Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

PRESENÇA DA PADROEIRA NA PERSEGUIÇÃO DA IGREJA EM PORTUGAL

A presença da perseguição à Igreja pode ocorrer com vários modos incertos hoje, como ocorreu em Portugal no passado.

Sempre, porém, na certeza da Presença de Maria, sua maternal Padroeira. Isto ficou provado na história deste País abençoado.

*

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A Padroeira do Reino

A Lei da Separação e as repetidas perseguições à Igreja divorciaram os católicos portugueses do novo regime, logo nos seus primeiros dias. Não era que à Igreja repugnasse a República, enquanto sistema político, visto que os fins do catolicismo em nada se opõem a essa forma de governo dos povos. E diz-se, até, que D. António Barbosa Leão, que foi Bispo do Porto, afirmara, um dia, não dar a ponta de um cigarro pela Monarquia derrubada em 1910… Mas, em Portugal, a República nasceu de um conluio contra a Igreja e tinha como principal objectivo, consoante ficou demonstrado, eliminar o catolicismo em duas gerações.I

Por isso é que os Bispos reagiram, logo em 1911, e o Sumo Pontífice publicou, em 24 de Maio desse mesmo ano, a famosa encíclica «Jandudum in Lusitania», prevenindo os fiéis contra os perigos que corriam[1]. Por todo o país se desenvolveu, então, uma vigorosa reacção, aparecendo jornais católicos destemidos, no rastro da Palavra, vindo a destacar-se a Liberdade, do Porto, e a Ordem, de Lisboa, cuja acção, apoiada por dezenas de pequenas publicações provinciais, muito concorreu para a profunda modificação que a República sofreu, em matéria religiosa, como adiante se verá. Ao mesmo tempo, florescia, sob a onda de violências e intolerâncias do regime, uma plêiade valiosa de intelectuais reaccionários, que desde as cátedras de Coimbra às humildes tribunas dos círculos católicos de operários e estudantes defendiam intemeratamente os direitos de Deus e a liberdade religiosa, indiferentes às vaias da multidão e aos assaltos dos sicários. Paralelamente, embora sem ligação política com os católicos, surgia a contra-revolução monárquica, que durante anos perturbou a marcha da República, muito contribuindo para que ela fosse perdendo os ímpetos iniciais e verificando que, conforme dissera o Dr. Alfredo de Magalhães, a província, sobretudo o norte, estava muito longe de acompanhar Lisboa no seu delírio jacobino.

Por outro lado, o partido republicano dividiu-se, logo nas Constituintes, em várias tendências, que vieram a organizar-se, com o andar dos tempos, numa série de partidos irreconciliáveis que tornaram impossível a marcha do regime sob a fórmula primitiva.

Destes partidos, alguns, como o Unionista, de Camacho, e o Evolucionista, de António José de Almeida, evolucionaram para a direita, reagindo contra a intolerância jacobina do Partido Democrático, chefiado por Afonso Costa e que era, na expressiva frase de um seu marechal, «a espinha dorsal do regime». Logo nas Constituintes, o Governo Provisório foi atacado por «algum excessos escusados» da Lei da Separação, tendo o prestigioso deputado Dr. Eduardo de Souza interpelado energicamente o governo sobre o caso pitoresco e significativo dos Inglesinhos. Havia o governo proibido, como atrás se disse, que os padres saíssem à rua envergando hábitos talares, mas os Inglesinhos, padres católicos de um seminário britânico estabelecido em Lisboa, continuaram a passear nas ruas da capital com os hábitos da ordem, agitando ao vento suas berrantes fitas vermelhas, sem que nada nem ninguém ousasse contrariá-los. Perguntava, então, com toda a lógica, o Dr. Eduardo de Sousa, por que motivo aqueles podiam andar assim e os portugueses eram obrigados a vestir-se à vontade do governo? Não foi o governo capaz de responder suficientemente ao fogoso deputado cuja observação ficou pairando sobre as Constituintes como uma ironia sangrenta[2]. Dois anos depois de implantada a República, já os seus mais expressivos elementos, a começar pelo «fundador» Machado Santos, se agridem mutuamente, numa fúria sem limites, cada grupo acusando os outros de desvirtuarem o sonho da República. O Partido Democrático, dispondo de enorme maioria no Parlamento, conduzia o regime à vontade, mantendo-se fiel, sob a regência de Afonso Costa, aos princípios maçónicos iniciais. Sofreu, por isso, a oposição geral, desde os monárquicos e católicos aos da ala conservadora do regime, devendo-se salientar a energia e inteligência com que Afonso Costa enfrentou as maiores campanhas e conseguiu que o seu partido governasse ininterruptamente enquanto a República conservou a feição inicial.

