Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

O OPUS DEI NA HISTÓRIA DE FÁTIMA?

Balaguer en Fátima

Arai Daniele

No  livro «O Fim dos Segredos» – Tudo o que nunca lhe contaram sobre o mundo do Opus Dei e da Maçonaria em Portugal – » de autoria da jovem jornalista Catarina Guerreiro (a esfera dos livros, Lisboa, 2015, distribuidora@bertrand.pt), editado em novembro, a autora trata da influência do poder maçônico e da Opus Dei em Portugal, envolvendo a «amiga Irmã Lúcia» no avanço do que se usa chamara de «maçonaria branca». Pessoalmente conheci algumas pessoas e famílias envolvidas nesta organização, justamente para evitar a enxurrada de erros que envolveram a nova igreja. Tive duas vezes, porém, problema com eles por causa da Santa Missa tradicional, tanto em Roma como em Fátima; parecem tradicionais, mas seguem as inovações conciliares e o seu NOM.

Devo repetir que aqui apenas reproduzimos parte desse estudo, sem por isto, como católicos, concordar em tudo com sua autora. Iniciemos então nossa leitura sobre o poder da Opus Dei em Portugal.

OPUS DEI (pp. 219-229)

«A amiga Irmã Lúcia» 

«Discretamente, em 1944, a organização de Escrivá começou a infiltrar-se em Portugal, através dos meios universitários de Coimbra. Entre junho e outubro daquele ano, três estudantes espanhóis do Opus, bolseiros da Universidade de Madrid, estiveram naquela cidade portuguesa a concluir o doutoramento. E foram espalhando as ideias do movimento, ao mesmo tempo que fizeram muitas amizades. 1 Um deles era Laureano Lopez Rodó, que mais tarde veio a ser ministro do governo de Franco. Durante os meses de estudo que passou em Coimbra ficou amigo de Marcelo Caetano e de Guilherme Braga da Cruz, que entretanto se tornou cooperador da Obra. 2

«As amizades de Rodó terão sido decisivas para que naquela altura, com 24 anos, fosse escolhido pelo movimento religioso para ajudar o primeiro numerário espanhol a estabelecer-se em Portugal e a movimentar-se nos meios sociais e culturais de Coimbra e do resto do país. 3 […]

  • Descreve-se em seguida as pessoas e os modos de estabelecer e recrutar simpatizantes da organização em Portugal e no estrangeiro, quando Francisco Martinez Garcia, um licenciado em Farmácia, foi sondado para a missão pelo próprio P. Escrivá de Balaguer, em agosto de 1945, quando estavam em Montevideu, para vir a Portugal para começar tal trabalho.

«A 5 de fevereiro de 1946, Martinez Garcia chegou a Portugal e, depois de passar uma temporada no Hotel Avenida, em Coimbra, o Opus arrendou um apartamento onde em outubro começou a funcionar o primeiro centro universitário da instituição em Portugal. Conhecida como «residência universitária de Montes Claros», teve o apoio da igreja local e o bispo da diocese foi a 7 de dezembro benzer o oratório ali existente. 5

  • Além de Martinez, vieram de Espanha para Coimbra mais cinco outros, dos quais Gregório Ortega Pardo, que viria a protagonizar um escândalo no Banco da Agricultura, para o qual arrastou o Opus Dei, ao ser detido a 13 de outubro de 1965 na Venezuela, com 1,75 milhões de dólares. 7

«Desde aí, a Prelatura tentou apagar da sua história oficial o nome e papel de destaque deste numerário, que é apontado por muitos como tendo sido o principal promotor do Opus Dei em Lisboa. 8 Cinco anos depois de Martinez se instalar em Coimbra, a Obra decidiu avançar para a capital e abriu, em 1951, uma residência para estudantes no bairro da Estefânia… era preciso reforçar a aposta e em 1953 Escrivá abriu o primeiro centro feminino português, na Rua Buenos Aires, n.º 35. O sucesso e crescimento da organização obrigou a cúpula a arranjar novos espaços, e a sede portuguesa, que até então tinha funcionado na residência masculina, mudou-se em 1957 para outro prédio, também no mesmo bairro, mas no n.º 98 da Rua da Estefânia, onde se alugou o 1.º e o 6.º andares.10

