Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

FÁTIMA E O TEMPO DOS CEGOS QUE GUIAM OS CEGOS…

Fatima abismo

Arai Daniele

Diante de uma impressionante decadência no governo dos homens, da qual é exemplo hoje a Europa, Portugal, Brasil e o mundo todo, parece útil lembrar que isto segue o desprezo pelo Reino de Cristo.

Deste foi intrépido defensor São Pio X e depois?

A História mostra que em todos os tempos também os doutores da lei e os fariseus negavam Jesus em nome de Abraão. Nosso Senhor mostra, porém, que já não fazem as obras de Abraão (cf. Jo 8, 39). Ao contrário, como seus pais, perseguem, com o intuito de eliminar, os profetas. (Mt 23, 29).

Seria assim também nos nossos tempos? Há razões para dizer que hoje mais que nunca há um contínuo combate contra a verdade da parte de um mundo que aderiu ao erro e dos muitos que aderiram a esse mundo e o servem. Mudaram só as formas, as técnicas e a dialética.

A profecia mariana é agredida pelo ridículo, sufocada pelo silêncio, arquivada pelo seu “alarmismo”. Mas quem ainda tem olhos para ver, saberá que isto confirma uma profecia autêntica. Pode significar até mesmo a razão por que foi dada: testemunhar a infidelidade e impiedade de quem falhou.

Vamos falar da passagem do tempo de um papa intrépido e que sobre questões do Reino de Cristo era intransigente, ao tempo dos papas diplomáticos. Isto justamente no tempo que Nossa Senhora atendia ao apelo do papa e da Igreja pela paz.

Mas … “O enviado não é maior que aquele que o enviou.” (cf. Jo 13, 16) Poderia ser melhor recebida pelos grandes da Terra do que o foi Jesus pelos sumos sacerdotes? O desprezo pela mensagem de Fátima  deixa claro que não.

O “AGGIORNAMENTO” DE BENTO XV

Ora, além dos fatos explícitos que a mensagem de Fátima prenunciou em 1917 e já aconteceram, ou continuam acontecendo, quem almeja entender melhor o evento de Fátima deve aprofundar o significado implícito do sinal sobrenatural ter sido dado em 1917, assim como do fato de ter ficado reservada uma parte secreta da mensagem para ser conhecida somente em 1960.

Um sinal dessa ordem, mesmo sem considerar o conteúdo dos avisos que trouxe, já indica a necessidade de testemunhar, para o bem dos homens, acontecimentos espirituais imperceptíveis, mas que pela sua natureza vão determinar os demais, visíveis.

Dada a sua origem, nada pode ser casual ou irrelevante em Fátima. Ou é recebida pelo que quer indicar, ou permanecerá como um marco de recusa, senão à sua mensagem, que não é imposta nem obrigatória, a Quem a enviou para ajudar os homens envoltos em trevas. Se foi dada naquelas circunstâncias é porque era necessária e deveria indicar algo que os homens com os meios normais não viam. Era já então o marco de uma renovação ou de uma decadência, segundo fosse aceita e atendida ou recusada e contornada. Não há meio termo.

De fato, hoje sabemos que 1917 significou uma encruzilhada para o mundo e para a Igreja. Em junho de 1917 reuniu-se um congresso maçom das nações aliadas e neutras com o fim de constituir a Sociedade das Nações, precursora da ONU.

Os mesmos maçons fizeram uma manifestação contra o papa na praça de São Pedro exaltando Lúcifer, como lembra São Maximiliano Maria Kolbe, que fundou a Milícia da Imaculada, então, para convertê-los.

Em 1917 houve também a declaração do ministro inglês Balfour, que deu o primeiro impulso para a formação do novo Estado de Israel. Em novembro, a revolução bolchevista, tomando o poder na Rússia, constituía a primeira potência da história governada por uma ideologia intrinsecamente contrária a Deus. Era o fato culminante de um processo político que a Igreja sempre condenou. Já em 1846 Pio IX na Encíclica Qui plurimus acusava: “a nefasta doutrina do assim chamado comunismo, contrária em modo extremo ao próprio direito natural, a qual, uma vez admitida, levaria à radical subversão do direito, da propriedade de todos e da própria sociedade humana.”

