Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

O PODER APOSTÓLICO NO SANGUE DE CRISTO E O TESTEMUNHO CATÓLICO, na polêmica P. Ricossa X P. Belmont

MYSTICI.Corporis.

Arai Daniele

O católico tem o dever nesta suma crise da Igreja, que perdura há mais de meio século, de professar a ausência de quem representa a Autoridade Apostólica para preservar e defender a Fé íntegra e pura diante de falsos pastores, intentos a alterá-la. Hoje estes ocupam justamente a Sede Apostólica e não se pode imaginar crise mais completa, especialmente porque uma geração quase inteira os reconhecem papas, até «santos».

O mistério é de tal ordem, que mesmo quem tem olhos para ver precisou do seu tempo para reconhecê-lo e lembrar que isto exige o testemunho público da verdadeira Fé, transmitida pela Igreja sem solução de continuidade. Ora, o testemunho sobre os falsos pastores demanda a presença dos verdadeiros, se não se pretende inventar uma Igreja sem a Autoridade procedente de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A este ponto se alertou contra o perigo do «conclavismo», entendendo-o como um abusado e ridículo «decisionismo» de grupo para criar uma autoridade religiosa universal do nada. Mas havia também que lembrar o abuso de um «conclavismo» ainda mais fatal, pois destrói o princípio do conclave católico. Este deve só eleger o católico de fé comprovada que vai receber o poder pontifical diretamente de Deus e não do conclave. Se assim não fosse este teria poder absoluto

Veja-se o escrito «A graça do Conclave e a cilada conclavista» (promariana, 25.09.2010). A Autoridade procede só de Cristo, de Quem o Papa é vigário para a Fé e na continuidade dos séculos: única «ponte» (pontífice) para toda autoridade, como seja a autoridade episcopal.

Temos assim uma certeza: a Autoridade que rege o poder de ordem e de jurisdição existirá sempre na Igreja, porque não depende dos homens que morrem e podem trair; provem da Cabeça mesma da Igreja: Jesus Cristo.

Temos esta certeza porque assim foi prometido. Porém, hoje é difundida uma grande dúvida: onde permanece o poder de jurisdição se, além do Papa, faltam os bispos de fé católica? Onde estão, uma vez que a velha geração se foi e a nova nunca recebeu essa jurisdição por falta de um Papa legítimo? Assim, a certeza é ligada a um aparente mistério.

E aqui começa a confusão porque alguns «doutos» pensaram: temos que preservar o Sacrifício da Missa e para isto o Sacerdócio e para fazê-lo precisamos, não de um verdadeiro Papa, mas de qualquer maneira de bispos.

Ora, como se viu, o que faltava e falta – antes dos bispos – é o Pontífice que transmite o poder aos bispos. É claro que nas circunstâncias deste nosso tempo parece absurdo que alguém possa pretender resolver a falta deste «Princípio». Resta, porém, que um princípio é por definição insubstituível por dúvidas contingentes, isto sim seria absurdo. No entanto foi isto que alguns tentaram fazer abandonando o «Princípio» que, mesmo se de muito difícil aplicação é o princípio que rege a questão e deve ser testemunhado: a necessidade da presença do Vigário com o poder de Jesus Cristo.

Vamos ver então o que se passou na história destes tempos, porque se pode dizer, também com certeza, que falta a profissão de fé no retorno do Papa católico, «Princípio» do episcopado.

Até os anos oitenta a continuidade do Catolicismo foi testemunhada pelas palavras dos últimos bispos e sacerdotes fiéis que aprofundaram e contestaram a ímpia revolução do Vaticano 2. A maioria se concentrou na questão do Sacrifício da Missa e dos Sacramentos a manter com todas as forças. Para isto deviam continuar o Sacerdócio que requer bispos para as ordenações.

Isto pode ser justo para a Igreja, mas sempre que seja feito em nome do «Princípio» em questão. Só este, que hoje não tem representante, fundamenta o «Mandato apostólico». De fato, desde o início a Igreja teve bispos que não foram diretamente autorizados e por vezes, devido às distâncias, nem conhecidos pelo verdadeiro Papa.

Do mesmo modo, durante o Cisma do Ocidente, houve consagrações episcopais na ausência de um «papa certo», incerto porque se diz justamente que «papa dúbio = papa nulo». O que permanecia era a fé no Primado do Papa, Vigário de Jesus Cristo, sempre que este voltasse a ser testemunhado como «Princípio» de autoridade e unidade em todo o mundo católico. Assim, com a intervenção do Imperador houve a eleição do leigo que seria o Papa Martinho V.

