Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

Debate com o Dr. Arnaldo Xavier da Silveira (III)

Livro Xavier Francês

Na sequência dos escritos do Dr. Arnalso Vidigal Xavier da Silveira, o sito «Fratres in Unum» abriu um debate, pelo qual agradecemos, mormente sobre o «Magistério orgânico» e o «Monolítico».

Note-se que é destes dias a frase do bispo Bergoglio em resposta a um jornalista ateu: «San Vincenzo di Lerins fa il paragone tra lo sviluppo biologico dell’uomo e la trasmissione da un’epoca all’altra del depositum fidei, che cresce e si consolida con il passar del tempo, ecco, la comprensione dell’uomo muta col tempo, e così anche la coscienza dell’uomo si approfondisce. Pensiamo a quando la schiavitù era ammessa o la pena di morte era ammessa senza alcun problema, dunque si cresce nella comprensione della verità, gli esegeti e i teologi aiutano la Chiesa a maturare il proprio giudizio. Anche le altre scienze e la loro evoluzione aiutano la Chiesa in questa crescita nella comprensione, ci sono norme e precetti ecclesiali secondari che una volta erano efficaci, ma che adesso hanno perso di valore o significato, la visione della dottrina della Chiesa come un monolite da difendere senza sfumature è errata».

Como este debate é de certo mondo a continuação do que iniciamos neste sito em fevereiro de 2012, aqui transcrevemos o que foi dito pelos primeiros intervenientes, ou seja, além do Dr. Arnaldo, Felipe Coelho e Arai Daniele.

Nosso fervente desejo é atingir uma convergência sobre o valor do Magistério Ordinário, como o expõe Santa Madre Igreja.

Debate com o Dr. Arnaldo Xavier da Silveira

Felipe Coelho
13 outubro, 2013 às 10:23 pm

Prezados amigos em Cristo, Salve Maria!

É fora de dúvida que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, não prevalecerão contra o Papado, e que nada do que vivemos ou viveremos se opõe realmente às promessas de Cristo. Isso é ponto pacífico, e quem vier a ter a menor tentação de uma dúvida, que tire férias destes assuntos e ponha-se a fazer Atos de Fé!

Prosseguindo, não parece possível levar a sério as acrobacias hermenêuticas dos que, até hoje…, tentam ainda salvar a ortodoxia e santidade do Vaticano II e de suas reformas. Mais parecem fabricantes de narcóticos (que, como se sabe, são muitas vezes os primeiros a se viciarem com o produto que comerciam), do que gente realmente comprometida com a defesa da verdade.

Contudo, ao ver a necessária resistência ao Vaticano II e suas pompas ser justificada no último meio século com base em estudos como estes do A., é triste constatar que – como nota um bom observador – “estas novidades não são mais católicas do que aquelas recusadas e combatidas” (Pe. H. Belmont, “Alguns pontos de referência”, 2006).

Assim, escreve o A. a seguinte enormidade, no par. 5 de seu estudo de setembro: “é importante observar que, segundo a doutrina verdadeira do Magistério ordinário, uma condição essencial para a infalibilidade de seus ensinamentos é que estes sejam aceitos pacificamente pela Igreja universal, dentro de um tempo suficiente para serem tidos como pertencentes à Fé, e portanto como devendo ser professados pelos fiéis.

Lamento dizer que isso é tão heterodoxo quanto os erros do Vaticano II aos quais o A. pretende se opor:

Pois, além da infalibilidade dos juízos solenes (ex cathedra) definida pelo Vaticano I, que o A. cita longamente embora menos relacionada ao cerne do problema, há também a seguinte outra definição do mesmo Concílio de 1870, tratando da infalibilidade dos ensinamentos que NÃO preenchem as condições para uma declaração ex cathedra:

Deve-se crer com fé divina e católica tudo o que está contido na Palavra de Deus escrita ou transmitida, e que a Igreja, seja por um juízo solene, seja por seu magistério ordinário e universal, propõe a ser crido como divinamente revelado.
[“Porro fide divina et catholica ea omnia credenda sunt, quæ in verbo Dei scripto vel tradito continentur et ab Ecclesia sive solemni judicio sive ordinario et universali magisterio tamquam divinitus revelata credenda proponuntur.”]
(Constituição Dogmática Dei Filius, cap. III; DENZINGER 1792)

Nem sinal aí da “condição essencial” inventada pelo A. e repetida há décadas por tantos líderes da resistência (todavia necessária) ao Vaticano II…!

O A. prossegue, no cap. 6, trazendo como respaldo à sua tese uma citação da Tuas Libenter do Papa Pio IX, que porém diz o contrário do que ele pretende fazê-la dizer. Aliás, ela está mal traduzida no artigo dele (são meus os destaques em maiúsculas):

Onde nele se lê: “deve ser estendida também ao que é transmitido pelo Magistério Ordinário de toda a Igreja, dispersa pelo orbe, como divinamente revelado, E é tido como pertencente à fé pelo consenso universal e constante dos teólogos católicos”;

o correto, porém, é: “deve ser estendida também ao que é transmitido pelo Magistério Ordinário de toda a Igreja, dispersa pelo orbe, como divinamente revelado, E POR ISSO é tido como pertencente à fé pelo consenso universal e constante dos teólogos católicos”.

No original em latim, o Papa Pio IX emprega neste ponto o termo “IDEOQUE”, que significa “POR ISSO”, “PORTANTO”. Ou seja, aquilo que o A. chama de “CONDIÇÃO essencial” para a infalibilidade dos ensinamentos do Magistério Ordinário Universal é, pelo contrário, mera CONSEQUÊNCIA do exercício dessa infalibilidade.

Trago duas provas ulteriores (“ulteriores”, porque os textos das definições corretamente traduzidos são já bastante claros!):

1. Diferentemente do A., incapaz de citar algum teólogo escolástico pré-conciliar para respaldar sua inovação, eis o que explicou logo após citar este passo da Tuas Libenter o maior teólogo do séc. XX, proposto pelo Papa Pio XII como modelo para os teólogos, o Cardeal Billot (mas esta explicação dele a seguir é consensual entre os teólogos!):

Tudo o que é PREGADO na Igreja inteira como divinamente revelado pertence, por esse fato mesmo e independentemente de toda e qualquer definição conciliar ou pontifícia, à fé católica – à qual se opõe a heresia. Um sinal inequívoco dessa pregação é o consenso constante e unânime dos teólogos católicos. Digo que é UM SINAL E NADA MAIS, pois os teólogos, enquanto tais, não pertencem à Igreja docente. Mas é um sinal certo e inequívoco
(BILLOT, De Ecclesia, tese 18,
cf. http://archive.org/stream/tractatusdeeccle01bill#page/422/mode/2up ).

2. Segunda prova de que isso é assim encontra-se nas próprias atas do Vaticano I, onde o Relator da Deputação da Fé redatora dos documentos que seriam votados, encarregado de explicar a definição acima citada (“Porro fide divina etc.”), afirma que se trata da mesma doutrina ensinada pela Tuas Libenter e, ao citar a esta última, nem se incomoda incluir a passagem que menciona o acordo da Igreja discente (que o A. porém pretenderia ser “condição essencial” para o exercício infalível do Magistério da Igreja):

A Deputação da Fé, nota Dom Conrado MARTIN, “quis dirigir esse parágrafo contra aqueles teólogos que dizem que devem ser cridas com fé divina somente as coisas definidas claramente pelos concílios ecumênicos. A Deputação da Fé extraiu seu pensamento da Carta Apostólica do Soberano Pontífice Pio IX ao Arcebispo de Munique de 1863 [Tuas Libenter], na qual isto está escrito (ao fim da carta): ‘Pois, mesmo que se tratasse daquela submissão que deve ser prestada com ato de fé divina, não se poderia limitá-la porém às verdades definidas por decretos expressos dos concílios ecumênicos ou dos Romanos Pontífices desta Sé Apostólica, mas seria necessário estendê-la também àquilo que é transmitido como divinamente revelado pelo magistério ordinário de toda a Igreja espalhada pela terra.’ Foram essas palavras que a Deputação teve diante dos olhos quando ela definiu qual é o objeto material da fé.” (MANSI LI, 224 C12 – 225 A5).

Logo, a tese do A., e não só dele como subjacente — nos últimos cinquenta anos! — a toda a resistência tradicionalista não sedevacantista ao Vaticano II, é (objetivamente) uma heresia, por negar a infalibilidade do Magistério Ordinário Universal tal como foi definida pelo Concílio Vaticano, de 1870.

Donde a conclusão, para a qual volto a citar o Pe. Belmont num dos estudos que dele traduzi: “[T]eólogos rebeldes servem agora de exemplo àqueles que – com uma sinceridade que não dá margem a dúvida – fazem profissão de defender a fé católica. O modernismo marcou profundamente as inteligências e os corações, para que se tenha chegado a este ponto.
É urgente abandonar esses erros que estragam e esterilizam, há quarenta ou cinquenta anos, a reação contra as doutrinas heterodoxas e deletérias do Vaticano II. Pois há aí um escândalo (no sentido próprio do termo) que corrompe a fé, que a solapa e corrói, com tanto mais profundidade quanto é mascarado por verdadeiro zelo.

(Aut. cit., “Um velho erro tornado ‘verdade’…”)

É absolutamente necessário sair de tal paradoxo: ele é mortífero para a fé. Digo exatamente isto: para a virtude teologal da fé, tal paradoxo é mortífero.” (Idem, “E agora…?”)

Saudações cordiais,
Em JMJ,
Felipe Coelho

Pro Roma Mariana
14 outubro, 2013 às 3:48 pm

Amigos, salve Maria!
Congratulo-me com que abriu este muito oportuno debate. De fato todo católico deve responder em consciência às questões que se apresentam.
A primeira, posta pelo Dr. Arnaldo é do Vaticano 2º ser heretizante.
A segunda da responsabilidade no envolvimento da «Autoridade» eclesiástica nisto e com qual gravidade.
O Dr. Arnaldo quis amenizar essa responsabilidade em relação ao Magistério Ordinário, que não implicaria infalibilidade e poderia ser recusado.
Ora, o valor desse Magistério Ordinário é estabelecido pela Igreja, como o Felipe Coelho lembrou acima.
Além disso ficou claro que essas «autoridades conciliares» negam que os católicos possam recusar o Vatiicano 2º (heretizante).
Temos então uma resposta para a segunda questão: da plena responsabilidade de uma autoridade eclesiástica que impõe uma doutrina heretizante através do que seria para todos efeitos magistério ordinário. Este deveria ser infalível, não apresentando nenhum veneno para a fé dos católicos.
Se não é assim, como sabemos e continuamos a ver, a questão é da gravidade do uso dessa «autoridade» perante a verdadeira Autoridade divina da Igreja na representação de Jesus Cristo. E aqui se deve chegar a uma conclusão aplicando a Lei da Igreja, estudo que o Dr. Arnaldo iniciou em 1969 junto com Dom Mayer sobre a possibilidade do Papa herege. Vou citá-lo para concluir:
“No Capitulo VII de seu estudo sobre a “Possibilidade de um Papa herege” o Dr. Arnaldo se ocupa da defesa da quinta sentença enumerada por São Roberto Bellarmino para concluir de modo provisório:
“Resumindo: cremos que um exame cuidadoso da questão do Papa herege, com os elementos teológicos de que hoje dispomos, permite concluir que um eventual Papa herege perderia o cargo no momento em que sua heresia se tornasse “notória e divulgada de público”. E pensamos que essa sentença não é apenas intrinsecamente provável, mas certa, uma vez que as razões alegáveis em sua defesa nos parecem absolutamente cogentes. Ademais, nas obras que consultamos, não encontramos argumento algum que nos persuadisse do oposto.”

