Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

ORIGEM DO PODER ECLESIÁSTICO EXPLICADO POR PIO XII

Pro Roma Mariana

Ao tratar da manifestação da Transcendência na Igreja, deve-se falar da origem e da natureza desse Poder Supremo. Nada melhor do que fazê-lo publicando um discurso específico do Papa Pio XII sobre a questão, discurso dirigido justamente ao Tribunal da Sacra Rota Romana. Segue o texto original em italiano, do qual destacamos alguns pontos salientes.

O documento em questão situa-se em 1945, no período do fim da Segunda Grande Guerra e quando com a vitória dos Aliados, especialmente dos Estados Unidos da América, a palavra de ordem mais difusa era da pressão para a necessidade de uma democracia à imagem da sua no mundo inteiro. O Papa já tratara da questão na sua mensagem de Natal de 1944, da qual aqui vamos reproduzir a sua parte central. Trata-se da Radio-Mensagem «Benignitas et humanitas»

IGREJA FAROL DAS NAÇÕES

  • «Se o futuro pertencerá à democracia, uma parte essencial de sua realização caberá à religião de Cristo e à Igreja, mensageira da palavra do Redentor, e continuadora de sua missão de salvação. De fato, Ela ensina e defende as verdades, comunica as forças sobrenaturais da graça, para implementar a ordem estabelecida por Deus dos seres e dos fins, o último fundamento e a norma diretiva de qualquer democracia.
  • Com sua própria existência, a Igreja se ergue em frente ao mundo, como farol brilhante que constantemente lembra essa ordem divina. Sua história reflete claramente sua missão providencial. As lutas que, forçada pelo abuso da força, teve que sustentar para a defesa da liberdade recebida de Deus, eram ao mesmo tempo lutas pela verdadeira liberdade do homem. A Igreja tem a missão de anunciar ao mundo, desejoso de melhores e e mais perfeitas formas de democracia, a mensagem mais alta e necessária que possa haver: a dignidade do homem, na sua  vocação à filiação de Deus.»

Aqui seria bom notar que esse mesmo Papa escreveu sobre duas democracias; a possível e à inaceitável. (Ver libro de Jean Madiran «Les deux démocraties», 1977.

No Discurso sobre a Origem e natureza do Poder eclesiástico o Papa deixa bem claro que apesar de qualquer semelhança com os poderes civis este difere essencialmente pela sua origem e natureza divina; provem diretamente da Vontade de Nosso Senhor, do Alto para baixo. Além disso difere pelo seu fim de salvação.

Há hoje muitos que para justificarem um falso papa alegam seu aspecto de «poder civil», que deve subsistir para governo do Vaticano. O Papa Pio XII explica que o poder pontifical è um e definido da sua missão ditada por Jesus Cristo, seu único chefe. Toda semelhança com o poder civil è pois secundária e «non deve far dimenticare le profonde differenze che esistono 1o nella origine e nella natura, 2o nell’oggetto, 3o nel fine. (não deve fazer esquecer as diferenças profundas que existem na origem e na natureza; no objeto e no fim.)

  • L’origine della Chiesa, all’opposto di quella dello Stato, non è di diritto naturale. La più ampia e accurata analisi della persona umana non offre alcun elemento per concludere che la Chiesa, al pari della società civile, avrebbe dovuto naturalmente nascere e svilupparsi. Essa deriva da un atto positivo di Dio, al di là e al di sopra della indole sociale dell’uomo, per quanto con questa in perfetta armonia; perciò la potestà ecclesiastica – e quindi anche il corrispondente potere giudiziario – è nata dalla volontà e dall’atto, con cui Cristo ha fondato la sua Chiesa.

(A origem da Igreja, em contraste com a do Estado, não é de direito natural. A análise mais ampla e precisa da pessoa humana não oferece nenhum elemento para concluir que a Igreja, bem como a sociedade civil, devem naturalmente surgir e se desenvolver. Ela deriva de um ato positivo de Deus, além e acima do indole social do homem, no entanto em perfeita harmonia com esta; então o poder eclesiástico – e, portanto, o poder judicial correspondente – nasceu da vontade e ação pelo qual Cristo fundou sua Igreja.

