Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

FSSPX: um caminho estreito

Brites Anes de Santarém

A partir do final da década de 60, quando Paulo VI promulgou a chamada Missa Nova (1969), que hoje vemos celebrada em todas as igrejas, a Tradição Católica manteve-se devido à posição assumida por Monsenhor Lefebvre, um bispo francês que se opôs frontalmente ao novo rito (designado Novus Ordo) bem como às alterações doutrinais presentes nos documentos emanados do Concílio Vaticano II.

Assumindo uma postura frontal em defesa da Missa Tridentina, celebrada em latim, de costas para o povo, segundo um ritual milenar, canonizado pelo Papa S. Pio V em 1570 na bula Quo Primum Tempore, Monsenhor Lefebvre envolveu-se em negociações com Roma, procurando, em última análise, preservar a Missa Tradicional e a Fé Católica, que estavam naqueles anos a ser completamente redefinidas, enquanto o povo gozava de uma prosperidade nunca antes vista e se admirava com as conquistas da Técnica e da Ciência, aplaudidas acriticamente pela nova Igreja saída do Concílio Vaticano II.

Segundo as palavras do Cardeal Suenens, o Concílio Vaticano II foi a Revolução Francesa na Igreja. Pouco depois Paulo VI promulgava uma nova missa como expressão de uma nova fé, muito diferente da Fé Católica em vários aspectos fundamentais. A transição foi, como sempre, bem preparada pelos inimigos da Igreja que, por esta altura, já se tinham infiltrado nela até ocuparem ilegitimamente o Trono de Pedro, logo a partir de João XXIII. Semearam, através do habitual domínio dos meios de comunicação social, a aversão ao tradicional e aos valores perenes. De modo que, quando estas alterações chegaram, não encontraram praticamente qualquer oposição, devido à mestria das técnicas de engenharia social dos nossos inimigos, a saber, a Maçonaria e outras sociedades secretas satélites daquela. Os clérigos que demonstravam alguma oposição eram rapidamente ostracizados pelos Bispos diocesanos, havendo notícia até de mortes prematuras devido ao desgosto causado pela derrocada da Igreja Católica.

Deus costuma castigar os pecados do povo dando-lhes maus pastores. É o que vemos com os falsos Papas, desde João XIII: “pastores” que têm como objectivo a perdição eterna das almas, usando como estratégia a destruição da Liturgia, da Fé e dos Sacramentos enquanto se empenham em preservar a aparência institucional da Igreja Católica.

Portanto, a acção do Monsenhor Lefevbre foi, na época dos acontecimentos, providencial para a preservação da Missa e da Doutrina Católicas. Porém, sejamos racionais e não nos deixemos levar pela admiração excessiva. Todos nós gostaríamos que Deus tivesse enviado à Sua Igreja um novo Santo Atanásio, mas talvez não o tenhamos merecido. 

Sob a pressão dos acontecimentos, D. Marcel Lefevbre equacionou a hipótese de que o Papa pudesse não o ser, relegando para o futuro o estudo dessa questão, o que terá sido compreensível e até sensato visto que, em História, se deve respeitar uma distância temporal de pelo menos 50 anos para se poder fazer uma leitura distanciada e imparcial da situação. 

É a partir desta indefinição que começam os problemas, agravados pelo facto de D. Marcel Lefevbre ter actuado em conjunto com um discreto bispo brasileiro, D. Castro Mayer, na famosa ordenação dos quatro bispos da FSSPX, sem a autorização papal, mas justamente pressionados pela necessidade de transmitir o poder apostólico através de ritos de ordenação válidos. É que o rito de ordenação dos bispos criado pela nova Igreja Conciliar é extremamente semelhante ao rito de ordenação dos bispos anglicanos, considerado inválido por S. Leão XIII. Naquela época, era necessário assegurar a validade dos sacramentos, nomeadamente através da sagração de bispos que pudessem ordenar validamente os sacerdotes formados no recém-criado seminário de Êcone, fundado por D. Lefevbre.

D. Lefevbre, portanto, punha em causa a validade dos ritos de ordenação, motivo pelo qual era necessário, até há algum tempo atrás, a re-ordenação sob-condição dos padres que entravam na FSSPX vindos da Igreja Conciliar. Recorde-se que quando surge dúvida na administração de um sacramento que não pode ser repetido, é possível e mesmo obrigatório reiterar o sacramento “sub conditione”, isto é, sob a condição de (ou “para o caso de”) ter sido inválido da primeira vez. O próprio D. Lefevbre o fez muitas vezes. 

Contudo esta realidade alterou-se, e os padres que ingressam na FSSPX vindos do Novus Ordo já não são re-ordenados, num reconhecimento implícito da validade deste sacramento. Esta é a tendência geral na FSSPX- a diluição progressiva na Igreja Conciliar, através do reconhecimento paulatino dos seus sacramentos, das suas autoridades, das suas doutrinas, como já acontece, e inevitavelmente, da sua missa.

D. Lefevbre questionou-se várias vezes sobre o comportamento de PauloVI, concluindo, por fim, que era apenas um liberal. Ora, como se coaduna a aceitação pacífica desta premissa, afirmada por D. Lefevbre, com a afirmação de que o modernismo (termo de um campo semântico muito próximo de liberalismo) é o “esgoto” de todas as heresias? Como pôde ele fundar a FSSPX para combater o modernismo se aceitava um Papa liberal? No fim de contas, se combatem o modernismo por inerência combatem o Papa, nos seus ensinamentos e na sua autoridade, remetendo para o protestantismo, que eles próprios dizem rechaçar.

Hoje em dia parece ser um segredo bem guardado o facto de D. Castro Mayer não estar de acordo com D. Lefevbre sobre a legitimidade do Papa, não reconhecendo a legitimidade dos Papas pós-conciliares. D. Castro Mayer teria mesmo querido exprimir a sua posição publicamente mas D. Lefevbre não o terá deixado discursar. D. Lefevbre era um Bispo influente, bem visto pelas autoridades vaticanas pré- conciliares. D. Castro Mayer era um bispo discreto e ter-se-à submetido. 

Aqui começa a bi-cefalia da FSSPX. Ainda para mais, o próprio D. Lefevbre não tinha uma posição definida, motivo pelo qual permitia aos seus seminaristas que não reconhecessem a legítimidade do Papa, desde que não o fizessem publicamente. Ora, mas será correcto que os pastores se conduzam numa direcção e empurrem as ovelhas em sentido oposto? Será este um bom pastor? 

No entanto, esta atitude endureceu rapidamente, devido à sua popularidade entre os seminaristas, passando a ser expulsos aqueles  que não reconheciam a legitimidade do Papa. Talvez se possa relacionar este câmbio com o diálogo que D. Lefevbre insistiu em manter com as autoridades romanas a despeito da sua própria máxima de que “não se dialoga com modernistas”. Através da linguagem ambígua, das falácias e das mentiras, o diálogo é tudo o que um modernista precisa para levar a outra parte a fazer cedências e compromissos. 

Nesta fase, D. Lefevbre falava frequentemente em Igreja Conciliar, referindo-se à Igreja nascida do Concílio Vaticano II, por oposição à Igreja Católica. Falava da Roma modernista e da Roma católica. Recordemos as palavras do arcebispo Lefebvre, em 29 de junho de 1976:

Nós não somos dessa religião. Nós não aceitamos essa nova religião. Nós somos da religião de sempre, da religião católica. Nós não somos dessa religião universal, como a chamam hoje. Essa não é mais a religião católica. Nós não somos dessa religião liberal e modernista que tem seu próprio culto, seus padres, sua fé, seus catecismos, sua Bíblia…

Não saberia este bispo que um verdadeiro Papa Católico não o pode ser de duas Igrejas diferentes?

Actualmente, os seminaristas da FSSPX comprometem-se formalmente a reconhecer sempre a legitimidade do Papa. Não há espaço para discussão. Presentemente, feita uma avaliação objectiva, percebe-se à evidência que o grande alvo da FSSPX é o sedevacantismo e não o modernismo. Os fiéis que se tornam sedevacantistas são “excomungados ipso facto” e nem padres nem fiéis lhes dirigem mais a palavra. Ou se o fazem, é por mera necessidade social. No canal do Youtube, os comentários dissonantes são liminarmente apagados e as contas bloqueadas, mesmo que os comentários se baseiem apenas em documentos da Igreja Católica.

 Vão continuar a refugiar-se na solução entretanto concebida por D. Lefevbre para aquele momento histórico: reconhecer as autoridades, mas resistir-lhes naquilo que, segundo o critério da FSSPX, se opõe à doutrina católica. Conscientemente ou não, D. Lefevbre abria aqui “o poço do abismo” ressuscitando a velha heresia – o galicanismo– oriunda precisamente de França e que o terá contaminado durante a sua formação (algo modernista, diga-se). Propunha-se, a partir de então, a resolução da crise da Igreja com base numa diminuição do valor do Papado, permitindo a desobediência naquilo que o “Magistério infalível da FSSPX”  interpretar como errado à luz da Doutrina Católica. É que não basta ter a Doutrina Católica como eles dizem; é preciso um Papa para a interpretar e aplicar nos novos contextos e à luz de novas problemáticas. 

Este é o grande erro da FSSPX: assenta numa posição herética. Recordemo-nos que as heresias costumam reincidir em várias épocas históricas porque, tratando-se de ideias concebidas por uma inteligência diabólica conseguem “aprisionar” as mentes humanas, muito inferiores por natureza. De cada vez que a heresia se levanta na História, milhares ou milhões de almas perecem eternamente, arrastadas por maus pastores. Para libertar uma mente humana de uma heresia é preciso a graça de Deus. Quem já tentou argumentar com fiéis da FSSPX percebe bem o que aqui afirmo. As mentes encontram-se fechadas, dominadas por um princípio herético que não admite discussão: esse princípio é a diminuição do valor do Papado e torna-se evidente pelo facto de eles nunca argumentarem com documentos do Magistério da Igreja.  

Passo a transcrever a condenação do galicanismo por Pio IX (Inter Multiplices Pleading for Unity of Spirit Pope Pius IX – 1853), dirigindo-se aos bispos franceses (destacado a negrito pela autora):

 Os inimigos mais mortais da religião católica sempre travaram uma guerra feroz, mas sem sucesso, contra esta Cátedra; eles não ignoram de forma alguma o facto de que a própria religião nunca pode vacilar e cair enquanto esta Cátedra permanecer intacta, a Cátedra que repousa sobre a rocha que os orgulhosos portões do inferno não podem derrubar e na qual está a inteira e perfeita solidez da religião cristã. Por isso, por causa da vossa especial fé na Igreja e especial piedade para com a mesma Cátedra de Pedro, exortamo-vos a dirigir os vossos esforços constantes para que o povo fiel da França evite as artimanhas e os erros destes conspiradores e desenvolva uma atitude de mais filial afecto e obediência a esta Sé Apostólica. Sede vigilantes em atos e palavras, para que os fiéis cresçam no amor por esta Santa Sé, a venerem e a aceitem com total obediência; eles devem executar o que a própria Sé ensina, determina e decreta. Aqui, no entanto, dificilmente nos podemos conter de vos contar a dor que experimentamos quando, entre outras coisas, um livro publicado recentemente nos chegou; foi escrito em francês com o título “Sur la Situation Présente de l’Eglise Gallicane relativement au droit coutumier”. O seu autor opõe-se  totalmente a tudo o que recomendamos com tanto fervor, e por isso enviamos o livro à Nossa Congregação do Índex para ser reprovado e condenado.

A enorme gravidade da situação só pode ser avaliada se tivermos em conta um ensinamento básico da doutrina católica: o pecado de heresia separa da Igreja Católica. Nem todos os pecados, embora graves, são de sua natureza tais que separem o homem do corpo da Igreja como fazem os cismas, a heresia e a apostasia ( Mystici Corporis Christi, 29 de Junho de 1943, Pio XII ). E “Extra ecclesia nula salus”, ou seja, “Fora da Igreja não há salvação” – é dogma de Fé. 

Portanto, e os fiéis que vão piedosamente à missa, confessam-se, contribuem financeiramente, fazem retiros na FSSPX? Há que rezar por eles, para que não se tornem hereges obstinados e para que não vão, por um caminho estreito, para onde os outros vão por um caminho largo.

6 responses to “FSSPX: um caminho estreito

  1. pamellaleite Agosto 19, 2022 às 1:09 pm

    Salve Maria santíssima, gostaria de saber sobre as missas em Portugal, locais e frequência.

  2. Michele Grobstath Agosto 20, 2022 às 1:13 am

    Partilhei este artigo no blog “Pale Ideas”. A administradora ficou possessa e obviamente não soube argumentar uma resposta decente, pois é galicana. E ainda teve o despeito de chamar o PRM. de “sítio modernista”. Parabéns pelo trabalho! Salve Maria.

  3. Luis Agosto 20, 2022 às 1:35 am

    Olá, boa noite. Salve Maria

    Mais outro excelente artigo, principalmente pela menção de Dom Antônio de Castro Mayer. Recentemente um amigo comentou sobre esse fato ocorrido; de que ele (Mayer) com muita prudência, não reconhecia como legítimos os “papas” conciliares, e que Dom Lefebvre o impediu de se pronunciar sobre o que (há muito tempo) já afligia a nossa Santa Igreja de Cristo.

    Importantíssimo saber estes bastidores, para termos, além do Magistério Infalível, ainda mais argumentos para refutar os modernistas, protestantes e gente de toda essa estirpe.

    Que em tudo Deus seja louvado.

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