Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

UM CRUCIAL EXAME DE CONSCIÊNCIA HISTÓRICO NESTE OCASO DO CRISTIANISMO

 

Arai Daniele

Quando, do nosso lado, começamos a estudar a questão em torno da Constituição Apostólica «Cum ex apostolatus officio», publicada em 1559, último ano de vida de Paulo IV, eu dediquei-me à parte histórica. Não porque seja historiador, mas devido ao interesse despertado pelas minhas muitas leituras, que iniciaram em torno às políticas do tempo das Aparições Marianas. Tudo isto está unido na História da Igreja e da Cristandade.

Agora se trata de uma situação especial da Igreja e do Papado, que sempre tiveram muitos inimigos, mas naquele momento apresentavam diversos inimigos internos, que o Papa Paolo IV considerava indispensável afastar do poder, embora fossem cardeais e famosos. Vamos pois falar dessa Bula de grande importância universal, mas então de valor atribuído só para evitar que pelo menos dois cardeais importantes, de cuja fé o Papa suspeitava, pudessem ser eleitos à Sede de são Pedro. Tratava-se do influente cardeal Giovanni Morone – que foi preso por suspeita difusão de heresia e do cardeal Reginald Pole.

Paulo IV temia a escalada de cripto-heréticos disfarçados, às posições chave da Igreja, pois o Protestantismo avançava. Por isto havia instituído o Índice para livros suspeitos e proibidos (Index librorum prohibitorum) com a Bula «Cum secundum Apostolum» (16.12.1558), com penas severíssimas contra cardeais envolvidos em pavtos com o poder político, a fim de conquistar a tiara. Paulo IV decretou também, com o fim de impedir que os judeus de Roma propagassem tortuosamente, sob aparência pia ou de difusão cultural, doutrinas anticristãs.

O ódio de que é foi e continuou a ser alvo, suscitado pelos inimigos da Fé e do Papado, não pode surpreender, pois, porque é certo ter sido este Papa o principal «obstáculo» a sustar durante séculos o que hoje impera por obra da abertura de João 23. Trata-se do plano dessa protestantização ecumenista, assim como da judaização do cristianismo, que hoje vemos. Havia então que investigar sobre as simpatias de alguns cardeais pelas novas ideias religiosas. Por exemplo, do Cardeal inglês Reginald Pole e do Cardeal Morone. Em 1540, em Viterbo, eles reuniam junto com personagens influentes, como Vittoria Colonna e o clérigo Carnesecchi, ex protonotário de Clemente VII, e também o espanhol Juan de Valdez, «alumbrado» do movimento tipo «espiritual», versão ante litteram dos modernos carismáticos.

Este grupo atraía intelectuais, artistas e damas como Giulia e Eleonora, prima e irmã do cardeal Ercole Gonzaga. Com fé incerta e aceitando o princípio luterano da justificação só pela fé, chegaram a divulgar a doutrina, depois rejeitada pelo Concílio de Trento, da «dupla justificação». Difundiam também o escrito herético «O Benefício de Cristo», condenado pelo Santo Ofício. Eram ares de mutação da Fé católica que sopravam da Holanda de Erasmo, do teólogo Pighi e até de um papa fugaz como Adriano VI. Estas ideias não vingaram então, mas certamente aguardavam o momento oportuno para a abertura e infiltração modernista na Igreja do século XX e continuam até hoje sem que a maioria perceba o seu veneno. O perigo dessas correntes se revelava às autoridades eclesiásticas nesses anos com a apostasia de dois pregadores: o austero orador Occhino, vigário geral da Ordem dos Capuchinhos e do canônico Vermigli, «mestre» passado ao protestantismo. A acusação contra Pole e Morone era de abertura nessa direção; mesmo se não ficou provado que aderiram à heresia, eram ambos prováveis eleitos ao papado, com imenso perigo para a Fé.

O Cardeal Pole, atacado pelo Cardeal Carafa, por ser inclinado às ideias protestantes de justificação, não foi eleito papa no conclave de 1549, por um voto. E Morone ainda era uma ameaça no conclave de 1566, quando o Cardeal Michele Ghislieri, futuro São Pio V, fez saber da nulidade da eleição daqueles suspeitos de heresia, em base também ao estabelecido pela Constituição Apostólica «Cum ex apostolatus», que reafirmou com a «Inter multiplices». Von Pastor, historiador da Igreja e do Papado, informa que o Cardeal Ghislieri, confessou ter aceito a sua eleição como papa “para evitar o dano da Santa Sé com a possível escolha de Morone.

Aos 18 de Agosto de 1559, Paulo IV morreu santamente, sendo sepultado na Igreja de Santa Maria sopra Minerva, Roma. No seu mausoléu há o epitáfio: “Castigador sem mácula de todo o mal e campeão acérrimo da Fé Católica”. Consta que S. Pio V usava os seus paramentos em sinal de veneração por ele, e abriu seu processo de beatificação. Além disso seguiu o Papa Paulo IV, aplicando a sua Bula, que visava evitar o perigo letal para a Igreja da eleição de hereges disfarçados em católicos, infiltrados no clero para galgar os cargos eclesiásticos mais altos, até conseguir ocupar o Papado. São Pio V o fez com a dita Bula, confirmada com o motu proprio Inter multíplices. Tudo isto é matéria de Direito canônico que permanece. O zelo pela Igreja de Paulo IV foi continuado pois por São Pio V que revigorou a Inquisição Romana, renovando a condenação do racionalismo de Lélio e Fausto Socini e condenando como relapsos, Pietro Carnesecchi (grupo de Viterbo), o humanista Aonio Paleario e Michel du Bay, cuja doutrina era um compromisso entre o protestantismo e o futuro jansenismo.

Pode-se imaginar como esses falsos mestres e desviados teólogos teriam feito carreira hoje como prestigiados especialistas em um «Trento II». Isso ocorreu em tempos conciliares com os peritos tipo Rahner, Hans Küng, Schillebeeckz, Congar, Ratzinger e companhia. No caso, este último teólogo era a esperança para desenvolver o pós-modernismo, realização no que se pode chamar «Luterano II». Na época de Lutero, porém, graças à intensa oração, os papas da renovação espiritual da Igreja foram suscitados por Deus para reforçar a Lei com que os fiéis pudessem enfrentar a malícia de qualquer tempo.

No século passado, a despeito do cálculo humano e da intriga política adversa à vontade de Deus, foi eleito São Pio X. Tudo depende do apelo ao Espírito Santo, que vigia na Igreja para mantê-la longe da perfídia humana, assistindo aos papas que, entretanto, devem governar a Igreja confiada a eles como se tudo dependesse apenas da própria ação; devem impedir que as portas da Igreja sejam abertas para o mundo de prelados de fé corrupta promovidos com engano; homens de ortodoxia suspeita que chegam a ser elevados à mais alta dignidade e jurisdição eclesiástica. Isto procurou evitar Paulo IV, ensinando que, se num conclave, embora de aspeto legítimo, fosse eleito, mesmo pela unanimidade dos cardeais, um indivíduo que se revelará desviado da doutrina católica, a assistência do Espírito Santo vai para os filhos da Igreja a fim de que reconheçam a malícia e nulidade de sua eleição. Só assim poderiam resistir à infiltração e conseqüente destruição da Fé na Igreja.

Já vimos que ninguém, em nenhum momento histórico, foi mais plenamente enquadrado por esta Bula que o inconfesso modernista e filo mação Ângelo Roncalli, que assumiu o nome do antipapa João XXIII e abriu as portas da Igreja ao Modernismo e à Maçonaria. Ora, o Poder do Papa vem diretamente de Deus e seria blasfemo pensar que seria concedido a alguém que queria «aggiornare» a Igreja no sentido de mudá-la, como se viu. Roncalli enganou os cardeais eleitores, poderia enganar a Deus? Só se seus pensamentos e intenções não fossem conhecidos do Alto, o que é absurdo para o católico. Entende-se pois a importância desta Bula, também afim de que não se pense que Deus, porque permite o mal, o autorize diretamente, o que, através dessa elucubração blasfema, deitaria por terra todo o poder divino da palavra papal para o bem e salvação dos homens.

A história em torno da Constituição apostólica «Cum ex apostolatus»

Como dito acima, dediquei-me à parte histórica em torno à Bula, não como historiador, mas pelo meu interesse e minhas muitas leituras sobre as políticas que influíram na vida da Igreja e da Cristandade. Aqui ambas entram diretamente na questão e a pesquisa nesse sentido parece, pelo visto, toda por fazer. De fato, trata-se de apurar as causas do ódio que se levantou contra esse santo Pontífice, não só pelos potentes do mundo e pelos Judeus, mas por muitos dentro da mesma Igreja, causando uma verdadeira repulsa seguida de esquecimento da Constituição apostólica que trata do assunto da Autoridade divina, o mais crítico para o tempo moderno. Para se dar um exemplo, o eminente teólogo São Roberto Bellarmino, tratando do assunto, não cita esta Bula, cuja publicação precede de pouco o seu mesmo tempo no estudo dos assuntos do Vaticano.

Toda esta matéria demanda muito estudo e atenção e aqui proponho apenas para os amigos um apanhado da situação histórica pouco conhecida. Aliás, quando dediquei-me à parte acima mencionada, já me deparei com um período pouco lembrado nos livros. Foi com surpresa que constatei que pessoas melhores preparadas ficaram surpreendidos com a concatenação de fatos e de nomes que apurei então (anos oitenta). O editor belga Alfred Denoyelle da revista Mysterium Fidei, um sedevacantista das primeiras horas (Docteur en Histoire. Modernisme et histoire), combinou então de satisfazer com uma versão francesa o pedido do Padre Villa de «Chiesa Viva» sobre a Bula e Papa Paulo IV, que eu organizara. E publicou um prefácio em que referia meus apontamentos e algo mais, mas tratando Papa Paulo IV como um papa fogoso de temperamento napolitano para justificar suas condenações. Era a versão alongada e também alterada de minha primeira apresentação, não agradou. Quando me telefonou, eu lhe disse apenas que me parecia um pouco longa. O homem não gostou e comportou-se como uma prima donna, razão porque o trabalho gorou. Como depois o de «Chiesa Viva», provavelmente porque faltou o «placet» do cardeal Ottaviani, mentor e sponsor do P. Villa.  No entanto, meu resumo histórico foi apreciado e até desenvolvido pelo P. Ricossa da revista «Sodalitium», que porém atribuiu o estudo ao historiador Denoyelle.

Resumindo, há uma certa pesquisa histórica a ser feita aprofundando os fatos em torno dessa Bula bendita, que as forças demoníacas não querem que seja acolhida como deve ser para o bem da Igreja e da Cristandade; um obstáculo de aspecto misterioso compreensível em vista da importância crucial da matéria. Trata-se da integridade da Autoridade divina no mundo. Quero aqui esboçar uma sugestão de pesquisa, a fim de que pessoas mais especializadas que eu, possam expandir o estudo sobre o ambiente no qual foi publicada a Bula «Cum ex apostolatus» e sua aplicação, cada vez mais esquecida depois de São Pio V, até hoje.

A primeira questão é se o tom drástico das sentenças papais ali não indicassem a visão de uma hora dramática na História da Cristandade, no sentido de uma vasta rebelião contra a Ordem cristã vigente. Para isto basta enumerar os inimigos que a Bula suscitava na ordem civil, que consta na parte do documento que vai além do âmbito eclesiástico, e é hoje inaplicável num mundo descristianizado.

A segunda questão seria avaliar quanto este âmbito eclesiástico estava ligado e dependente desse poder civil e fosse, por isto,  propenso a ignorar uma tal Constituição apostólica.

Em seguida haveria que averiguar a origem da aversão de alguns teólogos à Bula de Paulo IV, porque são teólogos da mesma época. Será que a razão porque São Roberto Bellarmino não cita a Bula no seu estudo sobre opiniões em torno da questão do papa cair em heresia, não seja porque sua conclusão comparada a de tais teólogos seja para confirmar o que a Bula define quanto ao «papa herege»?

Nesse sentido aqui deve-se tentar reproduzir o quadro da situação completa, mas com toda atenção quanto à primeira questão: da hora dramática na História da Cristandade, no sentido do início de uma vasta rebelião à Ordem cristã vigente na Cristandade, que também iniciava ao nível do clero e das ordens religiosas na mesma Roma.

A Revolução protestante, como as que a seguiram, inflamava o mundo no sentido de retorno à rebelião original. Rebelião das consciências que acabou por organizar-se nas sociedades na forma do processo da revolução social. Esta Bula apareceu como obstáculo, talvez derradeiro, a este vendaval para uma virada histórica em que o espírito da revolução soprou dentro do mesmo Catolicismo, envolvendo o mundo civil e o religioso. O Papa Paulo IV previa a crucial necessidade de preservar o Papado como último bastião (katéchon) dessa fatal ventania.

De fato, a Igreja ficou isenta do pior desvio revolucionário para denunciá-lo até nossos tempos, mas com as grandes guerras as defesas começaram a ruir. Precisaria de uma poderosa intervenção divina para resistir. Esta foi oferecida em Fátima, mas não foi compreendida pelos seus três papas, até Pio XII.

Seguiu-se a inoculação da mentira na sede romana, que passou a contaminar o mundo inteiro e parece sem solução humana. Sim, porque não é entendida com os olhos da Fé; Fé ligada à Palavra divina confirmada pelo Papa que foi abatido.

Que Nosso Senhor nos ajude nesse ocaso do Cristianismo.

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