  • In un punto tuttavia quella differenza fondamentale apparisce particolarmente manifesta. La fondazione della Chiesa come società si è effettuata, contrariamente all’origine dello Stato, non dal basso all’alto, ma dall’alto al basso; vale a dire che Cristo, il quale nella sua Chiesa ha attuato sulla terra il Regno di Dio da lui annunziato e destinato per tutti gli uomini di tutti i tempi, non ha affidato alla comunità dei fedeli la missione di Maestro, di Sacerdote e di Pastore ricevuta dal Padre per la salute del genere umano, ma l’ha trasmessa e comunicata a un collegio di Apostoli o messi, da lui stesso eletti, affinché con la loro predicazione, col loro ministero sacerdotale e con la potestà sociale del loro ufficio facessero entrare nella Chiesa la moltitudine dei fedeli, per santificarli, illuminarli e condurli alla piena maturità dei seguaci di Cristo.

(Em um ponto, no entanto, essa diferença fundamental é particularmente evidente. O fundamento da Igreja como uma sociedade foi feito, contrariamente à origem do estado, não de baixo para cima, mas de cima para baixo; a saber, que Cristo, que em sua Igreja implementou na terra, o Reino de Deus que ele proclamou e destinou a todos os homens de todos os tempos, NÃO foi confiado à comunidade dos fiéis a missão do Mestre, Sacerdote e Pastor recebido do Pai pela saúde da humanidade, mas transmitido e comunicado a um Colégio dos Apóstolos ou enviados, por Ele mesmo eleitos, de modo que através da sua pregação, com o ministério sacerdotal e com o poder social de seu cargo, eles fizessem entrar na Igreja, a multidão dos fiéis, para santificá-los, iluminá-los e levá-los à plena maturidade dos seguidores de Cristo.)

  • Da quanto abbiamo esposto derivano principalmente due conclusioni:
  • 1o – Nella Chiesa, altrimenti che nello Stato, il soggetto primordiale del potere, il giudice supremo, la più alta istanza d’appello, non è mai la comunità dei fedeli. Non esiste dunque, né può esistere nella Chiesa, quale è stata fondata da Cristo, un tribunale popolare o una potestà giudiziaria promanante dal popolo.
  • 2o – La questione dell’estensione e della grandezza della potestà ecclesiastica si presenta anch’essa in un modo del tutto differente da quella riguardante lo Stato. Per la Chiesa vale in primo luogo la espressa volontà di Cristo

(Pelo que foi exposto, temos duas conclusões principais:

Na Igreja, a diferença do estado, o sujeito primordial do poder, o juiz supremo, o mais alta instânciade apelo, nunca é a comunidade dos fiéis. Portanto, não há tal coisa, nem pode existir na Igreja, que foi fundada por Cristo, um tribunal popular ou um poder judicial que promana do povo.

2 – A questão da extensão e da grandeza do poder eclesiástico também aparece de uma maneira completamente diferente da do Estado. Para a Igreja está antes de tudo a vontade expressa de Cristo…)

 

ORIGINE DEL POTERE ECCLESIASTICO

Discorso Dacché piacque al Signore, ai Membri del Tribunale della Sacra Romana Rota — 2 ottobre 1945.

DISCORSO DI SUA SANTITÀ PIO XII
AL TRIBUNALE DELLA SACRA ROMANA ROTA

2 ottobre 1945

Dacchè piacque al Signore, giudice sovrano di tutte le giustizie umane, di costituirCi quaggiù suo Rappresentante e Vicario, oggi per la prima volta – dopo aver ascoltato l’ampia e dotta relazione annuale dell’attività di cotesto Sacro Tribunale, fattaCi dal vostro degnissimo Decano – possiamo esprimervi, diletti figli, la Nostra gratitudine ed esporvi il Nostro pensiero, senza che il fragore delle armi copra la Nostra voce coi suoi rombi sinistri. Oseremmo Noi dire che è la pace? Non ancora pur troppo! Voglia il Signore che ne sia almeno l’aurora! Una volta cessata la violenza dei combattimenti, suona l’ora della giustizia, la cui opera consiste nel restaurare coi suoi giudizi l’ordine sconvolto o turbato. Formidabile dignità e potenza del giudice che, al di sopra di tutte le passioni e di tutti i preconcetti, deve riflettere la giustizia stessa di Dio, sia che si tratti di decidere le controversie o di reprimere i delitti!

