Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

O ESTADO CATÓLICO E O ESTADO POSITIVO

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Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa Pio XI, em passagens da encíclica “Quas Primas”, promulgada em 11 de Dezembro de 1925:

«A celebração desta Festa de Cristo Rei, que se renova todos os anos,  será também uma admoestação para as Nações que o dever de adorar pùblicamente a Cristo, e de Lhe prestar obediência, diz respeito, não sòmente aos particulares, mas também aos magistrados e governantes: Lembrar-lhes-á o Juízo final, NO QUAL CRISTO, AFASTADO DA SOCIEDADE, OU MESMO SÓMENTE IGNORADO E DESPREZADO,  vingará acerbamente as tantas injustiças recebidas, exigindo a Sua Dignidade Real que a sociedade inteira se ajuste aos Mandamentos e aos Princípios Cristãos, quer ao estabelecer as Leis, quer na administração da Justiça, quer finalmente ao formar o ânimo dos jovens com a sã Doutrina e na Santidade dos costumes.

Além disso é maravilhoso dizer quanta força e virtude os fiéis poderão tirar da meditação destas coisas, para modelar o seu espírito, segundo as verdadeiras normas da vida cristã. Porque se a Cristo Nosso Senhor foi dado todo o poder no Céu e na Terra; se todos os homens, por haverem sido remidos com o Seu Sangue, estão sujeitos, por novo título, à Sua Autoridade; e se, finalmente, esse poder abrange toda a natureza humana, vê-se claramente que não há nenhuma faculdade que se possa subtrair a tão alta Soberania. É pois necessário que Nosso Senhor Jesus Cristo reine na inteligência do homem, o qual, com perfeita submissão, deve prestar um consenso firme e constante às verdades reveladas e à Doutrina de Cristo; é necessário que reine no coração, o qual, apreciando menos os afectos naturais, deve amar a Deus sobre todas as coisas, e estar unido ùnicamente a Ele. É necessário que reine no Corpo e nos Seus membros, que como instrumentos, no dizer do Apóstolo São Paulo, “como armas de Justiça oferecidas a Deus” (Rom 6,13), devem servir para santificação interna da alma. Se essas coisas serão propostas à consideração dos fiéis, eles mais fàcilmente serão levados à perfeição. Queira o Senhor, veneráveis irmãos, que todos aqueles que estão fora do Seu Reino, desejem e acolham o Jugo suave de Cristo, e todos nós que por Sua Misericórdia somos Seus súbditos e filhos carreguemos este jugo, não de má vontade, mas com gosto, com amor, santamente, e que de nossa vida conformada às Leis do Reino Divino, recolhamos frutos alegres e abundantes, e julgados por Cristo como servos bons e fiéis, nos tornemos participantes do Reino Celeste, da sua felicidade Eterna e Glória.»

 

A mentalidade, ou “forma mentis”, positivista só consegue haurir conhecimentos daquele género de realidade que se impõe por si mesma às faculdades humanas, medindo-as, quer isso agrade ou não ao sujeito pensante, OU SEJA, AQUELA ZONA DA REALIDADE EM QUE O OBJECTO REPRESENTADO COINCIDE NECESSÀRIAMENTE, QUER COM A REPRESENTAÇÃO, QUER COM O OBJECTO SIGNIFICADO. Difere da mentalidade céptica, pois que esta nem mesmo obtém conhecimentos da actividade da zona de realidade atrás referida, que é de carácter psico-empírico e moderadamente racional, mas apenas dos dados puramente sensoriais. O dado empírico difere do dado sensorial na exacta medida em que o primeiro corresponde, na filosofia Tomista, ao sensível segundo, actuado pela cogitativa, e portanto já integra algo de intelectual, ao passo que os dados sensoriais se esgotam totalmente na organicidade vital, abaixo da cogitativa, ou quase totalmente, visto que no homem, por mais que se desça, encontrar-se-á sempre um mínimo de intelectualidade; e por mais que se ascenda, haverá sempre, nem que seja só um mínimo de materialidade. O positivismo difere do empirismo, enquanto o primeiro não recusa obter conhecimentos de raiz intelectual e racional,DESDE QUE, INSISTE-SE, ENTRE O OBJECTO REPRESENTADO, A REPRESENTAÇÃO, E O OBJECTO SIGNIFICADO NÃO SE POSSA INTERPOR O ACTO DE SER DO SUJEITO, ao passo que o empirista se restringe ao mundo da experiência, ainda que de forma mais ou menos extensa, e sem necessidade de se sentir rigorosamente medido pela mesma experiência, pois de algum modo pode fazer sentir o seu acto de ser entre a representação, o objecto representado e o objecto significado. No racionalismo, por oposição ao empirismo, a fonte de obtenção de conhecimento reside preferencialmente na operação intelectual e racional, mas com sentido de introdução do próprio acto de ser, e sem excluir a experiência.  

