Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

A “TRAMA” PRESENTE EM TORNO DO SEGREDO DE FÁTIMA no ideário de Dom Williamson e de Olavo de Carvalho

Jesus julgado

Arai Daniele

Quando cristãos falam do sentido da vida humana na terra, não podem evitar a questão central, do necessário reconhecimento da intervenção de Deus na História, cujo momento culminante foi a encarnação do Verbo, Jesus Cristo. Não há que evitar, portanto, ao tratar de política, ter em mente os desígnios divinos no mundo para o nosso tempo, ligados a este Fato central.

Digo isto porque na situação civil e religiosa que se vive hoje, muitas boas cabeças, como o Olavo de Carvalho e o P. Paulo Ricardo, repetem por ai que o Cristianismo nunca vai imperar na terra. Isto parece até evidente na atual ordem histórica, contrariamente ao que pensam os islamitas que querem o domínio do Islã no mundo todo.

O que seja mais provável pertence ao contingente, mas o que seja mais desejável deveria pertencer à mentalidade cristã, hoje conturbada por tal «derrotismo intelectual», como já dizia o preclaro professor Rafael Gambra. Note-se: dizer que o bem revelado deve prevalecer na Terra, não é utopia mas um justo ideal, especialmente para os fiéis de Jesus Cristo; é ideal ligado à ordem da Caridade. Que seja muito difícil, quase impossível, é conversinha intelectual, que os missionários nunca aceitaram. Se a ouvissem não haveria Santos, como S. Francisco Xavier, nem a pregação do Evangelho pelo mundo, como é Mandato de Jesus. Por isto, digamos logo, a «política» católica não é a do mortiço «possibilismo», que se contenta com pontificar contra ideologias, mas do heroísmo, do «instaurar tudo em Cristo».

A Política para São Pio X (ver http://wp.me/pWrdv-Cu e http://wp.me/pWrdv-tQ), não é outra que a prudência do governo dos povos para o bem comum tendo em vista o fim dos homens segundo os desígnios divinos revelados e lembrados segundo as épocas.

As mentes adentradas na filosofia verdadeira que mira à sabedoria, entendem que todo poder civil procede de um desígnio superior. Este saber permeia a vida e o crer desde tempos imemoriais. É o poder de Deus (Immortale Dei, Leão XIII) e sua lógica não foge à relação causa e efeito; de bem e ordem contraposto ao mal e desordem. Era assim no tempo de Nínive do Profeta Jonas, como hoje no mundo dos líderes da «nova desordem mundial» e dos falsos profetas conciliares para a grave desordem das almas.

A grande crise atual não foge a esta equação, mas no negativo em razão da vasta descristianização que, ignorando o fim da vida humana é prelúdio de castigo para que se volte à justiça do Decálogo, essência da Lei natural e divina.

Quando dois intelectuais que se confessam cristãos tratam da crise mundial, como aconteceu no debate entre Olavo de Carvalho e Alexander Dugin» (http://wp.me/pWrdv-UI), não deveria faltar a alusão à essa questão crucial que é o nó da História no seu fim metafísico, seja da sociedade humana que de cada homem: o culto a Deus, primeiro mandamento do Decálogo que fundamenta toda lei.

Isto foi o que vi como uma ausência, que só fui lembrar noutro artigo «Podem o Olavo de Carvalho e o P. Paulo Ricardo ignorar a suma Revolução?» (http://wp.me/pWrdv-WU). Porque a Revolução, que é para os povos o que a revolta é para cada um, sempre teve em mira abater o seu contrário, que é o Culto a Deus. Este sempre esteve presente no mundo exprimindo-se com cultos intermediários. Já dizia Plutarco: “Viajando podeis encontrar cidades sem muros e sem letras, sem reis e sem casas, sem riquezas e sem o uso da moeda, privadas de teatros e de ginásios. Mas uma cidade sem templos e sem deus, que não tenha nem orações nem juramentos, sem profecias e sacrifícios para impetrar bens e deprecar males, ninguém nunca viu, nem nunca verá” (Adv. Col. 31). Sim, mas a Caridade quer que seja visto na Religião verdadeira: que salva!

A esta justa constatação há, porém, que acrescentar que, assim como nunca houve sociedade humana sem religião para o culto divino, também nunca faltaram os seus opositores do culto humano-divino no sentido gnóstico. Tal confronto faz parte da dialética da liberdade humana, mas tem a natureza de um luta metafísica que se trava desde o início da história, com rebeliões pessoais e revoluções sociais. Estas pretendem justificar-se como meta para um bem maior, de justiça e paz perfeitas.

Na verdade, todo impulso de libertação humana implica uma consciência inquieta e uma mente tanto altiva quanto vulnerável à sedução do espírito que suscita conflitos para dominar consciências; para incutir uma atração por “verdades” desta vida que afastam da Verdade para a qual foram criadas as nossas almas. Sim porque estas, criadas à imagem divina, representam o valor que transcende qualquer outro no universo; a questão do seu controle é a chave do Pecado original, que condiciona toda a vida e história humana.

Ora, se é verdade, como cremos, que a religião revelada fornece a verdadeira resposta às nossas inquietudes, então, assim como a aversão rebelde e pertinaz a esta é causa de crises pessoais, uma oposição organizada e demolidora da religião revelada, que priva o ser humano da objetiva “explicação divina” – do Verbo encarnado -, representa a pior crise para a humanidade.

Se no mundo moderno predomina a idéia que pode haver várias religiões verdadeiras, mesmo se opostas, insinua-se que a “explicação divina” é contraditória e que haveria um deus que se compraz a dispensar mentiras e a suscitar confusões entre os homens: seria o Deus ruim dos cristãos. Não seria pois o caso de crer na existência do Verbo encarnado de Deus, nem na revelação sobrenatural do Cristianismo, cujo Deus pode querer a escravidão humana. É a blasfêmia implícita nesse modernismo ecumenista.

A esta luz, a nova “superstição ecumenista”, equiparando as revelações das diversas religiões, demonstra ser a mais pérfida manobra dessa revolução total, que passou dos métodos violentos à sedição encoberta para abater a raiz da fé religiosa: da unicidade da Verdade divina. Tem, pois, parte substancial na origem da crise mundial iniciada no século XX, com a Iª Grande Guerra e a Revolução comunista de 1917.

No comentários Eleison 330 (9.XI.2013), FÁTIMA CONTESTADA de Dom Williamson, o Bispo diz: “No início do século vinte, Deus seguramente deu ao mundo moderno duas grandes luzes: uma no campo teórico, em 1907, por meio de Pio X: a Encíclica Pascendi, visando a denunciar o erro chave do subjetivismo; e outra no campo da prática, em 1917, por meio de sua Mãe: as aparições de Fátima, a fim de prover um remédio para a monstruosa praga do comunismo. Mas o Demônio desviou a atenção que deveria ser dada à Pascendi, e levantou uma série de objeções para pôr Fátima em descrédito.

Ora, as «duas luzes» dadas por Deus são na verdade uma quando se trata de denunciar erros e pragas contra a Fé, seja do modernismo como do comunismo. Teria este a força que teve se a Cristandade não tivesse sido minada pela falsa cultura modernista, devido à qual mais tarde até a sua Sede romana teria sido espiritualmente ocupada e demolida?

A sagração episcopal de Dom Williamson não se deve justamente a este mal? Que este fosse a praga maior, que do campo «teórico» passou ao «prático» se viu com o advento dum clero guerrilheiro e de «papas» modernistas. De modo que parece claro serem os perigos apontados em Fátima, essencialmente de uma só sorte: contra os dogmas da Fé católica, que chamam todos os homens e povos à conversão.

Tanto isto é claro que a terceira parte do «Segredo», depois de apontar às guerras e à revolução, faz ver o Papa católico que sempre invocou à essa conversão universal «eliminado» junto a todo o seu séquito católico. E como se sabe, nenhuma «eliminação» é completa sem uma substituição. Trata-se pois da substituição do Papa Católico por «papas» que pregam a fé ecumenista, que dispensa as conversões visto que todas as religiões são igualmente boas, como quer a doutrina conciliar varada pelo Vaticano 2º.

Quanto à Rússia, trata-se de sua conversão, não a uma paz mundana, mas à Igreja Católica, Apostólica, Romana, à qual hoje talvez a «Igreja ortodoxa» esteja mais próxima do que a nova igreja ecumenista conciliar, que apostatou de sua Fé.

