Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

FÉ EM SENTIDO FORMAL E “FÉ” EM SENTIDO MATERIAL

Fé,Esperança, Caridade

 

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

 

Escutemos o Papa São Pio X, em excertos da encíclica “Pascendi Dominici Gregis”, promulgada em 8 de Setembro de 1907:

«Mas é que os nossos doutores, não se entregaram ao estudo das Escrituras, com os meios de que se proveram os modernistas! Isto é, não se deixaram amestrar, nem guiar, por uma filosofia que tem a NEGAÇÃO DE DEUS  como ponto de partida, e  nem se arvoraram a si mesmos em norma de bem julgar. Parece-nos, pois, já estar bem declarado o método histórico dos modernistas. O filósofo abre o caminho; segue-o o historiador; logo após, por seu turno, a crítica interna e textual. E como é próprio da primeira causa comunicar sua virtude às segundas, claro está que tal crítica não é uma qualquer crítica, mas por direito deve chamar-se AGNÓSTICA, IMANENTISTA, EVOLUCIONISTA; e por isso quem a professa, ou dela se utiliza, professa os erros que se contêm nela, e se põe em oposição com a Doutrina Católica. Por esta razão, é muito de admirar que tal género de crítica possa hoje ter tão grande aceitação entre católicos. Isto assim sucede por dois motivos: O primeiro é a aliança íntima que há entre os historiadores e críticos desse género, não obstante qualquer diversidade de nacionalidade ou de crenças; o outro é a incrível audácia com que qualquer parvoíce que algum deles diga, é pelos outros sublimada e decantada como progresso da ciência; SE ALGUÉM O NEGAR LEVA A PECHA DE IGNORANTE; se, porém, o aceitar e defender, SERÁ COBERTO DE LOUVORES. Disto se segue, que não poucos ficam enganados; entretanto, se melhor considerassem as coisas, ficariam, ao contrário, horrorizados. (…)

Se pois, de uma só vista de olhos, atentarmos para todo o sistema modernista, a ninguém causará pasmo ouvir-nos defini-lo, afirmando ser ele a síntese de todas as heresias. Certo é, que se alguém se propusesse juntar, por assim dizer, o destilado de todos os erros, que a respeito da Fé, têm sido até hoje produzidos, nunca se poderia chegar a resultado mais completo do que a esse respeito chegaram os modernistas.»   

 

Pela Fé somos salvos, diz São Paulo (Rom 1,17), pois por ela somos levados ao conhecimento das coisas invisíveis; e na realidade, toda a nossa vida mortal deve ser repassada por um processo de ascensão, desde daquilo que se vê para o que não se vê.

Enquanto que o Anjo encontra já em si mesmo uma constelação de ideias infusas, representativas do mundo, já constituídas, sem que para tal tivesse o mesmo Anjo de exercer esforço intelectual, e mais ainda, através da sua essência espiritual, connhece intuitiva e espontâneamente a Deus, e aos outros Anjos e almas separadas; o homem necessita operar sobre os estímulos fenoménico-sensíveis, para deles haurir as essências inteligíveis, e mesmo depois destas obtidas, deve proceder a infindáveis induções e deduções no decurso da sua vida terrena. Mas na Eternidade, toda a potencialidade ontológica, natural e Sobrenatural, actuada no ser, isto é, no Bem, em vida dos eleitos, permanecerá Eternamente, em Acto absolutamente simultâneo, infinitamente ilustrado pelo Lume Divino; na criatura glorificada não restará, após o Juízo Final, qualquer pura potencialidade, ou mutabilidade, ontológica, natural ou Sobrenatural.

Antes do pecado original a captação da realidade inteligível a partir da sensível processava-se fàcilmente, sem esforço e até de forma gratificante; mas na nossa presente condição pecadora, por mais dotado que um indivíduo seja, nada poderá conseguir de realmente válido, sem um estudo concentrado, profundo, duro, e essencialmente isento de devaneios e distracções.

Segundo o Magistério de São Tomás de Aquino, assumido infalìvelmente na Constituição “Dei Filius” emanada do Sagrado Concílio Vaticano I, o nosso organismo Sobrenatural também possui o objectivo de ministrar à alma os conhecimentos, mesmo da Ordem Natural, que ela muito difìcilmente adquiriria pelo exercício da sua inteligência, também natural, em virtude da ferida do pecado original.

A maior parte das almas piedosas foram conduzidas ao conhecimento e amor de Deus Nosso Senhor e da Sua Santa Madre Igreja, directamente, por Via Sobrenatural, sem percorrerem os caminhos dos “Preambula Fidei”.

