Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

A TRISTEZA DE NOSSA SENHORA E A COMPLACENTE PERDIÇÃO GERAL NO MUNDO: uma carta de mgr Guérard des Lauriers

Arai Daniele

Creio pertencer àquela minoria de católicos que desde os anos Sessenta percebeu que algo de estranho se passava na Igreja. Em seguida, nos anos Setenta, tal estranheza foi tomando forma na transformação da vida eclesiástica e paralelamente da sociedade ocidental. Como paulista, mas residente no Rio, comecei a perceber a evolução do mal através a TFP e de Permanência do escritor Gustavo Corção. Aliás, diga-se que já então o germe da desunião operava nesse meio. O fato é que se passou a dispor de muita literatura sobre essa transformação que tocava seja a Liturgia, seja a Doutrina, seja a vida social da Cristandade. Passei a procurar e, sempre que me era possível, frequentar esses grupos, ao qual acrescento «Hora Presente» do Adib Kasseb. Queria instruir-me sobre o mal que se difundia na nossa Igreja, visando destruí-La.

Lembro aqui esses tempos iniciais para que fique claro que o avanço revolucionário interno à Igreja tem data inicial e mantem plena continuidade com a situação presente. É o «processo» descrito pelo professor Plínio Correa de Oliveira, processo universal, uno, total e dominante de uma crise fundamental “de múltiplos que tem como campo de ação o próprio homem… essas crises têm sua raiz nos problemas de alma mais profundos, de onde se estendem para todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e todas as suas atividades”. Visto como «problemas de alma”, é claro que o único seu reduto de defesa neste mundo estava na Igreja. Superado este última «obstáculo”, como ocorreu, o homem foi colhido pela pior revolução.

A este ponto posso continuar a falar da ajuda divina, que não falhou, e dos consagrados, não só que lutaram na defesa da Fá, mas que entenderam a ação católica a partir dessa suave quanto inestimável ajuda de Nossa Senhora de Fátima. Não se pode dizer que foram muitos, pois o testemunho de Sua mensagem profética apóia-se sobre as suas três partes: – a visão do Inferno e da Justiça divina; – a Misericórdia divina através da devoção ao Imaculado Coração de Maria; – a visão do 3º Segredo sobre a atual situação da Igreja, que o católico deve enfrentar. Dir-se-á que essa não era conhecida até o ano 2000, mas conhecida era a sua censura em 1960 e portanto a emblemática ofensa à ajuda divina através da Mãe de Deus; própria à «outra fé»!

Aqui vou falar de um dos defensores da Fé que entendeu a necessidade desse testemunho. Trata-se de Raymond Michel Charles Guérard des Lauriers, nascido em Suresnes, perto de Paris, em 25 outubro de 1898. Decidiu pela vocação na ordem de S. Domingos. Fez o noviciado em Amiens em 1926 e aos 28 ans recebeu o hábito com o nome de frère Louis-Bertrand.

Por causa das leis anticlericais em vigor na França, as Ordens religiosas eram obrigadas ao exílio ; razão porque os noviços Dominicanos tinham o seminário do Saulchoir à Kain, na Bélgica. Após a ordenação seus superiores decidiram que Michel continuasse os estudos para ensinar. Assim, durante o verão de 1932 a Faculdade de Lille pediu à Ordem um professor de cálculo diferencial e integral, porque a cátedra estava vacante.

Passemos à sua luta no novo tempo. Durante os anos 50, mgr Guérard participou de controvérsias contra o transbordamento modernista, que acabou por dominar o Vaticano 2. Em seus muitos escritos sobre a Teologia da graça, ele acentuadamente distinguiu a ordem natural da ordem sobrenatural contra as tendências da “nova teologia” de Lubac. Quanto à cosmologia evolutiva ele ser um dos principais oponentes de Teilhard. Estas controvérsias levaram à nova condenação do neo-modernismo por Pie XII com a encíclica Humani Generis (1950). Mgr Guérard também denunciou o P. Congar ao Santo Ofício, o que desencadeou contra ele o mau humor de muitos de seus colegas na mesma Saulchoir.

O Padre. Guérard des Lauriers foi também um mariólogo proeminente. Nesta função, ele participou nos trabalhos preparatórios para a definição do Dogma da Assunção (1950). Nesta ocasião, ele desenvolveu a doutrina do magistério ordinário universal. Foi um dos principais teólogos que apoiou a intenção de Pio XII para completar os dogmas marianos pela definição de mediação e co-redenção de Maria. Mas os progressistas que não conseguiram impedir a proclamação da Assunção da Bem Virgem Maria, obtiveram o bloqueio dessas duas definições.

A redação do famoso «Breve Exame Crítico», com carta a Paulo 6 se deve especialmente ao Padre e lhe causou diversos problemas. De fato desde 1951, a convite de mgr Piolanti, ele se havia transferido a Roma, onde ensinou durante quase dez anos na Universidade do Latrão. Habitou então no Angelicum, onde conviveu com o P. Garrigou-Lagrange. Ora, por ter escrito o «Breve Exame Crítico», o P. Guérard perdeu o púlpito de Latrão, de onde ele foi demitido em junho de 1970: “Junto com o Reitor, Monsenhor Piolanti e quinze professores, considerados todos indesejáveis.”

Os Dominicanos naquela época também mudaram e venderam muitas sedes. Nem mesmo se incomodam de recuperar os objetos sagrados do Padre. Muitos objetos de culto foram salvos da destruição ou passaram a uso secular. Na sequência deste último episódio P. Guérard pediu e obteve dos Superiores de viver “extra conventum”, a fé exigia que se separasse fisicamente dessas pessoas embarcadas nas reformas. Naquela época, ele pensou de se retirar em quase toral isolamento. Mas Deus dispôs diversamente. Assim, o Padre se dedicou a pregar retiros e dar palestras em centros de Missa tradicionais, especialmente sobre a situação atual.

Dom Lefebvre, em seguida, abriu o seminário de Ecône, que requeria professores à altura. P Padre Guérard foi convidado a dar aulas. Assim começou a cooperação com Dom Lefebvre, também para esclarecer os princípios da autoridade na Igreja que exigia toda a verdade e coerência na ação “tradicionalista” que começava tardiamente a amadurecer.

Foi naquela época que mgr Guérard procurou uma explicação teológica que tornasse legítima a recusa da autoridade das reformas: ele elaborou, assim, a tese do “Papa materialiter”, que infelizmente trouxe mais confusão de um lado embora afirmasse que pelo menos desde 7 de dezembro de 1965, de forma aberta e objetiva, Paulo 6 não professava mais a fé, e porisso perdia ipso facto a Autoridade da Igreja militante, porque já não direciona suas ações para o bem da Igreja e a salvação das almas. Mas, até que se prove, sua eleição parece válida, uma vez que até agora ninguém no episcopado ordenou oficialmente a sua heresia, restaria pois “papa” apenas “materialmente” não “formalmente” (cf. Sodalitium No. 13, pp. 18 a 24) e que, portanto, não deve ser citado no cânon da Missa, na oferta da vítima a Deus.

Aqui não vamos entrar na discussão de uma tese nova para a Igreja e de aspeto contraditório pois, depois de afirmar que de «forma aberta e objetiva» Paulo 6 professou outra fé, crê que isto dependa do juízo de alguém do episcopado; como se a verdade e a Fé para serem reconhecidas dependessem de cargos humanos. Além disso havia a Bula Cum ex de Paulo IV que declara nulo, após qualquer tempo e mesmo que tenha expresso a unanimidade da votação, o conclave eleitor de quem era desviado. Claro que por esta e outras boas razões a questão ficou entregue a um vespeiro infindável até hoje, ainda por cima com as «sucessões materialiter»!

Como diversas divisões foram manifestadas em Écône entre professores e entre alunos, Dom Lefebvre tomou a decisão de “purgar” o corpo docente. E o P. Guérard foi demitido no outono de 1977, depois de ter pregado aos seminaristas o retiro de abertura do ano escolar em que ele falou entre outras coisas do que seja obedecer o “Papa – perinde ac cadaver”. Mas sua relação com Dom Lefebvre permaneceu boa.

Pois foi a esta alta personagem que escrevi para falar da importância única de Fátima como claro sinal do Desígnio divino para nosso tempo desvairado. Eis pois a resposta que encontra-se no artigo em francês, em que ele reconhece essa importância e a a sua parca sensibilidade católica diante dessa injúria feita a Nossa Senhora, pela qual pede perdão. De outro lado o Padre louva a minha insistência para que se reconheça essa ajuda indispensável.

Então digamos que temos em mgr Guérard des Lauriers un autêntico testemunho de Fátima na sua plenitude já em 1987, quando nem se sabia se o 3º Segredo seria finalmente revelado. Mas a certeza da existência no mundo desse sinal de um Desígnio divino para nosso tempo decadente já nos devia bastar para concentrar Nele toda a nossa atenção e Fé.

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6 Respostas para “A TRISTEZA DE NOSSA SENHORA E A COMPLACENTE PERDIÇÃO GERAL NO MUNDO: uma carta de mgr Guérard des Lauriers

  1. Thiago agosto 5, 2017 às 12:38 pm

    Estaria Paulo VI vivendo sob o jugo da maçonaria eclesiástica quase como um prisioneiro de mãos atadas? João Paulo I foi assassinado pela nefanda Besta negra? Estariam os Papas até Bento XI sob uma pressão secular e interna imensa ao ponto testemunharmos uma renúncia Papal? Seria Bento XVI o sexto Rei de Apocalipse – o que duraria pouco tempo ‘ e Francisco o representante da Besta, o sétimo, o que vai à Perdição em Babilônia? O quê se passou nos últimos sessenta e tantos anos nos gabinetes Vaticano que não vieram a público?

    Lendo um livro do Exorcista Padre Amorth, num exorcismo que se passa nos anos 70, o demônio afirma que Paulo VI era um prisioneiro no Vaticano, que a situação da apostasia se agravaria ao ponto de algumas seitas protestantes estarem numa posição melhor diante do catolicismo modernista (coisa em que sou testemunha ocular). São Pedro envia uma de suas epístolas de Babilônia (Roma). Seria esta Igreja do Vaticano II a grande rameira dos ultimos tempos montada sobre Besta Maçonica – recontrutora do paganismo antigo ou seja do Imperio Romano Pagão – A Cidade do Homem?

    O Periodo João XIII – Bento XVI seria o periodo de intermediário de transição entre a rameira e a perdição (a máscara e o verniz “cristao” da Maçonaria Eclesiastica cairão por terra sem a menor vergonha sob Francisco gerando assim a apostasia final)? O rei está nú? O que virá agora? A abolição da Eucaristia?

    • Pro Roma Mariana agosto 5, 2017 às 3:45 pm

      «Lendo um livro do Exorcista Padre Amorth, num exorcismo que se passa nos anos 70, o demônio afirma que Paulo VI era um prisioneiro no Vaticano…» o interesse deste relato é que criou-se uma lenda entre os tradicionalistas leigos e até padres, de Paulo 6 convertido e prisioneiro. Esta lenda ainda estava fortemente arraigada quando foi publicado o 3º Segredo de Fátima. Ela servia a cobrir o vazio de uma igreja sem papa, mas que repudia a evidência da Sede vacante. Sou testemunha da visita de um de seus «crentes» a Mgr Lefebvre em 1984 para convence-lo disso. O Arcebispo respondeu que não era possível e depois que o «crente», um publicista suiço partiu, ele me disse que todo ano por ocasião das ordenações o tipo voltava. Também o Morlier, editor e autor do livro sobre o 3º Segredo «um falso» publicado, acreditava nisso e demonstrou-se ferrenho inimigo do «meu sedevacantismo». Enfim, uma lenda que na falta de morrer de ridículo, morreu de velhice. Obrigado ao Thiago por indicar sua certidão de nascimento… diabólica!

      • Thiago agosto 5, 2017 às 4:54 pm

        Eu não afirmei nada. Estou em dúvida pq há tantos discursos tentando explicar este tema que eu já nem sei no que acreditar. Sedevavante? Papa Materialier? Não sei quem tem razão.

        Diabólico eu? Ai meu Deus.

      • Pro Roma Mariana agosto 5, 2017 às 5:01 pm

        Por favor, Thiago, não deixe suas dúvidas atrapalharem sua lucidez: eu só repeti a frase mencionada, ‘ o demônio afirma que Paulo VI era um prisioneiro no Vaticano…’. Qual é o problema em saber quem inventou essa «lenda»?

  2. Thiago agosto 5, 2017 às 5:10 pm

    Lenda? Eu li sobre este exorcismo num livro do Padre Amorth.
    Não tem credibilidade este exorcista? Se não tem tudo bem. Aliás li há poucos dias.

  3. Thiago agosto 5, 2017 às 6:09 pm

    O demônio criou esta lenda num exorcismo? Pode ser ele é o pai da mentira. Se não é verídica pode-se dizer que criou confusão no meio tradicionalista. Mesmo que o Padre Amorth tenha a mais boa intenção ao relata-lo.

    O demônio é astuto. No meu tempo de protestante não só vi como fiz alguns exorcismos em nome de Jesus, com jejuns e orações, como leigo auxiliar. Os pastores não costumavam perguntar absolutamente nada para tais entidades.

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