Voltemos então ao comentário do Bispo Williamson sobre a Mensagem de Fátima*. «Na Segunda Guerra Mundial nós vimos os horríveis bombardeios a Dresden, Tóquio e Nagasaki. O que há de novidade aqui? Considera-se que o total de mortes na Segunda Guerra seja cerca de 66 milhões. Se alguém ler corretamente os tantos alertas de Nossa Senhora, e não apenas os de Fátima, verá que as baixas da Terceira Guerra Mundial e do Castigo irão ser contabilizadas em milhares de milhões. Na ordem de 100 vezes pior. «Mas em que o Castigo material poderia ser pior do que o castigo espiritual de nossos dias? É verdade que depois da queda de Adão e Eva, o Vaticano 2 foi o pior desastre em toda a história da humanidade. A maioria dos homens o vê como uma libertação. “Paus e pedras quebrarão meus ossos, mas as palavras nunca irão me ferir”, diz o velho ditado. Punições espirituais são em si mesmas muito maiores, mas elas provêem coisas materiais para que nós, homens, compreendamos (cf. Mt. IX, 6, e Jo , 27).

*Nossa Senhora prometeu em Fátima um período de paz se o Papa realizasse uma certa consagração. Os Papas têm realizado desde então muitas consagrações, mas nós não temos tido paz.

É verdade, tem havido muitas consagrações sem dúvida inspiradas por Nossa Senhora de Fátima, mas nenhuma ainda como ela pediu ao Papa, para a conversão da Rússia, ao seu Imaculado Coração, em união com todos os bispos do mundo. Uma ou outra dessas quatro condições tem sempre faltado. Quantas nações foram e estão sendo aniquiladas desde a Segunda Guerra Mundial, e quanto de paz houve na Guerra Fria nos anos 50? Nossa Senhora falou em Fátima de eventos de proporções muito maiores do que os que já ocorreram.

  • *Nossa Senhora nos falou em Fátima de “nações sendo aniquiladas” e de “um período de paz”. Vimos nações aniquiladas na Segunda Guerra Mundial, e um período de paz nos anos 50. Suas profecias se concretizaram.

A este ponto, a obra de demolição religiosa operada em modo explícito pelos materialistas, através do ateísmo, demonstrou-se pouca coisa perto dessa maquinação ecumenista difundida pela Maçonaria, especialmente depois que esta passou a ser aplicada em modo implícito por uma nova classe de clérigos. Estes, que se apresentam revestidos da auréola de sacralidade acima de toda suspeita, própria dos ministros da religião revelada, inoculam o que demonstra ser o pior vírus para as consciências, o mais disfarçado engano para as almas, que as afasta do Criador justamente em nome da religião divina. Daí a constatação que essa idéia de religião global, utopia elaborada pelas lojas na ilusão de edificar o bem da paz, é na verdade o contrário de qualquer religião, é a anti-religião do plano mundialista; um mistério de iniqüidade terminal.

No Império Romano foi o da «Pietas», do culto dos pais, que a Cristandade batizou, tornando-se a inquebrantável força do Culto a Deus Pai, pelo Seu Filho e Espírito, autores de toda verdade e bem. A sociedade humana é devedora desse Culto para sua própria elevação; ele se cumpre no Santo Sacrifício do Amor divino na Missa católica. Quando esta é aviltada, como fez Lutero e o faz toda revolução social, sobretudo na liturgia, a sociedade degrada.

Hoje esse assalto ao «Sacrifício perpétuo» de que falou o Profeta Daniel, se dá na mesma Igreja com a «Nova Ordem da Missa», o NOM de Paulo 6º, cujos resultados ruinosos são evidentes, mas porque ordenados desde as cúpulas, mesmo inteligentes (P. P. Ricardo) custam a admiti-lo! Daí pode-se concluir não haver solução para a crise atual sem que as consciências voltem ao dever do verdadeiro Culto do Criador do mundo para o fim do Bem segundo Seus desígnios.

E o pensamento do bem para o nosso mundo focaliza o sinal de Deus dado em Fátima. Disto se deve falar porque ali foi feito um pedido avalizado pelo «Milagre do Sol», o maior de nossos tempos. O pedido era da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Ora, sempre aludindo àquele debate, há que lembrar que Dugin é o russo que aspira ao retorno do antigo poder da Rússia cristã, enquanto o Olavo de Carvalho é o intelectual que não teme confessar crer que para a ordem no mundo falta satisfazer à esse pedido divino através de Nossa Senhora de Fátima.

Não só, mas esse estudioso vê e descreve uma falha grave nessa assim chamada Igreja conciliar ao aspirar uma «nova ordem globalizante», como apontou na encíclica de Bento 16, «Caritas in Veritate» (Um globalismo cristianizado? Diário do Comércio, 10 de julho de 2009). Essa perspectiva cancela o devido ao Culto de Deus Uno e Trino. Poderia um verdadeiro Papa propô-lo? Nunca, e por isto o artigo mencionado conclui:

“É público e notório que o poder globalista em expansão, longe de se inspirar no que quer que seja de genuinamente cristão, tem como um de seus objetivos professos – intimamente associado às suas políticas econômicas – a implantação de uma religião universal biônica, na qual a Igreja Católica, expurgada de seus elementos tradicionalistas, se integre como um instrumento dócil da maior farsa espiritual já tentada no universo (v. documentação cabal em Lee Penn, False Dawn. The United Religions Initiative [URI], Globalism and the Quest for a One-World Religion, Hillsdale, NY, Sophia Perennis, 2004). Ao longo do texto, Bento XVI esperneia, aqui e ali, contra o relativismo e a descristianização, como se estes males viessem do ar e não do mesmo establishment globalista cujo poder ele procura expandir. O dilema em que esse documento coloca os católicos é temível: deverão eles, por obediência ao Papa, colaborar com o fortalecimento do mesmo poder global que os estrangula e vai tornando inviável o exercício público da sua fé, ou, ao contrário, devem voltar-se contra o Sumo Pontífice, aprofundar ainda mais a divisão na Igreja e dar munição à campanha mundial anti-católica? Qualquer das duas alternativas é inaceitável.”

O significado da terceira parte do Segredo de Fátima, aqui discutido como o Terceiro Segredo, encerra um duplo paradoxo: interessou a muitos, mas não é entendido por quase ninguém; reflete uma questão de enorme gravidade, qual seja um atentado mortal ao Papa com seu séquito, mas não parece preocupar nem clérigos nem leigos católicos. Como se tal massacre virtual ocorresse somente no âmbito mais profundo e misterioso das consciências. A este ponto vem a dúvida: se assim fosse, isto reduz ou aumenta a importância de tal Segredo? Ora, esta questão se dirige a mentes reflexivas, cientes que no íntimo das consciências estão os termos para entender o fim de cada um e da história humana. Não é ali, na consciência, que está centrado o pensamento de todo culto?

Pois bem, que se confesse alto e claro: se não for o Cristianismo a difundir o Bem e a Verdade de Jesus Cristo na terra, será o Islamismo a impor a sua força para desgraça geral. Política, cultura, ensino religioso? devem servir para a formação das consciências na verdade, senão são mortas, como morto está o Papado (na visão do «Terceiro Segredo») dos conciliares que inverteram essa missão, censurando a Profecia de Fátima para o nosso tempo. A conclusão de mgr. Williamson, embora partindo bem, pretende convencer os católicos a aceitar a legitimidade do «papa hereje», portanto de um morto na Fé! (ver Eleison 407). Propõe uma Igreja indefesa à mercê dos inimigos, seus e de Nosso Senhor Jesus Cristo! Eis a trama que o «Segredo» desvenda, mas muitos querem «censurar»!

Uma resposta para “A “TRAMA” PRESENTE EM TORNO DO SEGREDO DE FÁTIMA no ideário de Dom Williamson e de Olavo de Carvalho

  1. Eduardo maio 19, 2015 às 10:02 pm

    Padre Gabriele nos ensina sobre Fátima.

    http://angueth.blogspot.com.br/2015/05/padre-gabriele-nos-ensina-sobre-fatima.html

    “Pe. Gabriele Amorth fala sobre o Pedido da Consagração da Rússia, o Castigo, os Papas e o Triunfo do Imaculado Coração de Maria.”

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