No decurso desta luta sem precedentes na história política do país, os democráticos entraram em todas as violências, de norte a sul, não só contra os adversários políticos mas contra a Igreja, que se viu reduzida às mais tristes condições, raro sendo o dia em que se não registassem assaltos aos templos, violências contra os párocos, bombas e tiros nas cerimónias cultuais e assembleias de propaganda católica, sem contar com o elevado número de sacerdotes que povoavam os presídios, vexados e escarnecidos, a pretexto geralmente de que faziam propaganda monárquica[3].

Quatro anos após a proclamação da República a situação do país era de tal modo grave, sob o ponto de vista da ordem pública, que tudo indicava as vésperas de uma terrível guerra civil. Então, o primeiro presidente da República, Dr. Manuel de Arriaga, homem grave e responsável, resolveu intervir energicamente, sem dúvida apoiado pela direita republicana, pondo termo às violências do Partido Democrático, já publicamente acusado, por todos os outros grupos do regime, de haver divorciado a República do país com seu jacobinismo implacável.

Em Janeiro de 1915, o Chefe do Estado encarregou o velho general Pimenta de Castro de organizar um governo extra partidário, com a missão de pacificar a família portuguesa, fechando o Parlamento tumultuoso e governando em ditadura até os ânimos amainarem e o regime se reconciliar com a Nação.

Foi um alívio de norte a sul do país, porque o novo presidente do Governo, apoiado por Camacho, António José de Almeida, Machado Santos, e quase todos os fundadores da República caídos já num conservantismo realista, teve a coragem de afirmar que sendo a grande maioria do país constituída por católicos, não se podia negar-lhes os direitos indispensáveis à prática da sua fé. Foi mais longe o Presidente, dizendo que os próprios monárquicos, até aí proibidos de existirem legalmente, poderiam viver na sua pátria como os demais concidadãos, sem prejuízo dos direitos do regime.

Durou cinco meses este governo singular, que marca a primeira reacção contra a intolerância maçónica, e veio a acabar, em 14 de Maio, num mar de sangue que inundou Lisboa e trouxe ao Tejo, a toda a força, cruzadores ingleses e espanhóis que julgavam o país definitivamente perdido! A força do Partido Democrático, derivada da organização da Carbonária, era ainda muito grande, sobretudo nos quadros inferiores do Exército e da Armada. De modo que o Presidente da República foi-se embora com o Governo, e os democráticos assumiram de novo a gerência do país, elegendo Chefe de Estado próprio[4].

Mas os cinco meses de ditadura sem partido, apesar de rápidos e atribulados, rasgaram no horizonte nacional clarões de esperanças e deram grandes ânimos aos católicos que durante eles respiraram melhor, pela primeira vez se fazendo, após o 5 de Outubro, procissões nas ruas e caminhos das aldeias, aliás acompanhadas do tiroteio e das bombas com que a Carbonária procurava suprimir as liberdades concedidas pelo governo.

Temos ainda alguma ideia pessoal, revivendo os dias já longínquos da infância, do fervor com que nas igrejas nortenhas se implorava à Virgem Maria, Padroeira de Portugal, que aplacasse a ira da impiedade, restituindo a paz e a liberdade a esta terra que fora d’Ela. Pela mão de minha mãe, menino e moço cheio de curiosidades, ia à igreja da minha freguesia, todas as manhãs de Maio florido, assistir ao mês de Maria, que é a cerimónia religiosa mais grata e delicada arquivada entre as recordações da minha infância. Vejo ainda diante dos meus olhos aquele altar doirado e luminoso, coberto das flores mais belas e perfumadas, onde a lindíssima imagem de Nossa Senhora da Conceição parecia sorrir à minha inocência com toda a graça e ternura de uma mãe abençoando o filho pequenino. Gozo ainda o perfume inebriante das rosas ali postas pelas mãos mais delicadas da mocidade do meu tempo, e até conservo viva a doce transcendência do fumo do incenso, subindo mansamente à abóbada da igreja enquanto da cera virgem das velas se desprendiam aromas subtis dos prados e charnecas. E ouço a voz inconfundível de minha mãe, ensinar-me, docemente, aos ouvidos enlevados: «Senhora da Conceição, salvai Portugal!».

