Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

UMA PEQUENA DEFICIÊNCIA NO MAGISTÉRIO PONTIFÍCIO

Deus cria

  • A Sagrada Escritura ministra-nos noções muito fecundas acerca da Criação do Mundo e do Homem: a Criação do Homem é-nos apresentada de forma essencialmente separada, como um ser à parte, criado à Imagem e Semelhança de Deus, CRIADO EM GRAÇA SOBRENATURAL, com uma alma espiritual “soprada pelas narinas”, isto é, imediatamente criada por Deus, e um corpo “moldado do pó da terra” quer dizer a partir da MATÉRIA INORGÂNICA.

*   *   *

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa Pio XII, numa passagem da encíclica “Humani Generis”,promulgada em 12 de Agosto de 1950:

« Por estas razões o Magistério da Igreja não proíbe que em conformidade com o estado actual das ciências e da Teologia, sejam objecto de pesquisas e de discussões, por parte dos competentes em ambos os campos, a doutrina do evolucionismo, enquanto ela investiga a origem do corpo humano, que proviria de matéria orgânica preexistente (a Fé Católica nos obriga a professar que as almas são criadas imediatamente por Deus). Isto porém deve ser feito de tal maneira, que as razões das duas opiniões, isto é da que é favorável, e da que é contrária ao evolucionismo, sejam ponderadas e julgadas com a necessária seriedade e moderação, justa medida, e contanto que todos estejam dispostos a se sujeitarem ao juízo da Igreja, à qual Jesus Cristo confiou o Ofício de interpretar autênticamente a Sagrada Escritura e de defender os Dogmas da Fé. Mas alguns ultrapassam temeràriamente esta liberdade de discussão, procedendo como se estivesse já demonstrado, com certeza plena, que o corpo humano se tenha originado de matéria orgânica pré-existente, argumentando com certos indícios até agora encontrados, e com raciocínios baseados sobre tais indícios, e isto como se nas fontes da revelação não existisse nada que exija neste assunto a maior moderação e cautela».

