Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

Gustavo Corção – Conservador ardente

Arai Daniele

(Resumo do artigo em homenagem do Autor falecido em 1978, publicado na rev. Permanência em março-abril 1980)

Gustavo Corção

A descoberta da verdadeira vida não se faz com longos estudos ou com valorosas conquistas pessoais, mas pela humilde adesão a uma graça. Saberemos então, que também a verdadeira vontade humana não se realiza impondo idéias, mas aceitando reverente, a suprema ordem vital que é para nós um mistério.

Eis, então, que o Reino Sublime que nos envolve a todos, per­tencerá àqueles que abandonaram artificiosas elucubrações men­tais para, esquecidos de si mesmos, ermitões das fantasias do mun­do, pobres de espírito, servir de corpo e alma a Causa da divina perfeição.

Incrível fecundação no real conhecerá então esse doador de boa vontade e, poeira perdida em trevas abissais, receberá a luz do Ver­bo que habitou entre nós para ser atraído por Sua salvadora gra­vitação. Átomo fugaz de crosta agreste, será transfigurado para refletir o esplendor do Absoluto que tudo cria e tudo exalta na Sua imensa órbita de vida. A palavra será alimento da verdadeira ação, dada para vivifi­car e difundir o secreto equilíbrio de separações e atrações essen­ciais, na perfeita ordem, na perfeita razão e na vontade do Ser Su­premo que em cada homem gravou feições pessoais dentro de uma entidade universal à Sua imagem, para acolhe-lo, após o desterro, nas dimensões da Sua eternidade.

O católico fiel Gustavo Corção viveu plenamente essa ideia e sua ação vital se exprimiu pela vontade de servir e de ligar, apli­cando artes e técnicas, relacionando palavras e pessoas, enquanto seguia com ardor as linhas de força que sua devoção a Cristo e ao exemplo indicavam.

Muitos acharão paradoxal um homem que, procurando unir, seja ao mesmo tempo polêmico e agressivo, mas o autor explicará que a verdadeira união se faz separando, distinguindo e enaltecen­do. Cristo disse: “Eu não vim trazer a paz mas a espada.”

Cristo, da sua boca saia uma espada de dois gumes

Outros acharão contraditório apresentar um homem de vasta cultura e brilhante inteligência como um pobre de espírito, mas aí está a lição: despiu-se e esvaziou-se de coisas próprias para conter muito mais, conter a verdadeira sabedoria que emana das palavras divi­nas. “Se não acolheres o Reino de Deus como um menino, não en­trareis…”

Minha tentativa de lembrar o pensador que marcou a socie­dade em que viveu, não se deterá portanto diante de seu aspecto de escritor brilhante, de professor de vértices e abismos ou do des­temido polemista católico; seguirei seus pólos de atração, suas li­nhas divisórias, suas intimas e férteis oposições, descobertas no próximo, na mulher, no outro. Vamos assim percorrer os acidentes geográficos e históricos da vida do autor, descendo nos abismos de seus pensamentos ou subin­do na senda de suas altas visões, para chegar ao aconchego de uma casa arrumada que abriga o peregrino universal que foi por ele acolhido e dignificado em si e no próximo. Falaremos pois de Corção pai de família, homem religioso e conservador de valores pe­renes. Tendo se sagrado à rudeza e austeridade da “idade medieval”, manteve até o fim uma luta cerrada em defesa da Igreja e dos valores que ela ensina, não hesitando em aparecer nas vestes do homem comum que retorna à condição de criança para melhor tocar a maravilhosa realidade de Deus, ou então de cava­leiro armado, do crente assinalado.

O romance “Lições de Abis­mo”

Infenso à sociedade mundana, com o romance “Lições de Abis­mo” a estimulou e provocou para, em seguida, pedir atenção e ouvidos a sinais que vinham de muito mais alto. Escritor apartado, homem religioso tenso, mantinha sua rede de antenas em ação, re­forçando os tirantes de sua torre vigilante, enquanto canalizava reservas de sangue e linfa para a grande missão: a auscultação e propagação terrena do Absoluto Revelado. Repetiria, fiel, a fala de videiras e grãos de mostarda, de coisas simples e quotidianas que são os ingredientes do verdadeiro romance de nossa existência.