«Ao lado, no Largo da Estefânia, tinha aberto entretanto, a Editora Aster, dirigida por numerários, que editou algumas revistas, como a Rumo, onde colaboraram Amaro da Costa, Mota Amaral, Oliveira Dias e também o poeta Ruy Belo, que tinha aderido ao Opus quando estudava em Coimbra em 1951. 11 Os homens que lideravam nesta altura o movimento religioso em Lisboa eram todos sacerdotes, tendo o espanhol Xavier Ayala assumido o cargo de primeiro vigário regional.12

«Mas, para que a instituição se conseguisse instalar em Portugal, contou com a ajuda de uma aliada poderosa: a Irmã Lúcia. Segundo o Opus Dei, foi ela quem convenceu o fundador a antecipar a difusão da Obra em território português. Josemaría Escrivá tinha previsto começar por França, mas a Segunda Guerra Mundial atrapalhou as suas ideias. Quando se encontrou com a religiosa portuguesa, alterou o calendário do seu plano estratégico de conquista da Europa. Tudo aconteceu nos primeiros dias de fevereiro de 1945, durante uma viagem a Tuy para, segundo os historiadores oficiais da Prelatura, cumprimentar o novo bispo, o seu grande amigo D. José López Ortiz, que tinha acabado de ser nomeado em setembro de 1944.

«Josemaría saiu de Madrid, acompanhado de Álvaro dei Portillo, a 29 de janeiro, no Studebaker a gasogénio conduzido pelo motorista habitual, Miguel Chorniqué. Passou o dia seguinte em Valladolid, onde se estava a concluir a instalação do oratório de «El Rincón», o primeiro centro do Opus Dei nessa cidade. 14 Dois dias depois, a 2 de fevereiro, chegou a Tuy, tendo ficado albergado no paço episcopal, onde estava Ortiz. Este, sabendo que o líder do Opus tinha uma grande admiração por Nossa Senhora, perguntou-lhe se gostava de conhecer a Irmã Lúcia, que estava escondida no convento local desde 24 de outubro de 1925 (e onde esteve até 1946, ano em que regressou a Portugal). A resposta foi óbvia e o bispo pegou no telefone e ligou à Superiora do Convento de Tuy. «Pode trazer-me uma rosa?» Era o código secreto combinado entre o bispo e a responsável do local onde estava a freira portuguesa para poderem falar sem que ninguém descobrisse a verdadeira identidade da freira Maria das Dores, como era identificada entre as colegas doroteias. Ao ouvir o pedido, a superiora entendeu de imediato a mensagem e pediu à portuguesa para ir ao Paço Episcopal. 15

«Foi aqui, durante a conversa com Escrivá, que a Irmã Lúcia lhe sugeriu que levasse o Opus para Portugal. 16 Mas o espanhol explicou que só não o fazia imediatamente porque nem ele nem Portillo tinham passaportes.

«Pedi-lhe para vir a Portugal fundar o Opus mas ele não tinha passaporte e eu consegui fazer um jeitinho para que tudo se resolvesse e pudesse vir a Fátima», contou mais tarde a própria vidente ao bispo Alberto Cosme do Amaral, que entre 1972 e 1993 liderou a diocese de Leiria-Fátima. Para resolver a situação bastou pegar no telefone. Mas o destinatário do telefonema que a religiosa fez e que desbloqueou a situação é ainda hoje um mistério, admitindo-se ter sido o cardeal patriarca ou mesmo António de Oliveira Salazar. 17

