Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

POTÊNCIA OBEDIENCIAL E PARTICIPAÇÃO SOBRENATURAL

Getsemani

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa Pio XI, em excertos da sua encíclica “Lux Veritatis”, promulgada em 25 de Dezembro de 1931:

«Com efeito, como sabemos pelas Sagradas Escrituras e pela Tradição Divina, o Verbo de Deus Pai não Se uniu com um homem, já subsistente em si, mas um próprio e mesmo Cristo é o Verbo de Deus que existe desde a Eternidade no seio do Pai, e o Homem feito no tempo. Como a admirável união da Divindade e da Humanidade em Cristo Jesus, Redentor do Género Humano, que com razão é chamada Hipostática, é irrefragàvelmente demonstrada nas Escrituras Sagradas, quando o próprio único Cristo, não sòmente é chamado Deus e Homem,  mas é também apresentado no acto de agir, como Deus e como Homem, e finalmente de morrer enquanto Homem, e de ressuscitar glorioso da morte, enquanto Deus. (…)

Além disso, não há quem não veja como esta Doutrina constantemente ensinada pela Igreja, seja confirmada e comprovada pelo Dogma da Redenção Humana. Com efeito, como teria podido Cristo ser chamado “Primogénito entre muitos irmãos” (Rom 8, 29), ser trespassado  por causa da nossa iniquidade (Is 53,5; Mt 8,17), redimir-nos da escravidão do pecado, se não tivesse sido dotado da natureza humana, como nós? Igualmente, como teria podido aplacar completamente a Justiça do Pai Celeste, ofendida pelo Género Humano, se não tivesse sido distinguido, pela Sua Pessoa Divina, com uma dignidade excelsa e infinita?

Não é lícito negar este ponto da Verdade Católica pelo motivo que se se disser que o nosso Redentor é desprovido da pessoa humana, por isso mesmo poderia parecer que pudesse faltar alguma perfeição à Sua Natureza Humana, e portanto que se tornasse, como Homem, inferior a nós. Pois, como subtil e sagazmente observa São Tomás de Aquino: “A personalidade em tanto pertence à dignidade e perfeição de alguma coisa, enquanto pertence à dignidade e perfeição daquela coisa o existir por si mesma, o que se entende com o nome de pessoa. Mas a um comporta maior dignidade o existir em outro, mais elevado do que ele, do que existir por si mesmo; e portanto a Natureza Humana é mais excelente em Cristo, do que o seja em nós, porque em nós, existindo como de “Per se”, tem a própria personalidade; em Cristo, porém, existe na Pessoa do Verbo. Assim também o ser completivo da espécie pertence à dignidsde da forma; contudo, a parte sensitiva é mais nobre no homem, pela conjunção com uma forma completiva mais nobre do que o seja no animal bruto, no qual é, ela mesma, forma completiva”. (…) Negada, portanto, a Doutrina da União Hipostática, sobre a qual, sòlidamente, se fundam os dogmas da Encarnação e da Redenção humana; cai e se esfrangalha todo o fundamento da Religião Católica».     
Toda a Criação, visível e invisível, Anjos e Homens, existe, e só pode existir para maior Glória de Deus, que constitui o seu fim primário, e para felicidade Sobrenatural da criatura espiritual, como fim secundário. Efectivamente, é concebível e real uma felicidade natural, ou melhor, preternatural, da criatura espiritual, como glorificante de Deus – E TAL CONSTITUI A FELICIDADE DAS ALMAS DO SEIO DE ABRAÃO, MAIS VULGARMENTE CONHECIDO COMO LIMBO DAS CRIANÇAS; porque estas almas, não tendo sido elevadas à Ordem Sobrenatural, jamais se podem sentir penalizadas por não possuírem a visão beatífica; estas almas conhecem e amam a Deus sobre todas as coisas, Eternamente, mas de um modo preternatural, ou seja, acima de uma Ordem puramente natural, na exacta medida em que se encontram já numa fase escatológica; possuindo um conhecimento, muito longínquo, e apropriado ao seu estado, do modo Sobrenatural de Salvação.

A Criação encerra em si, transcendentalmente, uma POTENCIALIDADE INSTRUMENTAL PARA A ORDEM SOBRENATURAL, DENOMINADA POTÊNCIA OBEDIENCIAL. O caso absolutamente eminente desta realidade consubstancia-se precisamente no Mistério da União Hipostática, mediante O Qual, Duas Naturezas se unem, não em si mesmas, mas na perfeita unidade da Pessoa Divina; constituindo a Natureza Humana, filosòficamente, uma substãncia incompleta, embora completa como Natureza, e um Instrumento de Dignidade Infinita, ao serviço da Pessoa Divina, e consequentemente o Instrumento da nossa Redenção.

Os Santos Sacramentos, a começar na Sagrada Eucaristia, irradiam a sua Graça e a sua Luz de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Seu Sacrifício, cujo Instrumento, como já se referiu, foi o próprio Corpo e Sangue de Jesus. O Pão e o Vinho constituem matéria do Santo Sacrifício da Missa, pois que são elevados por Deus à condição de instrumento da Ordem Sobrenatural; o mesmo se pode dizer do azeite na Confirmação e na Extrema Unção, e da água no Baptismo. Deus Nosso Senhor não pode conceder a nenhuma criatura o poder de criar, nem mesmo a título instrumental; todavia, constituindo a Graça de Deus, do ponto de vista filosófico, um acidente, a sua produção por Deus pode admitir, como admite, o concurso instrumental da criatura; e a referida produção, no mais estrito rigor filosófico, não constitui uma “criação,” visto que precisamente se trata de uma ACTUALIZAÇÃO DA POTENCIA OBEDIENCIAL DA CRIATURA EM RELAÇÃO À ORDEM SOBRENATURAL; POIS QUE O ACIDENTE É PELA SUBSTÂNCIA E NA SUBSTÃNCIA, NÃO POSSUINDO ACTO METAFÍSICO PRÓPRIO.

No Paraíso Terrestre, não havia necessidade de Sacramentos, pois a integridade natural, preternatural e Sobrenatural da realidade humana, não era comensurável com a Graça obtida com o concurso instrumental da criatura. O próprio Carácter Sacramental, do Baptismo, da Ordem, e da Confirmação, constitui um poder, acidental, espiritual, Sobrenatural, instrumental, pelo qual participamos, em grau diferente, qualitativa e quantitativamente, do Poder Sacerdotal de Nosso Senhor Jesus Cristo – QUE É SUBSTANCIAL.  

A elevação da alma ao estado Sobrenatural constitui, anàlogamente, uma actualização da potência obediencial, desta vez, não a título de instrumento, mas da participação na própria Natureza Divina, na Inteligência Divina, na Caridade Divina; sendo que por tal participação a alma é acidentalmente, verdadeiramente, Aquilo que Deus É Essencialmente. Mas sòmente no Céu essa participação auferirá escatològicamente do selo Eterno da imutabilidade beatífica, pois será a própria Essência Divina a unir-se à alma como Espécie e Forma de Conhecimento.  

Costuma empregar-se o termo “participação” quando nos referimos à divinização de Anjos e homens pela Graça Santificante e pela Caridade perfeita, pois somos realmente admitidos na intimidade da Santíssima Trindade; mas se afirmássemos que essa participação era substancial, cairíamos na apostasia do panteísmo. Mas pela Graça Santificante, a LUZ DE DEUS REFULGE EM NÓS COMO EM TEMPLO PRÓPRIO; DAÍ A EXPRESSÃO: INABITAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO NA ALMA.

Mas por vezes, também se utiliza o termo “participação” para expender o quanto as maravilhas da Criação reflectem os Esplendores Incriados, na exacta medida em que são as infinitas perfeições Divinas que são extrìnsecamente, contingentemente, demonstradas, e sempre para maior Glória de Deus Nosso Senhor; MAS, EM RIGOR, AS CRIATURAS, NA ORDEM NATURAL, NÃO PARTICIPAM DA NATUREZA DIVINA, PORQUE NÃO POSSUEM ALGO PRÓPRIO E EXCLUSIVO DE DEUS, SEGUNDO A PRÓPRIA NATUREZA DIVINA; ANTES, REFLECTEM FINITAMENTE AS PERFEIÇÕES INFINITAS. MAS NA GRAÇA SANTIFICANTE, NÓS POSSUÍMOS ALGO PRÓPRIO E EXCLUSIVO DE DEUS, MEDIANTE UM ACIDENTE SOBRENATURAL QUE É REALMENTE DIVINO.  

A potência obediencial radica-se formalmente na analogia profunda do ser, a qual é constitutiva do próprio Mistério Incriado de Deus Uno e Trino. Ela não destrói a distância Metafísica  infinita entre Deus Criador e a Sua criatura; mas APROXIMA-OS ONTOlÒGICAMENTE PELA PRÓPRIA DEFINIÇÃO DE ORDEM SOBRENATURAL.

A Natureza Humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, A Qual subsiste no Verbo, e pelo Verbo de Deus, constituindo a Causa Instrumental por definição eminente e absoluta, enquanto tal, só pode fazer milagres a título, exactamente, instrumental, visto que a União Hipostática a constitui numa posição ontológica absolutamente privilegiada; e essa mesma faculdade instrumental, digamos, natural, pode ainda ser ampliada por milagre. É que Nosso Senhor Jesus Cristo, pela só capacidade natural da Sua Humanidade, não poderia, por exemplo, DURANTE A SUA VIDA MORTAL, caminhar sobre as águas, ou transfigurar-se celestialmente; para tal, foi necessário um verdadeiro milagre. Porque a Providência Divina, no Seu Eterno Conselho, quis que Nosso Senhor, enquanto Homem, possuísse uma comensurabilidade fundamental com o mundo em que nascera. Todavia, mesmo com milagre, o poder de Nosso Senhor, enquanto Homem, jamais seria tal que entrasse em contradição com a definição básica de natureza humana; pois a contradição é um nada e o milagre é ser qualificado.  Neste quadro conceptual, se não tivesse morrido na Cruz, Nosso Senhor teria falecido de morte natural, porque muito embora, INTRÍNSECAMENTE, não pudesse morrer, por não ter pecado original, teria sucumbido, mesmo assim, vítima da erosão com um mundo em que a morte e o pecado andam de mãos dadas. Análogamente, Nossa Senhora, embora, INTRÌNSECAMENTE, também não pudesse morrer, e segundo reza a opinião mais Católica, o seu passamento nada terá tido de menos honroso, ou menos conveniente; terá passado da Terra ao Céu num arroubo extraordinário de Fé, Esperança e Caridade Sobrenatural. Porque, ao contrário do que possa parecer, o facto da nossa querida Mãe do Céu ter obtido protagonismo e conhecimento directo e imediato dos Mistérios da Salvação, de forma alguma a isentava da Fé Teologal, Sobrenatural, mais ainda: ERA ESSA MESMA FÉ SOBRENATURAL QUE LHE ILUMINAVA E ILUSTRAVA, SINGULARMENTE, TUDO O QUE TESTEMUNHAVA, CERTIFICANDO-A DE ESTAR VIVENDO, POR PRIVILÉGIO EXTRAORDINÁRIO DE DEUS, ESSES MESMOS MISTÉRIOS. O MESMO SE DIGA, “MUTATIS MUTANDIS,” DOS APÓSTOLOS.

Mas a Potência Obediencial, enquanto tal, é apenas potência; nada pode,efectivamente, no que concerne à Ordem Sobrenatural, sem que esta, como Causa principal, não sòmente assuma inteira iniciativa, mas ainda que sustente continuadamente toda a operação da Causa Instrumental. E, de facto, nós só pudemos elaborar toda uma teoria do conceito de “Potência Obediencial” – DEPOIS DA REVELAÇÃO E POR CAUSA DA REVELAÇÃO, ENQUANTO ELA É CONSTITUTIVA DA ELEVAÇÃO DO GÉNERO HUMANO À ORDEM SOBRENATURAL.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 10 de Dezembro de 2015

 

  

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