Que melhor sentimento pode inspirar a literatura senão o amor pela linguagem comum dos homens, que por sua vez ecoa à som­bra da comunicação sobrenatural? E onde pode levar o progresso da comunicação humana senão à comunhão com o Criador? Com essa intenção, vale a pena ser artista da palavra e articular a harmonia verbal como testemunha da origem da Verdade, do Bem e do Belo.

Toda a fantasia do cavaleiro medieval é sair à demanda da Suprema Realidade, para melhor servir os Seus desígnios e defen­der a Sua ordem. Pois bem, assim é com o pai, quando defende os valores da família: mantém íntegra e saudável a sua vida e pensa com prudência na sua conservação e renovação. Não deve temer expor-se ao escárnio ou ser abatido nessa tarefa, porque essa fun­ção habita a alma humana, e é imperecível.

Hoje, porém, uma “onda” enorme vai convencendo os pais à renúncia dos próprios deveres, não somente através dos abusos de sempre, os vícios, as fraquezas, as incompreensões e a ignorância, mas cedendo à moderna investida que condena e ridiculariza a au­toridade do chefe da família para substituí-lo por “especialistas” diplomados por ideologias revolucionárias.

Acrescentemos ao assédio feito ao responsável pelo patrimônio e pela vida, a rebeldia dos filhos em idade de dúvidas e os rancores de todas as idades. Juntemos os remorsos pelos castigos injustos, as dúvidas pelos métodos escolhidos, e ainda os momentos de impa­ciência, de canseira, de nervosismo. Será preciso muita clareza e força para resistir ao assalto. Como é possível porém renunciar ao irrenunciável? Como dei­xar de ser aquilo que nem a sociedade nem a ciência dos especia­listas elaborou? Pois bem, é preciso que os pais se lembrem que, mesmo sendo imperfeitos, a família é sagrada porque engendra e conserva a vida e a sua defesa lhes foi confiada pela Suprema autoridade.

Autores como Corção puseram todo o seu zelo nessa rememo­ração, foram além, conseguiram transmitir a satisfação que deriva da árdua mas sublime missão de “pater familias”. Na realidade, os homens e as mulheres serão pais e mães de maneira indissolúvel. Ninguém e nenhuma organização pode substituí-los plenamente, nem com o corpo nem com o espírito. Se a mente trair essa verdade, se degradará; se quiser aceitá-la, será a mesma luta a exaltá-la.

O nome do pai é um escudo

Corção repetiu direta e indiretamente a noção de que o nome do pai é um escudo e bastará pronunciá-lo com força para que os vendilhões do Templo sejam desbaratados, para que todo o seu con­trário, a rebelião, a sedutora Revolução, a pérfida doutrina, a pala­vra estéril, sejam expulsas. No seu livro “O Século do Nada”, lembra essa permanente procura feita por Leon Bloy: “A França acabara de marcar a vitória do Marne. Os jornais estavam encharcados de júbilo, de esperança, de triunfo. Mas Leon Bloy folheava os jornais com cólera crescente, e depois com tristeza infinita. O que é que o velho leão procurava nos cantos dos jornais? Lá está escrito em seu diário: “je cherche en vain le nom de Dieu”. Nesse ponto é justo colocar um autor diante do grande dilema pessoal e social, a questão do equilíbrio na verdade, na qual a razão humana presta seu exame de madureza. A posição de um escritor está expressa em seus escritos, mas ela é resultado de uma escolha que, por sua vez, exprime uma doutrina. Não devem ser porém os sentimentos ou intuições, as amizades ou simpatias, as afinidades ou o estilo literário a constituir termo de juízo.

A qual equilíbrio pode um ser humano aspirar, suspenso em um mundo que orbita num espaço infinito? A razão procura um centro, um fulcro imóvel, uma perfeição acima da própria razão. A mente facilmente se perderia na vastidão da procura e por isso a Razão perfeita, o Ser imóvel nos revelou seu modelo ideal, de nossa mesma carne, centro humano de perfeição divina: Jesus Cristo.