Boa discussão em JMJ
Arai Daniele

Simone, Esta é a minha opinião, falível portanto. Confesso que não sinto uma segurança inabalável no que digo, porque sou um simples leigo sem formação teológica. Podem haver detalhes que me escapam, mas um olhar sério e sensato para o pontificado de Bento XVI me leva a concluir que a hermenêutica da continuidade é a única opção racional a fazer. Encarar o CVII numa lógica de ruptura é dar-lhe uma importância dogmática que ele não teve, nem era essa a intenção dos padres conciliares.
Esta nova orientação pastoral já leva 50 anos, é uma árvore crescida e já deu os seus frutos. Podemos constatar que é um verdadeiro exílio da Babilónia, ou um caminhar para longe da casa do Pai por parte do Filho Pródigo, em que Israel e a casa do Pai representam a segurança doutrinal e o fechamento sobre si mesma que marcaram a Igreja até ao CVII.
Como o povo de Israel e como o Filho Pródigo, devemos confiar nos nossos líderes mesmo que não compreendamos por onde estamos a caminhar. Devemos confiar no Pai, na rocha firme que é a doutrina da Igreja, na promessa de Cristo que as portas do inferno não prevalecerão. Devemos reconhecer a nossa ignorância e humilhar-nos perante a sabedoria de homens como Bento XVI.

Caro Fábio, Salve Maria!

No discurso programático (22-XII-2005) de seu renunciado pontificado, já em 2005, Bento XVI não falava em “hermenêutica da continuidade” (isso é pura propaganda, ou – inspirando-me num célebre dito de Chesterton – é o que eu chamaria de um argumento ad hominem enlouquecido…); o que Bento XVI defendeu e explicou foi, nas palavras dele próprio, “a ‘hermenêutica da reforma’, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja”…

O que ele opõe à “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” não é, portanto, uma quimérica “hermenêtica da continuidade” entre o Vaticano II e o Magistério dos Papas até João XXIII, coisa que não é defendida por ninguém que não seja não apenas completamente ignorante das controvérsias filosóficas e teológicas bem como da história dos últimos séculos (não é o caso de Bento XVI), como totalmente alienado do que sejam o catecismo e a prática mais elementares da Santa Religião Católica Apostólica Romana.

O que ele opõe à “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” pura e simples é, tão somente, esse “conjunto de continuidade e descontinuidade a diversos níveis no qual consiste a natureza da verdadeira reforma”.

E, para ajudar os não iniciados nos mistérios da dialética hegeliana e suas diversas crias, Bento XVI especifica que o Vaticano II procedeu à seguinte tripla redefinição da doutrina da Igreja, anteriormente definida de modo diverso pelos Papas (Bento cita Pio IX nominalmente, referindo-se sobretudo à Quanta Cura e o Sílabo, mas ele visa também Gregório XVI, Mirari Vos; Leão XIII, Immortale Dei; São Pio X, Pascendi/Lamentabili; Pio XI, Quas Primas/Mortalium Animos; Pio XII, Ci Riesce/Humani Generis/Mystici Corporis etc. – estude qualquer um desses documentos e veja se ensinam ou não a mesma doutrina da hierarquia dos últimos cinquenta anos… ou então, ouça a confissão do próprio Bento XVI do que fez o Vaticano II):

• “definir de modo novo a relação entre fé e ciências modernas”, e “não apenas as ciências naturais mas também a ciência histórica”;
• “definir de modo novo a relação entre a Igreja e o Estado moderno”;
• “uma nova definição sobre a relação entre a fé cristã e as religiões do mundo. Em particular… definir de modo novo a relação entre a Igreja e a fé (sic) de Israel.

Bento XVI chega até mesmo a admitir (note bem que ele está falando aqui da letra e do ensinamento genuíno do Vaticano II): “É claro que em todos estes sectores, que no seu conjunto formam um único problema, podia emergir alguma forma de descontinuidade e que, de certo modo, se manifestou de facto uma descontinuidade”.

Descontinuidade esta, aliás, que já se encontra na própria admissão de que foram feitas “novas definições” de daquelas três coisas que a Igreja por boca dos Papas já tinha avaliado e decidido diversamente, ao mesmo tempo que condenado as teses que no Vaticano II triunfariam.

E tem mais, ele nem mesmo recua ante o verbo “corrigir” para expor o que o Vaticano II e Paulo VI e sucessores tentaram fazer com relação à doutrina católica:

O Concílio Vaticano II, com a nova definição da relação entre a fé da Igreja e determinados elementos essenciais do pensamento moderno, reviu ou melhor corrigiu algumas decisões históricas, mas nesta aparente descontinuidade, manteve e aprofundou a sua íntima natureza e a sua verdadeira identidade.

Meu caro Fábio, deixo-lhe por fim uma consideração do então Pe. Ratzinger sobre quanto valem as profissões de continuidade (mas nunca sem acrescentar que teria havido também “aprofundamento”), inseridas em certos pontos dos textos mais frontalmente e indesculpavelmente heterodoxos do Vaticano II:

“É sobretudo muito problemático o destaque dado ao texto final do art. 1º [da Dignitatis Humanae], com a nítida intenção de sublinhar a continuidade dos pronunciamentos do Magistério Eclesiástico nessa matéria, quando diz: ‘Deixa íntegra a doutrina tradicional católica acerca do dever moral dos homens e das sociedades para com a verdadeira religião da única Igreja de Cristo.’ Parece muito discutível a frase relativa à obrigação da sociedade para com a Igreja, já que a Declaração conciliar, na realidade, apresenta algo novo e diverso do que se encontra, por exemplo, nos pronunciamentos de Pio IX, ou ainda, somente nos de Pio XII. Portanto, o mesmo texto conciliar corrige clarissimamente essa fórmula introdutória, que tem todas as aparências de querer tranqüilizar os opositores. Não obstante, teria sido melhor deixá-la de lado ou, pelo menos, tendo em conta o que segue, tê-la formulado de modo mais matizado. Porém, de qualquer maneira, a fórmula em questão não muda o enunciado do texto.
(Joseph RATZINGER, Problemi e risultati del Concilio Vaticano II, Bréscia: Queriniana, 1967, apud Mons. Dr. Emílio Silva de Castro, Liberdade Religiosa e Estado Católico, Rio de Janeiro: Dinigraf, 1995, pp. 132-133).

E note como esse parecer do mais tarde Bento XVI corrobora o que relata Dom Lefebvre: De fato, esse parecer do então Padre Ratzinger corrobora o que contou Dom Lefebvre sobre o modo como Paulo VI obteve a aprovação da Dignitatis Humanae:

“Será que nós poderíamos ter feito alguma coisa, nós que representávamos a facção tradicional dos bispos e cardeais? Pouca coisa, em definitivo. Éramos duzentos e cinqüenta favoráveis à permanência da Tradição e desfavoráveis a mudanças de vulto na Igreja: falsa renovação, falso ecumenismo, falsa colegialidade. Nós éramos opostos a essas coisas. Esses duzentos e cinqüenta bispos, evidentemente, tiveram algum peso e, em certas ocasiões, os textos foram modificados. O mal foi um pouco limitado. Mas nós não conseguimos impedir certas teses de passar, particularmente a da liberdade religiosa, cujo texto foi refeito cinco vezes. Cinco vezes a mesma tese voltava. Nós nos opusemos sempre. Havia sempre duzentos e cinqüenta vozes contra. Então o Papa Paulo VI fez adicionar duas pequenas frases no texto, dizendo: «não há nada nesse texto que seja contrário à doutrina tradicional da Igreja» e «a Igreja permanece sempre a verdadeira e única Igreja de Cristo». Então, os bispos espanhóis, em particular, disseram: «bem, já que o Papa adicionou isso, agora não há mais problema, já que não há nada contra a tradição». Se as coisas são contraditórias, essa pequena frase contradiz tudo o que está no interior do texto. É um esquema contraditório. Não se pode aceitar isso. Então sobraram somente, se eu me lembro bem, setenta e quatro bispos que permaneceram contra. É o único esquema que encontrou uma tal oposição: 74 sobre 2.500, é pouca coisa!”
(Mgr. Marcel LEFEBVRE, A Infiltração do Modernismo na Igreja).

Concluindo, concordo com você que, “Temos aqui uma situação completamente nova na história da Igreja: pela 1º vez houve um concílio” com os problemas do Vaticano II. Ocorre, porém, que “Cristo… preside e guia os Concílios da Igreja”, ensina Pio XII (Mystici Corporis; cf. S. PIO X, Ex quo, nono labente, 26-12-1910). Logo…

Atenciosamente,
Em JMJ,
Felipe Coelho

Meu caro Felipe Coelho. Salve Maria.
1] Tanta coisa nos une, desde os dogmas da Igreja e os ensinamentos tradicionais dos Papas, até a devoção a Nossa Senhora e toda a piedade de sempre, que me é penoso manter o presente debate público. É de coração que me permito lamentar um quê de acrimônia que me parece entrever em seus comentários neste site, bem como seu apego sistemático à doutrina sobre o Magistério ordinário da escola romana de teologia, em parte ultrapassada pelos magníficos estudos antimodernistas do século XX e deste. De D. Mayer sempre ouvi: cuidado com o Cardeal Billot!
2] É hoje certo que pode haver erro doutrinário em ensinamentos oficiais do Papa e do concílio, como expus em diversos trabalhos. Atualmente, a infalibilidade monolítica quase só é defendida por neomodernistas disfarçados e por sedevacantistas de sua corrente e de outras. Na defesa de uma tese nesse terreno, nem sempre basta invocar algum grande teólogo. Por exemplo, reportando-me a meu opúsculo sobre a infalibilidade das leis eclesiásticas, lastimo que não tenhamos podido debater amplamente as implicações teológicas de erros encontradiços em rituais da Liturgia romana, como os casos clássicos de rezar para que condenados saiam do inferno, e da velha questão da matéria do sacramento da Ordem, que muitos pensavam ser a entrega dos instrumentos sagrados ao ordenando, ao passo que Pio XII afinal definiu como sendo a imposição das mãos pelo Bispo.
3] Na verdade, nossa divergência não está só nas franjas da doutrina, mas no conceito básico de que o Magistério ordinário é orgânico. Posso convidá-lo, como já fiz no passado, a analisar com cuidado e criticar meu artigo a esse respeito?
4] Prova singela da possibilidade de erro em documento papal e conciliar é que, de duas uma: ou o Papa Honório errou, ainda que não por heresia formal, ou erraram os Papas e concílios que o condenaram.
5] O consenso dos fiéis é sinal de que a Hierarquia impõe determinada doutrina como devendo ser crida. Tal sinal, contudo, existirá sempre, porque ela não estaria efetivamente impondo caso tolerasse a negação dessa verdade. Assim, o consenso dos fiéis é condição da infalibilidade. Não é condição constitutiva, é claro, como se esse consenso conferisse infalibilidade àquele ensinamento; mas é condição manifestativa, por ser sinal inconfundível de que na vida diária e orgânica da Igreja, não necessariamente por escrito, a Sagrada Hierarquia ensina tal doutrina como devendo ser crida.
6] Os trabalhos em que exponho essas teses e as defendo com ampla base na Tradição estão em meu site Bonum Certamen, e quase todos neste benemérito Fratres in Unum, o qual, abrindo este debate, está contribuindo de modo eminente para o esclarecimento da matéria.
Cordialmente, in Jesu et Maria, Arnaldo Xavier da Silveira

