Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

A DIVINA PAIXÃO E MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

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Arai Daniele

Há quem viu o film de Mel Gibson sobre a Paixão, que mostra algo da intensidade e violência das dores sofridas por Nosso Senhor, e se lamentou de ver tanto sangue. Na verdade, a Sua agonia, desde o Jardim do Getsêmani até a Morte, passava por sofrimentos tão intensos que nenhuma representação visual podia descrever. Foi algo de tão atroz que só o Amor divino poderia suportar, e na cruz, pronunciado aquelas palavras sagradas que sabemos. E como se poderia não meditá-las sempre de novo, especialmente agora que conhecemos mais detalhes médicos do excruciante sofrimento físico, que nos abriu as portas da salvação?

Para conhecê-los, em parte, relatamos o que deduziu o médico cirurgião francês Barbet, que fez uma atenta pesquisa médica sobre a situação do corpo do Salvador para concluir: “agora podemos ter certeza de que a morte de Jesus na cruz ocorreu pela contração tetânica de todos os músculos e asfixia… Falo especialmente como cirurgião que durante 13 anos viveu em companhia de cadáveres; que durante uma longa vida ensinou anatomia, tendo estudado a fundo essa matéria, para poder concluir esse fato sem nenhuma presunção”.

Os documentos que a Igreja dispõe nesse sentido são os Evangelhos e nos últimos anos o Santo Sudário de Turim, sobre o qual se estão fazendo descobertas assombrosas sobre os particulares do que Jesus sofreu. Mas vamos iniciar a meditação pela agonia no Getsêmani.

Escreve o evangelista Lucas – “Jesus entrou em agonia e orava mais intensamente. Começou então um suor como de gotas de sangue que iam caindo no solo”. O evangelista que relata o fato é um médico, Lucas. O faz com a precisão clínica. Suar sangue, ou hematohydrosis, é um fenômeno muito raro produzido em condições excepcionais: a provocá-lo é a exaustão física, acompanhada de um choque moral violento causado por profunda emoção e grave angústia. O terror de sentir-se carregado de todos os terríveis pecados dos homens deve ter arrasado Jesus. E a tensão extrema produz a ruptura de finíssimas veias capilares sob as glândulas sudoríparas… O sangue misturado ao suor acumula-se na pele para depois escorrer pelo corpo até o chão… Nessas condições Jesus viu-se abandonado por aqueles apóstolos que dormiam apesar de Seu pedido de vigiarem com Ele. E sabia que seria traído por Judas.

O médico legista americano Frederick Zugibe, conceituado perito criminal e professor da Universidade de Columbia, procurou dissecar a morte de Jesus com objetividade científica e imparcialidade, embora católico fervoroso. Manteve ao longo do trabalho o amor e o respeito devido a Cristo. Zugibe, 76 anos, juntou pois ciência e fé para debruçar-se ao longo de sua vida profissional de médico legista sobre a verdadeira causa mortis de Jesus. Escreveu três livros e mais de dois mil artigos sobre esse tema, publicados em revistas especializadas, revelando como foi a crucificação e quais as conseqüências físicas, dos flagelos sofridos durante as 18 horas do torturante calvário de Jesus. Concluiu que a Sua causa mortis foi de parada cardio-respiratória decorrente de hemorragia e perda de fluidos corpóreos combinado com choque traumático decorrente dos castigos físicos infligidos. Um acúmulo de sofrimentos inenarráveis!

Para se chegar a esse ponto é preciso, no entanto, que antes se descreva e se explique cada etapa do sofrimento de Nosso Senhor e Salvador.

O Dr. Zugibe utilizou em sua pesquisa uma cruz e selecionou voluntários (entre os quais seu filho) para serem suspensos, monitorando eletronicamente tudo, com a experiência de quem foi patologista-chefe do Instituto Médico Legal de Nova York durante 35 anos. Suas conclusões estão no livro «A crucificação de Jesus». Conta: “Foi como se eu estivesse conduzindo uma autópsia ao longo dos séculos”, e sendo religioso, não passou incólume pela experiência em que verificou da parte de Jesus a suportação de indescritível combinação de dores lancinantes, desde a agonia no Jardim das Oliveiras, passando pela flagelação e crucificação até a morte.

A descrição depois do relato do evangelista São Lucas sobre quando “o suor se transformou em gotas de sangue que caíram ao chão”, fenômeno raro devido a forte angústia mental, prossegue: Era ainda o começo das 18 horas de tortura. Jesus foi violentamente flagelado chicotes que eram flagelos com três tiras de pontas com peças pontiagudas. Estas açoitaram o corpo de Jesus 39 vezes, multiplicando as feridas pelo corpo pelo número de tiras e de pontas; não admira pois o grande número de feridas descritos por Jesus à Santa Brígida da Suécia.