As encíclicas veiculam normalmente o Magistério ordinário infalível da Cátedra de São Pedro; este Magistério exerce-se de forma orgânica, e articula-se qualificadamente, por definição, com todo o restante Magistério, ordinário e extraordinário, da Santa Madre Igreja e do Papa. Todavia a encíclica “Munificentissimus Deus” de 1 de Novembro de 1950, em que Pio XII definiu o Dogma da Assunção de Nossa Senhora, e a encíclica “Ineffabilis Deus,” de 8 de Dezembro de 1854, na qual Pio IX definiu o Dogma da Imaculada Conceição, encerram por isso mesmo declarações solenes do Magistério extraordinário do Sumo Pontífice, e não só, pois que também  a encíclica “Quanta Cura” de 8 de Dezembro de 1864, na qual Pio IX condena solenemente as liberdades modernas, e a encíclica “Pascendi”, de 8 de Setembro de 1907, na qual São Pio X condena solenemente o modernismo, constituem declarações do Magistério extraordinário do Sucessor de Pedro. O que distingue o Magistério ordinário do Papa, do seu Magistério extraordinário, ambos infalíveis, é que o primeiro exerce a sua infalibilidade, não em si mesmo e por si mesmo, mas em unidade orgânica com todo o Magistério Eclesial anterior, ao passo que o segundo procede e exerce por si mesmo a infalibilidade, mediante a absolutamente definitiva verdade das asserções dogmáticas produzidas.
Sabemos que, objectivamente, não pode haver contradição alguma entre a verdadeira ciência e a Fé, todavia para a inteligência criada, limitada (Anjo e Homem), haverá sempre, não contradição, mas coincidência imperfeita, na exacta medida em que a Fé alcança a objectividade e a realidade absolutas, e a ciência, e mesmo a filosofia, não o podem conseguir. A ciência contempla a realidade dum ponto de vista essencialmente fenoménico-sensível, tendencialmente quantitativo e concreto, ainda que sob forma matemática; a filosofia contempla a realidade dum ponto de vista abstracto, inteligível, ontológico e metafísico, mas tudo na Ordem Natural; a Fé contempla a realidade sob a Luz Sobrenatural de Deus Uno e Trino, conhecido por Revelação. Só pois a participação na Natureza Divina, na Inteligência Divina, na Caridade Divina, faculta ao Anjo e ao Homem o meio mais perfeito, mais objectivo, mais transcendental, de conhecimento.
O objecto da Fé não constitui apenas aquele conjunto de verdades que se encontra fìsicamente para além das capacidades cognitivas intelectuais naturais do ente criado, por exemplo, o Mistério da Santíssima Trindade encontra-se fora do alcance cognitivo natural da inteligência, tanto do Anjo, quanto do Homem – SÓ PODE SER CONHECIDO POR REVELAÇÃO; determinadas verdades constitutivas da natureza e condição humanas, embora por si mesmas não sejam absolutamente inacessíveis à investigação da humana inteligência, podem igualmente integrar o Tesouro do Depósito da Fé, por exemplo: É de Fé Divino-Católica definida, que Deus criou o mundo do nada, portanto “antes da Criação” não existiu tempo algum, pois foi precisamente pela Criação e na Criação que foi dado início ao espaço e ao tempo. Todavia a inteligência humana, raciocinando, pode concluir que é contraditório um “tempo infinito” no passado, pois então como chegaríamos ao presente? Aqui está um ponto onde São Boaventura conseguiu mais inteligência do que São Tomás.
Anàlogamente, a Sagrada Escritura ministra-nos noções muito fecundas acerca da Criação do Mundo e do Homem, tais como: em primeiro lugar, como já se afirmou, a Criação do Mundo, do nada, “ex nihilo”, para Glória de Deus; depois, a Criação do Mundo físico, inorgânico, como substrato a um essencial salto qualitativo, que constitui a vida, vegetal e animal, a vida vegetal ao serviço da vida animal, e ambas ao serviço do Homem; A Criação do Homem é-nos apresentada de forma essencialmente separada, como um ser à parte, criado à Imagem e Semelhança de Deus, CRIADO EM GRAÇA SOBRENATURAL, com uma alma espiritual “soprada pelas narinas”, isto é, imediatamente criada por Deus, e um corpo “moldado do pó da terra” quer dizer a partir da MATÉRIA INORGÂNICA.
Por outro lado, a Sagrada Tradição e a sã Filosofia concorrem com o conceito de Dons preternaturais concedidos a Adão (imortalidade corporal, impassibilidade, total subordinação da sensibilidade à razão e desta a Deus, conhecido e amado sobrenaturalmente. Ulteriormente, a sã filosofia determinará noções mais apuradas, tais como a de substância criada segundo dois princípios – a matéria e a forma, a primeira como pura potencialidade, determinável, tendencialmente vinculada à quantidade, ao espaço e ao tempo, a segunda, como princípio determinante, qualificador, essencializador; Por outro lado, a substância, enquanto tal, é determinável, pelos acidentes da qualidade e da quantidade; nos tempos aristotélicos-tomistas só se concebiam 4 elementos – terra, ar, fogo e água, que assim ficaram sendo os constitutivos elementares básicos da substância, a partir dos quais se estruturariam os mistos, nos quais se revelariam as propriedades virtuais da mesma substãncia. Neste quadro conceptual, A PASSAGEM DA SUBSTÂNCIA INORGÂNICA A SUBSTÂNCIA ORGÂNICA, MESMO VEGETAL, IMPLICA UMA ACÇÃO QUE SÓ DEUS PODE PRODUZIR; A PASSAGEM DO REINO VEGETAL PARA O REINO ANIMAL IMPLICA, ANÀLOGAMENTER, OUTRA ACÇÃO EXCLUSIVA DA CAUSA PRIMEIRA. FINALMENTE APARECE O HOMEM, CRIADO À PARTE, NO SEU CORPO, FORMADO DO “PÓ DA TERRA”, E NA SUA ALMA, IMEDIATAMENTE CRIADA POR DEUS.(1)
