Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

CONSTITUIRÁ O ESTOICISMO PARTE LEGÍTIMA DA DOUTRINA CATÓLICA?

estoicismoAlberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

 

Escutemos o Papa Pio XII, em excertos da encíclica “Summi Pontificatus” promulgada a 20 de Outubro de 1939:

« No meio deste mundo,  hoje em estridente contraste com a PAZ DE CRISTO, NO  REINO DE CRISTO, a Igreja e os seus fiéis acham-se em tempos e anos de provações, raramente conhecidos na sua história de lutas e de sofrimentos. Mas em semelhantes ocasiões, quem se conserva firme na Fé, e tem um coração robusto, sabe também que Cristo-Rei nunca lhe está tão próximo como na hora da provação, QUE É A HORA DA NOSSA FIDELIDADE.  Com o coração dilacerado pelos sofrimentos de tantos dos seus filhos,  mas ao mesmo tempo com aquela coragem e firmeza que lhe vem das promessas do Senhor, a Esposa de Cristo vai ao encontro dessas ondas procelosas.  Sabe que a Verdade que anuncia e a Caridade que ensina e pratica, serão os conselheiros e cooperadores responsáveis dos homens de boa vontade, que desejem reconstruir um mundo novo, fundado na Justiça e na Caridade, apenas a humanidade se canse de percorrer o caminho do erro, e de provar os amargos frutos do ódio e da violência.

A Igreja Católica, Cidade de Deus, QUE TEM POR REI A VERDADE, POR LEI A CARIDADE, E POR MEDIDA A ETERNIDADE (Santo Agostinho); anunciando sem erros nem falhas a  Verdade de Nosso Senhor Jesus Cristo, trabalhando com arrojo materno e segundo o amor de Cristo, aparecerá certamente como visão beatífica de Paz sobre essa voragem de erros e paixões, aguardando o momento em que a Mão Omnipotente de Cristo-Rei venha acalmar a tempestade e banir os espíritos da discórdia que a desencadearam. Continuaremos, entretanto,  a fazer o que pudermos para acelerar o dia em que a pomba da Paz possa pousar seus pés sobre esta Terra, ora imersa no dilúvio da discórdia. (…)

Mas, por outra parte, destacar o Direito das Gentes da âncora do Direito Divino, para ligá-lo à vontade autónoma dos Estados, É O MESMO QUE DESTRONAR ESSE DIREITO, E TIRAR-LHE OS TÍTULOS MAIS NOBRES E VÁLIDOS, PARA ABANDONÁ-LO  À INFAUSTA DINÂMICA DO INTERESSE PRIVADO, E DO EGOÍSMO COLECTIVO, NO INTUITO DE FAZER PREVALECER OS PRÓPRIOS DIREITOS, DESCONHECENDO SIMULTÂNEAMENTE OS DOS OUTROS.»

Existe uma diferença essencial entre o paganismo pré-Cristão e o paganismo anti-Cristão, ou mesmo apenas não-Cristão. É certo que a Revelação Sobrenatural, antes do pecado original, não se iniciou, em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Seu Sacrifício e pela Sua Graça, mas constituía uma dádiva Divina a Adão, no Paraíso Terrestre, como Cabeça do Género humano; só após o pecado original, a Revelação, mesmo pré-Cristã, constitui irradiação da Pessoa Adorável de Nosso Senhor, Novo Adão, do Seu Sacrifício Redentor e da Sua Graça. Também as Graças concedidas a Adão e Eva, antes do pecado original, não eram Graças de Cristo, mas puras Graças de Deus.

As Graças do Antigo Testamento, conquanto especìficamente iguais, eram contudo muito menos intensas do que as Graças do Novo Testamento; aqui a intensidade de uma Graça, enquanto participação meritória na Natureza Divina, pode derivar quer da intrínseca sobrenaturalidade da própria Graça, quer da maior ou menor profundidade e riqueza com que essa Graça é participada pela alma. Por isso é que Nosso Senhor afirmou que não havia alma mais santa do que a de São João Baptista, mas que o mais pequeno do Reino de Deus era maior do que ele, João Baptista; Nosso Senhor comparava os tesouros Sobrenaturais de ambos os Testamentos.

O Filósofo Filon de Alexandria (20 a.C.- 50 d.C.) possuíu a particularidade de tentar interpretar a Antigo Testamento à Luz das conquistas filosóficas da Razão Helénica, nomeadamente, do Aristotelismo, do Platonismo, e do Estoicismo. Não é aceitável a tese, admitida por São Jerónimo, de haver sido Filón de Alexandria o autor Sagrado do Livro da Sabedoria. Mesmo assim, Filon parece haver tido a intuição, não despicienda, de que a Providência Divina, enriquecendo o Povo Eleito com a Sua Revelação e com Graças Sobrenaturais; favorecera simultâneamente a fina-flor do povo grego com Graças Medicinais, Preternaturais, de forma a qualificar o mais possível a razão humana, que embora pagã, ainda não fora atingida pela apostasia do ódio ao seu Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo; na exacta medida, em que esta apostasia e este deicídio, comportavam um notável enlanguescimento extrínseco da mesma luz natural da razão.

