Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

OS BENS DA TERRA DEVEM SERVIR OS BENS DO CÉU

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa Pio XI, num trecho da sua encíclica “Quadragesimo Anno”, promulgada em 15 de Maio de 1931:

«É certo que por muito tempo pôde o capital arrogar-se direitos demasiados. Todos os produtos e todos os lucros reclamava-os ele para si, deixando ao operário ùnicamente o bastante para restaurar e reproduzir as forças. Apregoava-se que, por fatal lei económica, pertencia aos patrões acumular todo o capital, e que a mesma lei acorrentava e condenava os operários a perpétua pobreza e vida miserável. É bem verdade que as obras nem sempre estavam de acordo com SEMELHANTES MONSTRUOSIDADES, dos chamados princípios liberais de Manchester. Não se pode, contudo, negar que para elas tendia, com passo certeiro e constante, o regime económico e social. Por isso, não é para admirar que estas opiniões erróneas e estes postulados falsos fossem enèrgicamente impugnados, e não só por aqueles A QUEM PRIVAVAM DO DIREITO NATURAL DE ADQUIRIR MELHOR FORTUNA.

De facto, aos operários assim maltratados, apresentaram-se os chamados “intelectuais”, contrapondo a uma lei falsa um não menos falso princípio moral: “Os frutos e rendimentos, descontado apenas o que basta para amortizar e reconstituir o capital, pertencem todos de, direito, aos operários”. Erro mais capcioso do que o de alguns socialistas, para os quais tudo o que é produtivo deve passar a ser propriedade do estado, quer dizer – socializar-se; mas, por isso mesmo, erro muito mais perigoso e próprio a seduzir os incautos; veneno suave que tragaram àvidamente muitos, a quem o socialismo sem rebuço não pudera enganar.

A premuni-los contra estes falsos princípios, com que a si próprios fechavam o caminho da Justiça e da Paz, deviam bastar as palavras sapientíssimas do nosso predecessor: “Embora seja distribuída entre os particulares, não cessa a terra de servir à propriedade pública” (encíclica RERUM NOVARUM – 1891). O mesmo ensinamos nós, quando declaramos que a própria natureza exige a repartição dos bens em domínios particulares, precisamente a fim de poderem as coisas criadas servir ao bem comum, de modo ordenado e constante. Este princípio deve ter continuadamente diante dos olhos quem não quer desviar-se da recta senda da Verdade.

Ora, nem toda a distribuição dos bens ou riquezas entre os homens é apta para obter totalmente, ou com a devida perfeição, o fim estabelecido por Deus. É necessário que as riquezas, em contínuo incremento, com o progresso da economia social, sejam repartidas entre os indivíduos, ou pelas classes particulares, de tal maneira que SE SALVE SEMPRE A UTILIDADE COMUM, de que falava o Papa Leão XIII, ou por outras palavras, que em nada se prejudique o bem geral de toda a sociedade. Esta lei de Justiça social proíbe que uma classe seja pela outra excluída da participação nos lucros. Violam-na, por conseguinte, tanto os ricos, que felizes por se verem livres de cuidados, em meio da sua fortuna, têm por muito natural embolsarem eles tudo – e os operários nada; como a classe operária, que irritada por tantas injustiças, e demasiadamente propensa a exagerar os próprios direitos, reclama para si tudo, porque é fruto do trabalho das suas mãos, e combate e pretende suprimir toda a propriedade, rendas ou proventos, qualquer que seja a sua natureza ou função social, uma vez que se obtenham e pela simples razão de serem obtidos sem trabalho. A este propósito, cita-se às vezes o Apóstolo onde diz:”Quem não quer trabalhar não coma”(IITess 3,10). Citação descabida e falsa. O Apóstolo repreende os ociosos, que podendo e dever trabalhar, não o fazem; e admoesta-nos a que aproveitemos diligentemente o tempo e as forças do corpo e do espírito, e não queiramos servir de peso aos outros, quando podemos bastar-nos a nós próprios. Mas o Apóstolo não ensina, nem podia ensinar, que o trabalho seja o único título para receber o sustento ou perceber rendimentos.»    