E o Tomismo, como é que fica no meio de tudo isto? O verdadeiro tomista, na Ordem Natural, deve professar um realismo metódico, não pode restringir os seus conhecimentos ao território onde o objecto representado, a representação, e o objecto significado coincidem, não, tem que ir mais além, de forma a que “Ex ratione e cum voluntate” esteja habilitado a ascender aos “Preambula Fidei” e “Ex voluntate e cum ratione” obtenha, pela Graça, o acesso à Fé Teologal. Em caso algum pode excluir a experiência, pois Deus criou o mundo visível e o mundo invisível, os corpos e os espíritos, embora, evidentemente, estes últimos seja mais nobres, porque reflectindo mais acuradamente as Divinas Perfeições; além disso, Deus Nosso Senhor submeteu à indústria humana, iluminada pela Fé, o estudo da constituíção íntima do mundo visível. O facto das provas da existência de Deus e da imortalidade da alma ultrapassar essencialmente o campo positivo, nas as torna menos objectivas, muito pelo contrário, são medularmente mais objectivas. Positivo não é sinónimo, em caso algum, de objectivo. A Fé Sobrenatural não é, nem pode ser uma realidade positiva, mas é infinitamente mais objectiva do que as realidades positivas. Se as realidades da Fé Teologal fossem positivas, então o crente já não seria crente, nem possuiria mérito algum, seria antes um físico-matemático estudando ciência.

Ao contrário do que se possa pensar,o marxismo não constitui um positivismo, na exacta medida em que absorve, ou julga absorver, conhecimentos de zonas não positivas da realidade; por isso o marxismo é dogmàticamente ateu, e não relativista, nem liberal, mas em negativo infernal, ao passo que um positivismo estritamente coerente só pode ser agnóstico.

As bases do Estado positivo foram projectadas no chamado Renascimento, em que campeou o mais desenfreado naturalismo, e este destrói não apenas a Religião Sobrenatural, mas igualmente grande parte da Religião Natural. E a razão profunda para tal filia-se no facto desse mesmo naturalismo constituir uma reacção vindicativa de obliteração contra uma estrutura hierárquica da sociedade fundamentada no realismo metafísico e na vida Sobrenatural da Graça Divina; tal produz uma chaga tão profunda que o próprio naturalismo acaba sendo anti-natural.

O protestantismo, com as suas propostas anárquicas, que de facto colocavam Deus ao serviço do homem, e este no lugar de Deus, derrubaram os grandes princípios metafísicos e teológicos, com gravíssimas repercussões sociais, como por exemplo a revolta dos camponeses na Alemanha, a secularização dos principados neste país, e finalmente a guerra dos trinta anos, que determinou a denominada “Paz” de Vestefália (1648)- condenada pelo Papa Inocêncio X na Bula “Zelus Domus Dei”- na qual o mesmo Protestantismo se viu reconhecido como religião de Direito Público do Império, e o Romano Pontífice se viu ostensivamente excluído de todos os negócios temporais europeus.

O século XVII foi desastroso, sofrendo a filosofia as consequências devastadoras do protestantismo; Descartes (1596-1650) foi o Lutero da filosofia, transformando Deus num fantasma indeterminado ao qual se não pode, de maneira alguma, rezar; Espinosa(1632-1677), dito panteísta, mas na realidade ateu, profundamente liberal em política, tornou a vida uma coisa sem sentido. Em Inglaterra, o liberalismo, o sensorialismo, o deísmo e o positivismo evoluíam, com Cherbury(1583-1648), Locke (1632-1704), e Hume, no sentido do utilitarismo, que é uma forma de epicurismo social; a Igreja Anglicana, profundamente agnóstica, era, o que ainda é actualmente – UM ORNAMENTO DO ESTADO.

Mas foi o século XIX que operou a consagração do Estado Positivo, isto é, AQUELE QUE JUSTIFICA O SEU FUNDAMENTO, A SUA EXISTÊNCIA, A SUA ACÇÃO, E A SUA PRÓPRIA ESTRUTURA, APENAS NUM CONTEXTO POSITIVO, ISTO É, NAQUELE CAMPO DA REALIDADE EM QUE O OBJECTO REPRESENTADO COINCIDE COM A REPRESENTAÇÃO E COM O OBJECTO SIGNIFICADO; FECHANDO A PORTA A TODO O CONTEXTO ONDE SE EXERÇA O ACTO DE SER, TRANSCENDENTAL E OBJECTIVO, DOS HOMENS. Neste quadro conceptual, embora o Estado positivo seja, em rigor, agnóstico, é contudo considerado ateu, pois as consequências práticas do ateísmo são absolutamente idênticas às do agnosticismo. O Estado positivo é relativista  laico e liberal, embora em certos casos possa ser paternalísticamente autoritário e rejeitar a democracia individualista, como por exemplo o Estado Novo Português (1926-1974). Para o Estado Positivo só as conclusões científicas são válidas, só estas são susceptíveis de comandar a administração pública, bem como de fomentar ideais políticos colectivos que constituam a razão última do convívio nacional; todavia, tais ideais serão, necessàriamente, sempre terrenos e humanos. A religião, para o Estado Positivo, é tratada, segundo as coordenadas do utilitarismo social, como qualquer outra realidade que possa trazer felicidade às pessoas, NUNCA COMO UMA REALIDADE OBJECTIVA, TRANSCENDENTE E OBRIGATÓRIA, POIS TAIS CONCEITOS NÃO SÃO POSITIVOS. A religião católica é frequentemente expulsa da esfera pública, e apenas tolerada dentro das igrejas ou no lar doméstico; mesmo nos casos mais favoráveis, como no Estado Novo Português, é sempre utilizada como um meio de coesão político social, QUE TAMBÉM É, SEM DÚVIDA, MAS É INFINITAMENTE MAIS DO QUE ISSO.

O Estado Católico é, assim, intrìnsecamente oposto e inimigo do Estado Positivo, visto, de certo modo, começar onde este último termina. Evidentemente, o Estado Católico, em si mesmo sociedade perfeita em sentido deficiente, possui como objecto directo e imediato a conservação temporal da unidade política, dispondo para tal de plena autonomia; todavia, deve assim proceder SEGUNDO UMA INTENÇÃO E UMA FINALIDADE FORMALMENTE SOBRENATURAL, AS QUAIS RECEBE DIRECTAMENTE DA SANTA MADRE IGREJA. Consequentemente, quando a seita saída do Vaticano 2 produz asserções no sentido de que o Estado não pode reconhecer formalmente a Verdade, demonstra bem o seu ateísmo. E isto é tanto mais verdade quanto é a própria Santa Mãe Igreja, que na Pessoa do Sucessor de Pedro – que segundo o Dogma Católico definido, CONSTITUI COM NOSSO SENHOR JESUS CRISTO UMA SÓ CABEÇA DO CORPO MÍSTICO – possui a plenitude de todo o poder espiritual e temporal;pois quem pode o Sobrenatural, pode também o Natural, em ordem ao Sobrenatural; contudo, em circunstâncias ordinárias, e segundo a vontade do Senhor, delega o poder temporal em César, braço secular da Igreja, que o deverá usar sob a vigilância e para o bem da mesma Santa Madre Igreja.

Nesta perspectiva, a lógica positiva (não positivista) constitui apenas uma pequena parte das funções do Estado Católico, e justamente a sua parte material, pois que a forma substancial, que não possui por si mesmo, mas recebe da Mãe Igreja, Sociedade perfeita em sentido eminente, é a Glória de Deus e a Salvação das almas.

Ao instituir a Festa de Cristo Rei, em 1925, O Papa Pio XI, cumprindo a sua função apostólica, levantou o seu clamor contra o estado positivo, em todas as suas versões, mais ou menos liberais, mais ou menos democráticas; todavia o essencial nesse tipo de Estado ERA IMPEDIR INSTITUCIONALMENTE O ACESSO A DEUS E AOS MISTÉRIOS SOBRENATURAIS. Para Pio XI, operada essa destituição da Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, tudo seria então possível, todas as aberrações, incluindo, e isto Pio XI já não contemplou neste mundo, o ver os seres humanos, criados por Deus e redimidos por Nosso Senhor Jesus Cristo, tratados como uma espécie zoológica como outra qualquer. Se Pio XI tivesse vivido cá na Terra estes últimos noventa anos, de uma coisa, decerto, não duvidaria: O ANTI-CRISTO ESTÁ SENTADO NO LUGAR DE DEUS.

Mas não olvidemos: A Cruz vencerá, porque já venceu e é Eterna. Os Bens supremos, os Bens Incriados, são Eternos, e nós só levaremos deste mundo o que é Eterno, o que foi soberanamente fecundado pelo Amor Sobrenatural a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor de Deus.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 21 de Outubro de 2015

 

2 Respostas para “O ESTADO CATÓLICO E O ESTADO POSITIVO

  1. Jacob outubro 24, 2015 às 6:04 pm

    É incalculável a quantidade de luz que deixou-se de espargir sobre o mundo após a usurpação modernista.

  2. Pro Roma Mariana outubro 25, 2015 às 9:31 am

    É de fato incalculável o bem que deixou de ser feito pelo Cristianismo em favor dos homens e dos povos. De modo que quando o Secretário geral da ONU diz o que sem essa instituição o mundo estaria pior, a pergunta real é sobre o que ela fez em relação ao bem maior do Cristianismo? Como o combateu, então o que a ONU fez desde há 70 anos foi de impedir o espargimento do bem maior; uma usurpação de sinal agnóstico, modernista e satânico, aplaudida pelos «papas conciliares».

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