«A verdade é que numa segunda-feira, dia 5 de fevereiro, Escrivá, Portillo, López Ortiz e o seu secretário, o padre Eliodoro Gil Rivera, meteram-se à estrada, conduzidos pelo motorista, e passaram a fronteira sem problemas e sem documentos. Depois de terem entrado em Portugal, almoçaram no Porto, no Escondidinho, na época o restaurante de referência da cidade. Seguiram para Leiria, onde se encontraram com o bispo da diocese, D. José Alves Correia da Silva, acabando por conhecer também o cónego e futuro bispo de Leiria, D. João Pereira Venâncio. Jantaram e partiram para Fátima, onde Josemaría visitou pela primeira vez a Capelinha de Nossa Senhora. No dia seguinte, 6 de fevereiro, o líder do Opus celebrou missa no Santuário e visitou a mãe da Irmã Lúcia, a quem ofereceu uns pães galegos que tinha comprado. Ali, na localidade de Valinhos, os espanhóis ainda se deixaram fotografar com a mãe dos outros videntes, Francisco e Jacinta Marto, junto à casa da família.18 Escrivá regressou a Leiria para almoçar com o bispo e partiu para Lisboa, onde no dia 7 foi ao Patriarcado, situado no Palácio de Santana, no Campo dos Mártires da Pátria, cumprimentar o cardeal Cerejeira, que um ano antes tinha sido informado por um membro do Opus que o líder o queria conhecer.

«Nessa noite ainda dormiu em Coimbra e, na manhã seguinte, antes de regressar a Espanha, Escrivá esteve com o bispo, D. António Antunes. Esteve 12 vezes em Portugal, grande parte delas para encontros com o mais importante homem da Igreja portuguesa, que durante anos fez frente ao crescimento do Opus e com quem manteve um longo e difícil braço de ferro.

«O inimigo cardeal Cerejeira

«Corria o ano de 1944 e o Opus Dei tentava reunir apoios eclesiásticos que o ajudassem a obter a aprovação oficial da Santa Sé. Para lhe fazer a ponte com o poderoso patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, o mais novo cardeal da época, nomeado por Pio XI em 1929, o fundador do Opus escolheu Amadeo Fuenmayor, um catedrático de Direito Civil de Santiago de Compostela.19 Este, já membro do Opus, foi convidado para vir a Portugal em março daquele ano, no âmbito da «Semana Jurídica Espanhola», falar em duas conferências nas faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra. 20 Quando Escrivá soube do convite pediu-lhe que quando chegasse a Lisboa fosse visitar o cardeal para lhe comunicar que estava previsto que o fundador viesse a Portugal e que gostaria de o cumprimentar. Escrivá deu indicações detalhadas ao seu mensageiro: só devia dizer que era do Opus e vinha em nome do fundador quando estivesse frente a frente com o cardeal. Assim foi. Amadeu pediu uma audiência ao patriarca, apresentou-se apenas como professor espanhol e só revelou que pertencia ao movimento religioso e que vinha em nome de Josemaría já durante a conversa.

«Desta forma, quando em 1945, depois da ajuda da Irmã Lúcia, Balaguer chegou ao patriarcado, o cardeal recebeu-o cordialmente. 21 Neste encontro falaram do Opus Dei, que na data estava a abrir o primeiro centro em Portugal, preparando-se para fazer o mesmo em Inglaterra e Itália. Em Espanha, contava já com 20 centros. 22

«Escrivá regressou em junho de 1945 para nova reunião com o cardeal, que se realizou dia 18. Era urgente conseguir a aprovação pontifícia, para dar uma dimensão universal do Opus Dei e permitir a sua expansão pelo mundo. Por isso, Josemaría esforçou-se por manter o contato com o líder da Igreja portuguesa: punha-o a par do processo em curso no Vaticano para a aprovação pontifícia do Opus, falava-lhe da necessidade de ter cartas de recomendação e revelava-lhe os avanços do Opus, especialmente em Portugal. 23