Agora nossa procura de equilíbrio tem uma referência defini­tiva: O Bem feito Homem, e o equilíbrio do Bem significa o aper­feiçoamento, a procura de tudo que pode melhorar as pessoas, enriquecer suas qualidades inatas e, por conseguinte, sua capacidade de combate ao mal e a repulsa de tudo aquilo que degrada e corrompe. Essa guerra decisiva se processa pelas definições claras, pelas sepa­rações vitais e pelas purificações do Templo. Será o santo equilíbrio acessível, depois de ter sido batizado por Cristo e guardado pelos seus pastores e pela sua Igreja? Na história do Cristianismo sabemos como as inúmeras heresias, mes­mo apontadas e condenadas, continuaram enevoando a mente co­mum propondo níveis intransponíveis à verdadeira luz. Sabemos que os maiores desvios surgiram nos meios religiosos e pediam uma força inusitada para reequilibrar idéias que se auto-definiam como “novos equilíbrios”.

A santa obediência pode transformar-se em arma vil

Até mesmo a santa obediência pode se transformar em arma vil ao passo que o equilíbrio cristão nos foi ensinado na humilde imitação do único e supremo Chefe, d’Aquele que ficou só, minoria absoluta, para dar testemunho e exemplo da Via, Verdade e Vida, quando houve até mesmo o sacrifício do Centro de qualquer poder e sabedoria, esquecido, condenado e crucificado enquanto os discí­pulos, temerosos, procuram dialogar com as maiorias.

O número, a quantidade, a riqueza, a concentração de poder econômico e político, a tecnologia dos confortos e das conquistas, tudo está aí a nos dizer que a vida deve ser vivida, que os católicos de sempre são extremistas, que os santos são fanáticos, que o Re­dentor é um mito, que Deus não existe, que tudo é ilusão, que a religião deve ser um serviço social e que o equilíbrio humano está no meio do nada, como esse homem medíocre que vai por aí perdido.

Gustavo Corção vivera o drama de um Centro Católico, nascido à sombra do convento beneditino e que tivera sua função alterada e seu alimento contaminado por novas ideias. Arregimentou então as forças fiéis e fundou um novo grupo para que, mesmo depois de sua morte, resistisse à intempérie: Permanência, um reduto de vigilância mais que de erudição e diálogo. Tentativa feita por uns poucos contra uma multidão mun­dana, crescente, com cunho de sacrifício ingênuo se medirmos a disparidade numérica das armas no plano material.

Como combater o ensurdecedor efeito da propaganda com o silêncio? Ou a invasão da sensualidade feita doutrina, com renúncia? Ou mes­mo o alarido festivo do templo com a penumbra?

Há um canto na alma humana onde a Igreja de Cristo sempre pode preparar um altar. Hoje este parece ter sido enxotado dali tam­bém, e ela vive um momento de abandono e de paixão. Quem vigiará com ela? Se em outros momentos da história foi possível procla­mar aos quatro ventos que nela residia a Via, a Verdade e a Vida, agora se trata apenas de proclamar e dar testemunho de permanên­cia na doutrina, de um canto ou de uma catacumba que seja. Mas qual pode ser a tristeza se o próprio Senhor do Universo escolheu uma gruta para nascer, uma manjedoura para ficar, uma pedra para pousar e uma cruz para morrer? Deve ficar impaciente e agitado o fiel por viver sua fé num canto humilde e desprezado pelo mundo?

A tomada do poder pelo homem medíocre multiplicado, acu­mula resultados: são as presenças vazias, as abundâncias insigni­ficantes, as eficiências paralizadoras, as displicências urgentes e a gravidade caricata com que falam de problemas humanos; a inso­lência segura com que propagam dúvidas enquanto manifestam um cuidado obsessivo em ocultar as próprias responsabilidades na fa­lência moral do mundo que pensam dirigir.

Não há surpresa, porém, pois o homem moderno assumiu por modelo uma média ponderada que exprime valores quantitativos que, variando continuamente, lhe dá a ilusão de progresso.

A im­possível eqüidistância entre o Bem e o Mal está calculada em co­lossais computadores, fornecendo a exaltante utopia: um homem novo, votado pela maioria e aperfeiçoado pela tecnologia espacial!