Este quadro, que não recordo sem emoção e lamento não poder reproduzir em toda a sua beleza sem igual, repetia-se, naquelas horas conturbadas, de norte a sul do país, em todas as igrejas urbanas e ermidinhas dos montes. Perante as calamidades que afligiam o país, ameaçando extinguir-lhe a própria fé, desenvolvera-se de tal forma o culto da Imaculada, que eu suponho jamais se ter orado com tanto fervor e devoção à Mãe de Deus em qualquer ponto do globo.

Nossa Senhora da Conceição, refúgio dos aflitos, tem na história de Portugal um lugar e um papel que nenhum povo do mundo até hoje lhe atribuiu. Enquanto os políticos procuram impiamente extinguir a religião em duas gerações, vejamos de que modo Portugal prestou culto, durante séculos, à Virgem, Nossa Senhora.

II

O culto da Virgem Maria, em Portugal, remonta às vésperas do nascimento do Reino, tendo o Conde D. Henrique e sua mulher D. Teresa mandado erguer em sua honra a capela e igreja de Santa Maria de Guimarães. Terras de Santa Maria se chamaram os primeiros distritos que ouviram o nome de Portugal, e a cidade do Porto, mal entrou na posse definitiva do novo reino, ficou sendo a cidade da Virgem, por quem os fundadores do Condado Portucalense nutriam a maior devoção e D. Afonso Henriques veio a ter o mais acrisolado culto[5]. Segundo uma doce lenda apanhada pelos cronistas do século XV, Nossa Senhora curou D. Afonso Henriques, que nascera «tolheito das pernas», dizendo que o sarava porque seu Filho dele precisava para a defesa da fé nestes domínios, facto assinalado em Resende com o mosteiro de Santa Maria de Carquere. Descendo de Coimbra, à conquista de Santarém, animado pelos frades de Cister, D. Afonso Henriques promete erguer um mosteiro à Virgem Maria se aquela cidade cair no seu domínio, assim vindo a fundar-se o sumptuoso mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, que foi um dos maiores que a Ordem teve em todo o mundo. Conquistada Leiria, erigiu o nosso primeiro Rei uma igreja no seu castelo, lá entronisando uma imagem de Nossa Senhora da Penha, que deve ser a primeira mandada fazer por D. Afonso Henriques. Quando Lisboa foi limpa de infiéis, transformou-se a mesquita numa igreja consagrada à Virgem Santa Maria, e o convento de S. Vicente também foi posto sob a sua invocação[6]. No hospital dos portugueses, improvisado durante o cerco da cidade, colocou D. Afonso Henriques uma imagem de Nossa Senhora, que ficou sendo da enfermaria, e que o Rei nunca mais abandonou, dela se dizendo coisas tão famosas que o Papa Pio IV veio a referir-se-lhe, em 1561, por modo deveras grato à memória do monarca. Em 1218, D. Afonso II doa o dízimo do que a Coroa recolhia nas terras de Leiria a Santa Cruz de Coimbra «por devoção a Nossa Senhora e remédio da sua alma e da de seus filhos». D. Sancho II «era em extremo devoto da Virgem Maria» e fundou o Convento de S. Domingos de Lisboa onde veio a iniciar-se a devoção a Nossa Senhora do Rosário, em Portugal. D. Afonso III foi particularmente devoto de Nossa Senhora da Escada, tendo sido no seu reinado que o poético nome de Maria, até aí evitado no baptismo, veio a generalizar-se como homenagem à Mãe de Deus, dando o monarca o exemplo pondo a uma filha esse nome ao depois tão popular[7].