Os transformistas mais “moderados,”admitindo uma intervenção especial de Deus na Criação da alma humana, contudo faziam evoluir o corpo do homem A PARTIR DUM ANIMAL INFERIOR – DUM SÍMIO. Ora tal constitui uma verdadeira blasfémia, como já referimos, absolutamente contrária à Sagrada Escritura, à Sagrada Tradição, e à sã filosofia.
Enquanto se processava a acção criativa de Deus (a Criação em si mesma da substância primitiva é absolutamente instantânea, visto não constituir um processo que passe gradualmente da potência ao acto)  a evolução ONTOLÓGICA do mundo, não evolução fenoménica concreta, mas o processamento da cadeia – inorgânico – orgânico vegetal – orgânico animal, não constitui uma evolução em sentido tranformista, POIS QUE AS ESPÉCIES AINDA NÃO HAVIAM SIDO DEFINIDAS COMO TAIS; TODAVIA, UMA VEZ OCORRIDA ESSA DEFINIÇÃO, NÃO SE PROCESSOU MAIS NENHUMA ALTERAÇÃO ENTITATIVA NA SUA DEFINIÇÃO ESPECÍFICA. Ter-se-á sem dúvida verificado uma evolução OPERATIVA nas espécies animais e vegetais, mas sempre em função do Homem, para utilidade do qual elas foram criadas.
Poder-se-ia julgar que a matéria orgânica de que fala a encíclica, se poderia interpretar em sentido puramente ontológico, como massa substancial primordial, na qual Deus Nosso Senhor já teria feito surgir vida vegetal ou animal – mas ainda não plasmada em entes concretos, com essência definida?
Como já se afirmou, a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e a sã filosofia, concordam em declarar que a VIDA HUMANA, O CORPO DO HOMEM, NÃO É ORGÂNICAMENTE COMENSURÁVEL COM O CORPO DOS ANIMAIS, NEM MESMO PODE PROCEDER DUMA SUBSTÂNCIA ORGÂNICA ANTECEDENTE QUE SERIA COMUM AO CORPO DO HOMEM E AOS ANIMAIS.
E não se diga que tudo isto constituem elucubrações filosóficas, sem base científica, pois que a razão iluminada pela Fé, pode e deve produzir copiosos esclarecimentos extrínsecos, preciosíssimos para o conteúdo da Revelação, e assim susceptíveis de serem assumidos sobrenaturalmente pela mesma Fé.
Portanto o Papa Pio XII, por omissão, perdeu uma oportunidade, de mediante o Magistério ordinário infalível, colocar esta questão da origem do corpo do Homem, num mais excelso patamar de segurança teológica, ainda que sem proceder à definição solene, colocá-la, exactamente como se situavam as verdades Marianas antes das definições solenes de 1854 e 1950. E isto é tanto mais verdade quanto, no fim do século XIX, e no princípio do século XX, o Santo Ofício havia proferido várias justíssimas condenações de autores eclesiásticos que se haviam atrevido a sugerir a origem inferior do corpo humano.
Como é possível pensar que o Verbo de Deus tenha tomado em, Maria Santíssima, uma Natureza que, genèticamente, teve origem num animal inferior – um símio?
Tudo isto demonstra que até o Magistério ordinário infalível pode ser eivado de insuficiências, todavia não olvidemos que este Magistério ordinário opera em integração orgânica com todo o Magistério anterior, o qual é militantemente, heròicamente, fixista e anti-evolucionista.

NOTA- 1- Deus não cria as almas para depois as associar a um corpo, não, Deus cria o composto ontológico corpo-alma. Para isso a matéria facultada pelos pais perde a forma sensitiva que possui, bem como as formas inorgânicas e a própria forma substancial, e é como que “recriada” de modo que a alma racional, é nela formalmente racional e virtualmente sensitiva, inorgânica e substancial. Além disso, não olvidemos que em Deus há um só acto criador formalmente uno e virtualmente múltiplo. Sòmente Deus pode realizar este processo.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 2 de Fevereiro de 2014

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

AMOR DE LA VERDAD

que preserva de las seducciones del error” (II Tesal. II-10).

Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

Radio Spada

Radio Spada - Tagliente ma puntuale

Catholic Pictures

Handmaid of Hallowedground

Hallowedground

Traditional Catholic Visualism

Acies Ordinata

"Por fim, meu Imaculado Coração triunfará"

RADIO CRISTIANDAD

La Voz de la Tradición Católica

%d blogueiros gostam disto: