Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

FÁTIMA «PEDRA DE TROPEÇO», «SINAL DE CONTRADIÇÃO» DESDE O INÍCIO

Multidão e o Milagre do sol 

Arai Daniele

Desde que escrevo sobre Fátima, e já vão lá quase quarenta anos, aponto para esta sua condição de «pedra de tropeço» especialmente para clérigos.

Dentre estes, não há que se enganar, demonstram-se incluídos três papas e uma infinidade de bispos. Isto não é dito sem justificá-lo à luz de fatos históricos referentes ao período que vai de 1917 até 1958. Aliás, já então estavam encubados os ovos de serpente do Vaticano 2, que eclodiram com a escalada de modernistas, como Roncalli, João 23, à Sede da Verdade. Era plano urdido há tempo pelo iluminismo maçônico, que este clérigo só fez implementar. Mas com isto inoculou no coração da Igreja a dose inicial da peçonha que breve se alastrou pelo corpo clerical. E grande parte deste deixou de fazer parte do «Corpo místico» para dar-se à mentalidade liberal e ecumenista.

São fatos à origem do descalabro que hoje vivemos. Aqui me interessa revê-los ainda à luz da história e de Fátima, para assim continuar a situar, tanto os sintomas dessa profunda contaminação quanto o seu bálsamo admirável. É claro que tal cura é ligada à Fé.

Para fazê-lo então vou começar comparando o modo como foram no início recebidas as aparições de Nossa Senhora, na montanha de La Salette (1846) e em Fátima (1917).

«No dia 19 de setembro de 1846, em La Salette, França, dois pastorzinhos, Melania e Maximino, viram uma linda senhora sentada sobre a pedra onde haviam construído um pequeno “paraíso” de flores. Chorava com a testa entre as mãos. Foi então que chamou os meninos para transmitir-lhes uma grande mensagem. Podia esta não ser muito triste se fazia a Mãe chorar pelos filhos? Esta infinita tristeza de Maria Santíssima será vista e suas lágrimas recolhidas em tantos diversos lugares do mundo, nesta nossa época. Já não é esta uma mensagem, um aviso de valor inestimável? A mensagem que segue esses milagres pode deixar de ser igualmente triste?»… a tristeza de Nossa Senhora é uma mensagem que dispensa palavras. Indica que muitos de seus filhos estão na via da perdição. As palavras podem servir para ajudá-los e guiá-los, mas se não forem ouvidas, se ninguém souber ou quiser chamá-los de volta, se na Igreja prevalecer o silêncio e a omissão sobre os perigos iminentes para tantos, talvez a profunda tristeza da Santa Mãe ainda poderia bastar para adverti-lo.

Nossa Senhora revelou aos dois pastorzinhos uma Mensagem que falava da decadência do clero em geral ao ponto tal que Roma perderia a Fé e tornar-se-ia a sede do Anticristo. No fim disse: “Bem, meus filhos, fareis conhecer isto a todo o meu povo”.

Da decadência estava excluído o pároco Perrin do lugar, que logo teve a graça de crer nas crianças e tocou os sinos para anunciar, comovido, essa nova extraordinária.

Já no dia seguinte à aparição, antes mesmo da interrogação dos meninos, o Padre do lugar fez uma homilia para chamar seu povo à conversão e à penitência.

Igualmente o Bispo, Mgr de Bruillard, acolheu logo o evento e embora encaminhasse a questão para ser investigada, favoreceu sua solução, que em breve realizou-se com a edificação do Santuário. Mas em seguida foi a hora dos inimigos da Mensagem profética de La Salette. Começou então uma verdadeira perseguição aos pequenos mensageiros desse novo «sinal de contradição». A vidente Melania escreveria ao padre Combe (1903): ‘Os bispos que consideraram o segredo dirigido a si, foram os grandes inimigos desta mensagem de misericórdia, justamente como os sumos sacerdotes que condenaram à morte o divino Salvador.’ De fato, tinham razão em reagir, o segredo não fazia mais que refletir suas dúvidas. Assim foi com monsenhor Ginoulhiac, que substituiu o venerável bispo de Bruillard na diocese de Grenoble. Para livrar-se da incômoda vidente, enviou-a a um convento de clausura em Darlington, na Inglaterra, com a ameaça de excomunhão se voltasse à diocese. Voltou, mas teve que exilar-se. Não muito depois o bispo enlouquece e morre num manicômio. Seu sucessor foi mgr Fava, que acalentou grandes planos para o santuário de La Salette, meta de numerosas peregrinações. Mas acirrado inimigo da mensagem, fez pressões sobre Melania, que vai refugiar-se no sul da Itália. O bispo temia que a mensagem prejudicasse seus projetos. Passados poucos anos foi encontrado morto em seu quarto. Estava estendido no chão, nu, olhos esbugalhados e punhos crispados. Quanto ao bispo Gilbert de Amiens, e depois de Bordeaux (que havia dito: ‘O segredo de La Salette não é nada mais que uma trama anti-religiosa feita de exageros e mentiras’) anos depois de tal acusação, em 1889, foi encontrado morto no seu quarto e durante os funerais o féretro desabou do catafalco.

Outro famoso inimigo da mensagem foi o arcebispo de Paris, Darboy, que interrogou pessoalmente Maximino, pressionando-o para que revelasse o segredo que denunciava a maçonaria. Não obtendo o que queria, gritara ao rapaz: ‘As palavras de tua bela Senhora são estúpidas, como estúpido deve ser o teu segredo.’ Maximino replicou: ‘Ele é tão veraz, e certo que eu vi a bela Senhora, como que vossa excelência será fuzilado’. Esse prelado já em 1865 havia sido admoestado por Pio IX pelo seu aceso galicanismo. Anos depois, no Concílio Vaticano I, alinhou-se a mgr Dupanloup contra Pio IX, desertando Roma nas vésperas da definição do dogma sobre a infalibilidade papal. De volta à França, em 1871 foi fuzilado no meio da fúria revolucionária da “Comune”. Como se vê, os inimigos do segredo de La Salette também o foram da verdade sobre o papa. O Cura d’Ars também duvidou do que dizia Maximino de La Salette, mas sem aversão a ela.

O papa Pio IX, ao contrário, ao ler o segredo diante dos padres franceses que o levaram ao Vaticano, exclamou: “Oh, isto é muito sério!” E afirmou que meditaria na mesma noite sobre mensagem tão importante. Na manhã seguinte os padres receberam esta nota de Pio IX: “O papa ficou convencido da origem celeste do segredo. Ele o terá em conta para as ações que deverá empreender. Abençoa os meninos.”

Igualmente o papa Leão XIII acolheu Melania em Roma e ordenou que lhe dessem toda a assistência a fim de que escrevesse com toda a serenidade a “regra” da ordem religiosa desejada por Maria Santíssima. O papa São Pio X afetuosamente chamou Melania Calvat de “nossa santa.” Os bispos italianos que a hospedaram por diversos anos, dando imprimatur ao segredo, monsenhor Petagna de Castellamare e monsenhor Zola de Lecce, morreram em “odor de santidade” e foram iniciadas a favor de ambos, as causas de beatificação.

Fátima no «sinal de contradição» clerical

Certamente, em 1917 havia dificuldades que tornavam o evento de Fátima embaraçoso para as autoridades religiosas portuguesas e isto podia ter criado resistências também no Vaticano. Admitir a hipótese, porém, de que a notícia não chegou aos vértices da Igreja, senão ainda em 1917, quando devido à guerra as fronteiras de Portugal estiveram fechadas, no ano seguinte, seria devanear. As notícias concernentes à perseguição religiosa das autoridades da república então voavam.

Há dois indícios consistentes de que Bento XV conhecia o evento de Fátima desde o começo: O restabelecimento da velha Diocese de Leiria, que compreende Fátima, incorporada a Lisboa desde 1881, com o breve papal Quo vehementius de 17 de janeiro de 1918; na carta de 29 de abril de 1918 ao episcopado português, há referência a “um auxílio extraordinário da parte da Mãe de Deus” (Sebastião Martins dos Reis, Síntese crítica de Fátima, p. 281). [7]

O processo canônico para autenticar as aparições de Fátima com um bispo local seria facilitado. Infelizmente a nomeação demorou e o titular de então, o cardeal Patriarca de Lisboa, Mendes Belo, voltando em 1919 de Roma, onde fora exilado pelo governo da república, ameaçou de excomunhão qualquer padre que propagasse a devoção de Fátima. Procurava-se um termo de compromisso político-religioso, e a aparição mariana, mesmo sem sua mensagem, parecia um obstáculo.

Em 1920 Bento XV designava para a Diocese de Leiria dom José Alves Correia da Silva, que foi consagrado bispo em julho e tomou posse em agosto daquele ano, mas que, confessando-se alheio aos eventos de Fátima, só abriu o processo para certificá-los em 1922, ordenando o primeiro interrogatório oficial da vidente Lúcia em 1924. Eram assim passados sete anos antes que a Igreja começasse a tomar o devido conhecimento da mensagem, o dobro do tempo necessário para reconhecer oficialmente as aparições de Lourdes, apesar da oposição das autoridades civis e desconfiança das religiosas, também lá. Esse atraso não pode ser justificado pela prudência; ao contrário, evidencia que no pontificado de Bento XV, morto em 1922 sem se pronunciar publicamente sobre Fátima, transcorria considerável distância entre fazer um apelo a Maria Santíssima pela paz na Terra e crer que a resposta pudesse ser dada por uma aparição do Céu.

E, todavia, pode-se negar que Maria Santíssima atendeu o apelo do Papa? É mais fácil supor que a fé que iluminara Bento XV a convocar os bispos, o clero e os fiéis a pedirem pela paz, não foi suficiente para guiar a esperança em uma resposta que transcendesse as trevas e as ameaças deste mundo. Afinal, que solicitude mais benigna e qual intercessão mais eficaz pela paz podia vir da Mãe Celeste? Foi intercessão a nível claramente histórico. Que admiráveis benefícios se o papa a reconhecesse!

Fátima à luz da História

Costa Brochado, conhecido historiador, fazia parte da elite cultural do governo Salazar, assim como o escritor francês Jacques Ploncard d’Assac, que já citamos muitas vezes, especialmente por causa de seu notável livro «L’Église occupée». Ao livro de Brochado «Fátima à luz da História» (Portugália Editora, Lisboa, 1948), vamos recorrer aqui para conhecer detalhes dessa «alergia clerical» à Fátima desde o seu início em 1917.

«A posição da Igreja, em relação às aparições de Fátima, foi, desde a primeira hora, de uma prudência absoluta. Fátima pertencia, nessa altura, ao Patriarcado de Lisboa, e o respectivo Vigário Geral, Senhor D. João Evangelista de Lima Vidal, dera ordens terminantes, na ausência do Patriarca desterrado, para que nenhum sacerdote interviesse, fosse de que maneira fosse, nos acontecimentos em marcha, proibindo-os mesmo de comparecerem na Cova da Iria ainda que em mera atitude de curiosos. Ao prior de Fátima, rev.º Manuel Marques Ferreira, nem fora preciso fazer qualquer recomendação, pois ele era o menos crente possível nos extraordinários sucessos que se vinham desenrolando na sua freguesia. Veremos isso, mais adiante, com vagar, mas fique já sabido que este sacerdote não só se recusou a pôr os pés na Cova da Iria como tinha das aparições uma ideia muito oposta a do seu povo, a pontos de com ele se incompatibilizar gravemente, ainda hoje não merecendo a simpatia dos pais da Jacinta e do Francisco, que estão vivos. A sua atitude nos inquéritos que se iam fazendo junto dos videntes, assim como as suas reacções contra a credulidade dos fregueses, colocam-no, ao menos durante algum tempo, numa posição de franca divergência com os sentimentos e convicções de toda a freguesia. O vigário da Vara de Ourém, rev.º padre Faustino José Jacinto Ferreira, prior de Olival, sacerdote a todos os títulos respeitável que desfrutava o maior prestígio na classe e em todos os meios, também começara por não dar crédito às notícias das primeiras aparições, apertando os colegas com ordens terminantes, em nome do Patriarcado, para que não se envolvessem no caso. Por isso alguns párocos, como o de Santa Catarina da Serra, chegaram a advertir os fiéis, do alto do púlpito, de que não deveriam ir à Cova da Iria, desinteressando-se do assunto.

«Só depois da terceira aparição, em 13 de Julho, é que aparece a primeira notícia de origem católica de que temos conhecimento. Saiu, apagada, em meia coluna da 4.ª página do Boletim do Concelho de Vila Nova de Ourém, no dia 29 de Julho, sob o titulo «Real aparição ou suposta… ilusão», em Fátima, e rezava assim: «Esta freguesia experimentou no passado dia 13 o espectáculo mais maravilhoso e comovente que a imaginação podia idealizar. Quererá a Rainha dos Anjos fazer desta freguesia uma segunda Lourdes? !… Ah! Quem o merecera! A Deus e à Virgem não é impossível. Não foi possível fazer cálculo aproximado do número de pessoas que vieram à distância de de tantas léguas, desde o humilde pastorinho, rude lavrador, aos que fazem agradáveis passeios em velozes automóveis, para tomarem fé de alguma prova da tão propagada aparição de Nossa Senhora a três crianças desta freguesia (3ª. vez 13-7-1917). Todas as pessoas ou, pelo menos, a maior parte ficaram satisfeitas só em verem a maneira como as crianças se apresentaram e falaram -perguntando… pedindo… e esperando tempo de resposta sem que mais ninguém as ouvisse. Isto – dizem, pois não fui testemunha – a presença, segundo os diversos cálculos, de 800, de 1.000, de muito mais de 1.000 e de 2.000 pessoas que no mais admirável dos silêncios ora rezavam, ora suplicavam, ora choravam; por último foi necessário que as almas piedosas, para livrarem as crianças dos confusos interrogatórios e de graves incómodos, que poderiam ter no meio de tão grande multidão, pegassem nelas e as metessem em automóvel e as afastassem à distância de dois e meio quilómetros para junto da igreja, onde foram fotografadas. Foi simplesmente admirável, mas por ora não digo mais nada».

«Este Boletim, que era órgão do clero do Arciprestado de Ourém, reflectia, sem dúvida a posição em que ficara o Vigário da Vara após os acontecimentos impressionantes da terceira aparição de 13 de Julho. Sabe-se hoje que o Padre Faustino transitara ràpidamente, ao íntimo contacto com testemunhas oculares das aparições, do mais fundo cepticismo inicial, à mais aberta disposição para o sobrenatural de Fátima. Não obstante, manteve-se a reserva e a prudência superiormente determinadas, continuando vedado aos padres o acesso à Cova da Iria e a intromissão directa nos acontecimentos ali verificados.

«Quente e abafado, entrava o mês de Agosto e tudo se preparava para que o dia 13 fosse um mar de gente, à roda dos videntes, na Cova da Iria, visto que de toda a parte chegavam notícias de grandes mu1tidões preparadas para a romagem. Entretanto, em Vila Nova de Ourém, um homem concebia silenciosamente o plano que havia de acabar, antes de ir mais adiante, com o que ele e os seus correligionários classificavam de uma «exploração da ignorância do povo» destinada «a mobilizar a reacção contra o regime». Esse homem era o Administrador do Concelho, sr. Artur de Oliveira Santos, homem activo, inteligente, na força da vida, que de uma pequena oficina de latoeiro situada no coração da Vila, subira a chefe do Partido Democrático, presidente da Câmara, juiz substituto da Comarca e Administrador do Concelho. Diz-se que pertencia à loja Gomes Freire, de Leiria, e que fundara um triângulo na Vila de Ourém. De qualquer forma este jovem livre-pensador assumia aos 30 anos de idade o governo do Concelho de Ourém, deixando para trás advogados, médicos, engenheiros e capitalistas, tudo submetido à sua batuta de comando realmente energética e decidida.»

Era o maçom que atemorizava os padres e chegou a raptar os pastorinhos.

Aqui, porém, começamos a tratar dessa tristeza causada pelo menosprezo à Profecia que têm sido a constante de nosso tempo e para demonstrá-lo basta relatar o caso do Padre mexicano Agostinho Fuentes, que por ter anotado e publicado, com ordem superior, a entrevista que teve com a irmã Lúcia no Convento de Coimbra, teve muito que sofrer. Diante de Fátima, desde o início, cardeais ameaçaram padres por medo do mações, até que «papas maçons» censuraram o Segredo profético por 40 anos. E desde que foi por fim publicado, parece suscitar ainda mais dilemas que antes para uma geração cada vez mais temerosa de se confrontar com a verdade da morte do Papado por um tempo.

Eis a pedra de tropeço para multidões de clérigos e crentes da nova fé ecumenista contrária às consagrações e conversões pedidas em Fátima. Mas a perda da Fé na intervenção divina na terra dos homens, mesmo entre clérigos, já vinha de longe. O problema é que foi justificada pelo dilúvio de erros e heresias na igreja do Vaticano 2, que desliza e arrasta muitos inexoravelmente para o abismo. Que Deus nos ajude a fim de testemunharmos sempre a verdade sobre o triunfo final do Imaculado Coração de Maria, que será triunfo da Fé.

 

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