Quanto ao culto da Imaculada Conceição, envolvendo já a fé no dogma que só no século XIX havia de definir-se, é histórico que ele começa, em Portugal, no reinado de D. Diniz, cuja esposa, Rainha Santa Isabel, nutria, ao que parece, pela Virgem Maria particularíssima devoção. Segundo os documentos conhecidos, foi o Bispo de Coimbra, D. Raimundo, que ordenou, em 1320 que se fizessem festas anuais, na Sé daquela cidade, no dia 8 de Dezembro, «no qual a Virgem gloriosa Santa Maria foi concebida». Nove anos depois, o Bispo de Lamego doava aos cónegos da Colegiada de Guimarães umas terras, com a condição de todos os anos promoverem, em 8 de Dezembro, a festa da Conceição de Santa Maria. Por este mesmo tempo fundava a Rainha Santa Isabel a capela da Conceição na Igreja do convento da Trindade, em Lisboa; e, a partir de 1363, os Franciscanos portugueses comemoravam a Conceição de Maria, de cujo dogma foram os grandes pioneiros. Segundo Brandão, entre as trovas «à maneira provençal» que fez El-Rei D. Diniz, conta-se «um cancioneiro que escreveu em louvor de Nossa Senhora, melhorando neste assunto os talentos que em outros empregos tinha divertido». E ainda que Teófilo Braga conteste a paternidade desses versos, que supõe de origem espanhola, não provou o suficiente para se negar a D. Diniz os direitos de autor. Desde este mesmo século a Universidade de Coimbra ia, por deliberação própria, assistir todos os anos, nos dias 7 e 8 de Dezembro, às vésperas e missa da festa de Nossa Senhora da Conceição, prática esta que D. Manuel I muito louvou e confirmou nos estatutos que impôs à mesma Universidade[8]. Ainda que rareiem os documentos, sempre há os necessários para se poder afirmar que o culto da Imaculada Conceição é um facto, pelo menos a partir do século XIV, época em que a ele aparecem alusões claras em livros religiosos e até num testamento[9].

Com El-Rei D. Duarte ilumina-se o problema, visto que ele o ataca de frente, com a sua habitual clareza, declarando-se convencido de que a Virgem Maria foi concebida sem pecado original[10]. Toda a sua família fora particularmente devota de Nossa Senhora, desde El-Rei D. João I, que fez um livro de Horas de Santa Maria, ao infante D. Pedro, que versejou à Virgem. Do Infante D. Henrique diz Zurara que, porque «era mui devoto da Virgem Maria mandou fazer em sua honra uma mui devota casa de oração, uma légua de Lisboa, a cerca do mar, onde se chama Restelo, cuja invocação se diz de Santa Maria de Belém». No seu testamento, confirma o Infante que «em louvor e reverência da gloriosa Virgem Maria, minha Senhora, madre de meu Senhor Deus, mandei ali fazer uma igreja, pondo-lhe o nome de Santa Maria de Belém». Foi à imagem que estava nesta ermida que rezaram, antes de partirem para os grandes cometimentos da raça, os Gamas, Albuquerques e Cabrais[11].

Mas a primeira invocação formal do auxílio da Virgem para o Reino de Portugal foi solenemente feita, por D. João I e seus soldados, no campo da batalha de Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385. «À segunda-feira ante manhã, véspera da Virgem Maria, bem cedo de madrugada», como diz Fernão Lopes, foi que os portugueses entraram em combate, depois de quase todos terem guardado jejum, sem comerem nem beberem nada, na vigília da Assumpção, confiados cegamente na Virgem Maria que o Condestável andava de grupo em grupo garantindo que «seria avogada por eles».

Era tal a fé religiosa das tropas nacionais, e a confiança na protecção da Mãe de Deus, que um fidalgo Gascão dos que ali estavam disse a El-Rei D. João I que ele ia ganhar a batalha, pois jamais vira soldados tão ledos como os Portugueses, ao que o Mestre respondeu: «Essa confiança tenho eu em Deus e na Virgem Maria». A última palavia de El-Rei às suas tropas, foi uma fervorosa invocação: «Em nome de Deus e da Virgem Maria cujo dia de manhã é, sejamos todos fortes e prestes». Depois da magnífica vitória, que consolidou a independência nacional, D. João I foi em romagem, cumprindo promessa, a Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães, fazendo, a pé, a última etapa do percurso. E, em acção de graças por semelhante triunfo, mandou construir o sumptuoso mosteiro de Nossa Senhora da Vitória, na Batalha, «ali cerca d’onde ela foi».

O povo de Lisboa, logo que os castelhanos começaram a fugir, andou de igreja em igreja, entoando a Salve-Rainha, devoção que se manteve até ao primeiro aniversário da memorável batalha. O Condestável D. Nuno Álvares Pereira foi em romagem, a pé, à ermida da Nossa Senhora de Ceiça, na ribeira de Ourém, agradecer os favores da Virgem, e quando mais tarde professou chamou-se Frei Nuno de Santa Maria[12].

Quando D. Afonso V projectava as campanhas de África, prometeu grandes ofertas a Nossa Senhora; e, ao partir, foi-se despedir de Nossa Senhora da Escada, acendendo-lhe uma lâmpada. Conquistadas Arzila e Alcácer-Seguer, consagrou a Nossa Senhora as respectivas mesquitas, depois de convertidas em templos cristãos. De D. João II diz Garcia de Resende que «todas as noites per ordenança, e pelas manhãs na cama, e à mesa, rezava sempre as horas de Nossa Senhora», tendo ido, em peregrinação, a Nossa Senhora da Conceição, em Matozinhos, cumprir uma promessa. D. Manuel I transformou a capelinha fundada pelo Infante D. Henrique, no Restelo, no sumptuoso mosteiro dos Jerónimos. E «as causas que moveram El-Rei D. Manuel a fazer tamanha despesa foi uma grande devoção que tinha em Nossa Senhora a cujo nome dedicou toda esta máquina», chamando-lhe mosteiro de Nossa Senhora de Belém[13]. Pode dizer-se que os descobrimentos e conquistas foram realizados sob a constante invocação da Virgem Maria, cujo nome ficou perpetuado em ilhas, cidades, portos, serras e templos das cinco partes do mundo onde chegaram os Portugueses.

Desde os fins do século XVI até à subida ao trono de El-Rei D. João IV, prossegue o culto da Imaculada, vendo-se a Universidade de Évora, por iniciativa do Cardeal Rei, seu fundador, defender solenemente que a Virgem Maria foi concebida sem mancha de pecado original, ao passo que Filipe III veio a escrever às Universidades peninsulares para que elas se dirigissem ao Papa rogando-lhe que pusesse termo às discussões sobre o mistério da Imaculada, definindo doutrina[14].

Em meados do século XVII, restaurando-se a independência de Portugal, por forma deveras surpreendente, ao cabo de 60 longos anos de cativeiro, tanto o Monarca como o povo se convenceram de que a libertação da Pátria se devera à protecção da Virgem Maria. Por isso D. João IV tomou-se de tão grande devoção pela Mãe de Deus que logo nas Cortes do Reino, reunidas em Lisboa, em 1646, foi Nossa Senhora da Conceição proclamada, com a maior solenidade, Padroeira de Portugal, escrevendo El-Rei às Câmaras, Bispos e Universidade de Coimbra comunicando-lhes a resolução das Cortes, que era no sentido de se aclamar Nossa Senhora Padroeira do Reino e defender a sua Imaculada Conceição. Foram mais longe as Cortes, declarando que dali em diante Nossa Senhora da Conceição ficava sendo não só a Padroeira «mas Rainha dos reinos e senhorios de Portugal», votando, por juramento, «a oferta anual de 50 cruzados de oiro», «em sinal de tributo e vassalagem a Nossa Senhora na sua Casa da Conceição, cita em Vila Viçosa, e da mesma maneira prometiam e juravam de confessar e defender sempre, até dar a vida, sendo necessário, que a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi concebida sem pecado original»[15].