Caro Arnaldo, salve Maria!
Penso que entre tanta coisa que nos une, deveriam estar também os ensinamentos tradicionais da Igreja pelos Papas sobre o Magistério ordinário, magistério que nunca poderia propiciar veneno na fé aos católicos. Se o amigo sempre ouviu de D. Mayer: cuidado com o Cardeal Billot! Eu me lembro de ter ouvido a repetição das palavras deste Cardeal sobre o Direito Canônico, por uma vírgula do qual ele estava disposto a morrer.
Ora, no testemunho anti-modernista destes dois grandes Bispos, Mgr Lefebvre e D. Mayer contra a «Igreja conciliar» teve lugar saliente a acusação aos erros e heresias introduzidos com o «Novo Código» de Direito Canónico de 1983 para substituir o de 1917, em que se empenhou diretamente São Pio X. O «Novo» seria, pois, documento aprovado pela «autoridade conciliar», passível de conter erros? É o que quer afirmar?
Além disso, na sua resposta ao Felipe Coelho alude ao «Caso do Papa Honório I» dizendo: « 4] Prova singela da possibilidade de erro em documento papal e conciliar é que, de duas uma: ou o Papa Honório errou, ainda que não por heresia formal, ou erraram os Papas e concílios que o condenaram.»
Ora, sobre isto já escrevi (e me parece que pedi seu juízo) porque penso que não haja dúvida que o Direito da Igreja foi sempre o mesmo, pode ter recebido uma formulação melhor ou mais sintética, como por exemplo o que expõe a Bula «Cum ex apostolatus officio» do Papa Paulo IV em 1559 e o que dela está no código de 1917, em especial no can.188, 4, sobre as sentenças «ipso facto».
A este ponto vou referir aqui o que disse D. Mayer na sua entrevista ao «Jornal da Tarde» («A Igreja de João Paulo II não é a Igreja de Cristo», 6.11.1984): “Quanto à possibilidade de que um papa governe a Igreja rejeitando o que ela definiu, a história registra o caso do papa Honório I, condenado postumamente pelo III Concílio Ecumênico de Constantinopla e pelo papa São Leão II, por ter “… permitido com uma traição sacrílega que fosse manchada a fé imaculada.” (Dz 563). E acrescentava para nós que a Igreja nunca declarou que Honório deixara de ser Papa.
O fato é que a condenação o excomungava e embora fosse póstuma, segundo o Direito seria aplicada a partir do delito de favorecimento de heresia. Logo, o ponto em relação ao que disse (4) deveria ser visto de outro modo: salvo o que parecia aos eclesiásticos da época e mesmo aos primeiros sucessores, ele não podia ter conservado o cargo segundo o Direito da Igreja. Pois que a resposta deve ser válida para todos os tempos, por isto eminentes Cardeais preferiram dizer que o Papa Honório nunca caiu em heresia, o que é insustentável historicamente.

Cordialmente, nos Sagrados Corações de Jesus e Maria,
Arai Daniele

Caro Araí Daniele ─ Salve Maria! ─ Recordando nossos tempos da Congregação Mariana do Pe. Mariaux, tomei conhecimento de seu comentário do dia 17, que realça tudo quanto hoje nos separa. Como creio ter ficado patente, minha resposta ao nosso prezado amigo comum, Felipe Coelho, dizia respeito também às suas observações anteriores do dia 14. Estou no aguardo de mais algum comentário que surja, para manifestar-me de uma só vez em relação a suas observações e às de outros, porque não é conveniente que os textos e os assuntos comecem a se acavalar uns nos outros. Cordialmente, in Jesu et Maria, Arnaldo Xavier da Silveira

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FATIMA E OS «ERROS DA RÚSSIA», FERMENTO DE CRIMINOSOS SOFISMAS

«PRM: Hoje, além do aniversário da aparição, é também o aniversário do Sr. Arai e do seu neto Ari. Aí vem mais um rascunho dele não publicado»

 

Arai Daniele

Como se sabe, a Rússia mencionada na Profecia de Fátima de 1917, estava para cair sob o poder soviético que, em nome das doutrinas «filosóficas» de Marx e Engels, iria devastar o mundo com o seu criminoso ativismo  marxista-leninista.

Por sua vez essas «doutrinas» eram produtos de outras filosofices desvairadas surgidas na onda de um iluminismo racionalista sofístico, que almejava revoluções contínuas para o evoluído homem moderno.

Tudo elucubrado e financiado no sentido de descartar a Filosofia e a Fé na qual se apoiava o pensamento católico acusado de não resolver os problemas humanos nas sociedades cristianizadas, e até de agravá-los com novos conflitos. Razão porque, um novo «pensamento» devia prevalecer para estabelecer «direitos» que neutralizassem os motivos de guerras. Era o pensar revolucionário iluminista que iria prevalecer até na Sede do Catolicismo.

Pelas guerras ligadas a esse espírito revolucionário, que continuam a devastar o mundo desde então e no momento presente se multiplicam na mais atroz irracionalidade destrutiva, pode-se entender como as idéias filiadas a este espírito eram perversas. E aqui vamos repetir a frase simples mas essencial de Chesterton sobre o filósofo moderno, na explicação mais detalhada de Jean Madiran:

“A filosofia de Descartes, que era homem de ordem e de razão, prepara a Revolução. A anarquia aparente de um São Francisco de Assis, a contraria radicalmente. O filosofo moderno, enquanto tal, é um malfeitor público. “O maior de todos os criminosos – dizia Chesterton – é o filosofo moderno, livre de toda lei”. Livre da lei natural, ou do Decálogo, o filosofo moderno subverte toda possibilidade de educação e destrói, em pensamento e através do pensamento, as condições da vida. Tudo isto estava relegado à teoria, à retórica, virtual, implícita, inconsciente e apenas perceptível ao gênio de um Chesterton ou de um Péguy, de um Blanc de Saint-Bonnet ou de um Claudel. O peso real, o verdadeiro alcance de um pensamento, não o compreende muitas vezes os professores que o fracionam em fórmulas feitas, em series de palavras entrelaçadas umas nas outras, em capítulos de manual: esta espécie de moeda não deixa de ser uma moeda falsa, que afasta a verdadeira, que desintegra o pensamento, que degrada as almas.

“Chega um dia – o nosso – em que a filosofia moderna, naturalmente, atinge o seu último estágio de amadurecimento, de apodrecimento, e em que ao fim, consciente do que trazia em si, a ouvimos anunciar claramente o que era, sem saber muito bem, desde sempre. Eis aqui o que um filósofo moderno escreveu em 1966, em um numero de revista dedicado a um tal Jean Paul Sartre: “Fazer-se ouvir não é atrair a simpatia. É semear o terror. A filosofia de amanhã será terrorista. De forma alguma filosofia do terrorismo, senão filosofia terrorista, ligada a uma prática política do terrorismo”.

#Essa é toda a filosofia moderna que estava ligada substancialmente à pratica do terrorismo por ela iluminado.” Semelhante declaração não espantaria em nada um Charles de Koninck e tampouco espantará um Gilson. O desiderato principal e último da filosofia moderna não está em um erro da inteligência, senão em uma revolta da vontade, é um «non serviam» universalmente destruidor. De Descartes – que certamente teria se horrorizado -, de Descartes a Kant, de Kant a Hegel, de Hegel ao coquetel molotov, a consequência é valida. Eu não vim vos dizer: “Eu” já havia dito… Sei que não inventei nada. Venho vos dizer: tudo está em Péguy. Principalmente. E em Chesterton. E em Charles de Koninck… e em uns vinte mais.  Cem vezes anunciado, desmontado, demonstrado. Com quarenta, cinquenta, sessenta anos de antecipação. A comédia que representa a Revolução tem suas paginas escritas ponto por ponto, há muito tempo, com todas as notas explicativas de rodapé. Já é hora de finalmente compreendê-la. Já é hora.”

Jean MADIRAN (1920-2013). Después de la Revolución de mayo. Revista Verbo n. 67-68. Originalmente em Itineraires n.124, 1968.

Bem escrito, mas ainda falta o remate do «aggiornamento» religioso. Pois, se esse pensar revolucionário descrito é sumamente perverso, como todo mal neste mundo ele encontrava um obstáculo justamente onde estava o «Império da Lei», o «Reduto da Lei Natural», onde estava a «Cidadela da Verdade». Se esse pensar revolucionário descrito concentrava toda a potencialidade e terrorismo do mal, sempre houve, porém, no mundo uma consciência do bem, uma revelação que separava nas sociedades o bem do mal.

Esta consciência à imagem e semelhança original de Deus, é a Consciência do Verbo que encarnou, para que os homens que n’Ele crescem tivessem uma defesa contra o mal neste mundo e a salvação no outro. Desde que Deus veio ao mundo em Jesus Cristo e instituiu o reduto invencível da Igreja, não mais o espírito do mal podia operar solto pois estava contido no seu abismo de perversidade pelo Cristianismo. Era o meio de que os homens passaram a dispor para enfrentar o mal que está presente no mundo desde a rebelião original.

A Ordem cristã é a que, com a Verdade, pode dar a paz ao mundo que a preserve para a ela recorrer contra os inevitáveis desvarios terrenos. Mas ela não destruía a liberdade da consciência com que o homem foi criado. Por isto, ao mesmo tempo que o Cristianismo se impunha pelo Bem que trazia, outras idéias e ideologias adversas agiam na sombra para abatê-lo.

É claro que almejar uma nova ordem mundial porque a Ordem cristã não trouxe a paz, à luz de tudo que foi ensinado, é um sofisma perverso. No mais das vezes as guerras passadas foram desencadeadas mais por falta da sabedoria de recorrer à justiça cristã que o contrário. E na onda do sofisma descrito as guerras passaram a ser contra o mesmo Catolicismo em seguida à falsa reforma protestante e depois contra o mesmo Cristianismo até hoje, quando a sinagoga entrou no Vaticano.

