Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

SERÁ A SABEDORIA, NATURAL E SOBRENATURAL, COMUNICÁVEL?

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos um breve trecho do Sagrado Livro do Eclesiástico:

  • «Eu saí da boca do Altíssimo, gerada antes de todas as criaturas. Fixei, no mais Alto dos Céus a Minha morada, e o Meu Trono numa coluna de nuvem. Estabeleci-Me por toda a Terra, e exerci o Meu Império em todos os povos e Nações. Sob os Meus pés, pelo Meu poder, tive os corações de todos os homens, grandes e pequenos. Quem me ouvir nunca será confundido, E AQUELES QUE POR MIM SE DEIXAREM CONDUZIR, NÃO CAIRÃO EM PECADO. AQUELES QUE ME TORNAREM CONHECIDA TERÃO A VIDA ETERNA.» Eclo 24, 5-31

Excerto da Constituição Apostólica “Deus Scientiarum Dominus” emanada da Congregação dos Seminários e Universidades, em 24 de Maio de 1931, com aprovação solene do Papa Pio XI:

«Deus, o Senhor das ciências, confiando à Sua Igreja o Mandato Divino de ensinar todas as Nações, constituiu-a, sem nenhuma dúvida, Mestra Infalível da Verdade Divina, e por isso mesmo, PROTECTORA PRINCIPAL E INSPIRADORA DE TODO O SABER HUMANO. Constitui, efectivamente, o próprio da Santa Igreja, o transmitir a todos os homens os ensinamentos sagrados que ela mesma recebeu, extraídos da Divina Revelação; como, por outro lado, a Fé e a Razão humana não sòmente não se podem jamais contradizer; mas perante a sua perfeita harmonia, PRESTAM-SE MÚTUO APOIO. A Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo em todas as épocas considerou como sendo seu dever auxiliar e promover a cultura das artes e das ciências, como o atestam numerosos e irrecusáveis testemunhos históricos. De facto, desde o fim da Igreja primitiva, período em que o Espírito Santo supria directamente, pela abundância dos Seus Carismas, os conhecimentos que faltassem talvez aos fiéis, e desde o segundo século depois do nascimento de Cristo, surgiram em Alexandria, em Edessa, em Antioquia, lares da Sabedoria Cristã. No fim deste mesmo século, e no curso do terceiro, foram fundados em Alexandria e Antioquia estas ilustres didascálias, onde vieram haurir a sua ciência, para não citar senão os mais célebres: Clemente de Alexandria, Orígenes, São Dionísio O Grande, Eusébio de Cesareia, Santo Atanásio, Dídimo o cego, São Basílio O Grande, São Gregório de Nazianzo, São Gregório Nisseno, São Cirilo de Alexandria, São João Crisóstomo, Teodoreto. Estes Padres e Escritores Eclesiásticos, com Santo Ephrem, Santo Hilário de Poitiers, Santo Ambrósio, São Jerónimo, Santo Agostinho, assim como um número quase incalculável de doutores e de sábios da Igreja da mesma época, eram considerados pela opinião pública como a fina-flor do saber. Posteriormente aos Padres da Igreja, graças sobretudo ao zelo e à actividade dos monges e dos Bispos, secundados, é verdade, por aqueles que detinham então o Poder, um grande número de escolas foram fundadas. Certamente que então, civilização e ciência eclesiástica não constituíam, por assim dizer, senão uma unidade, e que estas escolas – edificadas à sombra das Catedrais e dos Mosteiros – constituíram uma fonte abundante de benefícios para todos.

Ulteriormente, a esta época da Idade Média, a que se costuma denominar Idade das trevas, no momento onde as novas invasões dos Bárbaros ameaçavam submergir e subverter as letras e as artes, abandonadas de todos, tristemente desconsideradas, encontraram a única coisa que lhes restava: Um asilo assegurado nos templos e mosteiros da Igreja Católica. Os concílios reunidos em Roma em 826 e 853 promulgaram a decisão, verdadeira luz no meio das trevas, em virtude da qual,”em todos os Bispados e seus domínios, e em todos os outros lugares onde é necessário, era necessário envidar toda a diligência para estabelecer mestres e doutores que ensinassem regularmente as Letras e Artes liberais.”

Se a Igreja Romana, nesta perturbada época, não tivesse salvaguardado os documentos antigos da civilização, seria certo que o Género Humano teria perdido estes tesouros literários que a Antiguidade havia transmitido.

A Universidade dos Estudos, esta gloriosa instituição da Idade Média, denominada neste época “Estudo” ou “Estudo Geral” possui desde a sua origem POR MÃE E PADROEIRA, MUITO GENEROSA, A SANTA IGREJA. Efectivamente, se nem todas as Universidades foram criadas pela Igreja Católica, não é menos verdade que a maior parte dos Ateneus tiveram como fundadores, ou em todo o caso como mecenas e guias os Pontífices Romanos.»

 

Todos nós consideramos a escola como um lugar de docência e correlativa discência, mas será que nos esforçamos por também definir e aprofundar tais conceitos?

Santo Agostinho considera que a função magisterial constitui sobretudo UMA OCASIÃO para que a actividade instrumental do aluno possa concorrer com a ILUMINAÇÃO DIVINA, ESTA VALORIZADA COMO CAUSA EFICIENTE PRINCIPAL, e isto não apenas na Ordem Natural como na Ordem Sobrenatural, neste último caso, a iluminação Divina seria a Graça Sobrenatural. É que Santo Agostinho julga necessária a acção de Deus para que a inteligência humana possa adquirir certos conceitos e certos princípios de ordem superior, mas no plano estritamente natural.

Muito diferente, e absolutamente preferível, é a posição de São Tomás de Aquino; para este luminar da ciência Teológica e Filosófica, seria contraditório sustentar que para a aquisição de determinados princípios intelectuais puramente naturais, de uma sabedoria humana, fosse necessária uma intervenção positiva (logo Sobrenatural) de Deus, como que acrescentada às próprias forças da Criação em si mesma. Consequentemente, São Tomás defende que é a própria faculdade intelectiva do homem que abstrai o inteligível do sensível, sem qualquer auxílio de Deus, que não seja o concurso puramente metafísico à actividade de toda e qualquer criatura. São Tomás filia esta sua posição na unidade, e simultaneamente na analogia, da Criação, contemplada como a manifestação extrínseca e contingente das Infinitas perfeições Divinas, quer na ordem real, quer na ordem ideal e espiritual. Pois tendo sido a inteligência humana criada por Deus, deve possuir uma intimidade, uma afinidade, extremamente profunda com o Universo, também obra de Deus.   

Neste quadro conceptual, São Tomás sàbiamente argumenta que no processo correlativo docência-discência, na ordem natural, o professor constitui verdadeira causa eficiente instrumental da sabedoria do aluno, sendo as faculdades intelectuais e morais deste a verdadeira causa eficiente principal dessa sabedoria; Deus apenas será considerado, como Criador, como Conservador, e como Autor do referido concurso metafísico. Efectivamente, a Criação possui tudo o que necessita para se bastar a si própria.

Raciocinando, podemos concluir que a actividade discente pode por vezes prescindir de docência qualificada, neste caso por suprimento de quem aprende; e desde que disponha e SAIBA ESCOLHER BONS LIVROS E ADEQUADOS AO SEU TIPO DE INTELIGÊNCIA (causa eficiente instrumental, neste caso) e sobretudo se tiver faculdades intelectuais ontològicamente proporcionadas às matérias que se dispõe a estudar. Se não se verificar tal proporção, o aluno não aprende, ainda que possua os melhores professores (causa eficiente instrumental). PORQUE APRENDER É ABSTRAIR O INTELIGÍVEL DO SENSÍVEL, É CONSTITUIR PRINCÍPIOS INTELIGÍVEIS E ANALOGANTES, REPRESENTATIVOS DA COMPLEXIDADE DO REAL. Por isso existe a aptidão para línguas, para matemática, para as engenharias, para o mundo filosófico etc. Essas diversas capacidades concretizam-se em diversos indivíduos, sendo muito raros aqueles que são igualmente proficientes em disciplinas díspares. Tal acontece porque os homens são indivíduos de uma mesma espécie; ainda segundo São Tomás, a identidade da espécie é conferida pela forma da alma espiritual, a qual é por Deus directamente concriada na matéria fornecida pelos progenitores; MAS AS DIFERENÇAS INDIVIDUAIS ENTRE AS PESSOAS, INCLUINDO O SEXO, SÃO CONFERIDAS PELA MATÉRIA. COMPETE À MATÉRIA MANIFESTAR SINGULARMENTE TODA A RIQUEZA ESPECÍFICA DA FORMA ESPIRITUAL. Exactamente por isso, no Anjo, que são cada um deles uma espécie, não existe, qualquer divisibilidade, qualquer distribuição, das perfeições específicas em diversos entes.

Voltando ainda à missão instrumental do professor, esta sintetiza-se na tentativa de adaptar a matéria leccionada, o melhor possível, ao tipo de inteligência do aluno, de modo a que este melhor possa extrair os necessários princípios inteligíveis. Como já se referiu, no sujeito autodidacta,

a função instrumental tem que ser parcialmente desempenhada por aquele que aprende. Por tudo isto se infere que nem tudo pode ser objecto de ensino, precisamente porque este já conceptualiza a necessidade de uma forma inteligente que o assimile e lhe exprima a Sabedoria.

E na Ordem Sobrenatural?

Nesta Ordem, o Fundamento, a Causa Eficiente Principal de toda a Sabedoria É SEMPRE DEUS NOSSO SENHOR. O professor ou o catequista possuirá também aqui uma função eficiente instrumental. A actividade moral natural do aluno é que constituirá CONDIÇÃO EXTRÍNSECA PROVIDENCIAL DA GRAÇA DE DEUS. Tal sucede porque existe um paralelismo analógico extrínseco entre a Ordem Natural e a Ordem Sobrenatural. Referimo-nos à actividade moral, natural, do aluno; todavia se essa actividade já for Sobrenatural, será então CONDIÇÃO INTRÍNSECA PROVIDENCIAL DE NOVAS GRAÇAS. Nunca se olvide que na Ordem Sobrenatural Deus constitui sempre, não apenas a Causa Eficiente Principal – MAS A CAUSA TRANSCENDENTAL DE TODA A PREDESTINAÇÃO À GLÓRIA ETERNA. Mesmo a preparação para a Graça tem de ser Sobrenatural. Quando aqui se refere a Graça, tal necessàriamente inclui os Dons do Espírito Santo, mediante os quais, é Deus Nosso Senhor que derrama em nós, sem nós, a Sua Sabedoria, a Sua Inteligência, a Sua Caridade, a Sua Santidade, a Sua mesma Vida Divina. Nas Virtudes Teologais, somos nós que, sustentados pela Graça, conhecemos e amamos a Deus Nosso Senhor, no exercício das nossas mesmas faculdades. Nos Dons do Espírito Santo, é o próprio Deus que coloca nas nossas faculdades esse conhecimento e esse amor Sobrenatural, a nós compete apenas acolher, ou desgraçadamente rejeitar, esses Dons. Pelo Dom da Sabedoria, Deus e só Deus, como que se nos dá por inteiro, sem reservas, à nossa adoração, à nossa Caridade incondicional, sobre todas as coisas, à nossa compunção, e sendo essencialmente especulativo, o Dom da Sabedoria também é, indirectamente, cem por cento prático. Porque nos confere espécies Sobrenaturais extremamente extensas e universais, mas permanecendo uma notabilíssima compreensão e sentido do particular. Como jamais sucede nas espécies inteligíveis naturais. Efectivamente, no Dom da Sabedoria, nós podemos sentir verdeiramente a Infinitude de Deus, a Asseidade de Deus; o que é perfeitamente lógico, porque nos Dons é Deus Infinito que actua em nós, e no exercício das faculdades somos nós que, finitamente, as movemos.

Nós nunca podemos comunicar, verdadeiramente, aos outros a Sabedoria Sobrenatural, podemos e devemos proclamar a Verdade de Deus Nosso Senhor, anunciar os Mistérios Soberanos da nossa Redenção, mas tudo o que fizermos constituirá, como referimos, apenas uma condição extrínseca Providencial da Graça Divina,  mais nada!   

Na Ordem Natural, um professor excelente pode comunicar a alunos medianos conhecimentos literários e científicos da maior riqueza e da maior utilidade. Mas na Ordem Sobrenatural, existe uma abismo entre a mais eloquente e ilustre prelecção Dogmática e Moral – E A ETERNA PREDESTINAÇÃO TRANSCENDENTAL DE DEUS UNO E TRINO.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 8 de Julho de 2017

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Anúncios

2 Respostas para “SERÁ A SABEDORIA, NATURAL E SOBRENATURAL, COMUNICÁVEL?

  1. henrique julho 18, 2017 às 11:38 am

    A ordem sobrenatural então se compara ao modo como as plantas vêm a nascer: podemos providenciar certas condições que tornam possível a germinação das sementes, o crescimento das árvores e a geração de frutos, mas em última análise isso é um processo espontâneo, que não depende de nós.

    O agricultor faz seu trabalho com empenho, providenciando diversas condições necessárias para a geração de muitos frutos: ara a terra, aduba, semeia, rega, poda e espanta as pragas. Em geral, a produção de frutos é proporcional ao empenho do agricultor. Mas a produção nem sempre é a mesma, ainda que o empenho seja o mesmo. Pode mesmo não haver produção nenhuma, ainda que com trabalho esforçado, pois é sempre possível sobrevir um novo problema: a terra saturada, uma praga desconhecida, alguma condição climática desfavorável. Analogamente, vemos que os países onde a Igreja se faz presente também apostatam.

    Por outro lado, as grandes cidades, cobertas de poluição e cimento, oferecem as condições mais desfavoráveis para a vida vegetal. Não obstante, sempre temos a oportunidade de ver, em meio à desolação cinzenta, alguma plantinha lutando para crescer através de uma fenda no pavimento. A graça de Deus encontra onde germinar mesmo nos lugares mais repletos de impiedade.

    • Alberto Cabral julho 18, 2017 às 9:56 pm

      Belíssimo texto. A razão última da perseverança nos Bens Sobrenaturais reside na Predestinação. Há sem dúvida uma proporção analógica e extrinseca entre a Ordem Natural e a Ordem Sobrenatural; todavia, acima dessa proporção está o maior Mistério da Fé Católica – A Predestinação.
      Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral – Lisboa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blondet & Friends

Il meglio di Maurizio Blondet unito alle sue raccomandazioni di lettura

AMOR DE LA VERDAD

que preserva de las seducciones del error” (II Tesal. II-10).

Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

Radio Spada

Radio Spada - Tagliente ma puntuale

Catholic Pictures

Handmaid of Hallowedground

Hallowedground

Traditional Catholic Visualism

Acies Ordinata

"Por fim, meu Imaculado Coração triunfará"

RADIO CRISTIANDAD

La Voz de la Tradición Católica

%d blogueiros gostam disto: