Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

O «LUGAR TEOLÓGICO» DA «PROFECIA DE FÁTIMA»

Nossa Sra. das graças

Arai Daniele

Se na «Profecia de Fátima» se manifesta a Autoridade divina, ela tem de certo «lugar» na Teologia.

Para aproximar-nos então da luminosa questão de Fátima, haveria que tratar de modo simples do que seja este «lugar» na Teologia da Igreja, e de como nele se coloca a Mensagem profética trazida por Nossa Senhora em Fátima.

Ora, esta Mensagem tem quase cem anos, mas continua encoberta por muita confusão, embora a autoridade eclesiástica tenha reconhecido oficialmente as Aparições de Fátima.

Como se sabe, a Igreja é muito prudente quando deve reconhecer sinais extraordinários, como sejam as aparições marianas. A de Fátima foi reconhecida com atraso, mas não a sua profecia.

E aqui vem a primeira observação: a «aparição» ocorreu para trazer a «mensagem profética» e não o contrário, ou seja, a mensagem não é complementar, mas de primária importância na aparição; esta veio trazer tais palavras para uma hora crucial da história.

Assim sendo, porque as aparições são festejadas e honradas bem mais que a Mensagem? A razão pode estar no fato que esta suscita dúvidas e empenha sérias respostas de espíritos espiritualmente decaídos

Vejamos quais podem ser estas dúvidas, pois é de crer que as justas respostas esperadas pela Mãe de Deus sejam da maior importância para a vida das almas e dos povos.

Antes de tudo é preciso repetir que a Revelação pública ficou concluída com a morte do último Apóstolo, que transmitiu diretamente o que viu e recebeu dos mesmos lábios de Jesus Cristo. Ora, é justamente através da Revelação de nosso Salvador que os Seus fiéis de todas as épocas sabem que haverá sinais, especialmente para o discernimento dos tempos finais dos falsos cristos e falsos apóstolos.

Há, portanto, que distinguir entre sinais para cada época e a Revelação para todas elas. Disso se ocupou o apostolado católico de sempre, que não dispensa os sinais dos tempos. As aparições e as Mensagens de Nossa Senhora para nossos tempos brilham entre estes, embora sejam ainda catalogadas como privadas, assim como a Mediação Universal de Maria, ainda não foi proclamada como dogmática. Há relação entre as duas questões.

Nas aparições extraordinárias de Nossa Senhora a Igreja reconheceu sinais de desígnios divinos. Os avisos proféticos transmitidos, porém, que são a razão mesma das aparições, para prevenir de insídias históricas, são avisos providenciais de uma mediação feita com os pedidos e as promessas que os acompanharam. No entanto, são vistos apenas como «revelações privadas», embora ligados a questões terríveis, como seja a dos erros do comunismo russo, que desmantelaram a Ordem cristã no mundo e atingiram a Igreja e o Papado!

Vejamos o que escreveu Dom Antônio De Castro Mayer na apresentação do meu livro sobre Fátima («Entre Fátima e o Abismo») sobre a matéria:

“Pio XII foi chamado papa de Fátima porque foi sagrado bispo precisamente no dia 13 de maio de 1917, data em que a Virgem Santíssima visitou seus filhos da Terra, aparecendo a três pastorzinhos em Fátima, Portugal, e consignando-lhes salutar mensagem de paz. O título atribuído a Pio XII está a indicar que Fátima e sua mensagem não são um fato particular, que visaria apenas os três videntes da Cova da Iria. Fátima alcança todos os homens. Pertence à história da Igreja. É elemento que interessa à salvação de todos os homens. Não é uma revelação pública. A revelação pública, com efeito, impõe o ato de fé, sob pena de pecado grave; e terminou com a morte do último apóstolo. No entanto, com o encerramento da revelação pública, não ficaram os fiéis privados da graça de revelações que os auxiliassem a viver sempre mais fielmente como cristãos e a melhor cuidarem de sua salvação eterna. Tais revelações são ditas privadas, embora sujeitas ao controle da Santa Igreja. Entre elas há muitas que interessam, de modo geral, a toda a Igreja, a todos os fiéis. Exemplo palpitante são as revelações de Jesus Cristo a Santa Margarida Maria Alacoque, às quais está vinculada a difusão, altamente santificante, da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Revelações como esta a Santa Margarida Maria não são públicas no sentido clássico. Mas também não podem ser chamadas meramente privadas, como se colimassem o bem tão-só da pessoa, ou das pessoas que a receberam. Elas têm caráter universal, como atesta o exemplo citado das revelações a Santa Margarida Maria. Entre estas estão, sem dúvida, as aparições e mensagem de Fátima. Poderíamos, mesmo, dizer que a mensagem de Fátima é a revelação ou profecia universal da nossa época, para indicar a amplitude de seu alcance. Marginalizando Fátima, afasta-se o fator da paz legado aos filhos pela Medianeira de todas as graças. Eis que, sobre ela, há toda uma literatura e não poucos documentos papais. Não é só. Pois, à medida que correm os anos e se agravam no mundo as desordens de toda espécie, o silêncio, que acoberta a revelação do Terceiro Segredo confiado aos três videntes de Fátima, e que, de si, já deveria ter sido rompido, sublinha sempre mais o alcance e valor inestimável dessa graça que, com as aparições e mensagem de Fátima, a misericórdia de Deus concedeu à Igreja e aos homens. Com o fim de auxiliar a apreciação dos eventos de Fátima, Arai Daniele, apreciado colaborador de revistas altamente qualificadas, torna públicos os seus estudos sobre as vicissitudes que vêm acompanhando a revelação e o significado do último segredo de Fátima. Trabalho sério, altamente recomendável por si mesmo e mais ainda pelo assunto que versa.

«Lugar teológico» do Evento de Fátima

Foi especialmente no Concílio de Trento e com o teólogo espanhol Melchior Cano que se concentrou a atenção sobre os «lugares teológicos», reduzidos pela fúria luterana à «sola Scriptura». Para a Igreja Católica a Autoridade divina manifesta-se de modo universal, embora registrada de modo particular e especial na Tradição oral e escrita.

Como poderia ter sido escrito o Evangelho se não houvesse a Tradição oral, inspirada aos Padres, Apóstolos e Evangelistas. E como estes poderiam ser bons «notários» do Testamento divino se não tivessem recebido a ciência do Espírito Santo para iluminar o que haviam ouvido ou estudado. O caso do Apóstolo São Paulo e de suas Cartas ilustra essa visão de pessoa bem instruída no pensamento de seu tempo, para concretizá-lo na exposição da doutrina apostólica da Igreja Católica, que é de sempre, universal.

Estes lugares teológicos foram sintetizados em dez na famosa obra do teólogo Melchior Cano. Vamos citá-los para depois aplicá-los às Mensagens Marianas. São eles: as Sagradas Escrituras; a Tradição conservada e transmitida pelos Apóstolos à viva voz; daí a Autoridade da Igreja Católica; as decisões dos Concílios ecumênicos; a autoridade dos Sumos Pontífices; o testemunho dos Santos Padres; a doutrina deduzida pelos teólogos como sucessores dos Santos Padres na missão de ensinar segundo os cânones; o uso da razão nos discursos segundo a Filosofia; o pensamento dos mesmos filósofos e dos jurisconsultos; o testemunho dos historiadores em matéria de eventos reais.

Sendo a Escritura o registro da História Sagrada, é claro que toda a história humana está nos desígnios divinos, da qual Jesus Cristo é o Senhor. Ora, as profecias do Antigo e Novo Testamento tratam de fatos e sinais de tempos da História. Não é o que fazem as Mensagens Marianas, seja a de La Salette, seja a de Fátima, que tratam de eventos cruciais destes nossos tempos? Não foram elas vistas assim pelos Papas e pela Igreja, como sinais, por vezes de difícil compreensão, porque proféticos?

Toda verdadeira profecia é voz de Deus que vem lembrar o que está sendo esquecido, chamar à conversão, indicar o caminho perdido. Não há nisto nenhuma discordância de finalidade e de lugar teológico, se são segundo os Evangelhos e a Tradição; neste sentido, as aparições marianas reconhecidas são intervenções divinas na História humana. Mas não é assim para a Religião cristã mesma, que existe devido à Encarnação divina no mundo dos homens para a nossa Redenção?

Por isto, há que reconhecer na ação de Maria a condição de Mãe e Mensageira do Verbo, enviada com a Palavra de Jesus, mesmo quando fala usando a primeira pessoa. A passagem evangélica que se demonstra o «lugar» mais atinente aos pedidos de Fátima está nas Bodas de Caná, quando Maria ordena: «façam tudo o que Ele vos pedir».

De fato, Nossa Senhora diz na Mensagem de Fátima: “Se fizerem o que eu vos pedir…», onde os pedidos parecem seus. Mas quando se aprofunda a questão, logo se entende que os pedidos são divinos, de  Jesus mesmo que, em comunicações íntimas à vidente Lúcia diz: “Faça saber a Meus ministros que, como eles seguem o exemplo do rei da França ao retardar a execução de Meu pedido, eles o seguirão na desgraça. Nunca será tarde demais para recorrer a Jesus e a Maria.”

Como se vê os pedidos de Maria, são os pedidos Jesus; são Corações que trepidam juntos para a nossa salvação.

Aqui colocamos algumas questões que ligam as aparições marianas, mormente a de Fátima, a «lugares teológicos» bem discerníveis, porque complementares à Revelação pública que é uma, mas encerra tempos históricos sucessivos, para cuja gravidade é mais que presumível que a misericórdia de Deus previna os fiéis. Se para isto enviou em outras ocasiões Seus santos e profetas, então, para tempos extremos, podemos entender, com São Luis Maria Grignion de Montfort, que envia a Rainha dos Profetas.

Agora trata-se dos tempos históricos do progresso tecnológico que assola a vida espiritual das multidões, atingindo em pleno a Igreja Católica. Pio XII, o Papa de Fátima, ficou impotente para conter o declino da Cristandade, que depois da sua morte se tornou inexorável com a eleição do modernista filo maçom Ângelo Roncalli.

Com o nome de João 23, este convocou o Vaticano 2º que serviu para que os sucessores continuassem a escancarar as janelas e portas da Igreja para nela fazer entrar as fumaças poluidoras das piores ambigüidades ecumenistas, com seus desvios  religiosos e morais. Foram a conseqüência da «liquidação virtual» do Papa católico com todo o seu séquito fiel.

Cumpria-se o que estava profetizado na segunda Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses, e é o que mostra a visão da terceira parte do Segredo de Fátima, censurado por esses «papas conciliares» até João Paulo 2º, que a publicou por engano. De fato, pensava que, por ter sofrido um atentado político na Praça de São Pedro, poderia passar a própria imagem de vítima da fé na visão do massacre papal, mas o resultado foi que sendo tal versão incongruente, hoje muitos preferem pensar que esse «Terceiro segredo» é falso. Todavia, note-se como ele desvela a hora do que no Novo Testamento ocupa certamente um «lugar teológico» de importância extrema: a remoção do «obstáculo» ao Anticristo.

Se na mensagem de La Salette Nossa Senhora avisa que «Roma perderá a Fé e tornar-se-á sede do Anticristo», a visão do Segredo de Fátima desvela como e quando isto ocorre: com a «liquidação virtual» do Papa católico, que é substituído por um clérigo aberto ao mundo dos inimigos da Igreja, pois de mentalidade modernista e maçônica, que abate suas defesas.

Esta cessão é hoje realidade histórica, que já começava a ser clara a todos em 1960, como ajudaria o «Segredo» a desvelar se não tivesse sido censurado por quem ocupava a «Sede santa» da Autoridade divina.

Eis porque Fátima é incontornável até no plano de «lugar» histórico! Saibamos portanto entender o que quer de nós a Mãe de Deus do fundo de Seu Imaculado Coração, pulsante junto ao Sagrado Coração de Seu Filho, que deu a vida para nos salvar!

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