«A 13 de setembro, pouco depois de ter combinado com o numerário Francisco Martinez que este viria para Portugal abrir oficialmente o primeiro centro, Balaguer escreveu ao cardeal Cerejeira a informá-lo que iria fazer nova visita. Mas quando no dia 18 desse mês chegou ao Paço, o bispo auxiliar, João dos Campos Neves, que veio a ser mais tarde bispo de Lamego, informou-o que Cerejeira estava de férias em casa do irmão, médico, na Serra da Estrela. Escrivá não desistiu e foi ao encontro do cardeal. Sempre acompanhado de Portillo, o seu braço direito, o líder do movimento religioso chegou no dia 21 à localidade de Rosanegra, onde descobriu o patriarca, que o convidou para almoçar com ele e a sua família. As iniciativas deram resultado: com elogios a Escrivá e a apoiar a aprovação do Opus pela Santa Sé, a carta escrita pelo cardeal chegou a Roma a 1 de março de 1946. 24

«Quatro anos depois, a 16 de junho de 1950, Pio XII aprovou finalmente o Opus Dei como instituto secular, uma associação de leigos católicos. Nesse dia, a organização deixou assim de estar dependente das igrejas locais, passando a estar juridicamente sob a alçada da Santa Sé. 25 Por essa altura, a irmandade aumentou o seu poder no mundo: no mês em que o Vaticano emitiu o reconhecimento, já havia mais de 100 centros da organização espalhados por vários países da Europa, América e África, quadruplicando o número dos existentes em 1946, ano em que começou a internacionalização. 26

«Mas em Portugal o rápido crescimento do Opus, essencialmente em Lisboa, começou a causar desconforto no cardeal Cerejeira. Os encontros seguintes entre ele e Balaguer, um em Roma, em 28 de outubro de 1950, e outro em Lisboa a 8 de janeiro de 1951, foram mais tensos. Esse mau ambiente refletiu-se quando a Obra quis abrir um segundo centro na capital, o primeiro feminino no país. Só depois de dezenas de contatos de Javier Ayala, o espanhol que em Portugal dirigia a organização, é que o cardeal deu autorização, tendo a residência aberto em março de 1952. O braço de ferro começou a agravar-se: Cerejeira tentava intervir nos centros, enquanto os responsáveis espanhóis, já munidos da aprovação dada pelo Vaticano, insistiam em ser independentes.

«O momento de rutura chegou uns dias antes do Natal de 1954. Manuel Gonçalves Cerejeira decidiu enviar uma carta a Javier Ayala para o informar de que a experiência do Opus em Lisboa, que contava com duas residências em nome da Sociedade Lusitana de Cultura, devia terminar. 27 O responsável nacional do movimento deu conta da situação a Balaguer, mas este pediu-lhe paciência, considerando que a atitude do líder da igreja portuguesa seria passageira. Apesar disso, sugeriu que Ayala contactasse o embaixador do Vaticano em Lisboa, o cardeal Fernando Cento, para este intervir. 28

«Sem que o problema se resolvesse, e com as relações entre o Opus e o líder do patriarcado cada vez mais tensas, Balaguer enviou a Lisboa o seu homem de máxima confiança: Álvaro dei Portillo. A 16 e 17 de maio de 1956 decorreram os encontros. 29

– «Por que é que o conselheiro [Escrivá] me ocultou que o Opus tinha adquirido um banco, de que toda a gente fala?», perguntou o cardeal português. 30

– «Não podia informar sua eminência do que não existe: o Opus Dei não possui nenhum banco», respondeu Álvaro del Portillo.

«Mas Cerejeira não ficou convencido e insistiu. Sublinhando que a elite política e financeira sabia da ligação do Banco da Agricultura à organização religiosa, perguntou ao homem à sua frente se estava toda a gente enganada.

«O argumento dado pelo número dois do Opus foi exatamente o que ainda hoje é utilizado para justificar a influência do Opus em instituições bancárias: um membro do Opus Dei pode exercer o ofício de banqueiro sem que o banco pertença necessariamente à organização. 31

«Mas a questão não ficou resolvida e foi necessária uma segunda reunião no dia seguinte para que o cardeal ficasse, ou pelo menos parecesse, convencido com as justificações de Portillo.

