Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

A ETERNIDADE DA SANTA MADRE IGREJA E AS VICISSITUDES DA HISTÓRIA

Igrejas explendidas

 

 

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

 

Escutemos o Papa Leão XIII,  num trecho de uma sua epístola dirigida ao Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Nina – 27 de Agosto de 1878:

«Já desde os primeiros dias do nosso pontificado, do alto da Sé apostólica, dirigimos os nossos olhares sobre a sociedade presente para conhecer as suas condições, para indagar as necessidades, e chegar aos remédios. E desde então,  nas cartas encíclicas escritas para todos os veneráveis irmãos no episcopado, deploramos a decadência das verdades, não sòmente Sobrenaturais, conhecidas pela Fé, mas também as naturais, quer especulativas, quer práticas, a prevalência de erros funestíssimos, e o gravíssimo perigo que corre a sociedade, pelas desordens sempre crescentes, pelas quais é subvertida. Dissemos que a causa principal de tanta ruína é uma separação proclamada e a apostasia tentada pela presente sociedade em relação a Cristo e à Sua Igreja, sòmente na qual há uma virtude suficiente para  restaurar os gravíssimos danos. À luz clara dos factos, mostramos então que a Igreja, FUNDADA POR CRISTO PARA RENOVAR O MUNDO,  já desde a sua primeira aparição nele, COMEÇOU A FAZER-LHE SENTIR O GRANDE CONFORTO DA SUA VIRTUDE SOBRE -HUMANA , E QUE NAS ÉPOCAS MAIS TENEBROSAS E FUNESTAS, FOI O ÚNICO FAROL QUE INDICAVA O CAMINHO SEGURO,  O ÚNICO REFÚGIO QUE PERMITIA TRANQUILIDADE E SALVAÇÃO. Disso era fácil inferir que, se nos tempos que foram, a Santa Igreja serviu para disseminar na Terra benefícios tão marcantes, sem dúvida O PODE FAZER AINDA NO TEMPO PRESENTE: PORQUE COMO TODO O CATÓLICO CRÊ PELA FÉ, A IGREJA ANIMADA SEMPRE PELO ESPÍRITO DE JESUS CRISTO, QUE LHE PROMETEU A SUA CONTÍNUA ASSISTÊNCIA,  FOI CONSTITUÍDA MESTRA DE VERDADE E TUTORA DE UMA LEI SANTA E IMACULADA, E COMO TAL POSSUI TAMBÉM HOJE TODA A FORÇA PARA OPOR-SE AO ESTRAGO INTELECTUAL E MORAL QUE INFECTA A SOCIEDADE, E DEVOLVÊ-LA À SAÚDE. E porque inimigos espertíssimos para pô-la em desgraça, e tornar-lhe inimigo o mundo, vão espalhando graves calúnias contra ela, nós agimos ,desde o princípio, para dissipar os preconceitos e desmascarar as acusações, na certeza de que os povos, conhecida a Igreja como ela realmente é, e a sua natureza  benigna, teriam voltado,  de todo o  lado, e com vontade, ao seio dela.

Guiados por estas intenções, quisemos fazer ouvir a nossa voz,  também aos que regem a sorte das Nações, convidando-os  fervorosamente, a não recusar, nesses tempos tão apertados pela necessidade, o extremamente válido apoio que lhes oferece a Santa Igreja. E levados pela Caridade Apostólica nos dirigimos também aos que não estão unidos connosco no vínculo da Religião Católica, desejando que também os seus súbditos experimentem os benéficos influxos desta Divina Instituição. (…)

Por isso somos obrigados a ver sob os nossos próprios olhos o progresso da heresia, nesta mesma Cidade de Roma, centro da Religião Católica, onde são levantados impunemente e em grande número, templos e escolas heterodoxas, e a ver a perversão que daí deriva, especialmente em grande parte da juventude, à qual é ministrada uma instrução descrente; e aí, como se tudo isso já fosse pouco, TENTA-SE ESVAZIAR OS PRÓPRIOS ACTOS DA NOSSA JURISDIÇÃO ESPIRITUAL.

Contemplada por uma inteligência desprovida de Organismo Sobrenatural, a História Universal é um absurdo sem remédio, um absurdo de tipo sartrano, em que gerações sobre gerações de homens nascem, agitam-se, e morrem, sem razão aparente, sem finalidade objectivamente assinalável, e em geral, imersos em doenças e infelicidade e guerreando-se periòdicamente. É isto a História, tanto antiga como moderna; pois o século XX terá sido, decerto, o mais hediondo, o mais obsceno, o mais representativo das misérias da condição humana, pois foi nele que pela primeira vez, os homens de determinada raça foram tratados como uma espécie zoológica como outra qualquer. Sem a Luz da Fé formada pela Graça Santificante, nem mesmo a Graça Medicinal logra restituir à vida humana sobre a Terra um sentido de dignidade que a torne merecedora de ser vivida.

Mas questionar-se-á: Não é a Ordem Natural, por sua mesma definição, perfeita e autosuficiente? Sem dúvida que sim, cumpre todavia registar que a Humanidade nunca viveu, nem foi constituída na Ordem Natural; a Humanidade nunca viveu numa Ordem puramente Natural e íntegra. O Género Humano FOI ELEVADO AO ESTADO SOBRENATURAL – E OS PRÓPRIOS DONS PRETERNATURAIS FORAM-LHE FACULTADOS EM ORDEM AOS SOBRENATURAIS – E NESSE MESMO ESTADO PECOU MORTALMENTE NA PESSOA DO SEU CHEFE ORGÂNICO, ADÃO, PERDENDO ASSIM, COLECTIVAMENTE, TODOS OS BENS SOBRENATURAIS. Deus Nosso Senhor, com Infinita Justiça, mas também com Infinita Misericórdia, enviou um Redentor, a esta Humanidade decaída, na Pessoa do Seu próprio Filho feito Homem; caso contrário, toda a humanidade seria precipitada no Inferno, pois que as fontes da Graça estariam definitiva e completamente secas. Todavia, a Regeneração Sobrenatural irradiada por Nosso Senhor Jesus Cristo desde a Sua Cruz Bendita NÃO SAROU COMPLETAMENTE A FERIDA NA NATUREZA PROVOCADA PELO DILACERAÇÃO DO PECADO ORIGINAL, SENDO CONSEQUENTEMENTE A NOSSA NATUREZA ACTUAL, NÃO ÍNTEGRA – MAS DECAÍDA. Neste Mistério reside fundamentalmente a razão de ser da corrupção deste pobre mundo, mesmo depois de redimido.

Como foi referido, é da Santíssima Cruz que irradiam infrangìvelmente todos os Bens Sobrenaturais que beneficiam e elevam a Criação. Sabemos que a União Hipostática é Eterna, não apenas num plano Transcendental como no plano Ontológico, porque é indissolúvel. A decisão Divina da Encarnação e da Redenção é Eterna porque a Sabedoria de Deus é Incriada e depende apenas de Si mesma; além disso a Encarnação Activa, ou seja, o Acto “Ad Extra”pelo qual se realizou a Encarnação do Verbo, também é Eterno e comum às Três Pessoas. Consequentemente, na Ordem Transcendental o Verbo foi sempre Homem; embora, na ordem Ontológica só O tenha começado a ser no seio puríssimo da Bem-Aventurada sempre Virgem Maria, quando da Anunciação do Anjo.

Também o Santo Sacrifício da Missa possui uma realidade Eterna, porque a mesma Redenção é Eterna; todavia, no Céu, na Eternidade, o Santo Sacrifício não será celebrado, SERÁ CONTEMPLADO NA SUA MESMA ESSÊNCIA CRUENTA E INCRUENTA. Que a Essência do Sacrifício Redentor não é necessàriamente cruenta, mas ontològicamente oblativa; prova-o o facto de na Última Ceia Nosso Senhor Se ter oferecido ao Pai, incruentamente, ainda antes da consumação do Sacrifício cruento. Neste quadro conceptual, verifica-se que o Mistério da Cruz, Oblação de valor Infinito, renovada no Altar, ultrapassa o alcance da inteligência de Anjos e homens.     

Todas as vicissitudes, quantas vezes miseráveis, deste nosso mundo, habitam Eternamente no Divino Conhecimento e na Divina Vontade, na exacta medida em que o Conselho Divino mede metafìsica e teològicamente todas essas vicissitudes, querendo o Bem, e permitindo o mal para maior resplendor do Bem. Neste quadro conceptual é que Nosso Senhor afirmou que “Todos os nossos cabelos estavam contados”. Na Criação nada existe, nem pode existir, de inútil, precisamente porque o tempo da Criação é infinitamente superado pela Eternidade. Nós interrogamo-nos, por vezes com angústia, perante as tragédias da vida, porque conquanto gozemos da Graça de Deus, desconhecemos a chave das Essências e o sentido último do mundo, enquanto deve anunciar, e efectivamente anuncia,  formalmente, a Glória extrínseca de Deus; mesmo no Céu, não o compreenderemos inteiramente; tal incompreensão não nos causará qualquer sofrimento porque contemplaremos, perfeitìssimamente, na Essência Divina, o como tal compreensão constituiria um absurdo metafísico. No Céu, as limitações metafísicas da nossa inteligência, mesmo em Visão Beatífica, concorrem para a felicidade Eterna, constituem UM BEM, E NÃO UM MAL.

Se aplicarmos este mesmo raciocínio à Santa Madre Igreja, saberemos pela Fé que ela é infalível e indefectível; mas como a Igreja, sendo Divina, possui igualmente uma face humana, é-nos vedado reconhecer a forma derradeira do exercício dessa infalibilidade e dessa indefectibilidade. Contudo, é certo que a Constituição da Santa Madre Igreja é de Direito Divino, e portanto absolutamente imutável; mas nada impede que no fim dos tempos, quantitativamente, a Santa Igreja se veja reduzida, verdadeiramente, à expressão mais simples. COMO, DE RESTO, JÁ ESTÁ.

Nunca olvidemos que as horripilantes matanças terroristas a que estamos assistindo traduzem bem o REINADO DO ANTI-CRISTO SUPORTADO PELA NOMENCLATURA E PELAS ESTRUTURAS USURPADAS DA SANTA MADRE IGREJA. Efectivamente, a simples existência normal e objectiva da Santa Igreja como realidade social e cultural, com o seu Sagrado Magistério, com o seu Santo Sacrifício da Missa, e com os seus santos Sacramentos, beneficiava inclusivamente os infiéis, impedindo-os de explicitarem completamente toda a profunda maldade do seu satanismo doutrinal. Tais eflúvios benfazejos irradiavam, como já se referiu, objectivamente, da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo Mistério era então copiosamente renovado nos nossos Altares pela Instituição a Quem Nosso Senhor Jesus Cristo confiou a tutela do seu Santíssimo Corpo e Samgue – A SANTA MADRE IGREJA.  

Sabemos pela Teologia que se pela Cruz se operou a Redenção do mundo, pelo Santo Sacrifício da Missa, no Qual se renova o Sacrifício da Cruz, se aplicam os frutos dessa Redenção. Consequentemente, a Santa Missa implanta verdadeiramente a Eternidade no tempo, porque actualiza o que é Eterno, já que o Santo Sacrifício da Missa NÃO É IGUAL AO DA CRUZ, NÃO, É O MESMO QUE O DA CRUZ; nesta preciosa doutrina se deduz que o ALTAR É VERDADEIRAMENTE O CÉU, PORQUE TODOS OS MiSTÉRIOS SOBRENATURAIS DA NOSSA FÉ  SE EXPLICITAM SANTIFICADORAMENTE NESSE MESMO ALTAR. Constituindo um único e mesmo Sacrifício, as Missas só perfazem número no que concerne à sua realização temporal, terrena e humana; mas tal repetição é mandada por Deus Nosso Senhor, porque conforme às vicissitudes da vida temporal e à sucessão de pecados no oceano de iniquidades que é este mundo. É pois curial a ilação que demonstra que à cessação quase total da celebração do Santo Sacrifício, necessàriamente se seguem as consequências temporais mais letais para as almas, as famílias, as instituições e as Nações.  

A Eternidade do Sacrifício da Cruz é pois constitutiva da realidade da Suprema Oblação Sacerdotal, da satisfação vicária de condigno, que satisfazendo a Deus pelos pecados de todos os homens, é Fonte imarcescível de Bens Sobrenaturais, Preternaturais, e extrìnsecamente, até de bens naturais. Porque só Nosso Senhor Jesus Cristo confere sentido à História e às misérias humanas, pois incorporou-as no Seu Divino Sacrifício e as restituirá purificadas ao Pai no dia do Juízo; porque nesse dia todas as trevas da Humanidade, e de todos os homens, serão ilustradas e clarificadas pelo Juízo Divino, pela Verdade Divina, E O RESPLENDOR DA GLÓRIA DE DEUS CONSTITUIRÁ A ETERNA FELICIDADE DE TODOS OS SANTOS, E A AGONIA HORRÍVEL DE TODOS OS RÉPROBOS.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 28 de Março de 2016

 

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