Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

A OFENSA E A DÍVIDA, NESTE MUNDO … E NO PURGATÓRIO

 

                   Arai Danielealmas-do-purgatorio_6

O primeiro artigo que escrevi para a revista «Permanência» de Gustavo Corção, por convite do amigo Júlio Fleichman, foi «A Ofensa e a Dívida». Na verdade poderia ter sido «Ofensa ou Dívida», porque trata de uma mudança no Padre Nosso em português dos tempos modernos. O assunto não foi muito tratado e hoje está quase esquecido, vista a conformidade das gentes, que é tida como o «sentido comum da fé»!

O meu escrito foi publicado no nº de maio-junho de 1979, e aqui apraz-me lembrar que pouco tempo depois, numa outra viagem ao Rio (eu morava em Roma e vinha de tanto em tanto ao Brasil como piloto da Alitalia) recebi em novembro outro convite «secreto» de Dª Maria Luiza Freichman para o que se revelou ser apresentado a Mgr Marcel Lefebvre e jantar com eles. Foi então que o ilustre Prelado, sabendo que eu colaborava com o quinzenário de don Francesco Putti, o «Sì sì no no», convidou-me amistosamente, falando em italiano, a aproximá-lo de novo de Dom António de Castro Mayer, para estabelecer uma resistência comum. Isto se deve ao fato que ao telefonar para falar com o Bispo em Campos, ali responderam com evasivas sobre a sua ausência, demonstrando que não  era grato que se encontrassem, o que suscitou indignação, também da amiga Dª Helena Rodrigues, que esteva conosco então.

Hoje só restam dois para contar a história, mas eu cumpri a missão, que resultou no encontro dos dois Bispos para redigir o manifesto episcopal de 1983 e as interpelações conjuntas: em 1985 a João Paulo 2º e aos prelados do Sínodo de Roma e – em dezembro de 1986, a de Buenos Aires, da Igreja em rutura com a Tradição, devido à reunião inter-religiosa de Assis.

Inútil dizer que tais documentos, incanceláveis na História contemporânea da Igreja, permanecem silenciados e engavetados pela FSSPX, que fora de Mgr Lefebvre e do mesmo modo pelo grupo dos Padres de Campos, que fora de Dom Mayer.

A propósito de «ofensa» e «dívida», parece mesmo que neste mundo não se consegue lembrar de nenhum fato sem cair numa dessas questões. Mas deixemos agora essas ofensas para passar ao breve artigo onde tento explicar as razões porque discordo de tal mudança aplicada à Oração ensinada por Nosso Senhor, apartando-se da tradução da Vulgata debita nostra, bem como justamente do sentir comum da Fé. Neste sentido, juntarei ao tema do 1º artigo a questão das almas do Purgatório.

Sabemos que todos os povos em cada época procuraram sempre exprimir-se com as palavras e a linguagem herdada de seus pais. Mas sabemos também que enquanto alguns procuram conservar e esmerar este patrimônio inestimável, outros usaram e abusaram das palavras até perderem-se na Babel que leva à ignorância a ao conflito.

Hoje as palavras estão merecendo, de uma minoria, um culto novo, quase religioso, demonstrando não só o valor que encerram, quanto a dificuldade de conservarem-se autênticas e limpas da escória de erros que os últimos séculos descarregaram.

Os novos colecionadores são obrigados a intenso trabalho de limpeza e restauração, mas se vêem pagos pelo prazer intelectual insuperável de descobrirem os verdadeiros elos, os “missing link”, que nos conduzem à origem, não mais de ossos e vasos, mas de nosso pensamento primordial.

Não se devem portanto espantar os espectadores televisivos e leitores de revistas mundanas, se esses raros colecionadores não aparecem ao lado de estantes repletas de objetos misteriosos e nem mesmo façam cálculos sobre o valor do patrimônio descoberto. Ninguém se espante de não ver nem mesmo suas faces em revista alguma. A palavra não é artigo a que se dê valor, assunto a ser tratado. No entanto, sem as palavras, nossos pensamentos não valem muito, como nós mesmos.

Infelizmente percebi isto tarde, e fiquei pouco equipado para fazer a minha pessoal mineração. Mas por outro lado descobri que o valor desse patrimônio é comum e está na razão direta de como o utilizamos. Para isto não é necessário ter coleção própria, basta tomá-lo emprestado com boas leituras e imprimi-lo na própria mente.  É nessa ação de registro mental, de reconhecimento de uma palavra-ideia, de um conceito, de um nome essencial, que passaremos de surpresa em surpresa, de descoberta em descoberta. É como se tudo convergisse para uma grande Ideia Original, que nos precedeu e nos atrai, mas veladamente, mais do que isso, criou as ideias, nos criou.

Como será que a nossa época se afastou tanto desse curso, que era a própria maneira de pensar no tempo de Platão, por exemplo? Pior, como é que hoje, sem mais aquela, troca-se uma palavra por outra na Oração ensinada por Nosso Senhor, desconhecendo ou desprezando os valores recônditos ou plenos que elas acumulam?

Certamente as palavras sofrem com os hábitos involutivos daqueles que as usam. Quando, nos dias que correm, as pessoas, a qualquer pretexto, trocam palavras de cortesia ou mesmo de dúvida usando o verbo crer, esse crer coloquial é a negação do crer verdadeiro ou então a afirmação da dificuldade de crer realmente em algo. Mas na verdade não pode existir um “crer” de aspecto só bem educado”.

Passemos agora à palavra “dívida”, que foi substituída no Padre Nosso em português pela palavra “ofensa”. Confesso que não conheço as alegações dessa mudança. Posso naturalmente imaginar que para alguns, um termo muito usado no comércio parecerá impróprio quando rezamos a Deus. Mas o simples fato de ter sido feita uma troca deveria implicar alguma razão superior a essa na “economia” da Religião.

Vou dizer porque era justamente a palavra dívida, aquela que não só me soava justa, mas talvez por essa mesma razão, me ensinava noções que precisam bem mais de uma artigo para serem desenvolvidas sobre o tema, que é o da “gratidão”.

Não desconheço o dilema de todas as épocas entre o abstrato e o concreto, entre o real e o imaginário, entre o Céu e a Terra, entre o espiritual e o material; afinal a sabedoria consistiu sempre em saber colocar as ideias nos lugares devidos dando a Deus o que é de Deus e à gramática o que é da gramática.

A sabedoria que nos ensinou o Evangelho demonstra plenamente como nada é mais universal e perene para os ouvidos do homem do que a parábola que descreve o Céu falando de campos e de flores, de frutos e de pão, o pastor, a ovelha, os porcos, o figo, o barro, a videira, os talentos, os servos, o rico e o pobre, e tudo o mais que o homem continua a ver por aí numa repetição feérica de natureza e sociedade, de colheitas e de tempestades, é a linguagem de sempre; da Terra em que vivemos. E Jesus, ensinando, usou sempre termos da vida corrente para cada coisa e assim mesmo Sua linguagem é luminosamente espiritual.

Será que essa lição precisa hoje ser mudada? Será que não entendemos mais o que é dívida, que consta ser palavra sagrada no Aramaico falado por Jesus? Ou esse termo se fez prosaico e venal devido às nossas operações de banco ou de bolsa ou talvez devido às prestações do carro ou da mobília em promoção? Quem sabe porque esse jogo de esconder entre palavras que exprimem valores materiais e outras que exprimem valores ideais é tão freqüente?

Faz sempre pensar na revolução materialista, que pretende decretar a igualdade justamente num mundo onde nem duas gotas d’água são iguais, que dirá dois seres humanos! Venal ou não, a questão é saber se temos para com o Nosso Pai uma relação de dar e haver ou se basta não ofendê-lo para passar a temas espirituais.

Resta que nosso corpo mantêm de qualquer modo relações de dar e haver, de usar e restituir com o mundo que o envolve e por mais que se queira abstrair dela é difícil excluir dessa contabilidade material com Nosso Pai e Criador.

Existe por ai um falso espiritualismo, um farisaísmo mal disfarçado, ou talvez um materialismo às avessas que se apresenta disponível a qualquer mudança. Mas para quem já ultrapassou a metade do caminho da vida, não causa mais surpresa a excessiva insistência e preocupação em torno de uma palavra; é o processo vicioso para chegar ao contrário do que essa mesma palavra exprimia. Todo o psicologismo não faz outra coisa, explica o mundo a partir de uma visão escondida no ânimo subjetivo.

Mas agora devo ser eu a explicar o que entendo por dívida e como é que sendo pouco dado a operações contábeis, falo tanto de dar e haver, de receber e restituir. Claro, não penso em simplificar a matéria com o livrinho do empório. Pelo contrário, me proponho a projetar alto e longe a ideia de dívida, e se havia receio que essa palavra distraísse alguém com uma noção chã e mesquinha, insisto em ver nela conotações de promessa, de pacto, de empenho e, finalmente, de vínculo indelével.

O que eu quero dizer é que para exprimir as profundas relações entre nós e Nosso Pai, justo é fazê-lo em termos de dívida mais do que de ofensa. Assim, um filho pode afastar-se de casa sem uma palavra, sem ofensa mas com completa indiferença para com os seus deveres filiais. Desconheceu a dívida como um ateu desconhece o Criador, mas não levou nada e quase se pode dizer que não ofendeu.

A realidade mostra que hoje falta no mundo humano justamente algo ligado a esse equilíbrio imperfeito; a gratidão. Mesmo quando cultivamos o solo, extraímos os seus bens para o nosso sustento e conforto, se prevalece a ideia de que tudo nos é devido, devasta-se sem cuidado esses recursos, poluindo e infestando tudo.

Se o homem, por um só momento, esquecer que é devedor ao Alto, não terá mais razões para lembrar suas menores dívidas materiais, do que é daqui de baixo. Mas para cobrar aquelas que lhe são devidas, se preciso for, chegará a recorrer à humilhação, à ofensa, , porque nenhum perdão consta das contas materiais.

Todavia, o código humano essencial é aquele escrito no nosso íntimo. Ali está anotada a nossa dívida perene de vida e de redenção; lembrando-o, nossos esforços podem servir para tentar saldá-la e na medida mesma em que pudermos com alguma parcela, fazê-lo com o próximo. Então a parcela parecerá irrisória e qualquer esforço insuficiente. E assim é, e assim será sempre, mas no meio tempo, devemos procurar não ofender e perdoar os nossos devedores, a fim de sermos também perdoados. Este é o vínculo, este é o pacto. E depois? Como será na outra vida?

A doutrina da Igreja ensina como verdade de Fé, que existe o Purgatório. Este é o lugar em que as almas que morreram na graça de Deus, mas devedoras de alguma pena ou culpa temporal devida aos seus pecados, devem ir por um tempo para se purificar e assim poder apresentar-se diante de Deus, onde está toda a perfeição.

Para a Justiça divina, as dívidas dos homens podem ser perdoadas neste mundo, como os pecados e as ofensas já absolvidos com o Sacramento da Confissão. Podem ser perdoadas pela oração, pela penitência, pela receção de Sacramentos e também pelas indulgências que a Igreja tem no seu poder repartir, atingindo do tesouro acumulado a partir dos méritos infinitos de Jesus Cristo. Tudo isto é possível nesta vida em que o homem pode operar com sua vontade. No Purgatório só lhe restará o desejo ardente de purificar-se de toda imperfeição para poder apresentar-se diante da puríssima Bondade de Deus, Amor misericordioso. A existência do Purgatório é prova dessa infinita misericórdia de Deus, que proporciona uma derradeira condição para que a imperfeita alma humana possa purificar-se antes de comparecer diante do Criador.

Terminado o seu tempo terreno, a alma nada pode fazer por si para merecer o deleite da contemplação divina, senão penar e orar no fogo do remorso pelas dívidas acumuladas pelos seus pecados.

Por isso, na Comunhão dos Santos, podem os vivos pedir em oração que sejam reduzidas as “dívidas” das almas no Purgatório. Pede-se perdão pelas próprias “dívidas” e também pelas das almas que padecem no fogo purgante e podem rezar por nós.

Das ofensas perdoadas nesta vida pelo Sacramento da Confissão, só restam as dívidas. No Purgatório as almas não são devedoras de ofensas ou pecados já perdoados, mas pela consequência da dívida que estes comportam.

Essa troca de palavras pode só aparentemente significar o mesmo; na realidade, altera a doutrina, afetando de modo profundo não só o comportamento social, mas a edificação pessoal – privados da gratidão, da «pietas» querida por Deus.

Na reza do Padre Nosso, pedindo o «pão nosso de cada dia», segue logicamente um pedido que se perdoe essa nossa “dívida” e não “ofensa”, tanto mais no pensamento das almas do Purgatório, que não mais pecam, mas têm ainda “dívidas” pelos pecados de ofensas já perdoadas.

Os Protestantes negam o Purgatório, porque crêem que o Sangue de Cristo já pagou todas as dívidas das nossas liberdades pessoais, que continuam por ai sem o freio do temor de Deus. Eis uma doutrina danada não só para as almas mas para as sociedades. Para eles, o propósito da vontade de reconhecer e frear a ofensa dos pecados já não é mandamento; é o “pecca fortiter et crede fortius” de Lutero, a graça ficaria garantida! A “ofensa” seria neutralizada pela graça obtida por Cristo; mas sobre a “dívida” de gratidão para com o Seu Sacrifício que a obteve, seria até uma ignomínia de ordem teológica lembrá-lo! Que erro terrível para a vida espiritual!

 

Todos os povos em todo tempo e lugar, através do culto com sacrifícios demonstram uma universal consciência da necessidade do perdão das dívidas pela vida e pelos bens naturais.

Na Idade Média, eram comuns as peregrinações cujos participantes suportavam cruzes e sacrifícios para purificarem-se das dívidas contraídas por pecados já absolvidos a fim de estarem em estado de graça e assim beneficiarem do que ofereciam. Esta prática foi diminuindo muito e até sendo contestada e dissuadida no tempo da Igreja conciliar.

Agora, se recuperamos o uso de uma cara palavra que foi separada de nossa preciosa oração, será mais fácil inserir a gratidão na nossa ação diária. Eis o ardente desejo de pagar as nossas dívidas. Sabemos que elas são insolvíveis para com o Alto mas que podem ser perdoadas na medida que nós perdoamos os nossos devedores e mais ainda que procuramos dívidas para ir pagando.

Hoje para mim, à dívida que tenho para com meus Pais e depois para com os Padres e Bispos, de quem recebi educação na Fé, deve ser também alargada na que temos para com «Permanência» de Corção e demais iniciáticas que despertaram essa difícil resiliência e inóspita resistência para a defesa de nossa Fé, íntegra e pura.

Todas as dívidas humanas só são amortizáveis com o pensamento reverente e devoto diante do que contem de inestimável o Cálice do Santo Sacrifício: o preciosíssimo Sangue de nosso adorável Senhor e Salvador Jesus Cristo.

2 Respostas para “A OFENSA E A DÍVIDA, NESTE MUNDO … E NO PURGATÓRIO

  1. henrique agosto 24, 2016 às 10:09 pm

    “Por isso, o reino dos céus é comparado a um rei que quis fazer as contas com os seus servos. E, tendo começado a fazer as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. E, como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que fosse vendido ele, e sua mulher e seus filhos, e tudo o que tinha, e se saldasse a dívida. Porém o servo, lançando-se-lhe aos pés, lhe suplicava, dizendo: Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo. E o senhor, compadecido daquele servo, deixou-o ir livre e perdoou-lhe a dívida.
    Mas este servo, tendo saído, encontrou um de seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando-lhe a mão, o sufocava, dizendo: Paga o que me deves. E o companheiro, lançando-se-lhe aos pés, lhe suplicava, dizendo: Tem paciência comigo, e eu te pagarei tudo. Porém ele não quis, mas retirou-se, e fez que o metessem na prisão, até pagar a dívida.
    Ora os outros servos seus companheiros, vendo isto, ficaram muito contristados, e foram, e referiram ao seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então o senhor chamou-o, e disse-lhe: Servo mau, eu perdoei-te a dívida toda, porque me suplicaste; não devias tu logo compadecer-te também do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? E o seu senhor, irado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a dívida.
    Assim também vos fará meu Pai celestial, se não perdoardes do íntimo dos vossos corações cada um a seu irmão.” (Mateus 18, 23-35 – da Bíblia traduzida da Vulgata pelo Padre Matos Soares, 6ª edição, 1953)

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