Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

1 – O ATAQUE DA SEITA MUNDIALISTA A PORTUGAL “MAIS CLARO EM 1960”

 Guerra colonial

Arai Daniele

No diário da Irmã Lúcia de Fátima, publicado pelo Carmelo de Coimbra, estava a confirmação que a data de 1960 foi mesmo pronunciada por Nossa Senhora. Isto nos leva a rever a história destes tempos a fim de compreender melhor tantos fatos ainda obscuros.

Durante a 2ª Guerra Mundial, a neutralidade de Portugal garantiu ao País uma relativa tranqüilidade. Mas com no pós guerra, uma ventada de democratismo punha todos os países sob a lupa dos vencedores, novos senhores do mundo com seus juízos para dominá-lo. Tratava-se de critérios materialistas ligados ao poder geoeconômico, tanto do capitalismo americano quanto do comunismo soviético, opostos bastante para causar uma temível guerra fria.

Isto, poucos anos após o acordo de Yalta, pelo qual dois pólos de poder se dividiram a Europa e a criação da ONU. Esta Organização das Nações Unidas  (ONU) foi criada em 1945 para a paz que a ineficiente Liga das Nações, idealizada pelo presidente Wilson, não obtivera. Pelo contrário, seu tratado de paz não tinha nada de bom para impedir a outra Guerra Mundial, pior que a 1ª (como fora previsto em Fátima).

O idealizador da ONU para suceder à Liga das Nações, foi o presidente estadunidense Franklin Roosevelt, igualmente imbuído por ideais maçônicos e mundialistas, no sentido de centralizar cada vez mais o poder num «iluminado» governo mundial.

Com tais intenções implícitas a organização iniciou com 51 estados-membros, número que cresceu bastante após o grande processo de descolonização na década de 1960.

A entrada de Portugal na ONU foi vetada pela URSS em 1946 e só se deu em 1955, depois do braço de ferro entre o Ocidente e o Leste sob a URSS, consequência da prévia divisão do mundo de Yalta entre o mesmo Roosevelt e Stalin. A admissão de novos membros: Albânia, Bulgária, Camboja, Ceilão, Finlândia, Hungria, Irlanda, Itália, Jordânia, Laos, Líbia, Nepal, Roménia e Espanha se deu no mesmo dia.

Em 1956 o Secretário-Geral enviava ao governo português e aos demais 15 Estados recém-admitidos uma carta para controlar como administravam seus territórios. Era a política da assim chamada auto determinação dos povos, para acabar com o colonialismo; na verdade era  para substituir este no Ocidente pelo domínio econômico, mais moderno e democratista. No Leste tratava-se do domínio da URSS sobre os seus satélites. Essa era outra história.

A resposta de Portugal à ONU foi estudada durante oito meses e foi curta: «Portugal não administra territórios que entrem na categoria indicada no artigo 73.° da Carta.» Salazar, com esta resposta, «assume uma posição, coerente no plano interno, que desafia a corrente política mundial» e, no plano internacional, «rompe as coordenadas em que se está movendo a comunidade das nações». Franco Nogueira explica: «Nesta simples troca de notas Salazar assume uma decisão de sérias implicações, pois indicam às Nações Unidas que as províncias ultramarinas portuguesas não têm vocação para a independência separada; sublinham que o governo português se arroga o exclusivo de interpretar e aplicar a sua ordem constitucional e que neste domínio não admite interferências alheias; afirmam que Portugal não submeterá a sua administração ultramarina a qualquer sistema de censura internacional e que, portanto, não transmitirá quaisquer informações à comunidade dos países; finalmente, notificam as Nações Unidas de que, se se respeita a letra do artigo 73.°, é repudiada a prática política e processual que à sombra deste a ONU fora estabelecendo gradualmente.»

Assim começou o litígio entre Portugal e a ONU (1960-1974) que, já em 1959 tinha sido crucial para a política colonial e externa portuguesa: a descolonização tornara-se irreversível no mundo e dissipavam-se as últimas resistências (belga, francesa e espanhola) e só o governo português se manterá intransigente diante de forças que obtêm uma maioria favorável à descolonização com os EUA e o Reino Unido que deixam de votar com Portugal. Nesse período a resposta portuguesa continuou a limitar-se «ao uso da doutrina da neutralidade colaborante, formulada inicialmente durante a guerra civil de Espanha e desenvolvida ao sabor das circunstâncias».

