Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

CONTEMPLAÇÃO E ACÇÃO

  • A Santa Madre Igreja ordena aos fiéis que se abstenham de trabalhos servis, isto é, daqueles em que é preponderante o papel do corpo, em Domingos e Festas de guarda, para assim mais eficazmente poderem elevar a sua alma para o Mundo Sobrenatural, deixando as coisas que passam. Já o trabalho intelectual, sobretudo no plano religioso, é acentuadamente muito mais compatível com a consagração às coisas de Deus.

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 Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa Pio XI, em passagens da sua encíclica “Mens Nostra”, de 20 de Dezembro de 1929:

«A doença mais grave do nosso século, doença que é ao mesmo tempo manancial fecundo dos males que todas as pessoas sensatas lamentam, é a frivolidade e falta de consideração que extravia e desencaminha os homens. Daqui provém a contínua e veemente dissipação pelas coisas exteriores. Daqui a insaciável cobiça de riquezas e prazeres. Com esta dissipação e cobiça pouco a pouco se enfraquece e extingue nas almas o desejo de bens mais nobres, e os homens vão-se desse modo enredando com coisas terrenas e caducas, a tal ponto que deixam de pensar nas verdades eternas, nas leis divinas e até no próprio Deus, único princípio e fim de todas as coisas. Apesar disso e por mais que a perversidade de costumes alastre por toda a parte, continua ainda assim Nosso Senhor, por Sua Infinita Bondade e Misericórdia, a atrair a Si os homens com copiosas Graças. Para curar, pois, a Humanidade da doença que tão gravemente a aflige, que remédio e alívio mais apto proporemos, do que convidarmos estas almas enfraquecidas e descuidadas das Verdades Eternas a recolherem-se piedosamente nos exercícios espirituais? E de facto, não há ninguém que não conceba poder tirar dos exercícios espirituais vantagens nada medíocres, ainda que não passassem do breve retiro de alguns dias, em que o homem, afastado do trato social, e da multiplicidade dos negócios, tivesse ensejo em empregar esse tempo, não em descanso inútil, mas em ponderar questões tão graves, que jamais deixaram de ocupar profundamente o Género Humano, acerca da SUA ORIGEM E DO SEU FIM, DE ONDE VEM E PARA ONDE VAI».      

A Santa Madre Igreja, enquanto é o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto é Depositária do Tesouro inauferível da Revelação, participa, pela Fé, pela Esperança e pela Caridade, da Sabedoria de Deus – que é Infinita. O próprio fiel, em estado de Graça, é um verdadeiro templo da Sabedoria Divina, um Templo do Espírito Santo.

A criatura espiritual só acidentalmente pode participar dos Bens Divinos, e é precisamente quando deles participa que mais se apercebe da radical finitude de todo o ente que não tem em si a razão da sua existência. Pois que esses bens, a Fé, a Esperança e a Caridade, referem-se a realidades infinitas, mas enquanto percebidas e vividas por criaturas finitas. O Hábito da Fé é um acidente Sobrenatural que Deus faculta à potência operativa inteligência, para que esta possa participar da Inteligência Divina; todavia uma contemplação mais profunda revela claramente o mistério de como uma Verdade Infinita é captada por uma inteligência finita. Anàlogamente, na Caridade, quando nós afirmamos que Deus é, OBJECTIVAMENTE, infinitamente bom, infinitamente amável, dizemos bem, mas logo verificamos que O podemos e devemos amar sobre todas as coisas, MAS NÃO O PODEMOS AMAR INFINITAMENTE, POIS SOMOS FINITOS. Somos medidos pela Verdade e pela Bondade Divinas, mas o conteúdo objectivo infinito daquilo que é dado às nossas faculdades, mesmo sobrenaturalmente elevadas, não pode ser, comensuràvelmente, acompanhado por estas.

Tratando-se de objectos terrenos e contingentes, evidentemente que no processo de conhecimento e de amor se não verifica o contraste entre o objecto infinito e o sujeito finito.

Possuir a noção clara da distância metafísica infinita entre o que conhecemos de Deus, e o modo como O conhecemos, constitui um profícuo auxílio para purificar a nossa meditação.

Exactamente pelo que ficou dito, será mais fácil compreender como nos Dons do Espírito Santo, Deus nos aproxima mais de Si, pois que os Dons não são produzidos pelas nossas faculdades, É DEUS QUEM OS PRODUZ NELAS.

Mesmo no Céu, mesmo na Eternidade, contemplando a Deus face a face, MEDIANTE A ESPÉCIE DA PRÓPRIA ESSÊNCIA DIVINA, a nossa visão beatífica, como aliás a dos Anjos, não é, nem pode ser, plenamente compreensiva, por não ser possível ao ente finito compreender o Infinito.

Ao longo das idades, a referida Sabedoria da Santa Madre Igreja suscitou uma sã pluralidade de Ordens e Congregações religiosas, adaptada aos diversos caracteres humanos, pois se, na Ordem Natural, a perfeição ontológica da espécie humana é expressa analògicamente numa grande variedade de indivíduos, com tipos comuns, assim também na Ordem Sobrenatural, que não nega, antes enriquece, eleva essencialmente, as criaturas espirituais, também aí, a Munificência, a Bondade, a Santidade Divina, manifestar-se-ão com diversos fulgores de UMA SÓ LUZ.