Existe uma proporção transcendental entre o Hábito operativo da Fé e a Revelação objectiva; consequentemente, mesmo aqueles que, sem culpa, desconhecem actualmente, por via experimental, a Nosso Senhor e à Sua Igreja, podem, com a Graça Sobrenatural, possuir os Hábitos da Fé, Esperança e Caridade, E ENTÃO CONHECEM JÁ VIRTUAL, MAS REALMENTE, A NOSSO SENHOR E À SUA IGREJA, EM VIRTUDE DA JÁ REFERIDA PROPORÇÃO TRANSCENDENTAL. O mesmo se diga das criancinhas baptizadas, ou dos loucos, baptizados, mas que nunca tiveram o uso da razão.  

A Fé Teologal necessita da Virtude da Caridade, como que de uma Forma extrínseca que lhe confira um verdadeiro estatuto Sobrenatural, já que sem a Caridade, ninguém se pode salvar.

Mas não pensemos que é fácil possuir a Fé Teologal, mesmo sem a forma da Caridade Perfeita. Efectivamente, a Fé, mesmo informe, NÃO CONSTITUI UMA OPINIÃO HUMANA, UMA CRENÇA HUMANA, NÃO, A FÉ, MESMO INFORME, É SOBRENATURAL NO SEU OBJECTO PRÓPRIO, QUE É TODA A REVELAÇÃO OBJECTIVA, BEM COMO NO SEU MOTIVO FORMAL – A AUTORIDADE DIVINA. Além disso, o crente, mesmo na Fé informe, tem que conceber e possuir a Fé como RESPOSTA DIVINA A UM APREÇO, INCONDICIONAL, SOBRENATURAL, PELA VERDADE OBJECTIVA, CONCEBIDA TRANSCENDENTALMENTE COMO UM FIM EM SI MESMA, E NÃO POR MOTIVOS SUBJECTIVOS, IMANENTES. No caso da Fé ser formada pela Caridade, então, em vez de apreço pela Verdade Objectiva, haverá AMOR PELA VERDADE, ainda imperfeito na atrição e perfeito na contrição.  Neste quadro conceptual, irremediàvelmente se excluem do ãmbito da Fé Teologal aqueles que a concebem humanamente, instrumentalmente, como um meio de ascender socialmente, ou como um processo de ingressar num meio culturalmente mais prestigiado; esses possuirão a Fé em SENTIDO MATERIAL, o que significa que NÃO É FÉ, MAS UMA OPINIÃO PURAMENTE HUMANA, DETERMINADA POR CONDICIONANTES PURAMENTE HUMANAS.

Também não possuem a Fé aqueles que escolhem as verdades que preferem crer, abandonando as que lhes não agradam; igualmente aqui se trata de uma opinião humana.

Poder-se-á ainda percepcionar e classificar o denominado mimetismo nominalista de fachada social, extremamente disseminado, em todos os tempos e todos os lugares, não apenas nas classes sociais incultas, mas até nas camadas mais elevadas. Aqui se nota, uma das maiores misérias da humana condição e uma das mais pesadas consequências do pecado original. No mimetismo nominalista, as pessoas copiam de uma forma puramente mecânica a representação momentãneamente mais forte, qualquer que ela seja. Nesta perspectiva, nem mesmo se poderá falar de Fé em sentido material – QUE NÃO É FÉ, COMO DISSEMOS – mas apenas de estímulos psicológicos, sensoriais e nominais propagados através da multidão e mesmo institucionalmente assumidos. Verificamos este mimetismo, com extremo vigor, na chamada psicologia das multidões, onde a pressão social – em si mesmo mimética e nominalista – é muito forte, como por exemplo no Islão, mas também, se bem que em grau menor, desgraçadamente, nas peregrinações a Fátima, hoje como ontem, onde impera a mais negra superstição, sempre verberada pelos bispos, bem antes do Vaticano 2.

Concluímos portanto, que a Fé Teologal implica necessàriamente uma atitude estritamente objectiva. Mas então será necessária formação filosófica para ter Fé? DE MODO NENHUM, porque essa atitude eminentemente objectiva, de apreço ou amor pela Verdade, concebida, transcendentalmente, como um Fim em si mesma, É-NOS FACULTADA, SOBRENATURALMENTE, PELA GRAÇA. Mas então, aqueles que possuem formação filosófica acrescentam algo à Graça e à Fé? Directamente, só adicionam uma evidência extrínseca, filosófica, natural, das realidades da Fé; mas como existe uma incomensurabilidade essencial entre a Ordem Natural e a Ordem Sobrenatural, as realidades naturais nada acrescentam às Sobrenaturais; podem, todavia, constituir condição extrínseca providencial de um crescimento da vida Sobrenatural.

