Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

AUTONOMIA E HETERONOMIA NA SACROSSANTA MORAL CATÓLICA

theological virtues

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa Pio XI, em passagens da sua encíclica “Caritate Christi”, promulgada a 3 de Maio de 1932:

«Sabemos muito bem, e convosco, veneráveis irmãos, deploramos, que em nossos dias a ideia e as palavras “expiação e penitência”, tenham perdido em grande parte, e para muitos, a virtude de suscitar aqueles entusiasmos do coração e aqueles sacrifícios heróicos que em outros tempos infundiam, quando se apresentaram aos olhos dos que quereriam pôr de parte as mortificações externas, como coisa de tempos idos; e não falemos do moderno “homem autónomo”que despreza a penitência como expressão de índole servil. E é óbvio, efectivamente, que quanto mais se debilita a Fé em Deus, tanto mais se ofusca e desaparece a ideia de um pecado original e de uma primitiva rebelião do homem contra Deus, e por isso ainda mais se perde a noção da necessidade da penitência e da expiação.

Nós, pelo contrário, veneráveis irmãos, devemos, por obrigação do nosso múnus pastoral, levantar bem alto estes nomes e estes conceitos, e conservá-los em sua lídima significação e genuína nobreza, e ainda mais na sua prática, e urgente aplicação à vida cristã. A isto nos move a própria defesa de Deus e da Religião, que estamos propugnando, porquanto a penitência é, por sua natureza, UM RECONHECIMENTO E RESTAURAÇÃO DA ORDEM MORAL NO MUNDO, QUE SE FUNDAMENTA NA LEI ETERNA, ISTO É, NO DEUS VIVO. Aquele que oferece a Deus satisfação pelo pecado, reconhece por isso mesmo a santidade dos supremos princípios da moralidade, a sua força íntima de obrigação, a necessidade de uma sanção contra quem os transgride. É, SEM DÚVIDA, UM DOS MAIS PERIGOSOS ERROS DO NOSSO TEMPO, TER-SE PRETENDIDO SEPARAR A MORALIDADE DA RELIGIÃO, MINANDO ASSIM TODA A BASE SÓLIDA DE QUALQUER LEGISLAÇÃO. Este erro intelectual podia passar desapercebido, e parecer menos perigoso, quando se circunscrevia a poucos, e a Fé em Deus era ainda património comum da Humanidade, e tàcitamente era pressuposta mesmo por aqueles que dela já não faziam abertamente Profissão. Hoje, porém, que o ateísmo se está infiltrando nas classes populares, as consequências práticas de tal erro tornam-se terrìvelmente palpáveis e entram no mundo das tristíssimas realidades; em vez das Leis Morais que se desvanecem, juntamente com a perda da Fé em Deus, impõe-se a violência da força bruta, QUE ESMAGA TODO O DIREITO. A lealdade antiga, e a rectidão nas transacções e no comércio mútuo, tão decantadas até pelos próprio retóricos e poetas do paganismo, cede agora o passo às especulações sem consciência, tanto nos negócios próprios, quanto nos alheios; e na verdade, como pode manter-se um contrato, seja ele qual for, e que valor pode ter um tratado, onde falte toda a garantia da consciência? E como se pode falar em garantia de consciência, onde desapareceu toda a Fé e todo o temor de Deus? Suprimida esta base, CAI COM ELA TODA A LEI MORAL; E JÁ NÃO HÁ REMÉDIO ALGUM QUE POSSA IMPEDIR A LENTA, MAS INEVITÁVEL, RUÍNA DOS POVOS, DAS FAMÍLIAS, DO ESTADO, E DA PRÓPRIA CIVILIZAÇÃO HUMANA».

Sendo a Doutrina Católica uma Doutrina de Verdade, e da Verdade absoluta, lògicamente terá de facultar a razão mesma desse absoluto, a qual é simultâneamente especulativa e prática. Efectivamente, os Dons do Espírito Santo possuem como Missão o aperfeiçoamento das Virtudes Teologais e Morais, ou seja: ENQUANTO AS VIRTUDES TEOLOGAIS E MORAIS NOS OUTORGAM A FÉ, UMAS NA ORDEM ESPECULATIVA E OUTRAS NA ORDEM PRÁTICA, OS DONS FACULTAM-NOS A RAZÃO, O FUNDAMENTO ÚLTIMO, DA FÉ, AS SUAS RAÍZES DERRADEIRAS, EMBORA NÃO DE UMA FORMA COMPREENSIVA, OU TOTALMENTE COMPREENSIVA – ISSO NEM NO CÉU. A Sapiência, que é o mais elevado dos Dons, envolve-nos na raiz mais profunda do Mistério de Deus, ilustrando-nos sobre as razões últimas pelas quais é Adorado, Amado e Glorificado, sobre todas as coisas, em absoluto. Todavia, este Dom do Espírito Santo, como aliás todos os outros, são simultâneamente de razão Sobrenatural especulativa e razão Sobrenatural prática; e a explicação reside no facto de os Dons não constituírem uma acção das nossas faculdades, ainda que sustentadas pela Graça de Deus, mas serem antes cogitações, afectos e volições, estritamente Sobrenaturais, que o próprio Deus deposita nas nossas mesmas faculdades, as quais constituem assim a sua sede, não o princípio, dessas mesmas cogitações, afectos e volições, que assim são enxertadas em nós – sem nós. Por este quadro conceptual se compreende como as virtudes são mais nossas, mas aproximam menos de Deus; ao passo que os Dons são menos nossos, mas aproximam mais de Deus. Mas o Dom da Sapiência incluirá a Caridade? Evidentemente que sim, não a Caridade como virtude, mas como Dom, em nós depositado por Deus.

A criatura espiritual, Anjo e Homem, em estado de Graça, cumpridor dos Mandamentos, reconhecer-se-á de fundamentação autónoma ou heterónoma? Em princípio, todo aquele que procura haurir de si mesmo as coordenadas da razão prática, e até mesmo da razão especulativa, costuma designar-se por seguidor de uma moral autónoma. Assim, por exemplo, Kant (1724-1804), que no que concerne à Moral, invertia, de alguma forma, os seus padrões da razão teórica, considerando o ente pensante um “Nómeno” absoluto de razão prática, agindo sempre em função de realidades objectivas e universais; só que lamentàvelmente, todo o processo Kantiano é PERFEITAMENTE IMANENTE, LOGO A SUA OBJECTIVIDADE É ILUSÓRIA, POIS QUE LANÇOU À SENTINA DA HISTÓRIA TODA A FILOSOFIA ESCOLÁSTICA, E TODAS AS CONCEPTUALIZAÇÕES CLÁSSICAS.

A sacrossanta moral católica tem sido sempre denominada uma moral heterónoma, pois totalmente dependente de Deus e da Lei Eterna. Contudo, uma posição medularmente Tomista, permite, de algum modo, superar, transcendentalmente, esta dicotomia.

É conhecido, e tal é a posição de São Tomás, como a relação entre criatura e Criador, DO PONTO DE VISTA DA CRIATURA, É TRANSCENDENTAL; porém a mesma relação, DO PONTO DE VISTA DO CRIADOR, É DE RAZÃO; tal sucede, precisamente, porque o ser do mundo É VIRTUALMENTE EM DEUS; adicionar o ser do mundo a Deus, é como associar a sabedoria de um livro à do seu autor. Logo, a criatura, permanecendo sempre criatura, realmente distinta do seu Criador, não acrescenta ser a Deus; manifesta, sim, extrìnsecamente, contingentemente, as perfeições Divinas como existentes; pois Deus não existe, Deus É – as criaturas, essas sim, EXISTEM. A acção de criar consubstancia-se, exactamente, em tornar existente aquilo que É. Nesta mesma linha de pensamento, a Lei Divina não constitui um capricho arbitrário, porque intrìnsecamente conforme à Verdade e Bem absoluto. A finitização, a pluralidade, a mutabilidade, constituem atributos do ente finito; os Anjos, embora infinitamente longe de Deus, possuem, contudo, um estatuto ontológico muito superior ao dos homens, logo a sua mutabilidade é muito menor que a dos homens, não dependem do tempo, nem do espaço, embora até ao fim do mundo sejam, EXTRÌNSECAMENTE, medidos e limitados pelo espaço e pelo tempo do mundo.

Consequentemente, e consoante os Primeiros Princípios da moral, na medida em que são ser, constituem, na nossa alma, e na Ordem Natural, um reflexo da Lei Eterna, que é um Princípio de Ordem, Incriado, de toda a natureza, criada ou possível; tais Princípios são Sobrenaturalmente ratificados pela Revelação e impostos pela Santa Madre Igreja, Custódia da mesma Revelação. Daqui se infere, que a verdadeira e objectiva autonomia da consciência pessoal é indissociável de uma heteronomia real. Porque a Lei de Deus não é imposta como as leis dos homens, mecânicamente, heterogèneamente, com uma coercividade física; não, a Lei de Deus, é Lei dos homens, quer eles queiram, quer não; porque a Lei de Deus é, transcendentalmente, Lei do Ser, aplica-se sempre, de uma forma, ou de outra. Não há uma lei do homem e uma lei fora do homem; nada pode evadir-se da Providência Divina. Neste quadro conceptual, é possível, e até necessário, superar o binómio autonomia-heteronomia, NA MEDIDA EM QUE SÓ HÁ UMA LEI, QUE É A LEI DO CRIADOR; É UMA LEI QUE NÃO VEM DE FORA, PORQUE NADA HÁ FORA DO SER, E A CRIATURA TAMBÉM É SER, CONQUANTO CONTINGENTE, E NADA ACRESCENTA AO SER DO CRIADOR.

Os paladinos do referido binómio assim procedem porque concebem Deus como uma espécie de entidade extra-terrestre, tipo ficção científica, porque não possuem qualquer sombra de verdadeira filosofia, ou de Doutrina Cristã.

Quando o homem subverte a Lei do seu Criador, na realidade toma essa Lei, com todos os seus contornos, mas em sentido NEGATIVO INFERNAL. É aliás o que acontece com a seita conciliar, a seita anti-Cristo, que até nas suas anti-canonizações, demonstra perfeitamente o negativo infernal dos seus contornos.

Os santos são portanto totalmente heterónomos na medida em que, na perfeição Sobrenatural da sua consciência moral – SÃO AUTÓNOMOS. Os demónios (Anjos e Homens), por mais que queiram ser autónomos, JAMAIS PODERÃO ILUDIR E TORPEDEAR A METAFÍSICA E TRANSCENDENTAL HETERONOMIA DA SUA CONDIÇÃO.

O que os modernistas de todas as espécies pretendem É LIBERTAR-SE DE DEUS, POR ISSO FALAM TANTO EM LIBERTAÇÃO; A DITA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO CONSTITUI, NA REALIDADE, UMA ANTI-TEOLOGIA DA MORTE DE DEUS; E OS FALSOS PAPAS QUE A PREGAM SÃO, PRECISAMENTE, PAPAS DA MORTE DE DEUS.

Não deve existir para a criatura uma verdadeira heteronomia, no sentido em que recepcione a Lei Divina como um peso que lhe é estranho; de modo nenhum, porque a mesma criatura, qualquer criatura, encontra-se, como referimos, em relação transcendental com Deus, todo o seu ser de criatura É VIRTUALMENTE EM DEUS. DEUS NÃO É, NEM PODE SER, UM OUTRO.

A mais perfeita prova de que um peregrino neste pobre mundo possui a Graça Santificante e a Caridade, é quando ele considera a Lei do seu Senhor um verdadeiro bálsamo para a sua existência, bem como uma Luz para a sua inteligência; e não um estorvo para os seus desígnios; pois que a medida Sobrenatural da sua felicidade terrena é, e só pode ser, perfeitamente homogénea com a da sua felicidade Eterna – E ESSA FELICIDADE, É DEUS E SÓ DEUS.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 10 de Outubro de 2015

3 Respostas para “AUTONOMIA E HETERONOMIA NA SACROSSANTA MORAL CATÓLICA

  1. Jacob outubro 12, 2015 às 4:02 pm

    “A mais perfeita prova de que um peregrino neste pobre mundo possui a Graça Santificante e a Caridade, é quando ele considera a Lei do seu Senhor um verdadeiro bálsamo para a sua existência, bem como uma Luz para a sua inteligência; e não um estorvo para os seus desígnios; pois que a medida Sobrenatural da sua felicidade terrena é, e só pode ser, perfeitamente homogénea com a da sua felicidade Eterna – E ESSA FELICIDADE, É DEUS E SÓ DEUS.”

