula «Cum ex apostolatus officio». E esta visão subjetiva humana passa a condicionar a Ordem transcendente da Igreja pela qual o Papa Paulo IV ensina que o herege não pode ocupar cargo eclesiástico.

A Bula “exprime uma lei necessariamente infalível e perpétua: um desviado da Fé não é hábil para o Papado. Se for eleito Papa, houve erro humano e a eleição é nula.

Logo, não estamos em nenhum caso de deposição papal. O problema está no sujeito da Fé, que reconheça o fato objetivo, chegando à conclusão final da Bula:

“nec per susceptionem muneris, consecrationis aut subsecutam regiminis et administrationis possessionem, seu quasi, vel ipsius Romani  Pontificis inthronizationem aut adorationem, seu ei in præstitam ab omnibus obedientiam et cujusvis temporis in præmissis cursum convaluisse dici aut convalescere possit”.

(nem pelo fato da recepção da função, da consagração, posse ou quase posse subseqüente do governo; ou pela entronização e adoração do próprio Romano Pontífice; ou pela obediência a ele prestada por todos, durante o transcurso de qualquer tempo nas referidas  coisas, tal nulidade pode ser dita ter convalescido ou poder convalescer...)

“Liceatque omnibus et singulis sic promotis et assumptis, si in fide antea non deviassent, Nec hæretici fuissent, nec schisma incurrissent aut excitassent vel commisissent, subditis personis, tam clericis sæcularibus et regularibus, quam etiam laicis, necnon cardinalibus, etiam qui electioni ipsius Pontificis antea a fide devii aut hæretici seu schismatici interfuerint, seu alias consenserint et ei obedientiam præstiterint eumque adoraverint ac castellanis, præfectis, capitaneis et officialibus, etiam almæ Urbis nostræ et totius Status Ecclesiastici,

(E seja lícito às pessoas subordinadas com relação a todas e a cada uma das pessoas assim promovidas e assumidas, se antes não se desviaram, nem foram heréticas, nem incorreram em cisma ou o excitaram ou o cometeram, pessoas, quer de clérigos, seculares e regulares, quer também de leigos, bem como de cardeais, mesmo os que estiveram presentes à eleição do próprio Pontífice antes desviado da Fé, ou herético, ou cismático, ou que de outro modo nela consentiram e lhe prestaram obediência…

ab ipsorum sic promotorum vel assumptorum obedientia et devotione impune quandocumque cedere eosque ut magos, ethnicos, publicanos et hæresiarchas evitare… (seja lícito impunemente, em qualquer tempo, afastar-se da obediência aos mesmos assim  promovidos ou assumidos e  evitá-los como a feiticeiros, pagãos, publicanos e heresiarcas… )

Uma necessidade não fundamenta uma certeza e visto que se trata sempre de certeza na Fé e para a Fé, é claro que só na Fé temos a referência fundamental para tal certeza. Isto é, que o eleito demonstre professar a Fé nos atos para os quais recebeu esse poder supremo. É a recomendação divina: “Pelas obras os reconhecereis”. Só assim temos a confirmação da escolha do digno eleito papa, mas também o seu contrário no caso de grave desvio na Fé em tempo posterior se for apurado que o eleito não só no presente se demonstra desviado, mas o era antes da eleição.

O nosso trabalho se permite apontar para um excesso da preocupação dos grandes teólogos pela ordem terrena e o caráter visível da Igreja, que gerou aversão à Bula com medidas drásticas do Papa Paulo IV. Esta aversão é uma constante histórica que continuou em nosso tempo devido ao prestígio de Teólogos de peso ímpar, que vai de São Roberto Bellarmino ao Cardeal Billot.

A esta posição há que se referir para tratar da Bula papal que enfrenta toda a questão e, embora esquecida e hostilizada pela matéria candente que toca, é fonte primária da Lei da Igreja.