É certo que a filosofia grega não alcançou o conceito de Criação “ex nihilo”; Aristóteles estatuía, fundamentalmente, a eternidade da matéria, movida, também eternamente, por um MOTOR IMÓVEL, NÃO MOVIDO FÍSICAMENTE, AGINDO POR ATRACÇÃO  DO ACTO PURO DA METAFÍSICA, ESTE NÃO CONHECENDO NEM O MOTOR NEM O MUNDO, POIS QUE A SUA VIDA É O SEU PENSAMENTO.

Platão identifica o conceito de Deus COM A IDEIA DE BEM; para ele o mundo não foi criado, mas organizado, DESDE A ETERNIDADE, PELO DEMIURGO, INTERMEDIÁRIO NECESSÁRIO ENTRE DEUS E O MUNDO. O início temporal do mundo, além de ser uma Verdade de Fé Católica definida, constitui também uma verdade de razão, porque se existisse uma eternidade temporal atrás de nós, jamais alcançaríamos a hora presente. Para Platão as almas pre-existiram no mundo inteligível, estado presentemente como que encarceradas em corpos, conservando a sua inteligência a reminiscência das ideias contempladas na existência anterior; consequentemente, em Platão fica assegurada a imortalidade da alma; já em Aristóteles, a questão é discutida entre os seus epígonos; afirmam-na os da escola de Teofrasto, negam-na os da escola de Alexandre de Afrodísia. As concepções antropológicas de Aristóteles diferem profundamente das de Platão: Para o primeiro, a alma constitui a forma do corpo vivo, enquanto vivo; essa união de corpo e alma é substancial e constitutiva da espécie, e portanto as almas não existem antes dos corpos, o que é contrário às teses de Platão, para o qual, a união do corpo e da alma é acidental, prejudicial, e como vimos, possui uma conotação carcerária. Em Aristóteles, a virtude humana especifica-se na actividade superior da razão, que é essencialmente uma razão encarnada; em Platão o corpo parece um obstáculo a perfeita contemplação da ideia de Bem.

É conhecido como convivem, na Santa Igreja de Deus, a vertente Aristotélico-Tomista e a Platónico-Agustiniana; a primeira foi pràticamente canonizada pelos Papas, desde Leão XIII a Pio XII; sem que a segunda fosse de algum modo interditada.

Mas onde a Fé Católica, nomeadamente no plano moral, de alguma forma pode integrar, com maior razão de semelhança, elementos da filosofia grega, é nas doutrinas Estóicas. Cumpre assinalar que a Fé Católica É ESSENCIAL E ABSOLUTAMENTE SOBRENATURAL; E QUANDO SÃO TOMÁS TOMOU ELEMENTOS FILOSÓFICOS DE ARISTÓTELES, FÊ-LO MATERIALMENTE E NÃO FORMALMENTE; O FILÓSOFO ÉTIENNE GILSON (1884-1978) SINTETIZAVA: SÃO TOMÁS REFUTOU FORMALMENTE ARISTÓTELES COM OS MESMOS ARGUMENTOS QUE DELE MATERIALMENTE TOMOU.

O Estoicismo nasceu na Grécia, três séculos antes de Nosso Senhor Jesus Cristo, com os filósofos Cleantes e Crisipo, e embora o primeiro tenha escrito a obra “Hino a Zeus”, considerada obra prima da religiosidade pagã, o que é verdade é que o Estoicismo rejeitou sempre o panteão pagão. É certo que o Estoicismo difìcilmente alcançou  o conceito de transcendência Divina dos filósofos Aristóteles e Platão; preferindo identificá-la com o Logos, a razão suprema imanente ao mundo. Não olvidemos que aquilo que constitui aberração depois do Nascimento da LUZ, QUE VINDA AO MUNDO, A TODO O HOMEM ILUMINA, constituía um progresso em relação à grosseria do politeísmo.

O Estoicismo atingiu o auge com Cícero (106-43 a.C.), considerado pela própria Santa Madre Igreja, como o modelo do pagão virtuoso, e que adaptou o pensamento filosófico Helénico à língua e cultura Latinas; com o Imperador Marco Aurélio e Epicteto (50-138) este último atingindo uma concepção muito pura e transcendente de Deus, superior até à de Aristóteles e Platão, e já bem longe do primitivo “Logos”, o que prova que a boa vontade conduz naturalmente ao recto conceito de Deus, como sempre o declarou a Santa Madre Igreja.