 

O Catecismo de São Pio X inicia-se colocando a questão mais absolutamente importante das nossas vidas, mas que desgraçadamente é aquela que os homens menos consideram e até frequentemente desprezam: Para que estamos nós na Terra? Quem nos criou e com que Fim?

Os Bens criados, tudo o que Deus criou, POSSUI UMA SANTIDADE ONTOLÓGICA PRÓPRIA, pelo mesmo facto de terem saído das mãos de Deus. Logo daqui se infere que a natureza profunda desses bens é antecedentemente pública e consequentemente privada, porque a propriedade privada integra, irrevogàvelmente, da forma mais estrita, a própria compreensão filosófica e teológica do Género Humano. Assinale-se que no Paraíso Terrestre os bens eram raros, embora menos raros que depois do pecado original; portanto havia necessidade de trabalho, embora este não fosse penoso.

Não há naturezas más, nem acidentes, pois que estes ordenam-se à substância e só podem ser na substância. O mal não é, metafìsicamente, nem uma natureza, nem um acidente, mas privação qualificada de ser, físico ou moral. Existem quatro termos cujo significado é frequentemente confundido: Natureza, significa o princípio fundamental da existência, das acções e da vitalidade de um ente; Substância, é essa mesma natureza enquanto constitui princípio sustentador dos acidentes; Essência, significa o âmago, o núcleo, metafísico, ontológico e inteligível mais profundo desse mesmo ente; Quididade, significa esse mesmo núcleo ontológico e inteligível enquanto é susceptível de definição, a qual constitui uma análise da compreensão.

Em Deus não há acidentes, nem potencialidade alguma, activa ou passiva. Em Deus todas as realidades são Eternas; o próprio mundo, passado, presente e futuro, possui uma presença Eterna no conhecimento Divino.

Uma das grandes armadilhas de satanás, que Deus Nosso Senhor permitiu para castigo dos nossos pecados, consistiu em conspirar para que os homens edificassem grandes cidades artificiais e modos de vida desenraízados da natureza, facilitando assim, enormemente a irreligião e o ateísmo.

Deus Nosso Senhor colocou a Criação ao serviço do homem, não apenas na Ordem Natural, mas tendo, caracterizadamente, em linha de conta a elevação do Homem ao estado Sobrenatural. Até os Anjos, como ministros de Deus, foram estabelecidos como Custódios dos homens e das instituições, segundo o princípio de que o homem, como animal racional, situado na fronteira entre dois mundos, necessita do concurso auxiliador, não apenas das criaturas puramente materiais, mas igualmente das puramente espirituais. Efectivamente, o homem constitui um verdadeiro microcosmo da Criação.

Certa espiritualidade, essencialmente imatura e não tomista, pretende que as criaturas constituem formalmente um perigo para a ascensão Sobrenatural da alma para Deus. Nada mais errado. As criaturas, enquanto tais, na sua pureza, tal como saíram das mãos de Deus, nunca poderiam representar um perigo para a nossa santificação. O que acontece, É QUE A PRÓPRIA FALTA DE SANTIDADE TORNA AS ALMAS INCAPAZES DE GOVERNAREM SOBRENATURALMENTE OS BENS CRIADOS. Aqui reside a razão mais profunda dos votos públicos de castidade, pobreza e obediência, próprios dos religiosos.

É certo que os bens da Criação, conquanto bons e legítimos, necessitam ser perfeitamente sobrenaturalizados para alcançarmos a salvação; OU SEJA, TÊM DE ALGUMA FORMA DE SE ELEVAR À CONDIÇÃO DE BENS CELESTES E ETERNOS. PORQUE SÓ SE LEVA VERDADEIRAMENTE DESTE MUNDO O QUE PERTENCE, ETERNAMENTE, A DEUS NOSSO SENHOR.