Toda a desordem humana ocorre em torno à questão da liberdade. Come se vê esse desvario moderno de conflitos começou com o «livre exame» e agora vai à solta com o direito à mesma liberdade de consciência diante do erro e da liberdade religiosa diante da falsidade. Tudo faz ver que em verdade foi aberto o poço do abismo. Quem poderia fazê-lo senão quem tinha e usou a sua chave diante dos povos que o seguiam obedientes? Quem senão um antipapa?

Hoje há uma concentração de poder oculto baseado em programas impingidos por cúpulas secretas. No momento esta estendeu os tentáculos de uma «ideologia gay»; da liberdade humana em relação à sua própria natureza pessoal, familiar e social. Deve-se poder escolher o próprio sexo pela «teoria gender» que é atualmente imposta desde a educação infantil. Qual poder poderia barrar essa escalada monstruosa senão o religioso? Mas a sua Sede foi ocupada.

Se a «revolução cultural» de cunho comunista procedeu da mente de Antonio Gramsci e das mentes da Escola de Frankfurt, o poder de sua implementação procedeu do regime soviético que estendeu os tentáculos de seu programa em células espalhadas pelo mundo para a subversão dos países ainda não comunistas. No Brasil essa base que serviu para os movimentos dos sem terra e do PT pode servir-se da força religiosa planejada pela TL, teologia da libertação. Isto aconteceu no Foro de São Paulo como já foi descrito e deve ser lembrado.

Quando o Olavo de Carvalho descreve o processo revolucionário, infelizmente não dá relevo suficiente para esse aspecto, que ficou evidenciado em Medelin e Puebla. Nessa época a tal revolução cultural-religiosa que foi prevista por Nossa Senhora de Fátima já em 1917, descrita sob o nome genérico de «erros da Rússia». Sim, eram os muitos erros de diversas revoluções de todos os tipos que encontravam no regime soviético o seu promotor armado global.

A infiltração cultural feita com as idéias básicas decididas pelos foros internacionais avança censurando tudo o que lhe é contrário em nome do termo inapelável da «grande cultura». Eis como entram os tais filósofos modernos, que nem precisam ser lidos. Basta que nas prateleiras das salas apareçam os nomes dos «grandes pensadores» do momento, como foram Hegel ou Reich, Marx e Engels, depois Lukas e Marcuse e até Umberto Eco, para que a burguesia sentisse a imponente leveza da «grande cultura» dominante que nem precisava ser lida para emanar seu poder de atração «semiológica».

Contra essa «nova fé cultural» o que poderia contrapor-se senão a verdadeira Fé. Mas foi justamente essa a ser solapada e o pior de tudo é que foi por uma falsa cultura religiosa que avançou com os «soviets» conciliares, promotores da cursilhos de conscientização social e as comunidades de base e tudo o que podia introduzir a nova «teologia» da libertação. Desse modo já se entende que toda verdadeira cultura deve ter ligações capilares, ligados à vida comum, às necessidade sociais. Quem pode fazer isto senão a Igreja.

Todavia, vê-se a reação revolucionária do Olavo de Carvalho que tece alianças até com os maçons, como se estes não fossem parte de múltiplas revoluções contra a Igreja. Uma destas é a da «democracia cristã» que estava no programa de Gramsci que dele iria se servir, como publiquei há anos. Repito aqui as palavras de Gramsci ligadas à essa revolução principal que tem raízes religiosas e modernistas no tempo de Bento XV.

«Não há dificuldade em demonstrar que o fato de querer domesticar o Cristianismo para uso social, é erro que entra num amplo projeto da cultura revolucionária; era já em ato no fim da Primeira Grande Guerra, seja devido às pressões das doutrinas anti-cristãs, seja pela visão “sillonista” dos fautores de um partido social-cristão.

Realizaram-se as previsões de Gramsci: “O Papado condenou o modernismo como tendência reformista da Igreja e da Religião Católica, mas desenvolveu o populismo, ou seja, a base econômica e social do modernismo”. Gramsci escreveu também em «Ordine nuovo» (2 de novembro de 1919), por ocasião da fundação do Partido Popular: “O catolicismo reapareceu à luz da história, mas tanto modificado quanto reformado, os «populares» representam uma etapa necessária no processo de desenvolvimento do proletariado italiano para o comunismo. O catolicismo democrático faz o que o socialismo não podia fazer: amálgama, ordena, anima e se suicida”. A palavra de ordem de Gramsci, arauto de uma filosofia humanista da práxis, era: “vamos envolver os católicos na colaboração com a gente e, em seguida, liquidá-los” (Cadernos do Cárcere).

Hoje, as idéias que querem reduzir o Cristianismo para fins secundários prevalece. Como foi possível que um liberalismo surrado, um pobre socialismo e o democratismo condenado do «Sillon» chegaram tão longe no mundo e na Igreja, apesar condenados pelos Papas do passado? A resposta a esta escalada da insídia revolucionária está, para o início do século XX, na infiltração do modernismo no clero; para a segunda metade do século na resultante instilação modernista e maçônica na hierarquia eclesiástica.

Os «Papas de Fátima» e a hierarquia do início do início do século XX, que não deram atenção aos avisos proféticos da Mensagem de Fátima, permitiram que fossem promovidos os clérigos infetados a prelados da instilação modernista e maçônica e até comunista, que os sucederam para desgraça da Igreja e do mundo. Hoje a pretensão de combater a torpe situação política que estrangula países como o Brasil, ignorando sua raiz de alteração religiosa é obtusa e vã. Como se o Foro de São Paulo e a fundação do PT não remontassem a proeminentes bispos que desde o início controlam a CNBB.

Com essa miopia letal vão passar do Lula e de Dilma à Marina Silva, para o aborto de toda ordem e civilidade no Brasil. Para o católico que ignora deliberadamente que deve antes almejar à ordem do Reino de Cristo e da Sua justiça, e que o resto vem por acréscimo, o resultado é viver no reino da desordem e da injustiça, que nenhum tipo de democracia pode reparar; é ignorar que os erros e ideologias perversas espalhados pela Rússia só podem ser sustados pela conversão dessa potência mundial. Isso não é só verdadeiro porque está na Profecia de Fátima; está ali porque é verdade de valor também político e social para o nosso tempo. Só a conversão da Rússia, que será sinal da volta do Papa para a conversão de Roma, poderá erguer um império cristão do bem contra todo o mal destilado em todos os campos hoje em todo o mundo.

 

AINDA O PROBLEMA DO SOFRIMENTO DIVINO: ESCLARECIMENTO

 

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Tem toda a razão o prezado leitor; em Deus não há acidentes, nem potência activa ou passiva. A decisão de criar é Eterna, como Eterno é o Acto Criador. Por isso, para Deus, a existência do mundo e suas vicissitudes, CONSTITUI UMA REALIDADE ETERNA, todas as épocas estão presentes para Deus no Seu acto absolutamente simultâneo de Eternidade. No mundo existe muito mais mal moral do que bem, sem dúvida, todavia essa privação qualificada de ser, Deus não a sente em Si mesmo, como acidente, como paixão, tal como não conhece, nem quer, por uma faculdade ou potência passiva ou operativa; sente-a essencial e Eternamente, como realidade extrínseca, que se Lhe opõe como privação de ser, mas com uma realidade Eterna. Nisto não há qualquer potencialidade, porque  Deus não se resolveu a criar o mundo, como os homens resolvem a sua vida; em Deus tudo o que é, é eternamente, mesmo que no tempo tal constitua uma realidade ínfima; e Deus o conhece, NA SUA PRÓPRIA ESSÊNCIA, ONDE É VIRTUALMENTE TODA A REALIDADE CRIADA. A natureza Divina não produz, nem recebe, qualquer acidente, e o Seu sofrimento consiste no contraste Metafísico e Teológico, entre a perfeição infinita de Deus, e a privação qualificada de ser moral das criaturas. Tanto mais que a relação de Deus com as suas criaturas é uma relação de razão; porque o ser das criaturas não se pode adicionar formalmente, intrínsecamente, ao ser Divino; a Criação consiste em Deus – primàriamente para Sua maior Glória, secundária e subordinadamente para felicidade sobrenatural das criaturas espirituais – haver manifestado fora de Si, contingente e finitamente, as perfeições que em Si contém.
Nosso Senhor, enquanto Pessoa Divina, sofreu na Natureza Humana. A Pessoa não é a Natureza. Também aqui não há acidentes, nem qualquer potencialidade, visto a decisão Divina da Encarnação SER ETERNA, COMO ETERNO É O ACTO DE ENCARNAÇÃO ACTIVA, COMUM ÀS TRÊS PESSOAS. Ora, o que para Deus é Eterno, não Lhe pode ser jamais potencial.
Muito obrigado.

Lisboa, 12 de Junho de 2015

DEBATE COM O DR. ARNALDO SOBRE O MAGISTÉRIO DA IGREJA (III)

O presente debate é de certo modo continuação do que iniciamos neste sito em fevereiro de 2012. Transcrevemos principalmente o que foi dito pelos primeiros intervenientes, ou seja, Dr. Arnaldo, Felipe Coelho e Arai Daniele, no sito «Fratres in Unum».

Nosso fervente desejo é atingir convergência sobre a compreensão do valor do Magistério Ordinário, como o expõe Santa Madre Igreja.

 

Felipe Coelho
13 outubro, 2013 às 10:23 pm

Prezados amigos em Cristo, Salve Maria!

É fora de dúvida que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, não prevalecerão contra o Papado, e que nada do que vivemos ou viveremos se opõe realmente às promessas de Cristo. Isso é ponto pacífico, e quem vier a ter a menor tentação de uma dúvida, que tire férias destes assuntos e ponha-se a fazer Atos de Fé!

Prosseguindo, não parece possível levar a sério as acrobacias hermenêuticas dos que, até hoje…, tentam ainda salvar a ortodoxia e santidade do Vaticano II e de suas reformas. Mais parecem fabricantes de narcóticos (que, como se sabe, são muitas vezes os primeiros a se viciarem com o produto que comerciam), do que gente realmente comprometida com a defesa da verdade.

Contudo, ao ver a necessária resistência ao Vaticano II e suas pompas ser justificada no último meio século com base em estudos como estes do A., é triste constatar que – como nota um bom observador – “estas novidades não são mais católicas do que aquelas recusadas e combatidas” (Pe. H. Belmont, “Alguns pontos de referência”, 2006).

Assim, escreve o A. a seguinte enormidade, no par. 5 de seu estudo de setembro: “é importante observar que, segundo a doutrina verdadeira do Magistério ordinário, uma condição essencial para a infalibilidade de seus ensinamentos é que estes sejam aceitos pacificamente pela Igreja universal, dentro de um tempo suficiente para serem tidos como pertencentes à Fé, e portanto como devendo ser professados pelos fiéis.