Tale è invero l’oggetto di ogni giudizio, la missione di ogni potestà giudiziaria, ecclesiastica o civile. Un rapido sguardo superficiale alle leggi e alla prassi giudiziaria potrebbe far credere che l’ordinamento processuale ecclesiastico e il civile presentino differenze soltanto secondarie, press’a poco come quelle che si notano nell’amministrazione della giustizia in due Stati civili della stessa famiglia giuridica. Anche nello scopo immediato essi sembrano coincidere: attuazione o assicurazione del diritto stabilito dalla legge, ma nel caso particolare contestato o leso, per mezzo di sentenza giudiziaria, ossia mediante giudizio emanato dalla autorità competente in conformità della legge. I vari gradi delle istanze giudiziarie si trovano parimente in ambedue; il procedimento mostra presso entrambi i medesimi principali elementi: domanda d’introduzione della causa, citazione, esame dei testimoni, comunicazione dei documenti, interrogatorio delle parti, conclusione del processo, sentenza, diritto di appello.

Ciò nonostante, questa larga somiglianza esterna ed interna non deve far dimenticare le profonde differenze che esistono 1o nella origine e nella natura, 2o nell’oggetto, 3o nel fine.

– Ci restringeremo oggi a parlare del primo di questi tre punti, rimandando agli anni futuri, se così piacerà al Signore, la trattazione degli altri due.

I

La potestà giudiziaria è una parte essenziale ed una necessaria funzione del potere delle due società perfette, la ecclesiastica e la civile. Perciò la questione della origine della potestà giudiziaria si identifica con quella della origine del potere.

Ma appunto perciò, oltre alle rassomiglianze già accennate, si è creduto di trovarne altre anche più profonde.

È cosa singolare il vedere come alcuni seguaci delle varie concezioni moderne intorno al potere civile abbiano invocato, a conferma e a sostegno delle loro opinioni, le presunte analogie con la potestà ecclesiastica. Ciò vale non meno per il cosiddetto «totalitarismo» e «autoritarismo», che per il loro polo opposto, la moderna democrazia. Però in realtà quelle più profonde somiglianze non esistono in nessuno dei tre casi, come un breve esame dimostrerà facilmente.

È incontestabile che una delle esigenze vitali di ogni umana comunanza, quindi anche della Chiesa e dello Stato, consiste nell’assicurare durevolmente la unità nella diversità dei suoi membri.

Ora il «totalitarismo» non è mai che possa provvedere a quella esigenza, perchè esso dà al potere civile una estensione indebita, determina e fissa nel contenuto e nella forma tutti i campi di attività, e in tal modo comprime ogni legittima vita propria – personale, locale e professionale – in una unità o collettività meccanica, sotto l’impronta della nazione, della razza o della classe.

Noi abbiamo già nel Nostro Radiomessaggio del Natale 1942 additato particolarmente le tristi conseguenze per il potere giudiziario di quella concezione e di quella prassi, che sopprime la eguaglianza di tutti dinanzi alla legge e lascia le decisioni giudiziarie in balìa di un mutevole istinto collettivo.

Del resto, chi potrebbe mai pensare che simili erronee interpretazioni violatrici del diritto abbiano potuto determinare la origine o influire sull’azione dei tribunali ecclesiastici? Ciò non è stato nè potrà mai essere, perchè contrario alla natura stessa della potestà sociale della Chiesa, come vedremo in appresso.

Ma a quella esigenza fondamentale è ben lungi dal soddisfare anche l’altra concezione del potere civile, che può essere designata col nome di «autoritarismo», perchè esclude i cittadini da qualsiasi efficace partecipazione od influsso nella formazione della volontà sociale. Esso scinde per conseguenza la nazione in due categorie, quella dei dominatori e quella dei dominati, i cui reciproci rapporti vengono ad essere puramente meccanici, sotto l’impero della forza, ovvero hanno un fondamento meramente biologico.