Quando em 1917 o comunismo subjugou a Rússia e passou a ser o gigantesco flagelo da ordem social cristã e perseguidora não só da Igreja mas dos próprios princípios da fé, não veio de Roma o necessário e proporcional grito de alarme.

Que vírus entorpecera a cristandade? Era sinal de que também na Igreja algo estava mudando? É sempre muito difícil verificar uma mudança dessa ordem na política vaticana, cujos documentos e decisões são amortecidos, na aparência, por palavras estudadas, por medidas prudentes e por atitudes piedosas. Note-se, porém, que mesmo nos movimentos lentos e contínuos a verdadeira mudança não está na velocidade, mas na direção, e esta era diversa do pontificado anterior de São Pio X. A distinção fundamental estava no espírito de compromisso.

Intransigente sobre tudo que dizia respeito aos direitos divinos e, portanto, da Igreja, foi o papa Sarto; tolerante e diplomático foi seu sucessor, papa Della Chiesa, Bento XV. A questão está, portanto, em estabelecer os contornos desse espírito novo.

A tolerância e a diplomacia não são certamente males; muito ao contrário, podem proporcionar compromissos úteis e benéficos para muitos. Para compor questões e disputas, quase sempre as partes devem conceder vantagens e admitir erros ou incompreensões. Trata-se de ceder sobre o que é próprio, discutível e contingente. Seria absurdo, porém, fazê-lo sobre o que é valor universal, indubitável e permanente, questões relativas ao bem e à verdade e que transcendem o terreno e o temporal; em suma, sobre o que é de Deus e foi confiado à Igreja. Lembrá-lo, oportuna e inoportunamente, é função dos pastores e especialmente do papa. Essa santa intransigência com o erro é inerente à Santa Sede, que por isto deve merecer todo respeito e atenção.

De fato, o que é o Reino de Cristo senão a pregação do império do bem e da verdade? E como poderia vencer o mal e o erro no silêncio e no compromisso? Por evitá-los sempre, São Pio X viu o seu “integrismo” para “instaurar tudo em Cristo”, minado dentro da própria Igreja, dor que, ajuntando-se à da luta fratricida na Europa, abreviaram-lhe a vida. Como os cristãos de sempre, teria preferido o martírio a um compromisso com a glória devida a Deus. Qual espírito impediu a Bento XV ver que esta era o alvo visado pela revolução atéia na Rússia?

A mensagem de Fátima veio lembrar o ensinamento católico de que os erros crescentes do mundo, aumentando a ofensa a Deus, tornam-se causa de guerras, revoluções e sofrimentos da Igreja.

Tomando o pontificado de São Pio X como referência do apelo diuturno a essa vigilância que deve crescer com a virulência do erro, pode-se dizer que sob Bento XV aparentemente pouco mudou em termos teóricos, mas a aceitação de uma equívoca noção de tolerância e unidade eclesial levou ao abrandamento das defesas erguidas por São Pio X. E isto, diante do modernismo que o papa Sarto mostrara ser a síntese das heresias na Igreja e, portanto, laboratório dos erros do mundo, foi uma abertura a funestos compromissos. Esse mal continuava à espreita na Igreja, embora transformado ou camuflado, e desaparecendo a santa intransigência papal que o retinha, voltou a avançar livremente.

Bento XV renovara a exigência do juramento antimodernista para os sacerdotes, mas desejando um apaziguamento dentro da Igreja, chegou a reprovar com a encíclica Ad beatissimi que alguns católicos se proclamassem integrais para distinguir-se dos liberais. Agiu como se o mal adviesse da oposição e não do erro liberal já condenado por todos os papas precedentes.

Quando em 1921 uma intriga internacional abateu-se contra o Sodalitium Pianum, verdadeiro quartel-general antimodernista formado sob São Pio X, para evitar o embaraço de uma defesa difícil Bento XV pediu ao responsável por essa organização tam-[14]-bém conhecida por La Sapinière, monsenhor Benigni, que a dissolvesse. Tinha com que substituí-la? De modo algum, pois já no começo de seu pontificado havia feito uma temerária abertura ao trust de jornais católicos de tendências modernistas. Estes haviam sido reprovados explicitamente por São Pio X em comunicação publicada pela Acta Apostolicae Sedis de 1/12/1912.

