Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

SERÁ QUE OS SANTOS TÊM DE OPTAR SEMPRE PELA TESE DO MAIOR SOFRIMENTO?

São João da Cruz

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa Pio XII, numa alocução dirigida aos peregrinos, vindos a Roma por ocasião da beatificação da irmã Marie Victoire Thérèse Couderc, 1805-1885, co-fundadora das  irmãs do Cenáculo  – 5 de Novembro de 1951:

«É impossível, minhas queridas filhas, ler a vida, estudar a fisionomia de vossa bem-Aventurada Mãe, sem que uma vez mais surja na nossa mente esta Palavra de Deus: “OS MEUS PENSAMENTOS NÃO SÃO OS VOSSOS, E OS VOSSOS CAMINHOS NÃO SÃO OS MEUS” (Is 55,8). Sem dúvida, é esta a Sua maneira ordinária de concretizar as Suas grandes obras: ESCOLHER INSTRUMENTOS DESPROPORCIONADOS  À TAREFA QUE LHES É ASSINADA – DEUS ELEGE OS FRACOS DESTE MUNDO E CONFUNDE OS FORTES (I Col 1,27) ; ou ainda, condú-los ao fim que Ele Se propõe, pelos caminhos dolorosos e incompreensíveis da noite, da humilhação e dos insucessos. Nós contemplámos tais coisas em múltiplos exemplos da História dos Santos, dos Bem-Aventurados, dos  fundadores, antigos ou recentes. É ao longo de toda a vida de Thérèse Couderc  que os pensamentos de Deus desconcertam os pensamentos humanos, que os caminhos de Deus, afastando-se das grandes estradas e das vias percorridas, franqueiam passagem através dos matagais mais inextricáveis.

Para onde tendem assim estes caminhos? A suscitar um apostolado espiritual e vigorosamente eficaz em todos os níveis da sociedade feminina, desde as grandes Senhoras às operárias mais humildes e servidoras.  E de quem Se serve o Senhor para tal fim? De um sacerdote missionário de campanha, homem de heróica e incontestável virtude, empreendedor, mas cuja audácia surpreende por vezes, e derrota a sabedoria dos sábios deste mundo (Cf I Cor 1, 19). E o desígnio deste apóstolo? Formar um agrupamento de religiosas para o ensino de pequenas camponesas. Apenas foi concebido, este desígnio, contra todas as previsões do seu Autor, divide-se e unifica-se alternadamente; modifica-se radicalmente e transforma-se até ao ponto de ser irreconhecível: de escola  rural torna-se albergue de boa e cristã reputação, para as multidões estridentes de peregrinos de São Francisco Régis; depois, sùbitamente, sem transição, o caravançeral transmuta-se num cenáculo recolhido para oferecer a almas escolhidas o benefício de uma vida de clausura temporária. (…)

Desde que a irmã Thérèse entrou triunfante nesta Luz do Céu os anos passaram; mas sobre a Terra também a madrugada pareceu bem rápida, a aurora ascendeu radiosa; hoje É O DIA PLENO DA GLÓRIA; DEUS COLOCOU O SEU OLHAR SOBRE A HUMILDE INSIGNIFICÂNCIA DA SUA SERVA, E TODAS AS GERAÇÕES FUTURAS A CHAMARÃO BEM-AVENTURADA; BEM-AVENTURADA PORQUE ELA ACREDITOU, BEM-AVENTURADA, PORQUE, DO NOVO CENÁCULO, ONDE, NO SILÊNCIO E NO RECOLHIMENTO, AS RECOLHIDAS REZARAM COM ELA, EM UNIÃO COM MARIA, A MÃE DE JESUS, DAS ALMAS, POR MILHARES, SALVAS, SANTIFICADAS, ELEVADAS, ATÉ AO HEROÍSMO DA VIRTUDE E DO ZELO, LANÇARAM-SE EM TODAS AS DIRECÇÕES DO MUNDO, EM TODAS AS OBRAS DO BEM, ENTRE TODOS OS MEIOS, LEVANDO PARA TODO O LADO COM ELAS, A VERDADE, A BONDADE, O RECONFORTO, A GRAÇA E A ALEGRIA DO CRISTO.»

Nestes tempos de apostasia absolutamente universal, em que o próprio ateísmo é superado pelo DESAPARECIMENTO DE QUALQUER  CONCEITO DE DEUS, MESMO DO MAIS POBRE; é frequente surgirem textos tradicionalistas, que mesmo escritos de boa fé, enfermam de variados e por vezes graves erros.

Será curial afirmar que os santos escolheram sempre a opção que mais os fazia sofrer? Evidentemente que não; em primeiro lugar porque o sofrimento, tal como a morte, enquanto tais, denotam uma certa privação de ser; RAZÃO PELA QUAL ESTAVAM AUSENTES DO PARAÍSO TERRESTRE, NUMA CONDIÇÃO ONTOLÓGICA, NATURAL E PRETERNATURAL, TOTALMENTE ORDENADA À PLENITUDE DOS BENS SOBRENATURAIS. Neste quadro conceptual o sofrimento nunca pode constituir um Fim em sentido substantivo; mesmo o sofrimento Eterno dos condenados é UM MEIO PARA RESTAURAR A GLÓRIA DE DEUS, E CONSTITUI UMA EXIGÊNCIA DA PRÓPRIA DIGNIDADE ONTOLÓGICA DOS CONDENADOS, A QUAL CONSTITUI COROLÁRIO DO ACTO CRIADOR, DIGNIDADE ESSA NÃO SUBVERTIDA POR UMA OPERAÇÃO MORAL MORTALMENTE PECAMINOSA. Alguns santos utilizaram, sem dúvida, as macerações físicas como meio legítimo para combater o aguilhão da concupiscência, quando muito acerado, e mesmo assim na chamada fase purgativa, quando a alma, em ascensão para Deus Nosso Senhor, abandona definitivamente o pecado mortal. Pensa-se frequentemente que quanto maior é o santo, mais se disciplina e castiga fìsicamente – MAS É PRECISAMENTE O CONTRÁRIO! A plenitude da Graça Santificante e da Caridade, teológica e ontològicamente, não convida aos castigos físicos positivos, mas, sim, por exemplo: A jejuns, esmolas; afastamento radical do mundo; amor à vida escondida e contemplativa; abandono total à vontade de Deus, à Luz Sobrenatural d’O Qual tudo nos é manifestado.

Deus Nosso Senhor criou o Universo e o Homem, antes de tudo o mais, para Sua maior Glória; secundária e subordinadamente, para a felicidade Sobrenatural da criatura espiritual.

Consequentemente, todas as penitências, incluindo os cilícios, só podem constituir um meio para mais fecundamente acedermos aos Bens Sobrenaturais, esses sim, Fins Absolutos em si mesmos. Nem mesmo podem constituir fins secundários dissociados da magna intenção de reparar as ofensas feitas a Deus Nosso Senhor. No Purgatório, as almas, ainda que não meritòriamente, amam o sofrimento, pois assim satisfazem à justiça de Deus pelos pecados já perdoados quanto à culpa, mas não quanto à pena temporal. Igualmente na Terra tal deve acontecer, agora já meritòriamente, porque a alma está sedenta de reparação; todavia no que concerne aos castigos cruentos auto-infligidos, deverá recordar que, na Terra, uma vida profunda e Sobrenaturalmente unida a Deus Nosso Senhor, vale infinitamente mais do que uma vida medíocre, ainda que recheada de disciplinas. São João da Cruz tinha um monge que era o campeão dos castigos cruentos auto-infligidos – pois foi o primeiro a apostatar. Todavia, no Purgatório, por maiores que sejam os nossos actos de Caridade, eles já não são meritórios; portanto só permanece a privação temporária da visão beatífica e a pena positiva do fogo. Não olvidemos que as almas do Purgatório, conquanto já estejam na Eternidade, possuem ainda uma comensurabilidade temporal extrínseca com a Terra. Neste enquadramento, podemos considerar que na Terra e no Purgatório é legítima a aplicação do conceito de fim secundário para o sofrimento positivo, sendo a Glória extrínseca de Deus o Fim Primário; todavia, no Inferno, o conceito a aplicar será o de simples meio (o Fogo) utilizado por Deus para restabelecer o Primado da Sua Glória, que a criatura operativamente Lhe roubou.

Não olvidemos que o PRÓPRIO CUMPRIMENTO INTEGRAL E SOBRENATURAL, INTRÍNSECO, DA LEI MORAL NUNCA PODE CONSTITUIR FONTE DE SOFRIMENTO, MUITO PELO CONTRÁRIO – É A ÚNICA LEGÍTIMA FONTE DE FELICIDADE.  Dizemos intrínseco, porque a observância  da Lei Moral possui, muito frequentemente, CUSTOS EXTRÍNSECOS, familiares, sociais e até penais, por vezes elevadíssimos; o cumprimento da Lei Moral envolverá assim sofrimentos altamente meritórios de que são pródigos os caminhos terrenos dos santos. Alguns, como São João da Cruz e São João de Ávila, tiveram mesmo problemas graves com a Inquisição; e a razão profunda destas perseguições é fácil de compreender: Os santos, não por eles, mas por Deus Nosso Senhor, são homens e mulheres  religiosa e moralmente muito superiores, enquanto que a face humana do Corpo Místico, começando pelos inquisidores, foi quase sempre constituída por homens medianos, frequentemente até medíocres – logo o choque de personalidades era inevitável. Uma das grandes provas da Divindade da Santa Madre Igreja é o ter prosseguido e cumprido o seu múnus sobrenatural, ao longo de quase dois mil anos, servida tantas vezes por homens pecadores, que evidentemente, não perdiam por isso a sua autoridade.

Num mundo isento de pecado, a vida virtuosa constituiria sempre fonte de felicidade, intrínseca e extrínseca, porque todas as potencialidades humanas, pessoais, familiares e sociais, permaneceriam sempre, imorredoiramente, ao serviço da Verdade e do Bem.

Como já os filósofos estóicos advertiram, na Ordem Natural: A felicidade não pode constituir um objectivo substantivo extrínseco que se procure por si mesmo; não, A FELICIDADE BROTA ESPONTÂNEAMENTE DO CUMPRIMENTO DA LEI MORAL, POR AMOR À LEI MORAL, QUE EM ÚLTIMA ANÁLISE, NA FÉ CATÓLICA, É SEMPRE DEUS NOSSO SENHOR CONHECIDO E AMADO SOBRENATURALMENTE SOBRE TODAS AS COISAS. Esta é precisamente a CHAVE QUE O MUNDO SEMPRE DESCONHECEU EM ABSOLUTO, PORQUE O MUNDO CONCEBE A FELICIDADE COMO UMA SUBSTÃNCIA EXTRÍNSECA A ATINGIR.

Nesta perspectiva se observa como é falsa e completamente irracional a proposição de que os santos escolheram sempre o caminho de maior sofrimento. Em primeiro lugar, existe o chamado pecado da insensibilidade, já esgrimido por São Tomás, contra todos os dualistas, pecado esse que se consubstancia na recusa em gozar RECTA E ORDENADAMENTE, CADA UM SEGUNDO O SEU ESTADO, dos bens que Deus criou. É um acto de virtude Sobrenatural, apreciar uma boa refeição, sã, simples e suficiente, e dar por ela Glória a Deus. É um acto de virtude Sobrenatural, a pessoa ter a percepção psico-fisiológica da sua própria saúde, e dar por ela Glória a Deus. Se no cumprimento da Lei Divina, Deus Nosso Senhor nos proporciona alegrias sensíveis, devemos sobrenaturalizá-las e dar Glória a Deus. É certo que muitos santos, quando principiantes, caíram neste pecado da insensibilidade, mas só revelavam que então ainda não possuíam virtude suficiente PARA GOVERNAREM SOBRENATURALMENTE OS BENS CRIADOS.

A nossa vida tem que ser orientada e balizada, constitutivamente, pela virtude sobrenatural, e em geral o extremo formal de uma virtude não coincide com o seu extremo material. É pecado jejuar, se por causa desse jejum ficarmos impossibilitados de cumprir o nosso dever de estado. Certas atitudes exageradas de pudor perante qualquer assunto de cariz sexual, só revelam GRANDE FRAQUEZA MORAL E NÃO VIRTUDE. Apresentar os muçulmanos como gente da maior virtude, só porque  cobrem patològicamente as mulheres, É UM ERRO TREMENDO EM TEOLOGIA MORAL, porque se as cobrem assim é porque são uma raça de tarados sexuais que desconsideram a mulher como uma escrava do homem.

Que Deus Nosso Senhor e Sua Santíssima Mãe nos conceda a Graça inefável DE NÃO QUERERMOS PARECER MAIS TRADICIONALISTAS DO QUE O PERMITE A PUREZA E INTEGRIDADE DA SACROSSANTA FÉ CATÓLICA.

 

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 4 de Junho de 2016

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

   

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