Ora chi non vede come in tal guisa la vera natura del potere statale rimane profondamente sconvolta? Questo infatti, e per se stesso e mediante l’esercizio delle sue funzioni, deve tendere a ciò che lo Stato sia una vera comunità, intimamente unita nello scopo ultimo, che è il bene comune. Ma in quel sistema il concetto del bene comune diviene così labile e si palesa così chiaramente come un ingannevole manto dell’unilaterale interesse del dominatore, che uno sfrenato «dinamismo»legislativo esclude ogni sicurezza giuridica, e quindi sopprime un elemento fondamentale di ogni vero ordine giudiziario.

Giammai un così falso dinamismo non potrebbe sommergere e rimuovere i diritti essenziali riconosciuti alle singole persone fisiche e morali nella Chiesa. La natura del potere ecclesiastico non ha nulla di comune con quell’«autoritarismo», al quale quindi non può riconoscersi alcun punto di riferimento con la costituzione gerarchica della Chiesa.

Resta da esaminare la forma democratica del potere civile, nella quale alcuni vorrebbero trovare una più stretta somiglianza col potere ecclesiastico. Senza dubbio, ove vige una vera democrazia teorica e pratica, essa adempie quella esigenza vitale di ogni sana comunità, a cui abbiamo accennato. Ma ciò si avvera, o può a parità di condizioni avverarsi anche nelle altre legittime forme di governo.

Certamente il medio evo cristiano, particolarmente informato dallo spirito della Chiesa, con la sua dovizia di fiorenti comunità democratiche mostrò come la fede cristiana sappia creare una vera e propria democrazia, ed anzi ne sia l’unica durevole base. Poiché una democrazia senza l’unione degli spiriti, almeno nelle massime fondamentali della vita, soprattutto relativamente ai diritti di Dio e alla dignità della persona umana, al rispetto verso la onesta attività e libertà personale, anche nelle cose politiche una tale democrazia sarebbe difettosa e malferma. Quando dunque il popolo si allontana dalla fede cristiana o non la pone risolutamente come principio del vivere civile, allora anche la democrazia facilmente si altera e si deforma e col trascorrere del tempo è soggetta a cadere nel «totalitarismo» e nell’«autoritarismo» di un solo partito.

Se, d’altra parte, si tiene presente la tesi preferita della democrazia – tesi che insigni pensatori cristiani hanno in ogni tempo propugnata -, vale a dire che il soggetto originario del potere civile derivante da Dio è il popolo (non già la «massa»), si fa sempre più chiara la distinzione fra la Chiesa e lo Stato anche democratico.

II

Essenzialmente diversa dal potere civile è infatti la potestà ecclesiastica, e quindi anche il potere giudiziario nella Chiesa.

L’origine della Chiesa, all’opposto di quella dello Stato, non è di diritto naturale. La più ampia e accurata analisi della persona umana non offre alcun elemento per concludere che la Chiesa, al pari della società civile, avrebbe dovuto naturalmente nascere e svilupparsi. Essa deriva da un atto positivo di Dio, al di là e al di sopra della indole sociale dell’uomo, per quanto con questa in perfetta armonia; perciò la potestà ecclesiastica – e quindi anche il corrispondente potere giudiziario – è nata dalla volontà e dall’atto, con cui Cristo ha fondato la sua Chiesa. Ciò non toglie però che, una volta costituita la Chiesa, come società perfetta, per opera del Redentore, dall’intima sua natura scaturissero non pochi elementi di rassomiglianza con la struttura della società  civile.

In un punto tuttavia quella differenza fondamentale apparisce particolarmente manifesta. La fondazione della Chiesa come società si è effettuata, contrariamente all’origine dello Stato, non dal basso all’alto, ma dall’alto al basso; vale a dire che Cristo, il quale nella sua Chiesa ha attuato sulla terra il Regno di Dio da lui annunziato e destinato per tutti gli uomini di tutti i tempi, non ha affidato alla comunità dei fedeli la missione di Maestro, di Sacerdote e di Pastore ricevuta dal Padre per la salute del genere umano, ma l’ha trasmessa e comunicata a un collegio di Apostoli o messi, da lui stesso eletti, affinché con la loro predicazione, col loro ministero sacerdotale e con la potestà sociale del loro ufficio facessero entrare nella Chiesa la moltitudine dei fedeli, per santificarli, illuminarli e condurli alla piena maturità dei seguaci di Cristo.

Esaminate le parole con le quali Egli ha comunicato loro i suoi poteri: potere di offrire il sacrificio in memoria di lui,[1] potere di rimettere i peccati,[2] promessa e conferimento della potestà suprema delle chiavi a Pietro e ai suoi Successori personalmente,[3] comunicazione del potere di legare e di sciogliere a tutti gli Apostoli.[4] Meditate infine le parole con le quali Cristo, prima della sua ascensione, trasmette a questi medesimi Apostoli la missione universale, che egli ha avuta dal Padre.[5] Vi è forse in tutto ciò qualche cosa che possa dar luogo a dubbi o ad equivoci? Tutta la storia della Chiesa, dal suo inizio sino ai giorni nostri, non cessa di far eco a quelle parole e di rendere la stessa testimonianza con una chiarezza e una precisione che nessuna sottigliezza potrebbe turbare o velare. Ora tutte queste parole, tutte queste testimonianze proclamano all’unisono che nella potestà ecclesiastica l’essenza, il punto centrale secondo la espressa volontà di Cristo, dunque per diritto divino, è la missione data da lui ai ministri dell’opera della salute presso la comunità dei fedeli e presso tutto il genere umano.

Il canone 109 del Codice di diritto canonico ha messo questo mirabile edificio in una chiara luce e in un rilievo scultorio: «Qui in ecclesiasticam hierarchiam cooptantur, non ex populi vel potestatis saecularis consensu aut vocatione adleguntur; sed in gradibus potestatis ordinis constituuntur sacra ordinatione; in supremo pontificatu, ipsomet iure divino, adimpleta conditione legitimae electionis eiusdemque acceptationis; in reliquis gradibus iurisdictionis, canonica missione».

«Non ex populi vel potestatis saecularis consensu aut vocatione»: Il popolo fedele o la potestà secolare possono avere nel corso dei secoli partecipato spesso alla designazione di coloro, cui dovevano essere conferiti gli uffici ecclesiastici – ai quali, del resto, compreso il Pontificato supremo, possono essere eletti, tanto il discendente di nobile stirpe, quanto il figlio della più umile famiglia operaia. In realtà però i membri della Gerarchia ecclesiastica hanno ricevuto e ricevono sempre la loro autorità dall’alto e non debbono rispondere dell’esercizio del loro mandato che o immediatamente a Dio, a cui soltanto è soggetto il Romano Pontefice, ovvero, negli altri gradi, ai loro Superiori gerarchici, ma non hanno nessun conto da rendere né al popolo né al potere civile, salva naturalmente la facoltà di ogni fedele di presentare nelle dovute forme all’autorità ecclesiastica competente, od anche direttamente alla suprema potestà della Chiesa, le sue domande e i suoi ricorsi, specialmente quando il supplicante o ricorrente è mosso da motivi che toccano la sua personale responsabilità per la salute spirituale propria o altrui.

Da quanto abbiamo esposto derivano principalmente due conclusioni:

1o – Nella Chiesa, altrimenti che nello Stato, il soggetto primordiale del potere, il giudice supremo, la più alta istanza d’appello, non è mai la comunità dei fedeli. Non esiste dunque, né può esistere nella Chiesa, quale è stata fondata da Cristo, un tribunale popolare o una potestà giudiziaria promanante dal popolo.

2o – La questione dell’estensione e della grandezza della potestà ecclesiastica si presenta anch’essa in un modo del tutto differente da quella riguardante lo Stato. Per la Chiesa vale in primo luogo la espressa volontà di Cristo, che poteva darle, secondo la sua sapienza e bontà, mezzi e poteri maggiori o minori, salvo sempre quel minimo necessariamente richiesto dalla sua natura e dal suo fine. La potestà della Chiesa abbraccia tutto l’uomo, il suo interno e il suo esterno, in ordine al conseguimento del fine soprannaturale, in quanto che egli è interamente sottoposto alla legge di Cristo, della quale la Chiesa è stata dal suo divin Fondatore costituita custode ed esecutrice, così nel foro esterno, come nel foro interno o di coscienza. Potestà dunque piena e perfetta, quantunque aliena da quel «totalitarismo», che non ammette né riconosce l’onesto riferimento ai chiari e imprescrittibili dettami della propria coscienza e violenta le leggi della vita individuale e sociale scritte nei cuori degli uomini.[6] La Chiesa infatti con la sua potestà mira non ad asservire la persona umana, ma ad assicurarne la libertà e la perfezione, redimendola dalle debolezze, dagli errori e dai traviamenti dello spirito e del cuore, i quali, prima o poi, terminano sempre nel disonore e nella schiavitù.