Ora, com manobras grandiosas, o inimigo induz as mentes en­fraquecidas pelas tentações da carne e do mundo, a se rebelar con­tra as vozes primordiais que pedem renúncias, como se o organismo social e familiar servisse a uns em detrimento de outros, engordasse os pais à custa dos filhos, enaltecesse o homem com a degradação da mulher, enriquecesse a humanidade com a poluição da natureza e o poder fosse medido pela capacidade de infligir castigos.

O equilíbrio, como a liberdade, pede coragem e ideias claras e assim não será o padre medíocre, temeroso de saltar suas refeições regulares ou perder o seu consenso social, nem menos ainda, maio­rias confusas e ululantes, a estabelecê-lo.

O equilíbrio cristão se rea­liza na direção oposta, no sentido vertical, na consciente escalada para o Ser, por duras e estreitas que sejam as passagens. Foi sempre necessário que se repetisse, sem medo, que cada um de nós já nasceu especializado. Quem nos criou já nos fez de certo modo, e nos marcou de uma identidade particular e outra uni­versal. Não podemos alterar nossa natureza íntima sem o risco de anular o nosso ser. Esta é a lei de quem criou também a lógica e nos pede respeito pelo que somos, por aquilo que nos circunda, por tudo aquilo que é.

Quem vive os dias atuais com ouvidos para os seus sinais, per­cebe que tudo o que foi insinuado como evolução dos tempos, outra coisa não era senão a mais assustadora investida do abominável ini­migo contaminador da humanidade.

O campo político está arra­sado pela imbecilidade; o social ressequido pelo ódio e o reli­gioso invadido pela dissimulação e pelo medo. Que resta? So­mente alguns hortos que cultivam, sofridamente, a boa palavra de sempre.

Esses redutos são atacados, ridicularizados e desprezados justamente pela fidelidade que prestam à santidade da Igreja imutável, à qual todos somos chamados. Mas alguém entre nós é designado para ilustrar o patrimônio de verdade, para proclamá-lo em altos brados se preciso for. Quem? Alguém escolhido pelos homens, ou líder voluntário, ou caráter poderoso ou então sagrado pela hierar­quia? Já houve áureos tempos cristãos em que a capacidade de viver a Fé produzia apóstolos, capazes de reunir essas qualidades cujo valor e legitimidade, porém, só iam se confirmar na adesão e cumprimento da palavra. Não importa a situação do reduto, a resistência ali está cen­trada em um chefe combatente que não teme expor-se pela Causa e pelos outros, fiel no desejo de oferecer o sangue da paixão e a pró­pria vida para semear a salvação. Gustavo Corção recebeu do Cria­dor esse especial molde de líder. E soube preenche-lo com o metal fino de sua preparação, para fundi-lo à chama de sua conversão madura e ao ardor constante de sua fé.

Entre os mortais, o amor se exerce também através da Justiça. Ora, se formos privados daqueles que conhecem sua origem e seu fim e que são capazes, a tempo e contratempo, de proclamá-lo dian­te de todos, apesar de riscos, de ameaças e do desprezo de tantos outros, sem esses, nada teremos.

A necessidade de verdadeiros Juízes

Os problemas humanos se repetem porque derivam de nossas tendências de sempre. O corpo é, continuamente, atraído por sua gravitação em torno da matéria que exibe suas riquezas e seus pra­zeres. A mente é, por sua vez, seduzida pelo brilho da vaidade e vacila diante do poder e da glória. Desde os albores da humanidade essas atrações levaram o homem ao acúmulo de posses e de domí­nios que só foram mantidos em equilíbrio, mesmo precário, pela invocação destemida de Juízes.

Igualmente, na esfera religiosa, foi sempre difícil contrapor a serenidade e o silêncio da vida espiritual ao desequilíbrio de nossas cobiças e paixões. Foi preciso cultivar sempre a auto-repressão para conter o mal da alienação mundana indiscriminada, porque é difícil contemplar a porta estreita do Ser, dentro de um corpo que anseia por uma corrida na larga avenida do haver. Aqui também, somente o austero exemplo de poucos evitou a decadência de muitos.

Dos raros Juízes destes últimos dias, de há muito sem espada, lhes é tirada também a tribuna por uma hierarquia de fariseus e hipócritas a serviço de estranhos senhores. De fato, os vícios, rumo­rosos e turbulentos que a todos escravizam, vêm juntos com teorias sociais que os destilam em nome da liberdade, para servir aos novos poderosos de um mundo que devora mentes e almas humanas no lugar do ouro e das terras, tanto cobiçadas no passado.

A Revolução mobilizou os grandes empreiteiros de artimanhas, os especialistas do próprio bem-estar, os sacerdotes do prazer a baixo preço, os apóstolos da bondade exterior, da caridade obrigatória, da misericórdia programada e da consciência coletiva. Legiões se servem também do edifício eclesiástico para “cursilhar” acima da pessoa e alterar as leis da própria essência que as ordena. Contra esses desvios que degradam a natureza humana, contra a revolução da anti-palavra, contra os decretos que destroem a autoridade da doutrina, contra a hierarquia que protege e promove anarquias delirantes, veio o brado vigilante do juiz Corção que montou, com amor, sua própria tribuna para convocar as consciências em defesa da Cidade Celeste, atacada pelas hordas dos vândalos da cidade ter­rena, que, depois de reduzir seus terreiros e suas sedes a covis de bandidos e prostitutas, partiram com urros e gestos obscenos à conquista de uma harmonia que não lhes é dado nem mesmo ava­liar e entender.

O cristão sabe que “essa geração não passará sem que tudo o que foi escrito se cumpra”. São palavras eternas. Sempre foi assim e não será a mola da vitória terrena que irá mover o verdadeiro cris­tão para o cumprimento da dúplice batalha, contra o mundo e con­tra si mesmo. O único desespero é desertar, até a morte, da vigilân­cia e da luta que são os meios eficazes para atingir o Fim Supremo.

Essa campanha em defesa da vida, da verdadeira vida, mesmo quando feita lembrando a morte passageira, é a missão cristã, de cada cristão, padeiro ou bispo e nela devemos perseverar para que esta também deixe de ser um fim mas se mantenha um meio. Com essa idéia saberemos colocar prudência em nossas alianças, desmas­carando falsos pastores que exigem obediência aos seus desmandos, às suas duvidosas elucubrações, às rebeliões centra a doutrina de sempre e às suas festivas alianças novas. Com essa fé poderemos aceitar todos os revezes sem sermos submersos pelo desespero que tudo destrói.

“A única tristeza é não ser santo”, e o católico fiel, Gustavo Corção, também nos ensina que o bom cristão quer ser camelo de corcunda servil. “A carga que nos é posta em cima não depende de nossa vontade nem de nossa sabedoria, a missão é transportá-la ao seu destino.” Entre aqueles que fazem seu dever, o pensamento comum é posto na pureza da Fé. Tudo o mais vem por acréscimo, parentesco, amizades, simpa­tias. “Se assim não fora tanto vale que os contatos humanos se façam pelos ombros, peitos ou nádegas, comprimidos na multidão.”

A solidariedade cristã se vai cumprir mais na aspereza dos sa­crifícios e no ardor das campanhas comuns que na convivência prazerosa e nas efusões de amizade. Considerar a condescendência, a tolerância sobre as questões vitais, os desejos de alegria ou mes­mo a obediência indiscriminada como características próprias da vida cristã é uma das falácias do mundo.

Pensemos por um momento na atitude pública de uma maio­ria e também de um grande número de membros de nossa Igreja, diante de uma polêmica que envolve assuntos religiosos. No início, o sentimento predominante será o de curiosidade pela discussão. Em seguida, serão as incertezas muito humanas a prevalecer. Fi­nalmente, um medo difuso tomará conta das mentes, temerosas de serem envolvidas e obrigadas a tomar partido ou uma atitude definida. Qual pode ser o resultado do processo senão uma raiva incon­tida contra o intransigente que, com sua polêmica, suscitou tal es­tado de intranqüilidade? O ser humano é mais sujeito à preocupação pelos fatos que solicitam as suas reações superficiais, do que pelas questões pro­fundas que envolvem a sua própria origem e destino. Por isso as inteligências mal amparadas por uma vontade cercada de confor­tos, vaidade e sensualidades, começam a elaborar razões a favor daquelas forças que abandonam ou mesmo atacam o Cristianismo. Justificarão a própria atitude como amor ao equilíbrio, à liberdade, à tolerância universal e à obediência ao exemplo dos pastores que representam Cristo. Hoje, essa maneira de esconder a pusilanimidade se fez tão generalizada que viceja abundante até mesmo nas imediações do Templo, para não dizer que lá dentro se discute a maneira de regu­lamentá-la.

Não se negou ainda Cristo com palavras mas a huma­nização de Sua divina Pessoa se alastra enquanto o culto à Santíssima Virgem Maria já foi considerado, por alguns membros da hierarquia eclesiástica, excessivo e exagerado. Podem ser obe­decidos? Pois bem, nesse ponto não será preciso aprofundar-se na ver­dade religiosa para apontar a miséria mental desse falso equilíbrio. Cristo, Deus encarnado, é o modelo que nos conduz a Deus-Pai. A Santíssima Virgem Maria é a Sua mãe, pessoa humana sem man­cha que nos conduz a Jesus e à Sua Igreja. A Perfeição Divina se nos revela à nossa medida, pela família sobrenatural, com o pai, a mãe e o Filho, pessoas que compõem também a nossa família natural imperfeita. Essa é a revelação, ou se quiserem, a proposta integral do Cristianismo. Fora dela não há meias propostas, nem meias famílias, como não pode haver um modelo médio que nos eleve com uma meia devoção, de mentes desequilibradas por outros tantos conceitos, certamente não cristãos. O equilíbrio cristão está na procura da máxima devoção de que se é capaz, pois essa já é precária e imperfeita, embora a única que nos possa levar em direção ao Ser que nos criou à própria ima­gem e semelhança mas nos resta velado. Assim o equilíbrio se rea­liza na imitação de Cristo, que seguirá a imitação de Maria e tam­bém dos Santos. A palavra deverá seguir a ação.

É nesse encadeamento de dívidas e imitações que o cristão pode procurar o seu aperfeiçoamento e também uma vida familiar e so­cial melhor. Felizes aqueles que dispuseram de mestres e exemplos que os ajudaram nessa tarefa. Pois bem, o grupo de Permanência teve o seu precioso guia em Gustavo Corção, e pelas dimensões de seu trabalho e presença será muito difícil que o seu desapareci­mento não provoque cedo ou tarde uma desorientação. Que fazer?

A Igreja cresceu e frutificou depois do sacrifício de Cristo, cultivando a Sua palavra, comemorando a Sua Presença, oferecendo a sua devoção. É seguindo Suas palavras que se deve vigiar e orar para não cair em tentação mas permanecer com Ele.

Neste momento de desalento e tristeza, a lembrança de Corção deve ajudar a superar os problemas que surgirem. O exemplo foi marcante. A fidelidade do fundador de Permanência foi sua força, o conhecimento da doutrina foi sua inteligência, a coragem em pro­clamá-la dando testemunho de seu Chefe foi a sua vontade, e cul­tivar os momentos de vigilância e oração, foi seu método. Todos aqueles que quiserem se unir para prosseguir a sua fru­tuosa tarefa, embora privados de uma palavra brilhante, uma ló­gica agilíssima, uma cultura de ampla dimensão, características do grande pensador, dispõem de algo; do seu exemplo e da sua obra pela qual podemos fortificar e melhorar a nossa pro­cura de imitação do exemplo e da obra de Cristo.

Toda a devoção que dedicarmos à pessoa do mestre carioca, não pode se perder nem se extraviar porque a sua devoção era, por sua vez, toda dedicada ao Alto, ao Pai, ao Divino Filho, à Santíssi­ma Mãe e também a todos aqueles mestres que, como ele, travaram uma santa luta de aperfeiçoamento de si mesmos e do mundo.

Os homens do nível de Corção sabiam e puseram em prática a grande regra da Caridade e do Amor que nos foi ensinada pelo nosso Salvador: o oferecimento de si mesmo. Somente o homem alimenta a vida dos homens e Deus se fez homem para se fazer nosso alimento. Imitemo-lo, mas também na Sua perfeição porque senão, que alimento seremos?

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