O juramento solene deste compromisso foi feito pelo Rei e pelas Cortes, no dia 25 de Março de 1646, Domingo de Ramos e festa da Assunção, na capela real, durante uma festa esplendorosa em que o clero, nobreza e povo confraternizaram, enchendo-se Lisboa de alegria, bandeiras, fogos, músicas, descantes nas ruas e entusiasmo nos corações, Na provisão lida durante a cerimónia dizia El-Rei D. João IV que tendo D. Afonso Henriques tomado «por especial advogada sua, a Virgem Mãe de Deus e senhora nossa, e debaixo da sua sagrada protecção e amparo, lhe ofereceu a todos seus sucessores, reino e vassalos», e «desejando eu imitar seu santo zelo e a singular piedade dos senhores reis meus predecessores», «lhe ofereço de novo, em meu nome e do Príncipe D. Teodósio (…) e de todos meus descendentes, sucessores, reinos, senhorios e vassalos, à sua Santa Casa da Conceição, cita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, 50 cruzados de oiro em cada ano, em sinal de tributo e vassalagem, e da mesma maneira prometemos e juramos com o Príncipe e Estados de confessar e defender sempre, té dar a vida, sendo necessário, que a Virgem Mãe de Deus foi concebida sem pecado original». «E se alguma pessoa intentar cousa alguma contra esta nossa promessa, juramento e vassalagem, por este mesmo efeito, sendo vassalo, o havemos por não natural e queremos que seja logo lançado fora do Reino, e se for Rei, o que Deus não permita, tenha a sua e nossa maldição e não se conte eutre nossos descendentes»[16].

Lido este documento, levantou-se El-Rei e o Príncipe e foram ajoelhar diante de um Missal onde, em voz alta, proferiram o juramento sagrado, logo seguido do dos três Braços das Cortes, ali representados. Depois de chegarem a Lisboa os autos de Juramento das Câmaras e Universidade, foi enviado à Santa Sé o pedido real para a confirmação, mas só 25 anos depois, no reinado de D. Pedro II, o Papa Clemente X fez expedir o Breve Eximia Dilectissimi, pelo qual confirmava solenemente a eleição de Nossa Senhora como Padroeira do Reino de Portugal, depois de um parecer da Sagrada Congregação dos Ritos em que se aprovava a eleição da Bemaventurada Virgem Maria, sob a invocação da Santíssima Conceição, como particular, única e singular padroeira e protectora dos reinos de Portugal, feita pela sereníssima Majestade de D. João IV, nas reuniões e Cortes Gerais do Reino celebradas em 1646, com intervenção dos três Estados». A demora desta confirmação deve, sem dúvida, atribuir-se às dificuldades diplomáticas surgidas em Roma para o reconhecimrnlo da independência de Portugal, e que levaram muito tempo a resolver.

O juramento da Universidade de Coimbra, realizado com a maior solenidade, no decurso de grandes festas, no dia 28 de Julho de 1646, merece realce especial. Reitor, lentes e estudantes «juntos aqui todos em um corpo de toda esta insigne Universidade, votamos, prometemos e juramos, firmemente, de nossa livre vontade, a Deus todo poderoso e a Vós Santíssima e Gloriosíssima Virgem Maria, Mãe sua, de defender, ler e pregar e ensinar pública e particularmente que Vós, Virgem Bemaventurada, Santa, Imaculada e Bendita entre todas as mulheres, fostes preservada, por singular privilégio, da mácula do pecado original, de que Vos livrou a graça divina, santificando-Vos desde o ditoso instante da Vossa Puríssima Conceição. E para que com mais certo e durável sucesso este nosso voto se confirme fazemos lei e estatuto (atenta a ordem de Sua Majestade) que valha e tenha força para sempre que em nenhum tempo seja admitido aos graus desta Universidade o que não fizer o mesmo juramento, obrigando-se a defender pública e particularmente esta sentença e voto».