No livro de Arnaldo Xavier da Silveira são citadas hipóteses de São Roberto Bellarmino, das quais uma é seguida pelo seu contemporâneo Suarez (1548-1617, SUAREZ, S.J., Franciscus – “De Fide” – “Opera Omnia”, Vivès, Parisiis, tomus XII, 1858). Este Teólogo, embora considere possível que um papa possa cair em heresia, todavia tem por mais provável e pio afirmar que o Papa, como pessoa privada, possa incidir em erros por ignorância, mas não por pertinácia. Para Suarez, Deus interviria mediante uma ação suave da Sua providência para evitá-lo. Concorda com ele Mathaeucci, teólogo  franciscano (+1722), que chega a afirmar ser a opinião de Suarez uma verdade de Fé.

O Cardeal Louis Billot (1848-1931), como teólogo, defendeu a mesma opinião pois confiava em sua interpretação neste sentido do texto bíblico da promessa de Cristo (cf. Lc 22, 32), dizendo:

“A ordem estabelecida por Deus exige absolutamente que, como pessoa privada, o Soberano Pontífice, não pode ser um herege, mesmo se perdeu a fé no seu foro interno”. Conclui: “No caso que a hipótese de um papa caído em heresia notória se tornasse realidade, a Igreja ficaria envolvida num tal grau de aflições, que se pode deduzir a priori, que Deus nunca o permitiria.”

Pode-se ver contradição nessa conclusão a priori, porque não só os homens são capazes dos maiores delitos em nome da mesma Igreja, mas porque foi o mesmo Cardeal na sua obra «Parusie» a descrever as aflições da Cristandade no mundo em tempos iminentes, que são os que vivemos:

“Observamos uma considerável perda de fé nas nações que eram cristãs, e isto na indiferença ou até mesmo no ódio à fé cristã. Vemos que a apostasia tem já (1920) caráter oficial… Os poderes civis declaram não reconhecer Cristo, nem a sua Lei (veja-se a declaração Dignitatis hunanae). E o fenômeno distingue nossa época do passado: o ateísmo se afirma com descarada ousadia e ampla publicidade… tudo com um grau de degradação nunca visto”.

O Teólogo descreve o tempo atual como se Roma fosse isenta desse declínio quando a ordem clerical participa dessa apostasia apocalíptica justamente ao ignorar as medidas dos próprios papas para proteger a integridade da Fé. Não se está fazendo acepção de cargos, especialmente do pontifical, ao se sobrepor o respeito pela pessoa do papa ao dever da defesa da Fé? Ora, “Ubi major minor cessat”, enfrentando o pior mal, ou seja, o ataque à Fé cristã, o mal da heresia no foro interno de um papa, não pode passar por traição impossível. Isto aconteceu com o Cardeal Billot no caso de Honório I, quando à prioridade da defesa da Fé, sobrepôs a defesa da pessoa do Papa.

De fato, Billot afirma: “Honório não foi herege”. Dito isto, contesta sem pestanejar a afirmação do Papa Adriano II que Honório foi acusado de heresia, exclamando:“isto não prova nada”. Contesta, também a autenticidade do Canon “Si Papa” de Graciano e as palavras de Inocêncio III admitindo a possibilidade que um papa possa pecar contra a Fé, como simples hipérbole oratória! Em breve, para salvar a sua idéia de imunidade papal põe em dúvida a infalibilidade de Papas ao tratar da defesa da Fé.

Comenta o prof. Tello Corraliza:

“Estas contradições se demonstram ligadas a um falso zelo em defesa do cargo papal posto ao nível da Fé. É a teoria da imunidade «absoluta» de um papa a ser julgado, já formulada no passado pelo teólogo Pighi. Este tinha a atenuante de tê-la formulada antes da promulgação pelo Papa Paulo IV da Bula Cum ex apostolatus officio; o zelo na defesa da Fé pode desculpá-lo. Mas o mesmo não se aplica aos juízos que ignoram esse documento papal, à partir do Cardeal Baronio. Ignoraram a Bula que mirava à defesa da Fé contra o abuso do poder de jurisdição, mesmo de um eleito papa. Tudo a favor do «prestígio absoluto» desse cargo que é de representação de Jesus Cristo. Eis que uma Bula dessa importância crucial para aquele tempo, mas especialmente para o nosso, foi ignorada e permaneceu esquecida já passados trinta anos após sua publicação e sucessiva ratificação também por São Pio V.

“Há que reconhecer: assim o inimigo de Deus e da Igreja deu um primeiro passo decisivo em direção do seu objetivo principal de alterar o poder dado por Deus à Roma para defender a Fé. Os teólogos e canonistas, a partir de então, têm amplamente demonstrado um emblemático desdém pelo documento essencial para defender a Fé impedindo a aceitação geral da autoridade que pretenda alterá-la. A Bula de Paulo IV que obrigatoriamente deveria estar, por título e conteúdo no “Enchiridion Symbolorum, Definitionum et Declarationum de Rebus Fidei et Morum”, de Henrich Denzinger, ali incrivelmente falta. Isto em todas as suas edições, da primeira à última! É a razão porque M. Gwynne da Britons Catholic Library, crê ser tal omissão inteiramente tendenciosa. Talvez para Denzinger, pode-se presumir que a ignorasse; mas não para tantos autores das edições sucessivas. O mesmo se diga do Dictionnaire de Theologie Catholique. No seu artigo “Deposition et Degradation des Clercs”, ou melhor, na sua epigrafe VI, onde trata justamente da deposição dos Papas, mas os textos da Bula de Paulo IV não são citados. Ignorar um documento dessa importância é sob todos os pontos de vista, científico e mais ainda religioso, é irremissível. Mas conhecê-lo e não ilustrá-lo no contexto real, para descartá-lo, é inqualificável. No entanto, foi o que ocorreu como verdadeiro Mysterium Iniquitatis numa obra de “despistagem” dos estudiosos sucessivos».

Ora, pensamos que disso foi vítima a importante e oportuna obra de Arnaldo Xavier da Silveira escrita em 1969 junto com Dom Antonio de Castro Mayer, onde faltou a referência essencial para o estudo exaustivo da temática teológica sobre a possibilidade de um papa herege, embora a existência da Cum ex já voltava à luz nessa época quando o Padre Barbara, em viagem ao Brasil e à Argentina, já a expunha com insistência. Em todo o caso, a Bula sempre esteve ali registrada no Bullarium Romanum, para ser uma fonte do Direito canônico promulgado em 1917. A referência a ela é de primária importância numa discussão para enfrentar essa matéria.

Concluo com uma confissão pessoal: sigo os grandes Teólogos que, de São Roberto ao Cardeal Billot, crêem que um papa não pode cair em heresia devido à Oração de Jesus (Lc 22, 32).

Quando teólogos desse peso negam a histórica condenação do Papa Honório I, o fazem em função da Oração de Jesus: não podia ser herege! Ora, pergunto: o delito de heresia necessariamente comporta a perda da fé, ou pode ser uma queda na coragem da fé pessoal e até traição da Fé da Igreja, sem perda da primeira? Não é considerada igualmente heresia, seja a negação de artigo de Fé, seja a cumplicidade com quem o faz? Não há que ver esta diferença no caso do Papa Honório, assim como no do Papa Marcelino? Este último teve a ocasião para demonstrá-lo com o martírio. Honório perdeu a ocasião diante do esclarecimento enviado a Roma por São Sofrônio, Patriarca
de Jerusalém, através do Diácono Leonzio e de Polieucto. Preferiu, a detrimento da Fé, a sua política ambígua, que considerava talvez a melhor para a posição «visível» da Igreja. Isto se tornou agravante da traição na fé que conservava devido à oração de Jesus. Discordo, assim, do Homero Johas e outros, sobre o fato que Honório tivesse caído no monotelismo (do qual restou alheio até
o seu secretário, o futuro Papa João IV (cf. Dz 496).

À esta distinção essencial na questão da fé do Pontífice Romano quer contribuir o nosso livro.

Ao qual seguirá um texto da aplicação do que for acertado sem duvidas à situação tremenda que vive a nossa Santa Madre Igreja. Seja tudo AMDG, invocando como sempre a proteção da sublime Advogada das causas humanamente desesperadas.

Uma resposta para “DEBATE COM O DR. ARNALDO VIDIGAL XAVIER DA SILVEIRA SOBRE O SEU LIVRO QUE TRATA DA HIPÓTESE TEOLÓGICA DE UM PAPA HEREGE. PARTE 2

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