A política portuguesa fundava-se no princípio da unidade nacional, a fim de fazer reconhecer o Ultramar Português no Plano Mundial. Inútil dizer, porém, que o litígio entre Portugal e a ONU tem fundamento numa pressão anticolonialista que declarava os territórios sob administração de Portugal como não autônomos: — Arquipélago de Cabo Verde; — Guiné, chamada «Guiné Portuguesa»; — São Tomé e Príncipe e dependências; — São João Baptista de Ajudá; — Angola, incluindo o enclave de Cabinda; — Moçambique; — Goa e dependências, chamado o «Estado da Índia»; — Macau e dependências; — Timor e dependências. Impunha por isto a obrigação de Portugal de prestar informações, nos termos do capítulo da Carta acerca destes territórios e que a mesma devia ser cumprida sem demora.

Em declaração de voto, o representante português (embaixador Vasco Garin) exprimiu «as reservas mais categóricas», considerou que a resolução, além de atribuir à Assembleia Geral uma competência que ela não detinha, era, quanto ao conteúdo, uma manifesta violação da Carta e uma discriminação de Portugal, o qual não estava isolado, pois outras delegações eram da mesma opinião. Em comentário político, Franco Nogueira, sublinhando os considerandos da resolução ao qualificarem a denegação do direito à autodeterminação como ameaça à paz internacional e referirem-se ao conhecimento que, «por outras vias», a ONU tinha sobre as condições de vida existentes nos territórios do Ultramar português, concluía que, após a adoção de mais esta resolução, ficava «claramente definido o contorno de um plano de guerra» contra Portugal.

AS NAÇÕES UNIDAS CONTRA PORTUGAL: 1961-1963

A guerra nas colônias portuguesas — «luta de libertação nacional» ou «guerra colonial» na designação dos nacionalistas, simples «terrorismo» na designação oficial portuguesa — começou em Angola a 4 de fevereiro de 1961 e a 20 de fevereiro houve a revolta de Luanda.

Na ONU a Libéria e outros requeriam uma reunião urgente do Conselho de Segurança para adotar medidas imediatas destinadas a «impedir que os direitos humanos continuem a ser violados em Angola». O representante português protestou contra a iniciativa, invocando o princípio da não ingerência nos assuntos internos e a incompetência do Conselho. Concretamente, sublinhou o risco de ser criado um «precedente muito grave e de conseqüências extremamente pesadas para todos os membros da Organização. De fato, ficará aberta a porta quer para a discussão dos problemas de ordem pública que se coloquem a um Estado quer para institucionalizar tais problemas, com fins de propaganda pura e simples.»

O Conselho de Segurança examinou a questão e depois de debate aceso, prevaleceram os argumentos jurídicos e a proposta de resolução foi rejeitada. Todavia, em face dos eventos no Norte de Angola a partir de 15 de Março, trinta e nove Estados convidaram a Assembléia Geral a debater a situação de Angola, classificada como território não autônomo e invocavam a Declaração Anticolonialista, para a transferência de poderes para os angolanos. Em seguida, ao constatar que a continuação das desordens e conflitos sangrentos e a falta de medidas para atenuar as desigualdades punham em perigo a manutenção da paz e segurança internacionais, a Assembleia, incitava o governo português a promover urgentemente reformas que dessem cumprimento à Declaração Anticolonialista, «tendo em devida conta os direitos humanos e as liberdades fundamentais e em conformidade com a Carta»; por outro, instituía um subcomité de cinco membros encarregado de investigar a situação.

Perante o agravamento da crise, a 26 de Maio, quarenta e três Estados afro-asiáticos e a Jugoslávia requereram a convocação urgente do Conselho de Segurança. Não obstante a oposição da delegação portuguesa, o Conselho, «atenuando o já moderado projeto de resolução», aprovou, a 9 de junho, a resolução que deplorava «profundamente» os massacres e demais medidas de repressão da população angolana e indicando que a persistência de tal situação, além de constituir «uma causa atual e virtual de fricção internacional», poderia «comprometer a manutenção da paz e segurança internacionais». Invocando a Declaração Anticolonialista, o Conselho reafirmava o mandato para que Portugal resolvesse rapidamente a questão de Angola nos termos da Carta.

Em contundente intervenção final (duas vezes interrompido pelo presidente), o representante português afirmou que a resolução era «um documento deplorável» por várias razões: primeiro, porque imputava às próprias vítimas as responsabilidades pelos acontecimentos no Norte de Angola; segundo, porque nada dizia sobre «os atos selvagens de violência cometidos pelos terroristas»; terceiro, porque omitia que «a vaga de terrorismo foi desencadeada por instigação de organizações que atuam fora das nossas fronteiras e em execução de planos por elas estabelecidos»; quarto, porque continha «a acusação monstruosa segundo a qual Portugal ameaçaria a paz e a segurança internacionais»; quinto, porque visava «claramente criar uma atmosfera internacional favorável ao desmembramento do meu país». O litígio entre Portugal e a ONU agravar-se-á muito, no fim de 1961, com a invasão do Estado português da Índia.

O DISCURSO DE SALAZAR EM 12 DE AGOSTO DE 1963 Dirigindo-se, primeiro, «aos que formamos a Nação Portuguesa», depois, aos Estados africanos e, por fim, à ONU, Salazar vai esclarecer e decidir a posição portuguesa no extenso e «imperioso» discurso de 12 de Agosto, intitulado Política Ultramarina e subordinado ao tema «vamos a ver se nos entendemos». Embora começasse por reconhecer que «os acontecimentos da Ásia e da África» tinham perturbado os espíritos e impelido a «conscienciosa revisão dos princípios e dos métodos na ação ultramarina», considerou esclarecedora a fórmula constitucional ao definir «a Nação portuguesa como um estado unitário na complexidade dos territórios que a constituem e dos povos que os habitam», pois essa fórmula surgiria como inequívoca «declaração de um estado de consciência estratificado em séculos de história, e, através desses séculos, pelo trabalho dos portugueses e pelo humanitarismo cristão de que foram portadores». O conceito de nação era, pois, no caso português, inseparável da noção de missão civilizadora, já que, em função da história de Portugal, «também somos, além do mais e a melhor título que outros, uma nação africana». Gritava-se lá fora pela independência de Angola e de Moçambique: «mas Angola é uma criação portuguesa e não existe sem Portugal». Igualmente «Moçambique só é Moçambique porque é Portugal». Quanto aos novos Estados africanos, quer as suas intervenções na ONU, quer a criação da OUA mais não visavam do que «conjugar esforços de modo muito especial contra os nossos territórios de África» e isolar internacionalmente Portugal. Todavia, «esclareçamos que os países africanos não teriam forças para impor-nos as suas excomunhões, se não fossem apoiados pelo voto dos governos comunistas que pretendem destruir o Ocidente e pela atitude de alguns países do Ocidente que deveria ser considerada como deserção, se não significasse o desejo de captar a simpatia africana para servirem o que julgam ser seu interesse». Visto que — acrescentou — a libertação dos povos de África era reivindicada mesmo contra a vontade dos próprios, então «não resta a cada um senão o direito natural de defender-se e de defender os seus. Assim começam as guerras».

Note-se que o governo português sob a liderança de Salazar sempre salientou a posição do País pela sua obra e missão evangelizadora e civilizadora.  Aqui vamos pois continuar numa segunda parte a resumir os principais fatos históricos sobre esse ataque «mundialista» ao Portugal Ultramarino, mas intercalando a questão católica e portanto a Profecia de Fátima. Sim, porque também o «Terceiro Segredo», que seria mais claro em 1960 entrou de modo curioso mais tarde nessa história e penso que vale a pena registrar esse fato.

Compreende-se que o clima social que se viveu desde o início dessa guerra colonial como se desfecho na Revolução do 25 de abril de 1974  envolveu o País e o ânimo dos portugueses.

Foi assim que em 1977 apareceu uma interpretação do Terceiro Segredo relativo a estes.

Seu autor foi o Professor Monsenhor Dr. José Geraldes Freire, Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra que, ouvidos exegetas e testemunhas, propôs uma conclusão para a 3ª parte do Segredo pode conter um dos seguintes seis pontos: apelo especial a Portugal para cumprir os pedidos de Nossa Senhora; anúncio de que, se Portugal for infiel, poderá ser castigado depois de 1960; a Rússia espalhará os seus erros em Portugal, provocando a independência das Províncias do Ultramar e perseguições à Igreja. Esse trabalho foi publicado em 1977 pelo Santuário de Fátima: «O Segredo de Fátima» a terceira parte é sobre Portugal?

Ora, a partir dos nos anos Oitenta, quem se interessava pelo «Terceiro Segredo» notava uma forte tendência clerical no sentido de desviá-lo da visível crise de fé, crescente no tempo pós conciliar e portanto de seu alcance no sentido de profecia apocalíptica na história da Igreja.

Como se pode ler, até o novo «Catecismo da Igreja Católica» fala deste tempo no nº n. 675: «Antes da vinda de Cristo, a Igreja deve passar por uma prova final que abalará a fé de muitos crentes (cf. Lc 18, 8; Mt 24, 12). A perseguição que acompanha a sua peregrinação na terra (cf. Lc 21, 12; Jn 15, 19-20) revelará o ‘Mistério de iniquidade’ sob a forma de uma impostura religiosa que oferece aos homens uma solução aparente aos seus problemas, pelo preço da apostasia da verdade. A máxima impostura religiosa è a do Anticristo, isto é, de um falso messianismo em que o homem glorifica a si mesmo colocando-se no lugar de Deus e de seu Messias vindo na carne.» (cf. 2 Ts 2, 4-12; 1Ts 5, 2-3;2 Jn 7; 1 Jn 2, 18.22)

Tudo bem, porque profetizado nas Escrituras, mas o «perigo» seria se os católicos vissem a datação deste descalabro religioso na terceira parte do Segredo de Fátima; como «terceiro castigo mais claro em 1960», correspondente ao tempo de João 23 e do Vaticano 2. Eis a grave crise que alguns clérigos quiseram contornar desviando o «Terceiro Segredo» para questões particulares, como essa da guerra colonial portuguesa.

Pessoalmente sei disso porque o P. António Maria Martins SJ, autor de vários livros sobre os Documentos de Fátima, que nessa edição de 1976 escreveu que a frase sobre Portugal que preservará sempre o dogma da fé, faz supor que assim não será para as demais nações, onde será geral a crise da fé; o que é uma tremenda realidade no mundo.

No entanto, fui convidado por ele, no verão de 1987 e pernoitei, a seu convite, no Seminário deserto de Braga, para discutir o seu longo escrito a favor da versão do P. Geraldes Freire sobre a guerra colonial de Portugal, que negava a versão dada por Frère Michel (Toute La Vérité sur Fatima) à 3ª parte do Segredo, como de crise universal da Igreja. O Padre ficou desagradado com a minha aberta discordância e ainda mais com o teor de meu próximo livro: «Entre Fátima e o Abismo». Foi então que eu lhe falei de meu receio que certas teses clericais pareciam elaboradas para desviar a atenção do sentido verdadeiro do ‘3º Segredo’ e de sua datação, desvio preferido pelo Vaticano conciliar.  Por isto lembrei-lhe: ali, no Vaticano, eles conhecem o verdadeiro Segredo, de modo que lendo essas vossas conjeturas e conhecendo o texto original, só podem rir do que se concebe para evitar aos fiéis falar da real crise da fé.

Sim, o ataque da seita mundialista contra Portugal ficou “mais claro em 1960”, mas como veremos adiante ela era derivada de outra maior, iniciada com João 23, mais clara em 1960 e continuada com Paulo 6 e sucessores. Esse era o assunto tabu que se pretendia debalde evitar.

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