Foi o que ocorreu com a intervenção do imperador Sigismundo e apesar da dúbia legitimidade de jurisdição do Concílio imperfeito convocado, assim como dos muitos eleitores participantes, o Papa eleito, Oddo Colonna, que nem era sacerdote, foi ordenado, consagrado bispo e coroado Papa Martinho V, para a felicidade e retorno à ordem do mundo católico até Pio XII.

Para os «puristas» de hoje, mesmo sedevacantistas escolados, tudo ali era suspeito, mas como se viu, mesmo se tudo era precário naquelas circunstâncias, estava ordenado ao «Princípio» divino da necessidade do representante de Nosso Senhor. Através deste, Deus repôs a ordem. Pode-se repetir com S. Tomás: o erro, mesmo de um cisma, é corrigível se são conservados os princípios. Mas errar nos princípios, mesmo em vista da S. Missa, torna a situação incorrigível.

Naqueles dias até o antipapa João XXIII acabou por colaborar e embora fosse um meio saltimbanco, no fim até lhe concederam o título de cardeal e depois lhe fizeram um monumento. Moral; saltimbanco sim, apóstata nunca! Nisto foi muito superior ao seu homólogo o «antipapa bis« João 23 de tenebrosa memória.

Vejamos agora o recurso do P. Guérard des Lauriers que pediu ao ex Arcebispo de Hué, Ngo Dinh Thuc, a consagração episcopal, mas segundo as próprias conclusões da «tese materialiter/ formaliter» que elaborou para o caso, contornando e até transformando a questão do Princípio.

Vale a pena lembrá-lo pela defesa que faz de sua iniciática o P. Ricossa, contra o P. Belmont no artigo sobre a descendência das filhas de Lot.

Assim, esta «tese» tem dois problemas que tornam ao menos dúbia a sua consagração episcopal: tratava-se de um episcopado que, segundo esta «tese», reconhecia o «papa conciliar» presente, João Paulo 2 que, embora auto-privado de autoridade católica, porque «não demonstrava querer fazer o bem da Igreja», teria sido «legitimamente eleito no conclave» e detinha o direito sobre o Trono papal. Era pois insubstituível embora fosse um clérigo de fé conciliar, que não é a Fé católica; era reconhecido à revelia das condições bem definidas pela Igreja para a eleição de um Papa autêntico e que portanto não é qualificado para receber poder católico diretamente de Nosso Senhor, devido à promoção e adesão aos erros e heresias do Vaticano 2.

Pode-se dizer que o poder dos «conciliares» só tem aspecto «materialiter», enquanto equivale só a chefe do Estado do Vaticano, ocupado por uma colossal seita anti-católica? Nisto mais ou menos concordam os dois padres em questão, embora apelando para tantas razões diversas e descabidas diante da Bula do Papa Paulo IV.

Voltando à consagração do P. des Lauriers, constata-se que essa se baseava numa dicotomia proposta sobre um novo poder episcopal que seria – em princípio – destinado somente ao poder de ordens, cortando pela raiz seu caráter de potencial poder de jurisdição, que poderia ser eventualmente atribuído pelo Papa. Enfim, um «novo tipo de episcopado» elaborado «ad hoc»!

Ora, o poder de ordens aplicado para a ordenação de sacerdotes implica um juízo do bispo, isto é, julgar a condição e posição do ordenado face à Fé, o que depende do poder de jurisdição. Senão, o bispo seria apenas um executor da escolha – e dos enganos – de outros que propõem um seminarista a ser ordenado padre para as suas organizações religiosas e mesmo a detrimento do princípio da unidade da Igreja; um alto funcionário para serviços contratados! Como aconteceu. Mas depois foi-se além: à consagração de bispos!

Este «princípio» era, portanto, junto com outros, obscurecido pela «tese», pois toda dúvida a respeito do tal impossível «papa materialiter» se estende também aos eleitores provindos dos «papados conciliares» precedentes, que foram reconhecidos «legítimos», apesar de professarem a liberdade religiosa conciliar. Em breve: uma «nova igreja materialiter», que teria também uma «sucessão materialiter», como foi a dos João Paulo e Bento e agora Jorge Bergoglio; absurdo a prolongar sem limites!

Na verdade, bastava o afastamento do «Princípio» do Papa católico, para que se perceba a obliteração do fundamento de toda jurisdição católica. Este – a necessidade da eleição de um Papa católico – era cancelado, porque o perigo para os novos doutores estaria no «conclavismo»: considerado como apelo à restauração deste «Princípio» para a defesa da Fé da Igreja.

Ao seu tempo, escrevi isto a diversas pessoas, inclusive ao Bispo Mckenna. Talvez a plenitude do Sacramento da Ordem no episcopado, tenha sido transmitido a este, ainda que faltasse a justa condição ligada à intenção do celebrante de seguir os princípios da Igreja. Isto seria atribuível à intenção falha do P. Guérard quanto ao «Princípio» – porque só deste provém algum poder – mas talvez mantido pelo consagrado não comprometido com essa mutilação do poder episcopal.

A limitação episcopal imaginada com a separação em raiz dos poderes de ordem e de jurisdição, nunca foi estipulada pela Igreja como princípio, mas pela «tese de Cassiciacum». Nos Atos dos Apóstolos (20, 28s.) S. Paulo ensina que o Espírito Santo constituiu os bispos para “governar a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue”. Governar e vigiar contra os desvios (bispo = vigilante). O Sacramento da Ordem é um, mas seus ofícios são diversos e na sua plenitude, o episcopado, o bispo recebe poder superior ao do sacerdote porque consagrado às ações hierárquicas relativas à Igreja, Corpo Místico de Cristo, que tem uma hierarquia que a governa com o Papa, com poder de consagrar, ordenar, confirmar e absolver.

Essa Hierarquia é uma e seu poder de jurisdição, pelo menos em potência, é o mesmo para toda essa ordem e distintos do padre, embora no tempo tenha assumido diversas funções. O bispo pode, por razões contingentes, não receber todo o poder episcopal de reger na Igreja – isto é possível – mas resta ser esta a razão mesma da consagração de quem fará parte da Hierarquia. A consagração ghérardiana ficava, porém, radicalmente alheia a esta Hierarquia, assim como do «Princípio» da necessidade do poder papal, que por sua vez foi imaginativamente disjunto em «materialiter» e «formaliter» à revelia de toda sã filosofia.

Vingou, porque seu autor era um padre francês de formação acadêmica, capaz de convencer um mundo católico a procura de uma aparência de seriedade na atmosfera fumosa do deplorável Vaticano 2. Mas com isto ensinava o erro implícito do valor absoluto do conclave, em oposição ao que o Papa definia sobre o conclave nulo e as condenações «ipso facto».

Incrível que para difundir tais elucubrações intelectuais do P. Guérard fossem também tecidas considerações para ignorar princípios da Lei da Igreja e consideradas superadas Bulas papais sobre a matéria da eleição de um desviado na Fé (Cum ex apostolatus). Tudo para justificar a alegada a licitude de ordenar assim padres para a continuidade da ação sacramental, em razão do que assumiam como bem da Igreja, com a ilusão que não poria em perigo a sua unidade com um falso papa! Como se a unidade não fosse ligada aos princípios da sua Fé e Lei, que valem para sempre.

Pouco tempo após o Arcebispo Dinh Thuc faz outra consagração episcopal de dois sacerdotes mexicanos, os padres Zamora e Moisés Carmona da Associação Trento, em condições só em aparência semelhantes, porque nessa ocasião era declarada a razão desse ato: a vacância da Sede pontifícia, que fora omitida na outra, tendo sido a documentação deste ato publicado e já aqui reproduzido. Enquanto a outra consagração destinava-se a um clérigo sem rebanho, nesta os sacerdotes em questão eram velhos titulares de paróquias numerosas, carentes de um bispo.

Conheci Monsenhor Carmona porque fui convidado a Acapulco e constatei seu trabalho também para na formação de padres na linha da obra do Jesuíta excomungado por Paulo 6º, Dr. Joaquín Saenz y Arriaga. Nesta orientação não havia lugar para estranhas «teses» novidadeiras, nem para operações secretas, que não viessem a público em livros e revistas. As santas Missas e os sacramentos eram e são ministrados ali como sempre para um povo tanto culto como simples, que acorria numeroso. O novo bispo foi convidado a assumir, com seus sacerdotes, outras igrejas, como a de São Tiago de Dos Caminos (que visitei) e outras, até nas povoações índias das montanhas. Em Hermosillo, no norte do País, havia o seminário que continua a acolher numerosas vocações.

O estado de necessidade para obter um bispo para ordená-los era, portanto, patente. Assim, as razões desta consagração episcopal eram aparentemente as mesmas daquela do P. Guérard des Lauriers e depois de Dom Lefebvre, mas eram razões segundo o princípio da grave necessidade do Papa católico ausente, para cuja volta, cedo ou tarde, havia que operar.

Do mesmo modo se apresentou a situação em Spokane nos Estados Unidos, onde foi apontado um sacerdote entre outros para receber a consagração episcopal do Bispo Moisés Carmona. Trata-se do bispo Pivarunas, com quem tive contato e foi convidado pelo Dr. Johas, por meu intermédio, a vir ao Brasil.