O Estoicismo acredita que A ACÇÃO BOA CONTÉM EM SI MESMA A PRÓPRIA RECOMPENSA; ora este conceito representa um aprofundamento ético altamente nobilitante e que é perfeitamente ratificado pela Doutrina Católica; efectivamente, se o Bom Católico cumpre os Santos Mandamentos da Lei de Deus, não é para receber uma recompensa que seja extrínseca ao próprio Deus, pois que os meios, os fins secundários, e o Fim Primário Absoluto SÃO ESTRITAMENTE HOMOGÉNEOS; A ÚNICA RECOMPENSA PARA A OBEDIÊNCIA A DEUS – É O PRÓPRIO DEUS! Bem longe fica pois a acusação dos ímpios que vituperam os bons católicos por se comportarem bem apenas por interesse numa recompensa; COMO É GRANDE, COMO É MEDONHO, O ERRO EM QUE PERMANECEM.

Um aspecto interessante da Doutrina Estóica é a tendência para considerar a imortalidade pessoal como consequência da Sabedoria; é certo que à Luz da Fé Católica, e numa primeira abordagem, tal posição seria aberrante, mas numa perspectiva pré-Cristã e pagã, é uma doutrina profunda. Efectivamente, sabemos pela Fé Católica, que só a verdadeira vida Sobrenatural da Graça, a qual constitui a suprema Sabedoria, mesmo para os iletrados segundo o mundo, nos conduz ao porto seguro da Eternidade beatífica.

O verdadeiro Estóico deve portanto agir por motivos infrangìvelmente objectivos; embora Cícero, na sua vida prática, não haja sido disso grande exemplo, excepto quando afrontou corajosa e coerentemente a morte. Racionalidade, Objectividade, Coerência, vida de acordo com padrões que transcendem o indivíduo e governam o Universo – tais são as referências modelares do estoicismo; mas não se encontrarão elas igualmente no Catolicismo? Evidentemente que sim, sempre com a ressalva essencial de que a Fé Católica é constitutivamente Gratuita e Sobrenatural, e o Estoicismo nasceu e desenvolveu-se em meio pagão pré-Cristão, ou coevo de um Cristianismo de Catacumbas.

A grande vitória de satanás, ao longo dos séculos, tem sido o tornar a grande maioria dos cristãos PIORES DO QUE OS PAGÃOS ANTIGOS. E a suprema vitória do demónio foi precisamente tornar a Cátedra de São Pedro, usurpada pelo anti-Cristo, réu de todas as mentiras, em Cátedra de difusão do neo-paganismo, bestialmente inferior aos mais salazes paganismos da Antiguidade pré-Cristã.

Para finalizar, recordemos que os elementos filosóficos pagãos acima expendidos, SÃO, ISSO MESMO, FILOSÓFICOS, E JAMAIS RELIGIOSOS, POIS ESTES JAMAIS PODEM SER ASSUMIDOS SOBRENATURALMENTE PELA FÉ CATÓLICA, EM CASO ALGUM – NEM MESMO MATERIALMENTE.

Rendamos Graças a Deus Nosso Senhor, que com a elevação ao Estado Sobrenatural, nos outorgou a possibilidade de sublimarmos tudo o que a Criação possui de realmente  Verdadeiro, Belo e Bom. Sempre para a maior Glória de Deus e Salvação das almas.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 29 de Dezembro de 2015

 

2 Respostas para “CONSTITUIRÁ O ESTOICISMO PARTE LEGÍTIMA DA DOUTRINA CATÓLICA?

  1. Luís Coelho janeiro 2, 2016 às 5:34 pm

    Durante o período do Estoicismo Imperial (último dos três períodos do Estoicismo), Séneca foi, sem dúvida, quem mais contribuiu para a difusão do Estoicismo no mundo Romano. Curiosamente, os Padres da Igreja, de um modo geral, acolheram de bom grado o Estoicismo. São Jerónimo, no seu “De Viris Illustribus” (XII) inclui Séneca entre o rol dos homens ilustres da Igreja, a quem, de resto, considera “noster Seneca”. Sabe-se também que, apesar de apócrifas, as célebres Cartas trocadas entre Séneca e São Paulo teriam como principal objectivo a difusão do Cristianismo entre os meios mais esclarecidos e intelectuais da sociedade romana. Santo Agostinho escreveu um “De Beata Vita” muito inspirado no “De Vita Beata” de Séneca, já para não falar das inúmeras citações que faz no “De Civitate Dei” de obras de Séneca. Também entre nós, São Martinho de Dume, escreveu certas obras – como a “Formula Vitae Honestae” e o “De Ira” – tendo como referência determinados aspectos do estoicismo. Refira-se que um dos pontos do Estoicismo que entra em perfeita contradição com a Doutrina Católica é a questão do suicídio, visto como uma solução possível: quando já não resta qualquer esperança, o sábio estóico pode suicidar-se.

    • Alberto Cabral janeiro 2, 2016 às 9:13 pm

      Desconhecia, em concreto, a questão do suicidio, mas afinal encontra-se em coerência com a mentalidade genérica dos romanos. Muito obrigado pelas referências.
      Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

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