Em outubro de 1914 Bento XV fez saber através do secretário de Estado, cardeal Gasparri, que essa advertência não tivera caráter de proibição (Enc. Cat. VI, p. 462). Tanto bastou para que o jornalismo que auspiciava o aggiornamento da Igreja aos tempos modernos voltasse com vigor às idéias reprovadas por Pio X.

Seria o laicismo, o naturalismo, o interconfessionalismo, o democratismo, etc, propostos entre os próprios católicos. Bento XV havia condenado o modernismo inovador mas, propenso às soluções diplomáticas, evitou as questões que pudessem acentuar a “marca de intransigência e reação” que o mundo atribuia à Igreja para isolá-la.

Em 1917 fez um apelo às nações beligerantes pela paz. Não foi ouvido senão para ser criticado, e terminada a guerra a Conferência da Paz o ignorou até mesmo sobre a questão da Palestina. No que concerne a Portugal, São Pio X havia anos antes rejeitado as imposições contra a Igreja do governo republicano, assim como fizera com o governo francês em 1905. Com a encíclica Jamdudum in Lusitania, de 24/5/1911, acusou as forças anticlericais da república e condenou como absurda e monstruosa a lei de separação entre a Igreja e a república portuguesa.

Essa recusa de procurar compromissos resultou no exílio de bispos e na prisão de sacerdotes, mas também na consolidação de uma resistência católica que demonstrará a sua força anti-revolucionária por ocasião das aparições de Fátima.

Com Bento XV a atitude da Igreja mudou. Terminada a guerra, as relações diplomáticas entre Lisboa e a Santa Sé foram restabelecidas. “Em dezembro de 1919, Bento XV dirigiu um apelo aos católicos portugueses incitando-os a se submeterem à autoridade da república como legalmente constituída e a aceitar mesmo os cargos públicos que lhes fossem oferecidos. A beatificação de Nuno Alvarez, o herói de Aljubarrota, contribuiu muito também para o incremento dos sentimentos de cordialidade.

Não obstante, o governo continuava a perseguir a Igreja de diversas maneiras. Empregava todos os meios ao seu alcance para impedir o surto de devoção de Fátima. Talvez tenha sido por esta razão que o cardeal Mendes Belo, Patriarca de Lisboa (de volta do exílio), tenha ameaçado de excomunhão qualquer padre que propagasse a devoção e falasse sobre as aparições… Parecia-lhe inoportuna a eclosão de uma nova devoção nesse momento em que estavam melhorando tanto (?) as relações entre a Igreja e o Estado.” (NSF, p. 155)

Neste mesmo livro fala-se de chacotas feitas sobre Fátima, às quais esse prelado à escuta aderiu rindo. Mas tudo isso a pouco serviu. “Em 13 de maio de 1920, o governo mandou dois regimentos do exército à Cova da Iria para impedir a devoção de Fátima. A multidão pôs-se a rezar o terço e a cantar e até guardas acabaram aderindo e o cerco rompeu-se.” (NSF, p. 168)

A Rússia, sob o governo comunista, foi nesse mesmo ano flagelada por uma das maiores fomes de que se tem notícia, fazendo muitos milhões de mortos. Os governos ocidentais estavam incertos sobre como poderiam ajudar sabendo que socorrer essa população faminta significaria também reforçar o governo que era causa da tragédia.

Foi Bento XV quem simplificou essa grave questão moral proclamando em 1921, diante das nações indecisas, “ser dever de cada homem correr onde outro homem morre”.

Tratava-se de uma caridade toda humana que iria socorrer populações desesperadas, desconhecendo se a ajuda chegaria ao destino, mas sabendo que iria reforçar a causa dessa e de outras desgraças funestas, que era o comunismo. Além disso, as necessárias tratativas para fazê-lo davam inevitavelmente ao regime revolucionário de Lênin, declarado destruidor da ordem civil anterior e perseguidor da religião e da liberdade, o reconhecimento de sua legitimidade. Em o Erro do Ocidente o escritor russo Soljenitsin dirá: “As forças ocidentais ocuparam-se em reforçar o regime soviético com ajuda econômica e apoio diplomático, sem o que esse não teria sobrevivido. Enquanto seis milhões de pessoas morriam de fome na Ucrânia e na região do Kuban, a Europa dançava.” Tal acomodamento político, que ajudou a consolidação do ateísmo militante que iria expandir-se a ferro e fogo pelo mundo, foi iniciado com o beneplácito papal de Bento XV.

Certamente o comunismo e também o modernismo não deixaram de ser condenados no seu pontificado, mas em que termos e com quais ações? Não admira que quando da sua morte até comunistas e anarquistas sentissem o luto (Enc. Cat. II, p. 1294). O mesmo se daria com Paulo 6º.

A aparição de Fátima, antes que sua mensagem fosse conhecida, vinha reavivar a fé para prevenir da sua perseguição. A suavidade com que o fez demonstra o cuidado divino em não ferir a livre vontade humana. “Porque Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu Seu Filho Unigênito para que todo que Nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo, 3,16)

A fé no Redentor salva os homens e pode consertar também este mundo que Deus amou. Eis a resposta de fé que deu a aparição de Maria Santíssima em Fátima. O primeiro passo para beneficiar-se dela, porém, era reconhecê-la para depois acolhê-la.

Hoje sabemos a importância desse evento em 1917, vésperas da revolução comunista e atéia que tomou o poder na Rússia, e — devemos acrescentar — antevésperas das cogitações vaticanas de entabular compromissos com um governo iníquo e inimigo declarado de Deus. A mensagem lembrava que a única saída estava na conversão da Rússia, que com seus erros agredia esta mesma fé à qual seria por fim convertida. Os pastores, porém, iniciaram seus diálogos e compromissos com o erro.

Quanto a Bento XV, muitas razões podem ser alegadas para explicar por que não reconheceu em Fátima a resposta a seu apelo de paz, mas isto é de importância relativa. O fato extraordinário é que em 1917 Deus deu um sinal sensível de Sua Vontade aos homens. O reconhecimento do papa seria um tributo a esta verdade, mas não condiciona o evento em si. Este, mesmo antes que a mensagem fosse conhecida, o que seria possível já então no dizer de Lúcia, indicava o único caminho para a verdadeira paz no mundo e salvação das almas. Para isto são dadas as profecias religiosas. Destas o papa é o supremo juiz quanto à autenticidade, enquanto é também o máximo vigilante sobre os enganos e ilusões contrários à fé. E por isto nada deve impedir que seja o mais informado e atento observador de sinais e luzes divinas para melhor guiar a Igreja. Quantos males evitaria ouvindo antes os avisos de Fátima que as lucubrações de certos doutores!

Ainda sobre a relação entre o apelo de Bento XV e a resposta de Fátima, podemos dizer que esta dá um claro testemunho do poder de invocação do papa quando move toda a Igreja a pedir pela glória de Deus e salvação das almas. O poder está na fé que pode remover montanhas se por ela reconhecermos e almejarmos fazer a vontade de Deus. Não faltarão os Seus sinais. Disto também dá testemunho a mensagem de Fátima que, sendo de origem sobrenatural e representando uma síntese da fé, esperança e caridade católicas, foi dada como solução para a paz do mundo.

Mas o mundo, culpado de crimes e revoluções, teve que expiar com a guerra e a fome os flagelos de avidez e domínio que engendrou. A mensagem de Fátima que veio prevenir sobre estes castigos não sendo ouvida, ao contrário, aumentando vertiginosamente a ofensa a Deus, o mundo continua engendrando sem ver um flagelo monstruoso. Mas o pior é que a prevaricação humana coíbe toda solução e saída, prevalecendo também na Igreja, se forem ignorados avisos e desprezadas ajudas. Eis o testemunho silencioso e triste de Fátima.

A civilização de Cristo Rei, implantada pelos mártires, difundida por toda a Terra pelos santos e confirmada em todos os tempos pelos papas, está sendo desertada e apostatada? Na Igreja, a preocupação com os perigos terrenos passou a ser maior que com a perdição eterna?

Será chegado o tempo em que um delírio de liberdade provocará obscurecimentos da fé, seguido de vertigens, cegueiras e pavores?

…”Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na Terra, consternação dos povos pela confusão do bramido do mar e das ondas, estremecendo os homens de susto na expectação do que virá sobre o mundo, porque as virtudes dos Céus serão abaladas.” (Lc 21,25)

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