Comemorando e perpetuando o voto das Cortes, mandou D. João IV colocar às portas de todas as cidades do Reino uma lápide com dizeres alusivos à eleição da Virgem Padroeira do Reino, e fez cunhar medalhas de oiro e prata que vieram a ter curso legal de moeda, com o nomo de Conceição. «Tinham no anverso a legenda Joannes IIII, D. G. Portugaliae et Algarbiae Rex, a Cruz de Cristo e as armas lusitanas; e no reverso a imagem da Senhora da Conceição sobre um globo e a meia lua, com a data de 1648, e, nos lados, o sol, o espelho, o horto, a casa de oiro, a fonte selada e a arca da aliança, símbolos bíblicos da Santíssima Virgem e insertos pela Igreja entre as invocações da sua Ladainha», É também histórico que, desde o momento em que D. João IV declarou Nossa Senhora da Conceição Rainha de Portugal, nunca mais os Monarcas portugueses puseram a Coroa real na cabeça! 17]

Seguem as NOTAS desse capítulo do livro (p. 101ss) : «Fátima à Luz da História» de Costa Brochado

[1] P.e Miguel de Oliveira. Ob. cit., págs. 259-260.

[2] Joaquim Madureira. A Forja da Lei, Coimbra, 1915. Diário das Sessões das Constituintes.

[3] Carlos Malheiro Dias. Desafio à Debandada, Lx.a, 1912, 1.º e 2.º volumes; Em Redor de um Grande Drama e Zona de Tufões, Lx.a, 1917.

[4] General Joaquim Pereira Pimenta de Castro. O Ditador e a Afrontosa Ditadura, Weimar, 1915; Cap. J. A. Correia dos Santos. A Revolução de 14 de Maio, Lx.a, 1915; Rocha Martins. Pimenta de Castro.

[5] Alberto Pimentel. História do Culto de Nossa Senhora em Portugal, págs. 2-3; B. J. de Sena Freitas. Memórias de Braga, Tomo II, pág. 388; D. Rodrigo da Cunha. Catálogo dos Bispos do Porto, 1.ª parte, págs. 11, 275; Brotéria, Dezembro de 1946, pág. 501.

[6] Frei Agostinho de Santa Maria. Santuário Mariano, Tomo I, L.º I, títulos V e XI e Tomo III, L.° III, título I; Júlio de Castilho. Lisboa Antiga, Vol. III, pág. 208; Frei Manuel dos Santos. Alcobaça Ilustrada; carta do cruzado Osberno, in Portugaliae Monumenta Historica, Scriptores.

[7] Brandão. Monarquia Lusitana, Tomo VI, L.° XIX, cap. XXII, e Tomo IV, L.° XIV, cap. XIII; Santuário Mariano, I, cap. XIV.

[8] António Garcia Ribeiro de Vasconcelos O Mistério da Imaculada Conceição e a Universidade de Coimbra, Coimbra, 1904, págs. 18-19; P.e Mário Martins. Brotéria, Dezembro, 1946; D. António Caetano de Sousa. História Genealógica da Casa Real, Lx.a, 1735, Tomo I, pág. 225; Frei Pedro de Jesus Maria. Crónica da Santa e Real Província da Imaculada Conceição de Portugal, Lx.a, 1754, I, págs. 193-194; Monarquia Lusitana, Tomo V, L.° XVI; Teófilo Braga. Trovadores Galécio-portugueses, pág. 188; Padres Miguel de Oliveira e Moreira das Neves. A Padroeira de Portugal, Lx.a, 1940, pág. 18.

[9] P. e Mário Martins. Ibidem.

[10] Leal Conselheiro. Lx.a, 1843, págs. 116-117.

[11] Crónica da Guiné, Cap. V.

[12] J. Soares da Silva. Memórias de El-Rei D. João 1, Tomo III.

[13] Damião de Góis. Crónica de D. Manuel, Parte 1.ª, Cap. 53; Garcia de Resende. Crónica de D. João II.

[14] Novidades (Letras e Artes), 25 de Agosto de 1946; António Garcia Ribeiro de Vasconcelos. Ob. cit., págs. 29-32.

[15] Brotéria, Dezembro de 1946; Ribeiro de Vasconcelos. Ob. cit., pág. 96.

[16] Torre do Tombo. Livro IV de Leis, folh. 181-182.

[17] P.e Miguel de Oliveira e Moreira das Neves. Ob. cit., págs. 23, 24 e 38; Ribeiro de Vasconcelos. Ob. cit., págs. 44-45.

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