“A vítima era reduzida a uma massa de carne, dilacerada e sedenta de água”, diz o legista. Em seguida, uma coroa de espinhos foi cravada na cabeça de Jesus, causando sangramento no couro cabeludo, na face e na cabeça. Os espinhos atingiram nervos provocando dores lancinantes, em especial atingindo o nervo trigêmeo, na parte frontal do crânio; dores das mais insuportáveis, sendo que há casos em que nem a morfina consegue anestesiá-las. Ao suplício dessa “coroação”, seguiu o da interminável caminhada com a cruz às costas. Ao chegar ao local de sua morte, as mãos de Jesus foram pregadas à cruz com pregos que perfuraram as palmas de suas mãos, pouco abaixo do polegar, região por onde passam os nervos medianos, que geram imensa dor quando lacerados.

Já preso à trave horizontal, Jesus Cristo foi suspenso e essa trave, encaixada na estaca vertical. Os pés de Jesus teriam sido pregados na cruz, um ao lado do outro, não sobrepostos como as imagens costumam representar, mas sempre causando dores lancinantes e contínuas.

Pregado na cruz, Jesus Cristo passou a sofrer fortes impactos físicos. Para conhecê-los em detalhes, o médico legista reconstituiu a crucificação com voluntários entre 25 e 35 anos assistidos por equipamentos médicos para testar o stress e os batimentos cardíacos. Todos os voluntários observaram que era impossível encostar as costas na cruz pois sentiram fortes cãibras e dores quando arquearam o corpo na tentativa de esticar as pernas.

A partir desse experimento o Dr. Zugibe passou a estudar a causa de fato da morte de Jesus segundo três teorias principais: asfixia, ruptura do coração ou parada cardíaca e respiratória, em razão de choque traumático e hipovolêmico resultante da crucificação, que seguem o suplício físico e psíquico anteriores a que Jesus foi submetido.

A teoria mais propagada é a da morte por asfixia, devido ao fato da posição na cruz dificultar a respiração, obrigando a vítima a erguer o corpo para conseguir respirar. O ato se repetiria até a exaustão e ele morreria por asfixia quando não tivesse mais forças para se mover. É a causa mortis vista pelo cirurgião francês Pierre Barbet, baseado em enforcamentos. Zugibe julga essa tese de “indefensável” sob a perspectiva médica, pois nesses casos os condenados morriam suspensos com os braços acima da cabeça e as pernas soltas no ar. Não é possível comparar isso à crucificação, na qual o condenado é suspenso pelos braços abertos e os pés presos à cruz, com alguma sustentação. Na posição suspensa não agüentariam horas passadas na cruz. Quanto à hipótese de Cristo ter morrido de ruptura do coração ou ataque cardíaco, Zugibe alega ser raro que ocorra a um indivíduo jovem e saudável, mesmo após exaustiva tortura.

Resta o alastramento do choque causado pelos traumas e hemorragias, mais as lancinantes dores provenientes dos nervos medianos e plantares e o trauma na caixa torácica, causando hemorragias pulmonares ainda devidas à flagelação e às dores da nevralgia do trigêmeo. Aqui o médico acrescenta como causa a perda de mais sangue depois que um soldado Lhe ferio com a lança o peito, perfurando o átrio direito do coração. Nisto vemos contradição com o texto evangélico, porque este ato se deve ao fato de Jesus parecer como morto.

O Dr. Zugibe declara que os seus estudos aumentaram a sua crença em Deus: “Depois de realizar os meus experimentos, eu fui às escrituras. É espantosa a precisão das informações.” Ao final desse estudo, Zugibe faz o que chama de “sumário da reconstituição forense”, chegando à definitiva conclusão sobre a causa mortis de Jesus como sendo: “Parada cardíaca e respiratória, em razão de choque traumático e hipovolêmico, resultante da crucificação.”

Jesus morreu em consequência do acúmulo de dores insuportáveis para qualquer mortal. E só falamos das dores físicas, pois as dores pela visão divina das misérias e crimes humanos ao longo da História é imperscrutável. Todavia, pelo que nos é dado saber de Sua Divina Paixão, já devemos entender o preço dos pecados dos homens que seguiram, repetindo e confirmando a queda original. Dela nos remiu nosso adorável Redentor, das outras nossas intermináveis falhas, possa a meditação dessa Paixão e de Suas palavras de amor na cruz, nos ajudar a evitar.

As Santas Palavras de Jesus na Cruz

É meio-dia. Jesus não bebe nem come nada depois de longas horas. Seu rosto está crispado e é uma máscara de sangue, a boca está seca e a garganta ardente, não pode engolir e tem uma sede mortal. No entanto, consegue num esforço indizível pronunciar as boas palavras cujo culto deve marcar a vida de cada cristão, porque são de amor e sede de salvação de muitas almas. São sete as frases de Jesus na cruz, erguendo-se apoiado no que restam de seus nervos dos pés e dos pulsos. Jesus nos esgares de asfixia com esforço extremo diz: “Pai, perdoai-os: não sabem o que fazem” (Lc 23:34).

Toda a sua dor, sede, cãibras, asfixia, e não lhe extraem lamentos, mas palavras de coração, que desde então são transmitidas para a elevação das almas. E o primeiro efeito foi na mente e coração de Dimas, dito o «bom ladrão», que entendeu estar ao lado de uma santidade que só poderia ser divina; do «Salvador», a que todo homem espera um dia suplicar com fé humilde: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”, para depois com alegria incalculável ter a graça de ouvir: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23:43).

Junto à cruz de Jesus em agonia, está a mãe que sofre mortamente em seu Coração Imaculado a dor suprema da Paixão do Filho. Com ela está João, o discípulo do coração formado pelo de Jesus e, portanto, capaz de amar com dedicação total, e sem medo. Maria é então investida pelo Filho de uma maternidade espiritual e universal com as palavras curtas, mas cheias de intenso significado: “Mulher, eis o teu filho… Eis aí a tua mãe!” (Jo 19, 26-27), na qual João é figura dos beneficiários por um testamento de amor supremo legado por Jesus. E João vai levar a mãe com ele para receber ainda a cura e as luzes que testemunham o mistério da Redenção fluida dessa Paixão divina.
Tendo pronunciado seu «testamento espiritual» e de ter entregue a Mãe ao discípulo amado, Jesus está agora completamente submerso por uma dor sobre-humana, como se lhe faltasse qualquer arrimo e chora a sua desolação e angústia de verdadeiro «homem das dores»: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15:34). O grito lancinante do Homem-Deus através da escuridão da história do homem decaído; agora é o clímax da agonia que Jesus Cristo tem o peso de todos os pecados que devastaram a alma humana. E as lágrimas de toda a dor de gerações humanas sobe por Seu meio da terra para tocar o coração do Pai, que havia inspirado estas palavras no início do Salmo 22, lembrado com grito extremo de abandono. É a hora em que Quem é a Vida entrega-se à morte; a hora da redenção da queda original obtida ao Pai com a agonia do Filho.

“Tenho sede” (Jo 19:28), o gemido de quem morre de sede è – água! – mas Jesus tem uma outra sede, e pelos Evangelhos sabemos que do princípio ao fim de Sua vida pública, Jesus pede com insistência que seja saciada a sua sede. É Deus mesmo que vem a nós como pessoa sedenta de salvação, que nos pede de O saciemos com o pouco que dispomos no poço do nosso pobre amor, qualquer que seja a sua qualidade e quantidade que quer enriquecer à imagem de Seu amor infinito, pelo qual passou por essa cruel agonia sobre a cruz.

 “Está consumado” (Jo 19:30). O grito de Jesus não é simplesmente para dizer que tudo acabou e morrer, mas para significar o fim pleno de sua Paixão, tornada perfeita na demonstração sobrenatural de um amor sem limites pelas almas humanas, criadas à imagem e semelhança de Deus, que teve que resgatar. O evangelista João nos diz no início da Última Ceia o que seja esta vontade divina: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, até as possibilidades extremas de Sua natureza de perfeito homem e perfeito Deus, que na cruz, vimos chegar ao extremo da perfeição da dor e morte que geraram amor no auge da dor.

“Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23:46). Jesus pronuncia as últimas palavras que invocam a entrega de Seu Sacrifício divino para o Pai, cuja Vontade cumpriu até o fim, até a última gota de Seu sangue, que será transmitido como sinal da Nova e Eterna Aliança para a criação da Igreja, do Reino do Amor Divino na Terra, para sempre bendito pelos séculos dos séculos. Foi a sétima e última palavra antes do fim de uma nova criação, sem ocaso, que completa a primeira: “Então no sétimo dia Deus terminou seu trabalho e no sétimo descansou de toda a Sua obra” (Gn 2.2).

É impossível imaginar obra mais preciosa, testamento que supera qualquer tesouro, que possa aproximar-se do valor infinito e da profundidade do conhecimento desta Paixão divina, expressa nessas palavras de amor para os homens, ditas no meio de tais dores. Só o homem-Deus, em Sua integral perfeição também humana poderia suportar tal suplício por amor; um amor divino, o que torna a Sua Paixão sinal de Sua verdadeira natureza de Homem-Deus, revelado mesmo num corpo todo rasgado e chagado pela dor mais aguda sofrido por homem.

Se a Ressurreição vai dar ao mundo o sinal final da intervenção divina na terra, já a meditação desta Santa Paixão de Jesus alimenta a nossa fé na presença do Amor de Deus que é o caminho do Bem, da Verdade e da Vida eterna entre nós.

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