Só ama, Sobrenaturalmente, a Deus sobre todas as coisas, quem foi capaz, com a Graça de Deus, de tudo comprometer e integrar nessa mesma Caridade perfeita. Os legítimos afectos naturais necessitam igualmente de ser sobrenaturalizados. Todavia a Ordem Sobrenatural não deve procurar obliterar a legítima autonomia da Ordem Natural, como fizeram, cada um à sua maneira, o protestantismo e o Jansenismo. Quando se desconhece a analogia, bem como a profunda articulação hierárquica extrínseca entre a Ordem Natural e a Ordem Sobrenatural, a consequência última é destruir ambas. Essa é a história de todos os dualismos que eivaram a Cristandade, e que quase sempre produziram as maiores aberrações contra a natureza. Os cátaros e albingenses proibiam o matrimónio porque gerava mais entes corporais – mas autorizavam a sodomia.

Erraram, também, profundamente, aqueles que, como Suarez(1548-1617)  e Vitória (1492-1546), procuraram conferir uma desmedida autonomia histórica à Ordem Natural face à Ordem Sobrenatural, chegando mesmo ao ponto de afirmar que a Soberania temporal do Romano Pontífice era apenas acidental, contradizendo a Bula “Unam Sanctam” do Papa Bonifácio VIII (1302).

Por outro lado, negar a Ordem Sobrenatural, bem como a necessidade de elevar a essa Ordem todos os legítimos Bens terrestres, conduz a ferir de morte a mesma Ordem Natural, como é perfeitamente demonstrado pela História da Igreja, e de uma maneira especial pela História da apostasia conciliar.

Consequentemente, operar como se a Humanidade tivesse sido criada numa Ordem puramente natural, quando essa Ordem nunca existiu, É O MAIOR ERRO QUE SE PODE COMETER. Todas as “utopias” radicam aí a sua origem.

Nós não nos encontramos na Terra como um fim em si mesmo, para gozar naturalmente a vida como se mais nada existisse. Contudo a recusa em fruir, ordenadamente, cada um segundo o seu estado, os bens criados, configura o pecado de insensibilidade, censurado por São Tomás.

Anàlogamente, não se pense que uma alma é tanto mais santa quanto maiores privações materiais haja sofrido na vida. A Santidade é uma forma que exige um equilíbrio material de operação; sòmente a Graça Santificante e a Caridade perfeita podem ministrar o segredo desse equilíbrio. Não há, nem pode haver, duas vidas iguais; a imitação que devemos aos santos É UMA IMITAÇÃO FORMAL DAS SUAS VIRTUDES, NÃO IMPLICA, NEM PODE IMPLICAR, UMA CÓPIA MATERIAL DAS SUAS ACÇÕES. Esse constitui o erro descomunal de todos os fariseísmos e de todos os falsos espiritualismos. Gerardo Groote, pregador do século XV, pouco faltava para condenar formalmente o matrimónio como gerador de todos os pecados. É claro que se Gerardo fosse Tomista, logo realizaria que não é o matrimónio, em si mesmo, que gera os vícios, quando existam, É A TREMENDA FALTA DE VIRTUDE DOS ESPOSOS! E se a Santa Madre Igreja sempre ensinou que o matrimónio torna bastante mais difícil, mas não impossível, a santificação positiva da alma, tal se deve, não a um defeito do próprio matrimónio, que foi instituído e elevado à dignidade de Sacramento por Deus Nosso Senhor, mas à carência de virtude da mesma alma.

Consequentemente, os bens da Terra foram providencialmente criados por Deus PARA QUE MAIS FÀCILMENTE, COM A GRAÇA DO SENHOR, NOS ENCAMINHEMOS PARA O CÉU. Só que tal finalidade pressupõe o seu uso perfeitamente ordenado, O QUE TAMBÉM SÓ DEUS PODE SOBRENATURALMENTE OUTORGAR. PORQUE TUDO O QUE SOMOS, NA ORDEM NATURAL E NA ORDEM SOBRENATURAL, TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO, DEVEMOS A DEUS.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 7 de Junho de 2017

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

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6 Respostas para “OS BENS DA TERRA DEVEM SERVIR OS BENS DO CÉU

  1. henrique junho 12, 2017 às 2:07 pm

    “Essa é a história de todos os dualismos que eivaram a Cristandade, e que quase sempre produziram as maiores aberrações contra a natureza. Os cátaros e albingenses proibiam o matrimónio porque gerava mais entes corporais – mas autorizavam a sodomia.”

    Nisso a ordem natural é comparável a uma mola. Se for tensionada demais num sentido e repentinamente solta, a mola, numa explosão de movimento, se tensionará no sentido contrário.

    O pecado nos induz a desequilibrar a harmonia dos bens criados. Exageramos ou reprimimos o seu uso num certo sentido, e a tensão daí resultante nos induz a compensar este excesso ou falta de um outro modo, duplicando a desarmonia.

    Isso acontece com todos igualmente: tanto católicos quanto hereges. O que nos dferencia dos hereges é que eles não pecam por acidente, mas de propósito, podemos dizer. Enquanto para nós o pecado é uma desgraça, para eles é um princípio ou a consequência de um princípio.

    Só a ordem sobrenatural pode mostrar como cada um deve governar os bens de que dispõe, de acordo com a sua vocação. Como, precisamente, cada pessoa, na sua condição particular, deve governar os seus bens é coisa que não se discernirá nos livros, mas somente com a sincera busca de Deus e da oração, embora os livros, os bons e antigos livros católicos, sejam valiosíssimos em auxiliar-nos na consecução deste objetivo. Uma boa orientação espiritual ajuda ainda mais, mas esta, hoje, é escassa como água no deserto. Há pois que recorrer aos livros, mas com o entendimento de que estes serão, sempre, apenas explicações gerais, pois no tempo de hoje, em que escasseia a orientação espiritual e o aprendizado que se ganha com a observação do exemplo de pessoas mais santas, podemos ser tentados a imitar, irrefletidamente, o que lemos nos livros (por exemplo, as práticas de penitência dos santos), e a nos sentirmos culpados pelo fato de muitas vezes ser impossível imitar essas práticas. Mas, conforme foi bem destacado no texto, o que devemos fazer é imitar os santos formalmente, não materialmente. E esse discernimento, entre formal e material, não é obra da razão, mas da Graça de Deus, que a concede a qualquer um que a peça com Fé, e que com ela colabore de boa vontade.

    • Alberto Cabral junho 13, 2017 às 12:30 am

      Excelente texto; sinceras felicitações.
      Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral – Lisboa

      • henrique junho 13, 2017 às 11:04 am

        Obrigado, felicitações ao senhor também, e meu agradecimento pelos textos sempre tão eucidativos.

        Mas repare uma coisa, sr. Alberto: se é verdade que a imitação deve ser formal, não material, não é também verdade que a alma pode progredir muito se, até certo ponto, se empenhar em imitar os santos materialmente? Isto é: imitar algumas de suas práticas mesmo sem entendê-las completamente. A condição é que esta imitação material seja feita com a sincera intenção de compreender o sentido da prática e de progredir espiritualmente. Se a imitação material for feita sem esta intenção, não será mais do que mera superstição e farisaísmo.

        Dizer que a imitação dever ser formal, não material, embora correto, pode levar a algumas pessoas menos atentas a abandonar de todo a imitação material, o que não seria menos nocivo ao progresso espiritual. O exterior deve refletir o interior, sim, mas ele não é um elemento completamente passivo: o exterior ajuda o interior a solidificar-se e a firmar-se. Não seira uma boa imagem das práticas exteriores, materiais, a armação em que a vinha se agarra, ganha suporte e cresce? A armação é por si só morta, mas a vinha, sem o devido suporte, cresce mal e dá pouco fruto.

      • Alberto Cabral junho 13, 2017 às 7:29 pm

        Não existem duas vidas iguais; as vicissitudes são sempre diferentes. A FÉ, a Esperança e a Caridade Sobrenatural é que não apenas é igual, MAS OBJECTIVAMENTE É A MESMA.
        Assim, é esse mesmo organismo sobrenatural, no qual se incluem os Dons do Espírito Santo, que nos deve guiar sempre, formalmente da mesma maneira, mas adequando- Se à diversidade material de situações. Há contudo certos actos, exagerados, porque anti- racionais que não integram positivamente a santidade, nem o podem fazer, EM CASO ALGUM, tais como beber a água de lavar leprosos .
        Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral – Lisboa

  2. henrique junho 14, 2017 às 2:23 pm

    Permitam-me divulgar um excelente texto, sobre assunto diverso do tratado aqui, que encontrei noutro site (originalmente publicado no Novus Ordo Watch). É da autoria do Padre Félix Sardá y Salvany (1841-1916), e foi extraído de seu livro intitulado “o liberalismo é pecado”. A obsessão formalista dos tradicionalistas de hoje, que inexplicavelmente rejeitam a posição sedevacantista, assemelha-se muito àquela que ele condena nas palavras abaixo , referindo-se aos liberais, que nada mais eram do que os que chamamos modernistas hoje. Trata-se de uma MORDAÇA LEGALISTA, que muitíssimo convém aos traidores da Igreja, usurpadores, para que prossigam com sua obra de enganação, demolição e perda de almas. Só a eles convém o anti-sedevacantismo. A mais ninguém. O que ainda querem os tradicionalistas com suas teses em defesa da autoridade dos destruidores?

    O Padre Salvani propõe a seguinte pergunta: é ou não é, indispensável que se recorra, sempre, ao julgamento das autoridades da Igreja para saber se uma pessoa, ou sua obra, deve ser rejeitada e combatida?

    XXXVIII.- SI ES O NO ES INDISPENSABLE ACUDIR CADA VEZ AL FALLO CONCRETO DE LA IGLESIA Y DE SUS PASTORES PARA SABER SI UN ESCRITO O PERSONA DEBEN REPUDIARSE Y COMBATIRSE COMO LIBERALES.

    “Todo lo que acabáis de exponer, dirá alguien al llegar aquí, topa, en la práctica, con una dificultad gravísima. Habéis hablado de personas y de escritos liberales, y nos habéis recomendado con gran ahínco huyésemos, como de la peste, de ellos y hasta de su más lejano resabio. ¿Quién, empero, se atreverá, por si solo, a calificar a tal persona o escrito de liberal, no mediando antes fallo decisivo de la Iglesia docente, que así lo declare?”

    He aquí un escrúpulo, o mejor, una tontería, que han puesto muy en boga, de algunos años acá, los liberales y los resabiados de Liberalismo. Teoría nueva en la Iglesia de Dios, y que hemos vista con asombro prohijaba por quienes nunca hubiéramos imaginado pudiesen caer en tales aberraciones. Teoría, además, tan cómoda para el diablo y sus secuaces, que en cuanto un buen católico les ataca o desenmascara, al punto se les ve acudir a ella y refugiarse en sus trincheras, preguntando con aires de magistral autoridad: “¿Y quién sois vos para calificarme a mi o a mi periódico de liberales? ¿Quién os ha hecho maestro en Israel para declarar quién es buen católico y quién no? ¿Es a vos a quien se ha de pedir patente de Catolicismo?” Esta última frase, sobre todo, ha hecho fortuna, como se dice, y no hay católico resabiado de liberal que no la saque, como último recurso, en los casos graves y apurados. Veamos, pues, qué hay sobre eso y si es sana teología la que exponen los católico-liberales sobre el particular. Planteemos antes limpia y escueta la cuestión. Es la siguiente:

    Para calificar a una persona o un escrito de liberales, ¿debe aguardarse siempre el fallo concreto de la Iglesia docente sobre tal persona o escrito?

    Respondemos resueltamente que de ninguna manera. De ser cierta esta paradoja liberal, fuera ella indudablemente el medio más eficaz para que en la práctica quedasen sin efecto las condenaciones todas de la Iglesia, en lo referente así a escritos como a personas.

    La Iglesia es la única que posee el supremo magisterio doctrinal de derecho y de hecho, juris et facti, siendo su suprema autoridad, personificada en el Papa, la única que definitivamente y sin apelación puede calificar doctrinas en abstracto, y declarar que tales doctrinas las contiene o enseña en concreto el libro de tal o cual persona, Infalibilidad no por ficción legal, como la que se atribuye a todos los tribunales supremos de la tierra, sino real y efectiva, como emanada de la continua asistencia del Espíritu Santo, y garantiza por la promesa solemne del Salvador. Infalibilidad que se ejerce sobre el dogma y sobre el hecho dogmático, y que tiene por tanto toda la extensión necesaria para dejar perfectamente resuelta, en última instancia, cualquier cuestión.

    Ahora bien. Esto se refiere al fallo último y decisivo, al fallo solemne y autorizado, al fallo irreformable e inapelable, al fallo que hemos llamado en última instancia. Mas no excluye para luz y guía de los fieles otros fallos menos autorizados, pero sí también muy respetables, que no se pueden despreciar y que pueden hasta obligar en conciencia al fiel cristiano. Son los siguientes, y suplicamos al lector se fije bien en su gradación:

    1.° El de los Obispos en sus diócesis. Cada Obispo es juez en su diócesis para el examen de las doctrinas y calificación de ellas, y declaración de cuáles libros las contienen y cuáles no. Su fallo no es infalible, pero es respetabilísimo y obliga en conciencia, cuando no se halla en evidente contradicción con otra doctrina previamente definida, o cuando no le desautoriza otro fallo superior.

    2.º El de los Párrocos en sus feligresías. Este magisterio está subordinado al anterior, pero goza en su más reducida esfera de análogas atribuciones. El Párroco es pastor, y puede y debe, en calidad de tal, discernir los pastos saludables de los venenosos. No es infalible su declaración, pero debe tenerse por digna de respeto, según las condiciones dichas en el párrafo anterior.

    3.º El de los directores de conciencias. Apoyados en sus luces y conocimientos, pueden y deben los confesores decir a sus dirigidos lo que les parezca, acerca tal doctrina o libro sobre que se les pregunta; apreciar según las reglas de moral y filosofía si la lectura o compañía puede ser peligrosa o nociva para su confesado, y hasta pueden con verdadera autoridad intimarle se aparte de ellas. Tiene, pues, también un cierto fallo sobre doctrinas y personas el confesor.

    4.° El de los simples teólogos consultados por el fiel seglar. Peritis in arte credendum, dice la filosofía: “se ha de creer a cada cual en lo que pertenece a su profesión o carrera.” No se entiende que goce en ella el tal de verdadera infalibilidad, pero sí que tiene una cierta especial competencia para resolver los asuntos con ellas relacionados Ahora bien. Al teólogo graduado le da la Iglesia un cierto derecho oficial para explicar a los fieles la ciencia sagrada y sus aplicaciones. En uso de este derecho escriben de teología los autores, y califican y fallan según su leal saber y entender. Es, pues, cierto que gozan de una cierta autoridad científica para fallar en asuntos de doctrina, y para declarar qué libros la contienen o qué personas la profesan. Así simples teólogos censuran y califican, por mandato del Prelado, los libros que se dan a la imprenta, y garantizan con su firma su ortodoxia. No son infalibles, pero le sirven al fiel de norma primera en lo casero y usual de cada día, y deben éstos atenerse a su fallo hasta que lo anule otro superior. o contradicción con otra doctrina previamente definida, o cuando no le desautoriza otro fallo superior.

    5.º El de la simple razón humana debidamente ilustrada.

    Sí, señor; hasta eso es lugar teológico; como se dice en teología; es decir, hasta eso es criterio científico en materia de religión. La fe domina a la razón; ésta debe estarle en todo subordinada. Pero es falso que la razón nada pueda por sí sola, es falso que la luz inferior encendida por Dios en el entendimiento humano no alumbre nada, aunque no alumbre tanto como la luz superior. Se le permite, pues, y aun se le manda al fiel discurrir sobre lo que cree, y sacar de ello consecuencias, y hacer aplicaciones, y deducir paralelismos y analogía. Así puede el simple fiel desconfiar ya a primera vista de una doctrina nueva que se le presente, según sea mayor o menor el desacuerdo en que la vea con otra definida. Y puede, si este desacuerdo es evidente combatirla como mala, y llamar malo al libro que la sostenga. Lo que no puede es definirla ex cathedra; pero tenerla para sí como perversa, Y como tal señalarla a los otros para su gobierno, y dar la voz de alarma y disparar los primeros tiros, eso puede hacerlo el fiel seglar; eso lo ha hecho siempre y se lo ha aplaudido siempre la iglesia. Lo cual no es hacerse pastor del rebaño, ni siquiera humilde zagal de él: es simplemente servirle de perro para avisar con sus ladridos. Oportet adlatrare canes, recordó a propósito de esto muy oportunamente un gran Obispo español, digno de los mejores siglos de nuestra historia.

    ¿Por ventura no lo entienden así los más celosos Prelados, cuando, en repetidas ocasiones, exhortan a sus fieles a abstenerse de los malos periódicos o de los malos libros sin indicarles cuáles sean éstos, persuadidos como están de que les bastará su natural criterio ilustrado por la fe para distinguirlos, aplicando las doctrinas ya conocidas sobre la materia? Y el mismo Índice ¿contiene acaso los títulos de todos los libros prohibidos? ¿No figuran al frente de él, con el carácter de Reglas generales del Índice, ciertos principios a los que debe atenerse un buen católico para considerar como malos muchos impresos que el Índice no designa, pero que, sobre las reglas dadas, quiere que juzgue y falle por sí propio cada uno de los lectores?

    Pero vengamos a una consideración más general. ¿De qué serviría la regla de fe y costumbres, si a cada caso particular no pudiese hacer inmediata aplicación de ella el simple fiel, sino que debiese andar de continuo consultando al Papa o al Pastor diocesano? Así como la regla general de costumbres es ley, y sin embargo tiene cada uno dentro de sí una conciencia (dictamen practicum) en virtud de la cual hace las aplicaciones concretas de dicha regla general, sin perjuicio de ser corregido, si en eso se extravía; así en la regla general de lo que se ha le creer, que es la autoridad infalible de la Iglesia, consiente ésta, y ha de consentir, que haga cada cual con su particular criterio las aplicaciones concretas, sin perjuicio de corregirle, y obligarle a retractación si en eso yerra. Es frustrar la superior regla de fe, es hacerla absurda e imposible exigir su concreta e inmediata aplicación por la autoridad primera, a cada caso de cada hora y de cada minuto.Hay aquí un cierto jansenismo feroz y satánico, como el que había en los discípulos del malhadado Obispo de Iprés al exigir para la recepción de los Santos Sacramentos disposiciones tales, que los hacían moralmente imposible para los hombres, a cuyo provecho están destinados. El rigorismo ordenancista que aquí se invoca es tan absurdo como el rigorismo ascético que se predicaba en Port-Royal, y sería aun de peores y más desastrosos resultados. Y si no, obsérvese un fenómeno. Los más rigoristas en eso son los más empedernidos sectarios de la escuela liberal.

    ¿Cómo se explica esa aparente contradicción? Explícase muy claramente, recordando que nada convendría tanto al Liberalismo [MODERNISMO], como esa legal mordaza [ANTISEDEVACANTISMO] puesta a la boca y a la pluma de sus más resueltos adversarios. Sería a la verdad gran triunfo para él lograr que, so pretexto de que nadie puede hablar con voz autoritativa en la Iglesia, más que el Papa y los Obispos, enmudeciesen de repente los De Maistre, los Valdegamas, los Veuillot, los Villoslada, los Aparisi, los Tejado, los Orti y Lara, los Nocedal, de que siempre, por la divina misericordia, ha habido y habrá gloriosos ejemplares en la sociedad cristiana. Eso quisiera él, y que fuese la Iglesia misma quien le hiciese ese servicio de desarmar a su más ilustres campeones.

    https://moimunanblog.com/2017/06/13/quien-es-ud-para-declarar-heretico-a-nadie/

    • Alberto Cabral junho 14, 2017 às 8:39 pm

      Embora tenha lido quase todo o livro citado não me recordava desta passagem, e muito agradeço a sua transcrição. É absolutamente verdadeira a tese defendida. O destino da ex- Fraternidade é a dissolução total, mesmo no plano moral. Quem sai da Fé sai da moral. Quem ” puritaniza” o seu modo de ser afasta a Caridade de Deus, O Qual colocou os hipócritas muito abaixo das prostitutas. Os anti-sedevacantistas são dos piores hipócritas que existem ou podem existir.
      Sinceras felicitações
      Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral – Lisboa

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