Não há dúvida que o que foge à normalidade da vida «legal» da Igreja causa preocupação e até espanto. Nessas circunstâncias há se seguir os princípios incanceláveis da Fé, que requer a autoridade de quem a confirme, acusando quem a altera. Isto pede iniciativas que serão tanto mais fiéis quanto ligadas ao «Princípio» da necessidade da volta do Papa católico. Fato está que hoje os católicos não podem evitar o recurso a padres ordenados de modo irregular, desde os de Dom Lefebvre aos de Mons. Carmona.

Para concluir, por enquanto, poderíamos lembrar algumas das objeções a toda nova iniciativa da parte dos partidários da inércia religiosa. Poderia citar alguns padres e leigos que passaram por nossa casa em Fátima, mas não sei se o P. Egregy, ou o John Daly e outros, mantêm a mesma posição. Vou então só citar um argumento do Abbé Zins que publicou indignado em 1992 um número especial do seu «Sub tuum præsidium» contra os que chamou conjurados “guérardo-thucistas” aliados às seitas.

Se bem me lembro meu nome consta ali, (como, pelas razões opostas. consta dos anátemas do Homero Johas) apesar do meu claro repúdio à grande maioria das iniciativas do falso «conclavismo», além das razões alegadas para as consagrações feitas para a FSSPX e não para a Igreja, de Dom Lefebvre. Ora, este Bispo é que ordenou Zins diácono, para depois recusar-lhe a ordenação sacerdotal.

Um ponto da carta do Diácono Zins a mim, que depois virou artigo, merece menção porque compara a história dessas sagrações à iniciativa incestuosa das filhas de Lot, sobrinho de Abraão (Gn 19, 30-37) para a sobrevivência da raça eliminada com a destruição de Sódoma e Gomorra e a posterior morte da mãe, reduzida a estátua de sal. Assim surgiu a descendência moabita e amonita, inimigos terríveis de Israel.

Mas a esta comparação cabível ele acrescentou a história de Tamar (Gn 38, 12ss.) a mulher que, com um truque, levou o patriarca Judá a emprenhá-la, pela «necessidade» de ter uma descendência daquela família em que fora casada com o irmão e depois com o ímpio Onam, ambos fulminados por Deus. Ora, o problema é que a essa iniciativa está ligada a Genealogia de Jesus (Mt 1, 2). De modo que, se uma iniciativa foi nefasta, a outra acabou por produzir um santo resultado.

Por isto, apesar dos espantos, de nada vale anatemizar tudo! Aqui podemos não estar diretamente envolvidos nas consagrações episcopais sem mandato apostólico, mas estamos convencidos que o engano para os católicos, consiste em fazer crer – falsamente – que se possa testemunhar a vacância da Santa Sede com o testemunho da inércia total para reparar esse mal, presos a «conclaves de valor absoluto».

O Padre Ricossa é autor de alguns bons escritos, assim como o Padre Belmont, que sobre essa matéria sabe que se pôs num beco sem saída ao reconhecer a «autoridade materialiter insubstituível»  dos «papas conciliares» e então, até reza para que por meio destes reste ainda algum buraquinho de saída, que naturalmente dependeria da vontade dos desviados!

Visto que a ausência da Autoridade divina, é a pior desgraça para a edificação da verdadeira justiça e ordem na sociedade humana, hoje vivemos o sumo engano do fim do tempo das nações (Lc 21, 24) e devemos testemunhá-lo, mas sem pensar que seja humanamente irreparável por causa da extrema dificuldade de proclamá-lo.

Nosso Senhor age através dos homens. Por isto não podemos concluir sem lembrar a ação que entra na ordem das necessidades próximas para os católicos que amam a Santa Madre Igreja: rezar e operar segundo as próprias limitadas condições para a volta de um Papa católico nem que seja através de um «concílio imperfeito» devidamente posto ao conhecimento de todos os fiéis.

Tudo no amor da obra edificada pelo poder do Sangue derramado por Nosse Senhor Jesus Cristo.

2 Respostas para “O PODER APOSTÓLICO NO SANGUE DE CRISTO E O TESTEMUNHO CATÓLICO, na polêmica P. Ricossa X P. Belmont

  1. Jacob abril 8, 2015 às 1:43 am

    Mandei-lhe um e-mail, sr. Arai.

  2. Pro Roma Mariana abril 8, 2015 às 7:59 am

    A confusão é enorme, como foi profetizada para os tempos finais.
    Eu creio nas palavras da Profecia de Fátima, que ainda está por realizar-se.
    Chegará o momento em que por desespero serão muitos a crer e a pedir.
    Então a ajuda divina será acolhida para salvar povos inteiros.
    Creio que isto vale também para os Sacramentos:
    desejá-los com força, mas sem transigir na sua integridade e pureza.
    Pouco depende de nós para a situação do mundo; tudo para nossa alma!
    Santo tempo pascoal, nos pensamentos e coragem dos Sagrados Corações!

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