«Já com o ambiente mais calmo, e antes de sair, o espanhol ainda informou Cerejeira de que a Obra pretendia abrir um terceiro centro em Lisboa. Dois meses depois chegou oficialmente por escrito o pedido. 32

«Nessa altura, D. Manuel Cerejeira, que já tinha completado 25 anos como cardeal patriarca, tentava também fazer crescer o poder da Igreja Católica na capital. E em junho de 1956, um mês depois da reunião com Ayala, escreveu a Salazar para lhe pedir «proteção para as obras da Igreja» e sublinhou a necessidade de se criarem novas paróquias em centros populacionais que atingiam «10 000 almas», fazendo notar que havia localidades na margem Sul do Tejo que nem igreja tinham. 33

«Os meses foram passando, os rumores sobre o Opus Dei mantinham-se e um ano depois Cerejeira decidiu dar o golpe final. A 16 de setembro de 1957 escreveu a Josemaría Escrivá informando-o de que afinal era melhor não abrir o terceiro centro em Lisboa. «Neste espaço de tempo, rezei, refleti e pedi conselhos. Em consciência considero que não convém, por agora, a admissão do Opus Dei no patriarcado de Lisboa e que devem cessar as suas atividades na capital.» 34 Quinze dias depois, na resposta, Balaguer explicou-lhe que a questão teria de ser resolvida pela Santa Sé. A decisão do Vaticano não deixou margens para dúvidas: o cardeal já não tinha poderes para mandar na organização de Escrivá nem decidir o que esta podia ou não fazer. Cerejeira ainda escreveu uma nova carta a Balaguer a dar os seus argumentos, mas este recordou-lhe a sentença pontifícia e os dois nunca mais falaram durante 15 anos.

«Apesar de ter ficado sem poder para mandar no movimento religioso, Gonçalves Cerejeira manteve-se extremamente atento aos passos da organização. E em 1964 o secretário do Patriarcado de Lisboa, o padre João Carlos Rocha, enviou para a sede do Opus em Lisboa um pedido de dados informativos, como o número de sacerdotes e de alunos, alegadamente para um inquérito da Santa Sé. Mas a polícia do Estado Novo apreendeu a carta do patriarcado e Cerejeira não conseguiu descobrir o poder que a Obra já tinha conquistado na cidade. 35

«Os anos passaram sem sinais de reconciliação. Em 1967 e 1970 Escrivá veio a Portugal mas nunca esteve com o cardeal. O reencontro deu-se apenas em 1972. Balaguer veio a Lisboa entre 30 de outubro e 6 de novembro cumprimentar o novo cardeal patriarca, D. António Ribeiro, e visitou Cerejeira, que tinha resignado ao cargo ao atingir 82 anos. A conversa entre os dois decorreu na residência da Quinta do Bom Pastor, na Buraca onde o ex-líder da Igreja portuguesa estava a viver em recolhimento. E fez com que a relação entre os dois voltasse ao início: com o cardeal a ajudar o Opus a ter sucesso junto do Vaticano. Quando Josemaría morreu, Cerejeira escreveu, a 10 de agosto de 1975, ao papa Paulo VI a elogiar as qualidades do religioso e a defender que se iniciasse o «processo de glorificação deste santo sacerdote e homem de Deus». 36

«As desconfianças de Salazar

«Os parágrafos sublinhados por António de Oliveira Salazar eram o sinal da importância do que acabara de ler: em reuniões secretas, o Opus Dei defendia a criação de uma união ibérica comandada por Espanha, que teria maior facilidade em impedir uma possível ameaça comunista.

«A surpreendente revelação que o líder do Estado Novo destacou constava do relatório da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), de janeiro de 1964, enviado ao Presidente do Conselho, sobre as atividades da organização no país.

«Ao ler o documento, a que os inspetores chamaram «tentativas de penetração do Opus Dei na política interna portuguesa», Salazar ficou também a saber que o movimento religioso estava empenhado em aliciar filhos de financeiros, políticos e outras figuras públicas portuguesas, e que a influência da organização crescia nos círculos militares. Os inspetores puseram também o líder do Estado Novo a par dos avanços do que garantiam ser uma conspiração do Opus Dei para controlar o poder no pós-salazarismo. E informaram que a instituição apostava agora, para seu sucessor, em Francisco Leite Pinto, o professor que tinha sido ministro da Educação entre 1957 e 1961, por considerarem que teria o apoio dos militares, do meio universitário e de importantes entidades estrangeiras, como o embaixador espanhol em Lisboa. 37

«Este não era o primeiro alerta sobre a conspiração em curso. Desde há três anos que a PIDE tinha intensificado a vigilância ao grupo religioso por suspeitar que os seus movimentos nos circuitos económicos, políticos e universitários portugueses podiam ser perigosos para o regime.

«O alerta inicial tinha chegado ao presidente do Conselho em 1961, através de uma nota sobre «as atividades do Opus Dei». 38 Nela, os inspetores descreveram os indícios de um alegado esquema para tentar controlar o poder e a organização era classificada como uma «agregação político-religiosa». 39 Apareciam referidas pessoas influentes que estariam ligadas à estrutura, como o ex-ministro da Economia Daniel Barbosa, e levantaram-se suspeitas de que Marcelo Caetano fosse também um dos filiados. O documento explicava ainda que as vigilâncias tinham identificado o espanhol D. Gregório Ortega Pardo como o homem eficaz que fazia a ligação destes ex-governantes com a instituição. E revelava uma interessante descoberta: o Opus Dei tinha feito entrar no país 18 milhões de pesetas para ajudar o movimento a crescer. 40

«As preocupações com o Opus aumentavam de ano para ano. Aliás, na altura em que apareceu em Portugal, em pleno Estado Novo, por volta de 1946, a Obra não parece ter gerado grande alarme. De tal forma que a PIDE, apesar de registar o nome dos cinco espanhóis e do cubano que vieram introduzir o movimento em Coimbra, considerou que não despertavam grandes suspeitas.

«Mas a passagem dos meses fez a polícia mudar de opinião. E por isso, naquela nota de 1961, o Opus deixou de ser desvalorizado. E tornou-se mais uma preocupação para Salazar, a juntar a todas as outras que marcaram esse ano: o assalto ao paquete Santa Maria, o início da guerra em Angola, a tentativa falhada do golpe de Estado palaciano do ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, o desvio de um avião da TAP pelo oposicionista Hermínio Palma Inácio, a invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana e a tentativa de assalto ao quartel de Beja para derrubar o Governo. 41

Foi neste cenário que a polícia, a partir do início dos anos 60, reforçou a vigilância ao Opus Dei: apreendeu variada correspondência, vigiou a sede em Lisboa, investigou a capacidade financeira da organização, estudou a fundo o seu funcionamento interno, identificou os seus membros principais e tentou descobrir os homens que os líderes pretendiam recrutar.

«Entre as cartas confiscadas estão muitas remetidas a Nuno Girão, que naqueles anos assumiu a liderança portuguesa da Obra, onde são referidos assuntos do dia a dia da instituição, como os orçamentos dos vários centros do país. Havia também muita correspondência com colegas no estrangeiro que mostravam que também nos EUA, em Itália e em Espanha a organização crescia a uma boa velocidade. Depois de entrar em Portugal, Itália e Grã-Bretanha, em 1946, Escrivá tinha conseguido, até 1961, estabelecer a sua organização em 23 países. 42 O último tinha sido a Holanda e preparava-se para entrar no Paraguai, na Argentina e nas Filipinas.

«A escalada de Salazar e Escrivá tinha começado exatamente ao mesmo tempo: o primeiro subiu ao poder em Portugal como ministro das Finanças no mesmo ano em que Josemaría Escrivá criou em Espanha o Opus Dei. E o homem que liderava a ditadura portuguesa não estava disposto a perder terreno.

«Por isso, o rápido sucesso do movimento fez aumentar a vigilância da polícia do Estado Novo, que começou a identificar os principais recrutadores. Um deles, segundo a PIDE, era o padre Malvar Fonseca, que usava um questionário de 16 perguntas para garantir que os candidatos eram adequados. Na atividade de recrutamento juntava-se outro sacerdote, Manuel Sousa e Silva. Naquela altura, o aparelho policial da ditadura reforçou também a sua atenção a Ortega Pardo. E em 1962 apreendeu-lhe um dos muitos convites para eventos sociais que o espanhol recebia. Nos relatórios é descrita a vida de excessos do espanhol, que, segundo os agentes, gostava que lhe chamassem «Professor». 43: frequentava festas, bebia dos melhores vinhos e tinha importantes ligações com o mundo financeiro. «Por seu intermédio, o Opus Dei tomou uma posição no Banco de Agricultura, e através desse banco em dois cinemas de Lisboa (Roma e Ávila) e em algumas pequenas empresas», descrevia a PIDE, acrescentando que Ortega tinha até boas relações com Cupertino Miranda e o Banco Português do Atlântico e o Banco Comercial de Angola.

«Por esta altura, os inspetores vigiaram também a empresa Lusofina, vocacionada para negócios nas províncias ultramarinas. 44, que suspeitavam ser liderada pelo Opus, e registaram nos arquivos policiais as notícias da detenção de Ortega em Caracas, na Venezuela, a 13 de outubro de 1965, com duas mala cheias de jóias e 1,75 milhões de dólares. 45

«Nestes anos de apertada observação ao movimento, a polícia prestou atenção redobrada à visita que Mariano Navarro Rubio, o então ministro da Fazenda de Espanha e membro do Opus, fez a Portugal em abril de 1963. 46 E investigou ainda a Sociedade Lusitana de Cultura, criada em 1949, que era uma associação dirigida por pessoas da Obra que detinha, pelo menos, uma casa para raparigas na Rua Buenos Aires, em Lisboa. 47

«O outro relatório policial sobre a conspiração em curso surgiu em 31 de maio de 1963. O inspetor Silva Pais informou Salazar de que a aproximação da instituição a Marcelo Caetano tinha esfriado depois de este descobrir que Manuel Gonçalves Cavaleiro Ferreira, antigo ministro da Justiça, e Guilherme Braga da Cruz, professor catedrático, tinham aderido. 48 E, segundo o agente, a irmandade tinha passado a apostar num outro nome, surpreendente, para a sucessão. «O político do futuro, na opinião do Opus Dei, é o professor Dr. Adriano Moreira, apesar de saberem que ele não é católico», dizia o relatório. Uma ideia que o movimento religioso manteve durante pouco tempo. Segundo mostram as informações da estrutura policial, meses depois, em janeiro de 1964, o terceiro relatório apontava já para Francisco Leite Pinto. Este, no entanto, de acordo com a PIDE, nunca permitiu que lhe fizessem um convite formal. E ao longo dos anos manteve-se como um dos amigos mais próximos de Salazar, tendo tido um papel fundamental na difícil madrugada de 7 de setembro de 1968, quando o líder do Estado Novo foi internado na Cruz Vermelha para ser operado a um hematoma no cérebro, na sequência da queda que dera de uma cadeira, um mês antes. Foi Leite Pinto quem, pouco tempo antes da operação, entrou no quarto de Salazar para lhe perguntar se pretendia fazer um testamento político. Mas, ao abrir a porta, percebeu que ele não estava em condições de responder. 49 Deixou a vida do amigo nas mãos dos médicos. Um deles era Álvaro Ataíde, um dos mais destacados membros da maçonaria.»

  • Como se vê a Opus Dei cultiva uma ação política e econômica, que visa dominar os acontecimentos nas circunstâncias mais diversas. E o faz mantendo-se independente das dioceses locais, sendo de Direito Pontifício, isto é, respondendo só diretamente ao Papa. A pergunta que se põe então é se este poder serve de fato à Fé ou à obra do fundador. Quanto à Santa Missa pode-se responder que aceitam o que vem de cima e portanto à razões de conveniência mais que de doutrina.

 

 

 

 

 

Uma resposta para “O OPUS DEI NA HISTÓRIA DE FÁTIMA?

  1. Jacob dezembro 10, 2015 às 7:56 pm

    Sociedades secretas são abomináveis, como tudo o que é feito às escondidas.

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