    Caro Alberto,

    É possível que a Graça Santificante e a Caridade coexistam com a incerteza e mesmo com um inconforto do espírito, ou desânimo, que venham desta incerteza?

    Nós aprendemos – através da leitura do catecismo, das Escrituras, dos ensinamentos dos santos, etc – que a Lei do Senhor é, como se disse, bálsamo para a existência e Luz para a inteligência. Consideramos isso sem a menor sombra de dúvida, e esforçamo-nos para viver de acordo.

    Mas a atual crise da Igreja deixa-nos numa situação em que nem sempre sabemos se estamos fazendo a vontade do Senhor apropriadamente. E dessa incerteza nasce um desânimo. Outrora sempre havia uma autoridade que nos dizia infalivelmente: está fazendo certo; continue fazendo assim. Ou: está fazendo errado; corrija-se. Tal autoridade não existe hoje. Daí a ficarmos tateando no escuro, incertos e desconfortáveis sobre o que fazemos, POIS QUEREMOS AGRADAR A DEUS NOSSO SENHOR ACIMA DE TUDO.

    Um exemplo: encontra-se hoje muitos homens de notável cultura teológica falando divergentemente sobre a validade dos sacramentos do clero modernista e a atual situação da Igreja. Um diz: o sacramento é inválido. Outro diz: apesar das heresias, o sacramento é válido. Um terceiro: o sacramento é válido, mas não é recomendável; melhor será recebê-lo numa determinada organização “tradicionalista”.

    Seguramente alguém aí está com a verdade. Não é minha intenção aqui perguntar qual – porque já conheço o que os escritores daqui tem a dizer.

    A questão é: como uma pessoa sem vocação intelectual poderá se assegurar em meio a tanta confusão? Na verdade, sabemos que a maioria dos fiéis sempre foi analfabeta. E sempre puderam salvar-se, pois bastava seguir as ordens do pároco da aldeia. Mas quem é a autoridade hoje? Como disse, alguém ali no meio está com a verdade, sim. Mas do ponto de vista do fiel sem vocação intelectual, fica difícil determinar a quem seguir, pois todos defendem teses com refinada erudição, e afirmam estar ao lado da Tradição, ao mesmo tempo em que condenam as demais.

    Em suma, é possível que a Graça Santificante habite numa alma aflita diante de tanta incerteza?

    • Pro Roma Mariana outubro 13, 2015 às 2:45 pm

      Sem dúvida que é possível, até porque a Graça Santificante, se por um lado faculta uma grande felicidade Sobrenatural, por outro, coexiste com enormes sofrimentos, sobretudo de ordem moral, nomeadamente o abandono, para já não falar dos ataques do demonio.
      O grande castigo colectivo da Humanidade é precisamente esse: A ausência institucional de um Padrão infalível de Verdade e Bem; o abandono crudelissimo ao monstro relativista.
      As divergências entre doutores tradicionalistas, às vezes são legítimas, outras vezes não. Muitos homens que no passado foram fiéis católicos, quando eram jovens, com o correr dos anos “passaram de cavalo para burros” e perderam a fé; já só querem uma única coisa: Entenderem-se com o mundo; ficarem bem na fotografia do mundo.
      Evidentemente, que a tais homens não podemos dar qualquer crédito. Se um homem de estudos nos vem dizer que a Igreja conciliar é a verdadeira Igreja Católica e seus papas são verdadeiros Papas – é evidente que esse homem não só perdeu totalmente a Fé, como no-la quer fazer perder também a nós.
      Saudações em Jesus, Maria e José.
      Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral.

  2. Jacob outubro 12, 2015 às 7:02 pm

    Aproveito para destacar uma postagem de 2014 que trata do chamado “Milagre Eucarístico de Buenos Aires”:

    https://promariana.wordpress.com/2014/06/06/o-milagre-eucaristico-de-buenos-aires-enigma-crucial/

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