Santo Tomás de Aquino considera a vida contemplativa, globalmente, mais perfeita do que a vida activa, na exacta medida em que na primeira o Fim último do Homem se encontra já apreendido, alcançado, conquistado, estabilizado; mas precisamente, não pode existir contemplação sem determinada operação interna prévia, vencendo activamente as consequências do pecado original, lutando pelo Bem, contra o demónio, com o auxílio da Graça. É Deus quem dá a contemplação, todavia a vida espiritual constitui uma hierarquia de fases, mais ou menos longas, mais ou menos penosas, com alternância de luz e sombra, conforme os casos, mas sempre necessárias (com a excepção evidente de Nossa Senhora, constituída em Graça, e para quem a virtude foi sempre doce e suave).

A Contemplação difere da Meditação, porque na primeira, em que são preponderantes os Dons do Espírito Santo, o discurso racional é superado por espécies inteligíveis Sobrenaturais de grande simplicidade, extensão e compreensão, portanto, com considerável definição do particular, sem nunca perder de vista o Universal, mas possuindo sempre como objecto a Deus Nosso Senhor e os Mistérios da Fé; na Meditação Sobrenatural encontra-se ainda a mediação lógica do discurso, é mais complexa, implica mais esforço, e não possui aquela maravilhosa visão de conjunto que caracteriza a primeira.

A Contemplação tem por fundamento a Caridade, pois só se quer contemplar Aquilo que se ama, Sobrenaturalmente, sobre todas as coisas, e quanto mais se contempla mais se ama, pois que quanto mais se conhece a Deus maior é o êxtase sobrenatural, tanto mais, que tal como no plano intelectivo, a ordem afectiva é igualmente muito simplificada.

Todavia não se alcança a Contemplação sem prévia meditação e sem duras provas interiores, a começar pelo sofrimento moral Sobrenatural que desapega a alma de todo o afecto desordenado pelas realidades deste pobre mundo.

Mas pode haver casos em que uma alma proficiente na vida activa atinja maior santidade do que uma alma contemplativa, todavia não será o mais vulgar. Para outros, a acção brotará DA SUPERABUNDÂNCIA DA CONTEMPLAÇÃO, e este parece ser o caso de muitos e grandes santos da Cristandade: São Bernardo de Claraval, Santo António de Lisboa, São Francisco de Assis, São Tomás de Aquino, São Boaventura, São Pio X, São João Bosco, São Domingos Sávio (o confessor mais jovem) e outros.

Todavia uma acção que não brote da superabundância da Contemplação, e apenas corra paralela a esta, tendencialmente estorvará esta última, dadas as características da humana condição. Por isso é que a Santa Madre Igreja ordena aos fiéis que se abstenham de trabalhos servis, isto é, daqueles em que é preponderante o papel do corpo, em Domingos e Festas de guarda, para assim mais eficazmente poderem elevar a sua alma para o Mundo Sobrenatural, deixando as coisas que passam. Já o trabalho intelectual, sobretudo no plano religioso, é acentuadamente muito mais compatível com a consagração às coisas de Deus.

No Anjo, dada a sua constituição ontológica, não há incompatibilidade entre Contemplação e acção; efectivamente, enquanto durar o mundo corruptível, os Anjos possuem o ministério do seu governo, segundo os ditames da Divina Providência, e tal tarefa em nada lhes estorva a contemplação beatífica. No estado de justiça original, também não existia qualquer incompatibilidade entre Contemplação e acção, em virtude da integridade natural, preternatural e sobrenatural das diversas faculdades humanas e destas com a excepcionalidade ontológica do Paraíso Terrestre.

Os grandes êxtases exteriores, tais como a suspensão total da vida sensitiva, grandes arroubamentos, levitações, não são essenciais à Contemplação, mesmo a mais elevada, a qual constitui um Dom Sobrenatural essencialmente gratuito integrativo da PREDESTINAÇÃO.

A VIA UNITIVA inicia-se já com a Contemplação Infusa, na qual os Dons do Espírito Santo adquirem fundamental importância; NÃO SOMOS NÓS QUE ALCANÇAMOS AS COISAS DIVINAS, É DEUS NOSSO SENHOR QUEM AS DEPOSITA EM NÓS.

NUNCA OLVIDAR QUE NÃO SÃO OS SANTOS QUE SE FAZEM TAIS – É DEUS, E SÓ DEUS, QUEM FAZ OS SEUS SANTOS.

Para quem tudo contempla, à Luz Sobrenatural de Deus, as mais ínfimas realidades possuem um valor extrìnsecamente infinito, porque embora intrìnsecamente finitas, SÃO ILUMINADAS NATURAL E SOBRENATURALMENTE PELA RAZÃO INCRIADA DA SUA ESSÊNCIA, DA SUA EXISTÊNCIA, DA SUA MEDIDA, E DA SUA ORDEM.

São João da Cruz, no seu percurso místico, tem a princípio uma atitude de total rejeição das realidades deste mundo, mesmo legítimas, todavia à medida que ascende no amor sobrenatural de Deus sobre todas as coisas, e ao próximo por amor de Deus, passa a verificar o como a alma acrisolada, magoada, pelo Lume Divino da Caridade e da Graça Santificante, desabrocha ordenadamente, e sempre segundo o seu estado, para essas mesmas realidades – PORQUE APRENDEU A SOBRENATURALIZÁ-LAS COM PERFEIÇÃO.

Para isso mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo desceu à Terra e viveu entre nós uma vida simples que deveria constituir exemplo para todos os membros do Corpo Místico. As parábolas extraídas da vida singela nas belezas da natureza que Deus criou; o modelo religioso da inocência, da pureza, das crianças; a verdade, a sinceridade a caridade nas relações humanas, TUDO ILUMINADO E ORDENADO AO SACRIFÍCIO DA CRUZ, PERPETUADO NO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA, SOL IRRADIANTE DE SANTIDADE PARA TRANSFIGURAR TODA A CRIATURA.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 10 de Maio de 2014

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