Lamento dizer que isso é tão heterodoxo quanto os erros do Vaticano II aos quais o A. pretende se opor:

Pois, além da infalibilidade dos juízos solenes (ex cathedra) definida pelo Vaticano I, que o A. cita longamente embora menos relacionada ao cerne do problema, há também a seguinte outra definição do mesmo Concílio de 1870, tratando da infalibilidade dos ensinamentos que NÃO preenchem as condições para uma declaração ex cathedra:

Deve-se crer com fé divina e católica tudo o que está contido na Palavra de Deus escrita ou transmitida, e que a Igreja, seja por um juízo solene, seja por seu magistério ordinário e universal, propõe a ser crido como divinamente revelado.
[“Porro fide divina et catholica ea omnia credenda sunt, quæ in verbo Dei scripto vel tradito continentur et ab Ecclesia sive solemni judicio sive ordinario et universali magisterio tamquam divinitus revelata credenda proponuntur.”]
(Constituição Dogmática Dei Filius, cap. III; DENZINGER 1792)

Nem sinal aí da “condição essencial” inventada pelo A. e repetida há décadas por tantos líderes da resistência (todavia necessária) ao Vaticano II…!

O A. prossegue, no cap. 6, trazendo como respaldo à sua tese uma citação da Tuas Libenter do Papa Pio IX, que porém diz o contrário do que ele pretende fazê-la dizer. Aliás, ela está mal traduzida no artigo dele (são meus os destaques em maiúsculas):

Onde nele se lê: “deve ser estendida também ao que é transmitido pelo Magistério Ordinário de toda a Igreja, dispersa pelo orbe, como divinamente revelado, E é tido como pertencente à fé pelo consenso universal e constante dos teólogos católicos”;

o correto, porém, é: “deve ser estendida também ao que é transmitido pelo Magistério Ordinário de toda a Igreja, dispersa pelo orbe, como divinamente revelado, E POR ISSO é tido como pertencente à fé pelo consenso universal e constante dos teólogos católicos”.

No original em latim, o Papa Pio IX emprega neste ponto o termo “IDEOQUE”, que significa “POR ISSO”, “PORTANTO”. Ou seja, aquilo que o A. chama de “CONDIÇÃO essencial” para a infalibilidade dos ensinamentos do Magistério Ordinário Universal é, pelo contrário, mera CONSEQUÊNCIA do exercício dessa infalibilidade.

Trago duas provas ulteriores (“ulteriores”, porque os textos das definições corretamente traduzidos são já bastante claros!):

1. Diferentemente do A., incapaz de citar algum teólogo escolástico pré-conciliar para respaldar sua inovação, eis o que explicou logo após citar este passo da Tuas Libenter o maior teólogo do séc. XX, proposto pelo Papa Pio XII como modelo para os teólogos, o Cardeal Billot (mas esta explicação dele a seguir é consensual entre os teólogos!):

Tudo o que é PREGADO na Igreja inteira como divinamente revelado pertence, por esse fato mesmo e independentemente de toda e qualquer definição conciliar ou pontifícia, à fé católica – à qual se opõe a heresia. Um sinal inequívoco dessa pregação é o consenso constante e unânime dos teólogos católicos. Digo que é UM SINAL E NADA MAIS, pois os teólogos, enquanto tais, não pertencem à Igreja docente. Mas é um sinal certo e inequívoco
(BILLOT, De Ecclesia, tese 18,
cf. http://archive.org/stream/tractatusdeeccle01bill#page/422/mode/2up ).

2. Segunda prova de que isso é assim encontra-se nas próprias atas do Vaticano I, onde o Relator da Deputação da Fé redatora dos documentos que seriam votados, encarregado de explicar a definição acima citada (“Porro fide divina etc.”), afirma que se trata da mesma doutrina ensinada pela Tuas Libenter e, ao citar a esta última, nem se incomoda incluir a passagem que menciona o acordo da Igreja discente (que o A. porém pretenderia ser “condição essencial” para o exercício infalível do Magistério da Igreja):

A Deputação da Fé, nota Dom Conrado MARTIN, “quis dirigir esse parágrafo contra aqueles teólogos que dizem que devem ser cridas com fé divina somente as coisas definidas claramente pelos concílios ecumênicos. A Deputação da Fé extraiu seu pensamento da Carta Apostólica do Soberano Pontífice Pio IX ao Arcebispo de Munique de 1863 [Tuas Libenter], na qual isto está escrito (ao fim da carta): ‘Pois, mesmo que se tratasse daquela submissão que deve ser prestada com ato de fé divina, não se poderia limitá-la porém às verdades definidas por decretos expressos dos concílios ecumênicos ou dos Romanos Pontífices desta Sé Apostólica, mas seria necessário estendê-la também àquilo que é transmitido como divinamente revelado pelo magistério ordinário de toda a Igreja espalhada pela terra.’ Foram essas palavras que a Deputação teve diante dos olhos quando ela definiu qual é o objeto material da fé.” (MANSI LI, 224 C12 – 225 A5).

Logo, a tese do A., e não só dele como subjacente — nos últimos cinquenta anos! — a toda a resistência tradicionalista não sedevacantista ao Vaticano II, é (objetivamente) uma heresia, por negar a infalibilidade do Magistério Ordinário Universal tal como foi definida pelo Concílio Vaticano, de 1870.

Donde a conclusão, para a qual volto a citar o Pe. Belmont num dos estudos que dele traduzi: “[T]eólogos rebeldes servem agora de exemplo àqueles que – com uma sinceridade que não dá margem a dúvida – fazem profissão de defender a fé católica. O modernismo marcou profundamente as inteligências e os corações, para que se tenha chegado a este ponto.
É urgente abandonar esses erros que estragam e esterilizam, há quarenta ou cinquenta anos, a reação contra as doutrinas heterodoxas e deletérias do Vaticano II. Pois há aí um escândalo (no sentido próprio do termo) que corrompe a fé, que a solapa e corrói, com tanto mais profundidade quanto é mascarado por verdadeiro zelo.

(Aut. cit., “Um velho erro tornado ‘verdade’…”)

É absolutamente necessário sair de tal paradoxo: ele é mortífero para a fé. Digo exatamente isto: para a virtude teologal da fé, tal paradoxo é mortífero.” (Idem, “E agora…?”)

Saudações cordiais,
Em JMJ,
Felipe Coelho

Pro Roma Mariana
14 outubro, 2013 às 3:48 pm

Amigos, salve Maria!
Congratulo-me com quem abriu este muito oportuno debate. De fato todo católico deve responder em consciência às questões que se apresentam.
A primeira, posta pelo Dr. Arnaldo é do Vaticano 2º ser heretizante.
A segunda da responsabilidade no envolvimento da «Autoridade» eclesiástica nisto e com qual gravidade.
O Dr. Arnaldo quis amenizar essa responsabilidade em relação ao Magistério Ordinário, que não implicaria infalibilidade e poderia ser recusado.
Ora, o valor desse Magistério Ordinário é estabelecido pela Igreja, como o Felipe Coelho lembrou acima.
Além disso ficou claro que essas «autoridades conciliares» negam que os católicos possam recusar o Vatiicano 2º (heretizante).
Temos então uma resposta para a segunda questão: da plena responsabilidade de uma autoridade eclesiástica que impõe uma doutrina heretizante através do que seria para todos efeitos magistério ordinário. Este deveria ser infalível, não apresentando nenhum veneno para a fé dos católicos.
Se não é assim, como sabemos e continuamos a ver, a questão é da gravidade do uso dessa «autoridade» perante a verdadeira Autoridade divina da Igreja na representação de Jesus Cristo. E aqui se deve chegar a uma conclusão aplicando a Lei da Igreja, estudo que o Dr. Arnaldo iniciou em 1969 junto com Dom Mayer sobre a possibilidade do Papa herege. Vou citá-lo para concluir:
“No Capitulo VII de seu estudo sobre a “Possibilidade de um Papa herege” o Dr. Arnaldo se ocupa da defesa da quinta sentença enumerada por São Roberto Bellarmino para concluir de modo provisório:
“Resumindo: cremos que um exame cuidadoso da questão do Papa herege, com os elementos teológicos de que hoje dispomos, permite concluir que um eventual Papa herege perderia o cargo no momento em que sua heresia se tornasse “notória e divulgada de público”. E pensamos que essa sentença não é apenas intrinsecamente provável, mas certa, uma vez que as razões alegáveis em sua defesa nos parecem absolutamente cogentes. Ademais, nas obras que consultamos, não encontramos argumento algum que nos persuadisse do oposto.”

Boa discussão em JMJ
Arai Daniele

Simone, Esta é a minha opinião, falível portanto. Confesso que não sinto uma segurança inabalável no que digo, porque sou um simples leigo sem formação teológica. Podem haver detalhes que me escapam, mas um olhar sério e sensato para o pontificado de Bento XVI me leva a concluir que a hermenêutica da continuidade é a única opção racional a fazer. Encarar o CVII numa lógica de ruptura é dar-lhe uma importância dogmática que ele não teve, nem era essa a intenção dos padres conciliares.
Esta nova orientação pastoral já leva 50 anos, é uma árvore crescida e já deu os seus frutos. Podemos constatar que é um verdadeiro exílio da Babilónia, ou um caminhar para longe da casa do Pai por parte do Filho Pródigo, em que Israel e a casa do Pai representam a segurança doutrinal e o fechamento sobre si mesma que marcaram a Igreja até ao CVII.
Como o povo de Israel e como o Filho Pródigo, devemos confiar nos nossos líderes mesmo que não compreendamos por onde estamos a caminhar. Devemos confiar no Pai, na rocha firme que é a doutrina da Igreja, na promessa de Cristo que as portas do inferno não prevalecerão. Devemos reconhecer a nossa ignorância e humilhar-nos perante a sabedoria de homens como Bento XVI.

Caro Fábio, Salve Maria!

No discurso programático (22-XII-2005) de seu renunciado pontificado, já em 2005, Bento XVI não falava em “hermenêutica da continuidade” (isso é pura propaganda, ou – inspirando-me num célebre dito de Chesterton – é o que eu chamaria de um argumento ad hominem enlouquecido…); o que Bento XVI defendeu e explicou foi, nas palavras dele próprio, “a ‘hermenêutica da reforma’, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja”…

O que ele opõe à “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” não é, portanto, uma quimérica “hermenêtica da continuidade” entre o Vaticano II e o Magistério dos Papas até João XXIII, coisa que não é defendida por ninguém que não seja não apenas completamente ignorante das controvérsias filosóficas e teológicas bem como da história dos últimos séculos (não é o caso de Bento XVI), como totalmente alienado do que sejam o catecismo e a prática mais elementares da Santa Religião Católica Apostólica Romana.

O que ele opõe à “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” pura e simples é, tão somente, esse “conjunto de continuidade e descontinuidade a diversos níveis no qual consiste a natureza da verdadeira reforma”.

E, para ajudar os não iniciados nos mistérios da dialética hegeliana e suas diversas crias, Bento XVI especifica que o Vaticano II procedeu à seguinte tripla redefinição da doutrina da Igreja, anteriormente definida de modo diverso pelos Papas (Bento cita Pio IX nominalmente, referindo-se sobretudo à Quanta Cura e o Sílabo, mas ele visa também Gregório XVI, Mirari Vos; Leão XIII, Immortale Dei; São Pio X, Pascendi/Lamentabili; Pio XI, Quas Primas/Mortalium Animos; Pio XII, Ci Riesce/Humani Generis/Mystici Corporis etc. – estude qualquer um desses documentos e veja se ensinam ou não a mesma doutrina da hierarquia dos últimos cinquenta anos… ou então, ouça a confissão do próprio Bento XVI do que fez o Vaticano II):

• “definir de modo novo a relação entre fé e ciências modernas”, e “não apenas as ciências naturais mas também a ciência histórica”;
• “definir de modo novo a relação entre a Igreja e o Estado moderno”;
• “uma nova definição sobre a relação entre a fé cristã e as religiões do mundo. Em particular… definir de modo novo a relação entre a Igreja e a fé (sic) de Israel.

Bento XVI chega até mesmo a admitir (note bem que ele está falando aqui da letra e do ensinamento genuíno do Vaticano II): “É claro que em todos estes sectores, que no seu conjunto formam um único problema, podia emergir alguma forma de descontinuidade e que, de certo modo, se manifestou de facto uma descontinuidade”.

Descontinuidade esta, aliás, que já se encontra na própria admissão de que foram feitas “novas definições” de daquelas três coisas que a Igreja por boca dos Papas já tinha avaliado e decidido diversamente, ao mesmo tempo que condenado as teses que no Vaticano II triunfariam.

E tem mais, ele nem mesmo recua ante o verbo “corrigir” para expor o que o Vaticano II e Paulo VI e sucessores tentaram fazer com relação à doutrina católica:

O Concílio Vaticano II, com a nova definição da relação entre a fé da Igreja e determinados elementos essenciais do pensamento moderno, reviu ou melhor corrigiu algumas decisões históricas, mas nesta aparente descontinuidade, manteve e aprofundou a sua íntima natureza e a sua verdadeira identidade.

Meu caro Fábio, deixo-lhe por fim uma consideração do então Pe. Ratzinger sobre quanto valem as profissões de continuidade (mas nunca sem acrescentar que teria havido também “aprofundamento”), inseridas em certos pontos dos textos mais frontalmente e indesculpavelmente heterodoxos do Vaticano II:

“É sobretudo muito problemático o destaque dado ao texto final do art. 1º [da Dignitatis Humanae], com a nítida intenção de sublinhar a continuidade dos pronunciamentos do Magistério Eclesiástico nessa matéria, quando diz: ‘Deixa íntegra a doutrina tradicional católica acerca do dever moral dos homens e das sociedades para com a verdadeira religião da única Igreja de Cristo.’ Parece muito discutível a frase relativa à obrigação da sociedade para com a Igreja, já que a Declaração conciliar, na realidade, apresenta algo novo e diverso do que se encontra, por exemplo, nos pronunciamentos de Pio IX, ou ainda, somente nos de Pio XII. Portanto, o mesmo texto conciliar corrige clarissimamente essa fórmula introdutória, que tem todas as aparências de querer tranqüilizar os opositores. Não obstante, teria sido melhor deixá-la de lado ou, pelo menos, tendo em conta o que segue, tê-la formulado de modo mais matizado. Porém, de qualquer maneira, a fórmula em questão não muda o enunciado do texto.
(Joseph RATZINGER, Problemi e risultati del Concilio Vaticano II, Bréscia: Queriniana, 1967, apud Mons. Dr. Emílio Silva de Castro, Liberdade Religiosa e Estado Católico, Rio de Janeiro: Dinigraf, 1995, pp. 132-133).

E note como esse parecer do mais tarde Bento XVI corrobora o que relata Dom Lefebvre: De fato, esse parecer do então Padre Ratzinger corrobora o que contou Dom Lefebvre sobre o modo como Paulo VI obteve a aprovação da Dignitatis Humanae:

“Será que nós poderíamos ter feito alguma coisa, nós que representávamos a facção tradicional dos bispos e cardeais? Pouca coisa, em definitivo. Éramos duzentos e cinqüenta favoráveis à permanência da Tradição e desfavoráveis a mudanças de vulto na Igreja: falsa renovação, falso ecumenismo, falsa colegialidade. Nós éramos opostos a essas coisas. Esses duzentos e cinqüenta bispos, evidentemente, tiveram algum peso e, em certas ocasiões, os textos foram modificados. O mal foi um pouco limitado. Mas nós não conseguimos impedir certas teses de passar, particularmente a da liberdade religiosa, cujo texto foi refeito cinco vezes. Cinco vezes a mesma tese voltava. Nós nos opusemos sempre. Havia sempre duzentos e cinqüenta vozes contra. Então o Papa Paulo VI fez adicionar duas pequenas frases no texto, dizendo: «não há nada nesse texto que seja contrário à doutrina tradicional da Igreja» e «a Igreja permanece sempre a verdadeira e única Igreja de Cristo». Então, os bispos espanhóis, em particular, disseram: «bem, já que o Papa adicionou isso, agora não há mais problema, já que não há nada contra a tradição». Se as coisas são contraditórias, essa pequena frase contradiz tudo o que está no interior do texto. É um esquema contraditório. Não se pode aceitar isso. Então sobraram somente, se eu me lembro bem, setenta e quatro bispos que permaneceram contra. É o único esquema que encontrou uma tal oposição: 74 sobre 2.500, é pouca coisa!”
(Mgr. Marcel LEFEBVRE, A Infiltração do Modernismo na Igreja).

Concluindo, concordo com você que, “Temos aqui uma situação completamente nova na história da Igreja: pela 1º vez houve um concílio” com os problemas do Vaticano II. Ocorre, porém, que “Cristo… preside e guia os Concílios da Igreja”, ensina Pio XII (Mystici Corporis; cf. S. PIO X, Ex quo, nono labente, 26-12-1910). Logo…

Atenciosamente,
Em JMJ,
Felipe Coelho

Meu caro Felipe Coelho. Salve Maria.
1] Tanta coisa nos une, desde os dogmas da Igreja e os ensinamentos tradicionais dos Papas, até a devoção a Nossa Senhora e toda a piedade de sempre, que me é penoso manter o presente debate público. É de coração que me permito lamentar um quê de acrimônia que me parece entrever em seus comentários neste site, bem como seu apego sistemático à doutrina sobre o Magistério ordinário da escola romana de teologia, em parte ultrapassada pelos magníficos estudos antimodernistas do século XX e deste. De D. Mayer sempre ouvi: cuidado com o Cardeal Billot!
2] É hoje certo que pode haver erro doutrinário em ensinamentos oficiais do Papa e do concílio, como expus em diversos trabalhos. Atualmente, a infalibilidade monolítica quase só é defendida por neomodernistas disfarçados e por sedevacantistas de sua corrente e de outras. Na defesa de uma tese nesse terreno, nem sempre basta invocar algum grande teólogo. Por exemplo, reportando-me a meu opúsculo sobre a infalibilidade das leis eclesiásticas, lastimo que não tenhamos podido debater amplamente as implicações teológicas de erros encontradiços em rituais da Liturgia romana, como os casos clássicos de rezar para que condenados saiam do inferno, e da velha questão da matéria do sacramento da Ordem, que muitos pensavam ser a entrega dos instrumentos sagrados ao ordenando, ao passo que Pio XII afinal definiu como sendo a imposição das mãos pelo Bispo.
3] Na verdade, nossa divergência não está só nas franjas da doutrina, mas no conceito básico de que o Magistério ordinário é orgânico. Posso convidá-lo, como já fiz no passado, a analisar com cuidado e criticar meu artigo a esse respeito?
4] Prova singela da possibilidade de erro em documento papal e conciliar é que, de duas uma: ou o Papa Honório errou, ainda que não por heresia formal, ou erraram os Papas e concílios que o condenaram.
5] O consenso dos fiéis é sinal de que a Hierarquia impõe determinada doutrina como devendo ser crida. Tal sinal, contudo, existirá sempre, porque ela não estaria efetivamente impondo caso tolerasse a negação dessa verdade. Assim, o consenso dos fiéis é condição da infalibilidade. Não é condição constitutiva, é claro, como se esse consenso conferisse infalibilidade àquele ensinamento; mas é condição manifestativa, por ser sinal inconfundível de que na vida diária e orgânica da Igreja, não necessariamente por escrito, a Sagrada Hierarquia ensina tal doutrina como devendo ser crida.
6] Os trabalhos em que exponho essas teses e as defendo com ampla base na Tradição estão em meu site Bonum Certamen, e quase todos neste benemérito Fratres in Unum, o qual, abrindo este debate, está contribuindo de modo eminente para o esclarecimento da matéria.
Cordialmente, in Jesu et Maria, Arnaldo Xavier da Silveira

Caro Arnaldo, salve Maria!
Penso que entre tanta coisa que nos une, deveriam estar também os ensinamentos tradicionais da Igreja pelos Papas sobre o Magistério ordinário, magistério que nunca poderia propiciar veneno na fé aos católicos. Se o amigo sempre ouviu de D. Mayer: cuidado com o Cardeal Billot! Eu me lembro de ter ouvido a repetição das palavras deste Cardeal sobre o Direito Canônico, por uma vírgula do qual ele estava disposto a morrer.
Ora, no testemunho anti-modernista destes dois grandes Bispos, Mgr Lefebvre e D. Mayer contra a «Igreja conciliar» teve lugar saliente a acusação aos erros e heresias introduzidos com o «Novo Código» de Direito Canónico de 1983 para substituir o de 1917, em que se empenhou diretamente São Pio X. O «Novo» seria, pois, documento aprovado pela «autoridade conciliar», passível de conter erros? É o que quer afirmar?
Além disso, na sua resposta ao Felipe Coelho alude ao «Caso do Papa Honório I» dizendo: « 4] Prova singela da possibilidade de erro em documento papal e conciliar é que, de duas uma: ou o Papa Honório errou, ainda que não por heresia formal, ou erraram os Papas e concílios que o condenaram.»
Ora, sobre isto já escrevi (e me parece que pedi seu juízo) porque penso que não haja dúvida que o Direito da Igreja foi sempre o mesmo, pode ter recebido uma formulação melhor ou mais sintética, como por exemplo o que expõe a Bula «Cum ex apostolatus officio» do Papa Paulo IV em 1559 e o que dela está no código de 1917, em especial no can.188, 4, sobre as sentenças «ipso facto».
A este ponto vou referir aqui o que disse D. Mayer na sua entrevista ao «Jornal da Tarde» («A Igreja de João Paulo II não é a Igreja de Cristo», 6.11.1984): “Quanto à possibilidade de que um papa governe a Igreja rejeitando o que ela definiu, a história registra o caso do papa Honório I, condenado postumamente pelo III Concílio Ecumênico de Constantinopla e pelo papa São Leão II, por ter “… permitido com uma traição sacrílega que fosse manchada a fé imaculada.” (Dz 563). E acrescentava para nós que a Igreja nunca declarou que Honório deixara de ser Papa.
O fato é que a condenação o excomungava e embora fosse póstuma, segundo o Direito seria aplicada a partir do delito de favorecimento de heresia. Logo, o ponto em relação ao que disse (4) deveria ser visto de outro modo: salvo o que parecia aos eclesiásticos da época e mesmo aos primeiros sucessores, ele não podia ter conservado o cargo segundo o Direito da Igreja. Pois que a resposta deve ser válida para todos os tempos, por isto eminentes Cardeais preferiram dizer que o Papa Honório nunca caiu em heresia, o que é insustentável historicamente.