Neste particular, a ignorãncia das massas populares não serve de desculpa à sua superstição. Nossa Senhora, a nossa querida Mãe do Céu, bem como os Apóstolos, eram humanamente ignorantes; a Santa Providência assim expressamente o quis, precisamente, para demonstrar que a economia Sobrenatural reside infinitamente acima das vicissitudes da vida terrena e natural. Os santos são, na sua maioria, pessoas humildes e de poucas letras; as Aparições de Nossa Senhora, segundo o que consegui averiguar, na época do laicismo, dirigem-se invariàvelmente aos pequenos deste mundo, sobretudo crianças. É que a alma mais humanamente ignorante, mais humilde e espezinhada deste pobre mundo, pode perfeitamente ser um grande santo, uma obra-prima da Graça Divina. Recordemos São Bento José Labre (1748-1783), que foi uma chama de Amor Divino, errante por esse triste mundo, NÃO TENDO NADA, MAS POSSUINDO TUDO.

Nesta idade pós-Cristã, jamais olvidemos que Deus Nosso Senhor, na Sua Infinita Sabedoria e delicadeza, prima por edificar sobre fundamentos muito simples, mas perfeitamente sãos. O Senhor compraz-Se em fazer nascer Abraão, O PAI DOS CRENTES, e Samuel, de mulheres velhas e estéreis; e de escolher um pequeno povo como Depositário da Revelação. DEUS É INFINITAMENTE SIMPLES E É NA SIMPLICIDADE QUE TIRA O BEM DO MAL.

A Ressurreição da Santa Madre Igreja bem como da linhagem dos Papas, constituirá assim o FRUTO SOBRENATURAL DA SIMPLICIDADE, DA SANTIDADE, DO SEU RESTO FIEL. Será até o próprio horror, a náusea, do tempo do anti-Cristo, que produzirá, providencialmente, na Graça de Deus e na Mediação de Nossa Senhora – a eleição – que surgirá, teológica e canònicamente, como indiscutível – de um verdadeiro Papa.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 24 de Janeiro de 2016

 

2 Respostas para “FÉ EM SENTIDO FORMAL E “FÉ” EM SENTIDO MATERIAL

  1. henri fevereiro 5, 2016 às 9:33 am

    Caro Alberto,

    Parece-me que o meio mais seguro que o Senhor coloca à disposição dos fiéis para firmar a Fé em bases sólidas, e não em vãos motivos humanos, é a devoção a Nossa Senhora.

    No pouco em que Nossa Senhora aparece nos Evangelhos, é para mostrar-se escrava do Senhor. Ela fica oculta na maior parte do tempo – não poderia passar mais longe das honrarias sociais, pois não se importa com a aprovação dos homens. Nas imagens aprovadas pela Igreja, ela sempre aparece fazendo referência ao Senhor de alguma forma, frequentemente com as mãos unidas em oração e de cabeça baixa (por exemplo, Nossa Senhora de Guadalupe), na mais absoluta submissão e paz, plenamente realizada em ser submissa ao Senhor, e somente isso. Não precisa de mais nada.

    Muito ao contrário de nós, que sempre buscamos fama, poder, prazeres, dinheiro, e coisas mundanas em geral, que vão virar pó cedo ou tarde. Ao contrário de nós, que com as menores realizações nos enchemos de orgulho e vaidades, ainda que não o expressemos em público.

    Quem busca inspiração em Nossa Senhora, quem a tem sempre no coração, dificilmente se perde.

    Deixo aos leitores que não o conhecem a recomendação da leitura de São Luís de Montfort. Entre suas obras, destaco o seu “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria”, disponível integralmente aqui:

    http://www.perfeitadevocao.org/download/TratadoDaVerdadeiraDevocao.pdf

    Fiquem com Deus, amigos da Fundação Pro Roma Mariana, e continuem com o apostolado.

    • Alberto Cabral fevereiro 8, 2016 às 12:06 am

      Nunca esquecer que até o correspondermos à Graça temos de agradecer a Deus. A devoção à Nossa querida Mãe do Céu constitui já um efeito da Graça de Deus. Ora todas as Graças concedidas aos homens possuem a Mediação Maternal de Nossa Senhora, por quem o Redentor foi dado ao mundo.
      Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral – Lisboa

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