Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

A INTELIGÊNCIA E O ACTO DE SER

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

AEscutemos o Papa Pio XII, em excertos de uma alocução ao Centro Italiano de Estudos para a reconciliação Internacional; 13 de Outubro de 1955:

«Se prescindirmos do conteúdo e considerarmos sòmente a parte formal do ensino e do trabalho científico, devemos indicar como elemento característico seu – o serviço da Verdade.
Aqueles que ensinam ou trabalham cientìficamente, desejam primeiro que tudo, levar ao conhecimento da Verdade, e ao reconhecimento dela, como tal. Por isso, os alunos e ouvintes devem poder ver, reflectidos e como que personificados no mestre, o respeito, a lealdade, A PROFISSÃO FIEL DA VERDADE,  a fim de chegarem a transportar para si mesmos estes sentimentos íntimos. A questão essencial é investigar, expor, e aprofundar a verdade, seja ela agradável ou desagradável, e venha a ser aceite ou repelida, seja por quem for. Tal atitude espiritual É EVIDENTEMENTE OPOSTA ÀQUELA APATIA E INDIFERENÇA PARA COM A VERDADE, QUE HOJE DEFORMA NÃO POUCAS MENTES, E QUE UM DIA O CÉPTICO PILATOS ENUNCIOU COM A IRÓNICA INTERROGAÇÃO: “QUID EST VERITAS?” (QUE É A VERDADE?). Foi, pelo contrário, sublime característica do procedimento do Senhor, o colocar a Verdade acima de tudo. Da Verdade dava testemunho (cf. Jo 18,37) e à Verdade se referia a Sua grande promessa: Ela vos libertará (Jo 8,32).
Mas o culto da Verdade, promovido pela Igreja com a sua vasta actividade didáctica, transforma-se em serviço de inestimável valor para a reconciliação e harmonia, e para a recíproca compreensão e colaboração dos homens e dos povos. Se todos os povos, real e sinceramente, só desejam, buscam e aceitam e reconhecem a Verdade, encontram-se então verdadeiramente no caminho, que pela sua íntima natureza, conduz ao entendimento e união.

Porque a Verdade (qualquer que seja, em cada caso especial, o seu conteúdo) É UMA SÒMENTE, E POR CONSEGUINTE TAMBÉM SÓ UM PODE SER EM TODA A PARTE O DESEJO DE VERDADE.
O ERRO, PELO CONTRÁRIO (JÁ QUE AFASTA DA VERDADE E DA REALIDADE) É POR NATUREZA DIVISÃO; SEPARA, DESUNE, E CORTA, AINDA QUE MUITOS SE ENCONTREM NO MESMO ERRO; POIS TAL ENCONTRO É FORTUITO, E NÃO O EFEITO DE UM SÓLIDO PRINCÍPIO UNITIVO.»

Os homens desde sempre muito reflectiram e argumentaram sobre o conceito, e sobre o valor da inteligência. Todavia assim procederam usando a sua própria inteligência, e como na grande maioria dos casos não eram Católicos, nem Aristotélico- Tomistas, tombaram em dialelos intermináveis; EXACTAMENTE PORQUE DESCONHECIAM O SER.
Na Antiguidade Cristã, foi Santo Agostinho (354-430) que mais alto elevou o conceito de inteligência, fundamentando-o no conceito de ser. São Tomás de Aquino (1225-1274) sistematizaria com mais profundidade o património filosófico e teológico de que dispunha.
São Tomás radica na pessoa humana, enquanto é ser, todas as suas conclusões filosóficas; e não olvidemos que para São Tomás a alma humana separada não é pessoa, aqui se opondo diametralmente a Santo Agostinho, com a sua raiz mais platónica. Para São Tomás, os primeiros princípios do conhecimento constituem um hábito natural e residem não apenas no espírito humano, mas deste irradiam igualmente para toda a hierarquia ontológica psico-fisiológica. Nunca olvidar que para São Tomás o princípio da individuação é a matéria e não a forma.
O princípio da razão suficiente, isto é, aquele que nos diz que tudo quanto existe ou É, possui, necessàriamente, metafìsicamente, a sua razão de ser, aplicando-se não só às criaturas mas igualmente à Asseidade de Deus Nosso Senhor; o princípio da identidade e não contradição, que nos diz que tudo o que é, é; e que tudo o que não é, não é; consequentemente, uma coisa não pode ser e não ser, ao mesmo tempo, para a mesma inteligência, e sob idêntica razão formal; o princípio da analogia geral do ser, que nos confirma que existe em todo o ente criado uma razão de proporcionalidade com pleno fundamento Metafísico e Transcendental. Todos estes princípios, que constituem os primeiros princípios do conhecimento, não se pode afirmar que sejam inatos, nem mesmo virtualmente, CONSTITUEM ANTES UMA FUNÇÃO DE SER, LOGO SÒMENTE SE ACTUALIZAM EM CONTACTO COM A EXPERIÊNCIA.
Este último aspecto do contacto actualizador com a experiência falta em Santo Agostinho; em vez dele, Agostinho prefere o conceito de ILUMINAÇÃO interior, na Ordem Natural, pelo Sol das ideias que seria Deus. São Tomás, coerente com todo o seu sistema, e com alguns princípios que tomou de Aristóteles, considera que Deus Nosso Senhor – sendo o Criador e a Medida de toda a realidade, e também da inteligência humana – constitui, ELE MESMO, o fundamento Incriado da comensurabilidade ontológica e metafísica, entre essa mesma realidade e a inteligência humana; e evidentemente também da inteligência angélica.
Cumpre assinalar, que como dizia o filósofo Étienne Gilson (1884-1978), São Tomás refutou formalmente Aristóteles, com aqueles mesmos argumentos que dele materialmente tomou, rectificando os valores do realismo intelectualista, a partir da sua inteligência, já extrìnsecamente ilustrada pela Revelação Sobrenatural.
Há quem pense que é estultícia tomar elementos de um filósofo pagão, e recusar tomá-los de Marx. Mas o argumento é que é absurdo: Pois Aristóteles viveu antes de Nosso Senhor Jesus Cristo; e Marx e outros foram posteriores, e foram CONTRA, Nosso Senhor Jesus Cristo; além disso, os elementos colhidos foram apenas filosóficos e jamais religiosos. Aliás, segundo o mesmo Gilson, no paganismo clássico havia uma separação absoluta entre a ordem filosófica e a ordem religiosa.
Segundo São Tomás, nos hábitos naturais dos primeiros princípios intelectuais, bem como nos hábitos naturais dos primeiros princípios morais (sindérese), em si mesmos, NÃO PODE HAVER ERRO, ESTE, TAL COMO O MAL, SURGE QUANDO TAIS PRINCÍPIOS ENCARNAM NA REALIDADE CONCRETA. Donde se conclui que as consequências do pecado original, enquanto afectam a inteligência e a vontade, não debilitam, nem diminuem, o ser em si mesmo, mas insinuam-se no operar, privando-o qualificadamente, moralmente, de ser. Esta privação de ser consubstancia-se na não submissão do agir aos imperativos da Lei Eterna, Natural e Sobrenatural.
No Homem há a considerar a inteligência e a razão; no Anjo temos só de considerar a inteligência, porque na sua constituição ontológica não há lugar para a mediação racional do discurso.
Neste quadro conceptual a definição de inteligência será a seguinte: A MAIOR OU MENOR CAPACIDADE PARA REDUZIR A PRINCÍPIOS OBJECTIVOS IMATERIAIS E ESPIRITUAIS, A INCESSANTE PLURALIDADE ANALÓGICA DO CONCRETO. Quanto mais poderoso é o intelecto menor o número de princípios, e maior a sua extensão e compreensão, E PORTANTO MAIOR A EFICÁCIA DA INTELIGÊNCIA; trata-se aqui não de conceitos universais unívocos, mas de conceitos análogos, por exemplo: Homem, é um conceito unívoco universal, em que a extensão é inversamente proporcional à compreensão; Humanidade, Civilização, são conceitos análogos em que a extensão é directamente proporcional à compreensão para uma mesma Luz intelectual; para uma mesma extensão, o aumento dessa Luz confere maior definição do particular, seja no Anjo, seja no Homem; mas no primeiro, as espécies inteligíveis, representativas do mundo sensível, são-lhe infundidas no acto da Criação, o anjo não precisa de estudar; criar um Anjo sem tais espécies, seria como criar um homem completamente privado de qualquer estímulo, fosse ele qual fosse, para os seus sentidos. Nesta perspectiva, a cultura será o mundo interior constituído por uma sistematização qualificada de princípios inteligíveis, mesmo quando as representações concretas que contribuíram para a sua formação já foram esquecidas.
O facto de um homem ser mais inteligente do que outro, na sua função de base, não lhe advém de qualquer diferença na alma espiritual que recebeu, mas sim da matéria fornecida pelos progenitores; nunca esquecer, que Deus não cria as almas para depois as unir aos corpos, não, Deus cria directamente o composto corpo-alma, através de uma espécie de recriação da matéria fornecida pelos progenitores.
A inteligência nunca pode ser separada do agir, quer do Anjo, quer do Homem; a inteligência de alguém voltado para o mal é uma inteligência essencialmente diminuída. Satanás, enquanto Anjo, possui, em princípio, uma inteligência privilegiada, muitíssimo superior à do homem; todavia, enquanto ente condenado e amaldiçoado por Deus, a sua inteligência está inteiramente voltada para o mal, está confirmada no mal, embora só possa atacar o homem até ao fim do mundo. O plano de destruição da Santa Madre Igreja, executado pela maçonaria internacional, tem satanás como autor.
Neste quadro conceptual, a integridade moral, natural, e  fundamentalmente, extrìnsecamente, a Sobrenatural, desenvolve realmente a inteligência. As virtudes Teologais, a Graça Santificante, os Dons do Espírito Santo, iluminam extrìnsecamente a inteligência natural, porque esta, enquanto tal, constitui um reflexo contingente das infinitas perfeições Divinas, enquanto que a Fé Teologal, que é a inteligência Sobrenatural, única pela qual seremos julgados, constitui uma participação real, conquanto acidental, na Inteligência Divina. Daqui se infere que a formalização última da inteligência natural é constituída pelo exercício transcendental do acto de ser pela criatura espiritual, mediante o qual, a mesma criatura assume, ou não, perante Deus a sua própria condição contingente; isto acontece porque, também segundo o Tomismo, a relação que parte da criatura ao Criador é real e transcendental.
A Inteligência de Deus Nosso Senhor, não é uma faculdade, é Eternamente substancial e imutável, e que num só acto de Infinita fecundidade Se conhece a Si mesmo, bem como a todo o criado, com absoluta definição do particular, em Si mesmo, na Sua Essência. Esse acto intelectual infinito é indissociável da Geração do Verbo.
Será Nosso Senhor Jesus Cristo omnisciente? A inteligência humana de Nosso Senhor, em si mesma, é fìsicamente finita, mas o seu alcance é moralmente infinito, pois corresponde a uma inteligência humana, sim, mas elevada a um grau de dignidade Sobrenatural que devemos considerar infinito, na sua potência obediencial. Assim como a santidade acidental de Nosso Senhor, constituída pela Graça Santificante, é fìsicamente finita, embora moralmente seja infinita, porque é a santidade de uma Natureza Humana elevada a um grau de dignidade infinita na Sua potência obediencial.
Denomina-se potência obediencial à potencialidade para a elevação a fins concernentes à Ordem Sobrenatural, inerente, hierarquizadamente, a toda a realidade criada. A água e o azeite, o pão e o vinho, são assumidos pelos Santos Sacramentos segundo finalidades estritamente sobrenaturais.
Concluímos assim, que não existe inteligência sem realidade espiritual; e quanto mais espiritual for, mais inteligente será; pois que só o espírito pode imaterializar a realidade, constitutiva e qualificadamente, extraindo do sensível a sua essência inteligível; generalizando analògicamente essas essências para desenvolver “a priori” o seu conhecimento (indução), ou mediatizando-as para identificar conclusões (dedução). Deus Nosso Senhor É o Espírito absoluto, o Espírito Infinito, na Sua Asseidade, na Sua Eternidade; compreende-se pois, sem dificuldade, que toda a realidade criada possa ser assumida e resolvida em forma espiritual, simplificando-a e aprofundando-a, iluminando-a, finalmente, com a suprema fundamentação do seu Princípio, bem como do seu Fim.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 18 de Julho de 2015

Uma resposta para “A INTELIGÊNCIA E O ACTO DE SER

  1. Zoltan Batiz. agosto 2, 2015 às 6:45 pm

    O serviço da Verdade: é exactamente isto o que conta menos. Especialmente, desde os anos 1970, os que vão para ciência vão por motivo de carreirismo, estatuto social, dinheiro. O espírito de sacrifício está completamente ausente. A ciência tornou-se numa empresa: uma indústria da moda (fashion industry). A produtividade cresceu, mas a qualidade é cada vez pior. Mas tudo tem como raiz a religião: primeiro, a fé falhou. Depois o conceito da fé está contaminada (isto até pode não ser intencional, e parte de castigo). Depois vem a crise dos valores. E apenas, como o último passo, a crise financeira (com os valores errados, todos querem enriquecer-se e rápido, sem muitas dificuldades, mesmo desonestamente). Verdade ou habilidades sociais (social skills, especialmente na América).

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