Cordialmente, nos Sagrados Corações de Jesus e Maria,
Arai Daniele

Caro Araí Daniele ─ Salve Maria! ─ Recordando nossos tempos da Congregação Mariana do Pe. Mariaux, tomei conhecimento de seu comentário do dia 17, que realça tudo quanto hoje nos separa. Como creio ter ficado patente, minha resposta ao nosso prezado amigo comum, Felipe Coelho, dizia respeito também às suas observações anteriores do dia 14. Estou no aguardo de mais algum comentário que surja, para manifestar-me de uma só vez em relação a suas observações e às de outros, porque não é conveniente que os textos e os assuntos comecem a se acavalar uns nos outros. Cordialmente, in Jesu et Maria, Arnaldo Xavier da Silveira

Caro Arnaldo Xavier da Silveira, salve Maria!
Nossos tempos da Congregação Mariana do Pe. Mariaux – que para mim tem
dimensão de eternidade – pedem que pelo amor da Igreja aplainemos as arestas
que ainda nos separam e que, pelo que entendo, concernem o Magistério
Ordinário.
Ora, parece que o meu último comentário em que toquei a questão do Papa
Honório paralizou o debate. Mas isto, na minha opinião denota a importância
da matéria. A este respeito o Dr. Homero Johas escreveu longamente depois de
ter consultado todos os elementos à disposição. O que projeta luz sobre o
assunto, mais que isto é a constatação da ambiguidade «diplomática» do Papa
Honório. Ambiguidade foi a causa histórica da condenação, mas houve ERRO
objetivo no seu Magistério? O autor do longo estudo «Un papa escomulgado»,
que penso ser o Jesuíta Dr. Joaquín Saenz y Arriaga, o nega. A mim convence
muito mais do que o Johas. E o Concílio Vaticano Iº (e único) indiretamente
o corfirma: nunca esse Magistério ensinou erro.
Pena que sobre isto não foi posto um ponto final. É de suma importância
Aguardo o seu parecer.

Cordialmente com a mesma amizade mariana
nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria
Arai Daniele

Resposta

Dúvida: concedendo que o Vaticano II seja heterodoxo, ele teria que ser conseqüência de um Magistério apóstata, jamais causa dele, não? Afinal, pode-se até dizer que perdeu a Fé uma legião de católicos (de)formados por um texto heterodoxo, mas igualmente se poderia dizer, e com muitíssimo mais razão, que os autores de tal texto heterodoxo eram pessoas sem Fé, não?

Assim sendo, a dita apostasia da Igreja não teria iniciado com o Concílio, mas – ao contrário – atingido nele o seu ápice – não é?

E se a apostasia da Igreja precede o Vaticano II e o causa, então atacá-lo é tomar o sintoma pela doença, não?

Abraços, em Cristo,
Jorge Ferraz

Resposta

Como o Fratres in Unum fecha este espaço para comentários na próxima 2ª feira, digo aqui breves palavras aos prezados participantes deste debate, por ele tão oportunamente aberto:

1] Ao caro Araí Daniele: no comentário de 16/out não pretendi reanalisar a questão histórica do Papa Honório, a cujo respeito não vejo, a breve prazo, nenhuma possibilidade de avanço substancial. Apenas observei que de duas uma: ou ele errou, ou erraram os Papas e Concílios que o condenaram. Vejo aí prova apodítica da possibilidade de erro em documento papal ou conciliar. Quanto a buscarmos pleno acordo entre nós, é o que também desejo; para isso, tenhamos paciência na análise do que nos separa, e rezemos a Nossa Senhora.

2] Alegra-me saber que o Sr. Lucas Janusckiewicz Coletta e seus amigos se entendem bem quando comentam o Vaticano II à luz do que dizemos o prof. de Mattei e eu. Minhas posições de hoje são mero amadurecimento orgânico do que aprendi nos tempos de Pio XII, e do que mais tarde ouvi de D. Mayer (item 26 do artigo “Da qualificação teológica extrínseca do Vaticano II”).

3] Abstenho-me de voltar às anotações de objetantes que já foram contraditadas em outros comentários.

4] Ao Sr. Ranulfo Klaus, asseguro que meu debate com Felipe Coelho será sempre “sadio, respeitoso, (…) polido”, porque o conheço bem.

5] Reafirmo que o consenso dos fieis é condição, não constitutiva mas manifestativa, da infalibilidade do ensinamento do Magistério ordinário. Scheeben vê nesse consenso não apenas um sinal, mas “uma prova da existência do ensinamento tradicional propriamente dito”. E Pio XII declara que o consenso dos Bispos e fiéis “manifesta, de modo certo e imune de erro”, que a Assunção é verdade revelada.

6] Direta ou indiretamente, meu caro amigo Felipe Coelho acusou-me de heresia, rotulou como “enormidade” uma de minhas teses sobre o Magistério ordinário orgânico, declarou-me tão heterodoxo quanto o Vaticano II. No comentário de 16/out perguntei como pode ele defender a infalibilidade monolítica da Liturgia, na qual houve orações pelos condenados ao inferno e erro sobre a matéria do sacramento da Ordem. Coloquei-lhe o dilema do Papa Honório. Espero resposta, porque, embora conhecendo o vezo sedevacantista de distribuir atestados de heresia em profusão, digo que as graves acusações levantadas postulam um encerramento em moldes acadêmicos da polêmica pública que ele próprio encetou.

Resposta

Caro Arnaldo Xavier, justamente para seguir em moldes acadêmicos a polêmica pública aqui oportunamente iniciada, voltei à re-análise da questão histórica do Papa Honório, que foi o amigo mesmo a suscitar. Creia, pode-se colher nela a possibilidade de avanço substancial, pois embora tão grave, foi tão mal aplicada como exemplo para o nosso tempo.
Volto assim a negar o que o douto amigo observou: “de duas uma: ou ele errou, ou erraram os Papas e Concílios que o condenaram”. Diga se isto não foi estudado e dirimido pelo Vaticano (Iº e único) quando aprofundou a evidência de não haver erro no magistério petrino em matéria de Fé? Nâo há portanto no caso nenhuma prova apodítica da possibilidade de erro em documento papal ou conciliar. Tanto a condenação de Honório foi isenta de erro, quanto o magistério desse Papa só pecou pela ambiguidade da qual foi acusado.
E aqui é bom lembrar que o favorecimento da heresia do Patriarca Sérgio cai também sob a culpa de heresia. Honório não ensinou a heresia, como ficou claro até em documento de seu antigo secretário e sucessor Papa João. Quanto ao momento em que Honório se encontrou excomungado por aquelas sentenças póstumas, este não tem relevância histórica devido a ser fato passado. Talvez tenha sido quando desprezou a advertência de São Sofrônio. Mas o que serve saber para a aplicação na defesa da Igreja no presente é que como herege e excomungado deixou de ser cabeça da Igreja.
O Direito da Igreja não muda. Se São Roberto Bellarmino nega a condenação de Honório, foi por causa da Oração de Jesus pela Fé de Pedro. Agora, penso ser lícito acreditar que Honório não perdeu necessariamente a Fé, embora a tenha traído. Em todo o caso o contraste com os «papas atuais» é estarrecedor.
Peço pois ao amigo que, para buscarmos pleno acordo entre nós sobre as verdades da Igreja, aplique sua paciência na análise destas questões que nos separam, mas não certamente na Fé, Esperança e Caridade. Rezemos para que Nossa Senhora nos ajude.
Arai

Sr. Arnaldo, é a essa oração que tu te referes, quando afirma haver na liturgia católica um pedido pela libertação dos condenados ao inferno??

“DOMINE Jesu Christe, Rex gloriae, libera animas omnium fidelium defunctorum de poenis inferni, et de profundo lacu: libera eas de ore leonis, ne absorbeat eas tartarus, ne cadant in obscurum; sed signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam: Quam olim Abrahae promisisti et semini ejus. V. Hostias et preces tibi, Domine, laudis offerimus: tu suscipe pro animabus illis, quarum hodie memoriam facimus: fac eas, Domine, de morte transire ad vitam. Quam olim Abrahae promisisti et semini ejus.” (http://www.sspx.co.uk/mass/requiem/index.htm)

Resposta

Amigos, bom dia. Espero, sinceramente, que o administrador deste blog não encerre abruptamente o debate, porque não estamos em um tribunal de justiça onde as partes tem prazos definidos para entregarem as petições. Claro que a devida resposta está sendo elaborada pelo Felipe exatamente nos “moldes acadêmicos” que Dr. Arnaldo exige. É que ao contrário dele, que não cita nenhum teólogo para justificar sua tese, dá trabalho demais coligir centenas de citações proveniente de papas, santos doutores e teólogos que em dois mil anos ensinaram justamente o contrário do que nosso interlocutor defende!

Encerro com o glorioso Papa Pio XI, estejamos atentos a este ensinamento claríssimo:

“(…) “Seria indigno de um cristão… sustentar que a Igreja, por Deus destinada a Mestra e Rainha dos povos, não esteja iluminada o bastante acerca das coisas e circunstâncias modernas; ou então, não prestar a ela assentimento e obediência a não ser naquilo que ela impõe por via de definições mais solenes, COMO SE AS OUTRAS SUAS DECISÕES SE PUDESSEM PRESUMIR FALSAS, ou não providas de suficientes motivos de verdade e de honestidade”[11. PIO XI Casti Connubi, 31/1/1930, I.P. n. 904-5.]

Resposta

Sr. Sandro Pontes, nós não fechamos “abruptamente o debate”. Há uma regra que vale para todos os posts, desde sempre, e que está na nota que precede o espaço para comentários. Ela prevê o fechamento automático da caixa de comentários após 15 dias e, para este post, não será diferente. Só nós sabemos o trabalho que nos dá moderar as centenas de comentários diários que este blog recebe, por isso tal procedimento. Lamento desapontá-lo.

 

OS TESOUROS DA SANTA MADRE IGREJA NA POSSE DA MAÇONARIA E DOS SODOMITAS

Pro Roma Mariana: A nova igreja, a seita conciliar ou o novus ordo robou os edifícios, as obras de arte da Igreja Católica, e o que dói mais, as relíquias. O que nos prejudica mais ainda, roubaram também o nosso nome, pois eles não são católicos. A Igreja somos nós. Deturparam a Sé Apostólica com a eleição do Roncalli, e introduziram um novo “papado”. Eis daí a relevância do artigo.

 

Escutemos o Papa Leão XIII, num trecho da sua encíclica “Humanum Genus”, promulgada em 20 de Abril de 1884:

«E grassou mais inflamada a guerra contra a Sé Apostólica e o Pontífice Romano. Primeiramente, sob falsos pretextos, foi despojado do principado civil, sustentáculo da sua liberdade e direitos; em seguida foi reduzido a uma condição iníqua e intolerável pelos infinitos obstáculos; até que se chegou ao extremo dos sectários dizerem abertamente o que haviam tramado secreta e longamente entre si, isto é, de FAZER DESAPARECER O PRÓPRIO PODER ESPIRITUAL, E DE ELIMINAR DO MUNDO A INSTITUIÇÃO DIVINA DO PONTIFICADO. E quando faltassem outros argumentos, seria prova suficiente o testemunho de muitíssimos deles, que muitas vezes no passado, e também recentemente, declararam ser verdadeiramente a finalidade máxima dos maçons PERSEGUIR COM ÓDIO IMPLACÁVEL O CRISTIANISMO, E QUE ELES NÃO PARARÃO ATÉ QUE SEJAM DERRUBADAS TODAS AS INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS FUNDADAS PELOS SUMOS PONTÍFICES. (…)

Além disso, por ser a natureza humana infestada com a culpa original, e por isso mesmo mais inclinada ao vício do que à virtude, não é possível viver honestamente sem mortificar as paixões, e submeter os apetites à razão. Nessa luta, muitas vezes é necessário desprezar os bens criados e submeter-se a moléstias e sacrifícios muito grandes e guardar sempre seu domínio à razão vencedora. Mas os naturalistas e maçons, repudiando toda a Revelação Divina, negam o pecado original e afirmam que o libre arbítrio “nunca foi enfraquecido, nem inclinado ao mal”. E até exagerando as forças e a excelência da natureza e pondo nela o princípio e a norma única da justiça, nem sequer podem conceber que, para frear seus impulsos e moderar seus apetites são precisos esforços abnegados e suma constância. Este é o motivo pelo qual vemos oferecidos pùblicamente às paixões tantos atractivos: Jornais e periódicos sem freio nem pudor; representações teatrais sumamente desonestas, artes cultivadas segundo um verismo descarado; promovido um viver inconsistente por meio de refinadas invenções; em síntese, procuradas todas as lisonjas capazes de seduzir e adormecer a virtude. Coisas altamente reprováveis, mas coerentes com os princípios dos que tiram do homem a Esperança dos Bens Celestes, e fazem consistir, rebaixando-a até à Terra, toda a felicidade nas coisas caducas. (…)

Quanto ao consórcio doméstico, eis pouco mais ou menos toda a doutrina dos naturalistas: O matrimónio não passa de um contrato civil, pode ser desfeito pela vontade dos contraentes; o poder sobre o vínculo matrimonial pertence ao Estado. Na educação dos filhos, não se deve impor nenhuma religião; ao crescer na idade, cada um esteja livre DE ESCOLHER PARA SI A QUE MAIS LHE AGRADAR.

Os maçons não sòmente aceitam, sem reservas, estes princípios, MAS DESDE HÁ MUITO TEMPO PROCURAM INTRODUZI-LOS NOS COSTUMES E USOS DA VIDA. EM MUITOS PAÍSES, AINDA QUE SE PROFESSEM CATÓLICOS, TÊM-SE COMO JURIDICAMENTE NULOS OS MATRIMÓNIOS NÃO CELEBRADOS NA FORMA CIVIL; NALGUNS LUGARES, AS LEIS PERMITEM O DIVÓRCIO, NOUTROS ENVIDAM-SE TODOS OS ESFORÇOS PARA QUE TAL SEJA, QUANTO ANTES, PERMITIDO.

Que o Estado professe a indiferença religiosa, e na ordem e governo do consórcio civil não se importe com Deus  – SEM MAIS NEM MENOS COMO SE ELE NÃO EXISTISSE – é imprudência desconhecida até dos pagãos, pois eles tinham gravada na mente e no coração, não sòmente a ideia de Deus, MAS A NECESSIDADE DE UM CULTO PÚBLICO, tanto que julgavam mais fácil encontrar uma cidade sem solo do que sem Deus.(…)

Portanto, pelo que exige o fim e a natureza do consórcio humano, deve-se obedecer às ordens justas do poder legítimo, DA MESMA FORMA DO QUE À SOBERANIA DE DEUS, regedor do Universo, e é erro capital conferir ao povo o pleno poder de sacudir, a seu gosto, o jugo da obediência.»

 

Sabemos que os tesouros da Santa Madre Igreja possuem três funções principais: A Glória de Deus, mediante o resplendor qualificado do Culto Público – PARA DEUS O MELHOR; São Pio X, pessoalmente tão simples, pobre e humilde, não duvidou em ordenar obras para afervorar a sumptuosidade e magnitude da Basílica de São Pedro; em segundo lugar vem a honra e dignificação devida a todos aqueles que desempenham cargos de Direito Divino Sobrenatural, na exacta medida em que tais honras, sendo devidas à função, redundam igualmente na pessoa que a ocupa, não em si mesma e por si mesma, mas enquanto constitui suporte da já citada orgânica de Direito Divino Sobrenatural – fundamentalmente Papa e Bispos. A terceira função dos tesouros da Santa Igreja, subordinada às duas precedentes, consubstancia-se no sustento das Obras de Caridade, Missões, Seminários, Escolas, Universidades; mas tudo isto realizado sempre para maior Glória de Deus e salvação das almas.

Ora, não há como negar, que todos os Tesouros da Santa Madre Igreja se encontram hoje, e desde há quase sessenta anos, nas mãos da maçonaria internacional, servindo também, torpe e declaradamente, os interesses das multinacionais sodomitas e pedófilas.

Uma das razões da maçonaria para conservar os grandes Santuários Marianos, é precisamente por constituirem uma fonte de ouro, o qual corre directamente para os cofres de satanás, ao serviço das potências do Inferno.

Não é necessário muito cogitar para concluir quais as terríveis consequências sociais do controle da maçonaria sobre instituições que foram caracterizadamente católicas, e que só como católicas podem desenvolver formalmente a sua actividade, seja ela no campo da saúde e assistência, seja ela do sector docente. A Universidade dita Católica Portuguesa, por exemplo, que em princípio deveria ser formal e constitutivamente católica em todos os seus cursos, mesmo naqueles de conteúdo materialmente profano, É NA REALIDADE, E DESDE HÁ MUITOS ANOS, UM VIVEIRO DO MAIS DIABÓLICO ATEÍSMO, EM TODOS OS CURSOS, A COMEÇAR PELO DE “TEOLOGIA”, E TANTO MAIS LETAL, QUANTO É PROPAGANDEADO COM A APARENTE AUTORIDADE DE DEUS. Análoga calamidade sucede em todas as outras Universidades ditas Católicas, um pouco por todo o mundo.

Vivemos num mundo, ONDE AS HONRAS QUE DEVIAM SER PRESTADAS A DEUS NOSSO SENHOR SÃO PRESTADAS A SATANÁS E SEUS APANIGUADOS. Sòmente a Santa Madre Igreja possui, constitutivamente, o encargo de proceder à oblação do verdadeiro Culto a Deus Nosso Senhor, do ÚNICO QUE LHE PODE AGRADAR, CULTO LATRÊUTICO, EUCARÍSTICO, PROPICIATÓRIO E IMPETRATÓRIO. Ora, a Santa Madre Igreja foi eclipsada, para todo os efeitos destruída, como realidade social e cultural, logo o culto verdadeiro à Santíssima Trindade foi também quase totalmente obliterado.

Argumentar-se-á que um único Santo Sacrifício da Missa possui valor Infinito; consequentemente pode constituir propiciação, para, e por todo o mundo. Mas não é assim, porque se é verdade que o Santo Sacrifício da Missa, renovação incruenta do Sacrifício da Cruz, é objectivamente, transcendentalmente, um único Sacrifício presente nos nossos Altares, e enquanto tal, NÃO FAZ NÚMERO CONSIGO PRÓPRIO; não é menos verdade, que nós, pobres criaturas, vivemos num espaço, num tempo, e num mundo corrompido. Tendo em linha de conta, a complexidade das vicissitudes concretas dos homens no seu meio vital, é evidente que as Missas são numeráveis, e mais ainda: NOSSO SENHOR ORDENOU EXPLÌCITAMENTE QUE A CELEBRAÇÃO DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA SE MULTIPLICASSE NO ESPAÇO E NO TEMPO – “FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM”. Efectivamente, os pecados dos homens também se multiplicam no espaço e no tempo; consequentemente é necessário santificar e propiciar todo este caminho percorrido pelo homem pecador. E ISSO JÁ NÃO ACONTECE, PORQUE É REALMENTE EXTREMAMENTE DIMINUTO O NÚMERO DE MISSAS VÁLIDAS CELEBRADO NOS TEMPOS ACTUAIS.

E as missas celebradas pela Igrejas Ortodoxas não têm valor? Já afirmámos que o único culto que agrada a Deus é o da Santa Madre Igreja, o qual é hoje reduzidíssimo, porque até na Fraternidade, QUE FOI DE SÃO PIO X, já há missas inválidas. O pecado formal de cisma das Igrejas Ortodoxas provocou nestas, através dos séculos, COMO NÃO PODIA DEIXAR DE SER, graves cisões e muitas heresias. Neste quadro conceptual, o culto ortodoxo, mesmo quando válido, não é lícito, o que coloca um véu espesso que cancela as Graças que em princípio seriam recebidas. Também os Sacramentos podem ser válidos, mas não lícitos: Quem comunga em pecado mortal recebe Nosso Senhor mas não a Sua Graça; quem recebe o Santo Crisma em pecado mortal recebe o Carácter correspondente, é um Sacramento válido, mas não recebe a sua Graça, embora possa revivescer, produzindo a Graça que não produziu antes, quando a alma recuperar a Graça de Deus. Neste enquadramento, não é difícil compreender como as missas ortodoxas, mesmo quando válidas no plano de direito, no plano de facto estão impedidas pelo pecado objectivo do cisma de produzir as Graças propiciatórias correspondentes, além de também não serem susceptíveis de agradar objectivamente – ainda que o celebrante esteja de boa fé, e até esteja em estado de Graça – a Deus, em virtude desse mesmo pecado de cisma. Exactamente como quando uma alma em estado de pecado mortal pratica actos moralmente bons, na ordem natural, esses actos não podem adquirir qualquer mérito Sobrenatural.

O maior Tesouro da Santa Madre Igreja é o Santo Sacrifício da Missa, É O ROUBO DESSE TESOURO QUE SOBRETUDO DEVEMOS CHORAR. A própria celebração frequente do Santo Sacrifício IMPEDE OBJECTIVAMENTE muitos crimes e blasfémias, pelo menos na sua forma externa. Exactamente por isso O MUNDO VAI DE MAL A PIOR, E DE PIOR A PÉSSIMO, E DE PÉSSIMO A INSUPORTÁVEL. Mas foi exactamente esse o objectivo premeditado por Roncalli e Montini ao incrementarem o Vaticano 2; e constitui igualmente esse o propósito de Fellay e seus amigos ao traírem miseràvelmente, duplamente, a Santa Madre Igreja.

 

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

 

Lisboa, 9 de Maio de 2018

 

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

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