Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

PODERÁ EXISTIR COACÇÃO NO ACTO DE FÉ?

Yazidi_Escravas_SexuaisAlberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa São Pio X, em excertos da encíclica “Acerbo Nimis”, promulgada em 15 de Abril de 1905:

«Dessa decadência religiosa, os que nutrem o zelo pela Glória de Deus, indagam as razões e causas; várias são assinaladas, conforme a opinião de cada um; diversos são os caminhos que seguem para tutelar e restabelecer o Reino de Deus sobre a Terra. A nós, veneráveis irmãos, seja qual for o motivo, preferimos concordar com os que pensam que a raiz precípua do actual relaxamento e insensibilidade – com os graves males daí derivados – oculta-se NA IGNORÂNCIA DAS COISAS DIVINAS. Isso responde plenamente ao que o próprio Deus afirmou pela boca do profeta Oseías: “Não há fidelidade nem amor, nem conhecimento de Deus na Terra. Mas perjúrio e mentira, assassínio e roubo, adultério e violência, e o sangue derramado soma-se ao sangue derramado. Por isso a Terra se lamentará, desfalecendo todos os seus habitantes”(Os 4,1).
E que, afinal, entre os cristãos do nosso tempo, sejam muitíssimos os que vivem em extrema ignorância das coisas necessárias para a salvação Eterna, é, infelizmente, queixa justíssima. Quando dizemos entre os cristãos, não entendemos sòmente da plebe, ou de pessoas de camadas inferiores, talvez desculpáveis, porque sujeitas a ordens de patrões desumanos, têm quando muito a possibilidade de pensar sobre si e prover às próprias necessidades; mas os outros, sobretudo aqueles a que não falta engenho e cultura, enquanto das coisas humanas são peritos, vivem de modo inconsequente no que se refere à religião. Pode-se dizer apenas de quão profundas trevas eles estejam circundados; e o que mais preocupa é que aí tranquilamente se conservam! NENHUM PENSAMENTO DE DEUS, AUTOR E MODERADOR DO UNIVERSO, E DO QUE ENSINA A FÉ CRISTÃ, SURGE NELES. Consequentemente, são realidades ignoradas para eles, a Encarnação do Verbo de Deus, e a Obra de Redenção do Género Humano, por Ele realizada. Também não consideram a malícia e a torpeza do pecado, não tendo a intenção de evitá-lo ou libertar-se dele. (…)
Acrescente-se que a perversidade dos costumes, onde não seja totalmente extinta a Luz da Fé, deixa sempre esperar o arrependimento; onde, à corrupção dos costumes, se adiciona, por efeito da ignorância, a falta de Fé, quase não há remédio para o mal, estando aberto o caminho da Eterna ruína.(…)
Disso depreende-se, que em nossos dias a Fé está enfraquecida e esvaindo-se, podendo-se concluir que o dever do ensino do Catecismo é realizado muito superficialmente, ou completamente descuidado.
Afinal, é inútil desculpar-se, dizendo que a Fé é Dom gratuito, comunicado a cada um no Santo Baptismo. Claro, todos os baptizados em Cristo, possuem infundido o hábito da Fé; mas essa semente diviníssima não “se desenvolve, nem lança grandes ramos” (Mc 4,32) abandonada a si mesma, por virtude nativa. Também o homem, que nascendo, traz consigo a faculdade de compreender, tem igualmente a necessidade da palavra da mãe, que desabrocha essa faculdade, e a transforma em acto. Não diferente o Cristianismo, renascendo da Água e do Espírito Santo, traz consigo a Fé, mas necessita da Palavra da Igreja, que a fecunde, desenvolva e faça frutificar. Por isso escrevia o Apóstolo:”Pois a Fé vem da pregação, e a pregação é pela Palavra de Cristo”(Rom 10,17); e para mostrar a necessidade de ensinamento, acrescenta:”Como ouvirão se não há quem pregue?”(Rom 10,14).»

A Fé Teologal é uma dádiva de Deus; ninguém a pode merecer, pelo simples facto de que a Ordem Natural é absolutamente incomensurável com a Ordem Sobrenatural; ser elevado à Ordem Sobrenatural pelas Virtudes Teologais e pela Graça Santificante é possuir algo próprio e exclusivo de Deus; a Graça torna-nos no plano acidental, Aquilo que Deus É no plano Essencial. Não é a nossa inteligência, a nossa cultura natural e humana, que nos habilita mais ou menos para receber a sacrossanta Fé Teologal. As nossas qualidades naturais, as vicissitudes da nossa vida, e as próprias graças naturais que nos são facultadas, como por exemplo, a leitura de um livro edificante, poderão, contudo, constituir condições extrínsecas providenciais da Graça Sobrenatural, só isso.
É certo que ninguém pode crer, senão QUERENDO. A Fé Teologal é “cum ratione” e “ex voluntate”, isto é: Embora o objecto da Fé seja perfeitamente razoável, o acto da Fé constitui-se, com a Graça de Deus, mediante um acto formal da vontade; pois sòmente esta última vincula e sustenta a adesão da inteligência.
Todavia, é também profundamente herético, declarar que a coacção religiosa objectiva da Santa Madre Igreja, bem como a coacção objectiva do Estado, como braço secular da mesma Igreja, não desempenham, ou devem desempenhar, uma função altamente salutar, querida por Nosso Senhor Jesus Cristo e por Sua Mãe Santíssima, na produção do acto de Fé. Seria como afirmar que a ameaça do Código Penal e dos Tribunais não pode pesar na consciência de um cidadão prestes a cometer um homicídio.
Quando a Santa Madre Igreja declara, como sempre declarou, que ninguém pode ser coagido a abraçar a Fé Católica, refere-se fundamentalmente, à COACÇÃO PESSOAL E SUBJECTIVA, EFECTIVADA POR FANATISMO; NÃO SE REFERE ÀS AMEAÇAS DE INFERNO ETERNO PROMULGADAS POR NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E CORROBORADAS AUTORITÀRIAMENTE PELO MAGISTÉRIO DA SANTA MADRE IGREJA; NEM ÀS JUSTAS PUNIÇÕES DO ESTADO CATÓLICO POR QUALQUER ACTO EXTERNO FORMALMENTE REALIZADO CONTRA A FÉ, MESMO POR UM INDIVÍDUO NÃO BAPTIZADO.
A Fé não é um sentimentalismo subjectivo, completamente cego e estéril, como ensina o modernismo; não, a Fé ESTÁ OBJECTIVAMENTE ORDENADA, OBRIGANDO-NOS, AUTOCRÀTICAMENTE, QUER QUEIRAMOS, O QUE SIGNIFICA O CÉU; QUER NÃO, O QUE SIGNIFICA O INFERNO.
A legitimidade e plena validez do acto de Fé não é obliterada pela rectidão de consciência daquele que se reconhece criatura de Deus; e verifica que a sua única missão na Terra consiste precisamente em anunciar formalmente a Glória do seu Criador – amando-O e servindo-O.

O concílio anti-Cristo é que utilizou a repugnante estratégia de confundir fraudulentamente a liberdade psicológica com a liberdade moral, insinuando que todo aquele a quem fosse negada liberdade moral civil perderia concomitantemente a liberdade psicológica necessária para se ordenar objectivamente para Deus Nosso Senhor. Repito, estratégia repugnante, armadilha diabólica, na qual os melhores caíram.
É exactamente o oposto: Constituindo a liberdade psicológica a faculdade de se mover na Verdade e no Bem, uma tal moção interior só pode ser verdadeiramente operada dentro das fronteiras do ser, no exterior das quais não existe liberdade, porque também não há Verdade, nem Bem, NEM NADA!
Precisamente por não existir liberdade moral, É QUE SE TORNA ESTRITAMENTE OBRIGATÓRIA A COACÇÃO OBJECTIVA COMO FORMA MORAL CONSTITUTIVA DO ACTO DE FÉ. Aqui reside a razão profunda pela qual NÃO PODE HAVER CATOLICISMO LIBERAL; NA REALIDADE, O ADJECTIVO DESTRÓI, DE PLENO DIREITO, O SUBSTANTIVO.
O que acontece, é que as mentalidades alcançaram um tal extremo de perversão moral e religiosa, que só a invocação de uma ordem Objectiva, Eterna e Imutável, provoca de imediato a acusação de fanatismo, se não mesmo de perturbação mental.
Quando o Direito Canónico de 1917, proíbe, (Can-752 e 1351) seja quem for, de obrigar alguém a abraçar a Fé Católica, não se refere à já explanada coacção objectiva, exercida pela Santa Madre Igreja e pelo Estado.
Todavia é ilícito e inválido o baptismo forçado de judeus, ou outros, tal como, infelizmente, sucedeu no tempo do Rei D. Manuel; e que demonstra bem a inexistência de princípios morais e religiosos nos homens desse tempo, já que a Santa Madre Igreja, como Instituição, não colaborou na infâmia.

Quis D. Manuel casar-se com a Infanta D. Isabel, filha dos Reis Católicos, e estes exigiram a expulsão de Portugal dos judeus que recusassem converter-se; D. Manuel concordou, mas simultâneamente, fraudulentamente, impediu os judeus de abandonarem o país, coagindo-os a que recebessem o Baptismo; assim procedia por motivos NÃO RELIGIOSOS, MAS ESTRITAMENTE POLÍTICOS, E EXACTAMENTE POR ISSO CONTENTOU-SE COM UMA “CONVERSÃO” PURAMENTE EXTERIOR, DE CARÁCTER MIMÉTICO-NOMINALISTA. SÓ QUE A SANTA MADRE IGREJA NÃO PODE ACEITAR COMO VÁLIDOS ESSES BAPTISMOS PURAMENTE EXTERIORES, POIS NINGUÉM PODE CRER, SENÃO QUERENDO, COMO FICOU DITO. Daqui se deduz também o carácter sobretudo político da Inquisição Portuguesa constituída de 1536, bem como a resistência da Santa Sé em concedê-la.
É todavia lícito, em certos casos – e tal aconteceu não só no tempo de D. Manuel, mas ainda na Monarquia Visigótica – que a Santa Madre Igreja, e nunca o Estado, quebre, a favor da Fé, os vínculos de filiação natural de crianças, baptizadas, ou não, com seus pais não baptizados, ainda que consorciados legìtimamente, para entregar essas mesmas crianças a casais católicos praticantes. Efectivamente se a Santa Madre Igreja, na Pessoa do Romano Pontífice recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo o poder de dissolver, a favor da Fé, vínculos matrimoniais naturais entre não baptizados (Privilégio Paulino), e até entre baptizado e não baptizado (Privilégio Petrino; pois estes matrimónios, embora constituídos sob a Jurisdição da Santa Madre Igreja, não são Sacramento); então também pode dissolver, a favor da Fé, os vínculos  de filiação estabelecidos na Ordem Natural; devendo o Estado Católico reconhecê-lo imediatamente na ordem civil.

Durante o Pontificado do Papa Pio IX, nos territórios dos Estados da Igreja, uma criada baptizou secretamente, por doença grave, um recém – nascido, do sexo masculino, oriundo de uma família judia, a família Mortara; levado o assunto às autoridades eclesiásticas, com poder temporal directo no seu próprio território, foi a criança, por ordem do Santo Ofício, arrebatada à sua família de sangue e entregue a uma família católica que a educou até à adolescência; por essa altura foi o rapaz autorizado a visitar seus pais; posteriormente decidiu livremente entrar no Seminário, foi ordenado, e este sacerdote, Edgardo Mortara, rendeu sempre a Deus Nosso Senhor as maiores Graças, pelo seu Baptismo, e pela sua ulterior educação católica, sob a tutela eclesiástica; o Padre Mortara aí contemplou o grande Mistério da operação da Providência na salvação dos predestinados, sejam eles quem forem, quando são acolhidos sobrenaturalmente no sacrossanto regaço maternal da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 17 de Junho de 2015

2 Respostas para “PODERÁ EXISTIR COACÇÃO NO ACTO DE FÉ?

  1. maria alcina junho 22, 2015 às 4:32 pm

    Quem escreve esses textos? São de uma inteligência que foge ao meu conhecimento.

    • Alberto Cabral junho 23, 2015 às 4:20 pm

      Minha Senhora
      Sou um autodidacta pois jamais me adaptei à mediocridade escolar, muito semelhante à mediocridade do futebol e da politica.
      Fui rejeitado pela Fraternidade São Pio X ainda em vida de Monsenhor Lefebvre; e ainda bem, porque teria sido expulso pelas chefias traidoras subsequentes.
      Nasci em 1953, não tendo conhecido,como adulto, a verdadeira Santa Madre Igreja.
      Tenho uma pensão que me foi atribuída por inadaptação social em 1981.
      Procuro amar sobrenaturalmente a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor de Deus. Procuro aprofundar o mais possivel as questões filosóficas e teológicas.
      Sempre fui, desde criança, uma pessoa muito profunda; daí um grande hiato no padrão de reacção e consequente inadaptação .
      Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral -Lisboa

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