Il carattere sacro, che alla giurisdizione ecclesiastica deriva dalla sua origine divina e dalla sua appartenenza alla potestà gerarchica, deve ispirarvi, diletti figli, un’altissima stima del vostro ufficio e spronarvi ad adempirne con viva fede, con inalterabile rettitudine e con sempre vigile zelo gli austeri doveri. Ma, dietro il velo di questa austerità, quale splendore si rivela agli occhi di chi sa vedere nel potere giudiziario la maestà della giustizia, la quale in tutta la sua azione tende a far apparire la Chiesa, la Sposa di Cristo, «santa e immacolata»[7] davanti al suo Sposo divino e davanti agli uomini! In questo giorno in cui si apre il vostro nuovo anno giuridico, Noi invochiamo sopra di voi, diletti figli, i favori e gli aiuti del Padre dei lumi, di Cristo, al quale Egli ha rimesso ogni giudizio,[8] dello Spirito d’intelletto, di consiglio e di fortezza, della Vergine Maria, specchio di giustizia e sede della sapienza, mentre con effusione di cuore impartiamo a voi tutti qui presenti, alle vostre famiglie, a tutte le persone che vi sono care, la Nostra paterna Apostolica Benedizione.

[1] Lc 22, 19.

[2] Gv 20, 21-23.

[3] Mt 16, 19; Gv 21, 15-17.

[4] Mt 18, 18.

[5] Mt 28, 18-20; Gv 20, 21.

[6] Rm 2, 15.

[7] Ef 5, 27.

[8] Gv 5, 22.

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A SANTA MADRE IGREJA, NA SUA PESSOA MORAL, É IMUNE AO MUNDO

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa Pio XI, em passagens da sua encíclica “Lux Veritatis”, promulgada em 25 de Dezembro de 1931:

«A História, Luz de Verdade e testemunha dos tempos, quando directamente consultada e diligentemente examinada, ensina que a promessa feita por Jesus Cristo: “Eu estou convosco… até à consumação dos séculos!” (Mt 28, 20), nunca faltou à Sua Igreja, e que portanto, nunca faltará no futuro. E mais, quanto mais furiosos são os vagalhões pelos quais é sacudida a nave de Pedro, tanto mais pronta e vigorosamente ela experimenta a ajuda da Graça Divina. E isto aconteceu, de maneira especialíssima, nos primeiros tempos da Santa Igreja, não sòmente quando o Nome Cristão era tido como delito execrável, a ser punido com a morte, mas também a verdadeira Fé de Cristo, sacudida pela perfídia dos heréticos, que enfureciam, sobretudo no oriente, foi posta em gravíssima prova. Com efeito, como os perseguidores dos cristãos, um após o outro, desapareceram miseràvelmente, e o próprio Império Romano caiu em ruína, assim como todos os heréticos, que enfureciam, sobretudo no oriente, como ramos secos, (cf.Jo 15,6), porque cortados da videira Divina, já não puderam receber a linfa vital, nem frutificar.

A Igreja de Deus, porém, ENTRE TANTAS TEMPESTADES E VICISSITUDES DE COISAS CADUCAS, CONFIANDO ÙNICAMENTE EM DEUS, PROSSEGUIU, EM TODO O TEMPO, O SEU CAMINHO COM PASSO FIRME E SEGURO, E NUNCA CESSOU DE DEFENDER, VIGOROSAMENTE, A INTEGRIDADE DO SAGRADO DEPÓSITO DA VIDA EVANGÉLICA, QUE LHE FOI CONFIADO PELO FUNDADOR DIVINO.

Estes pensamentos se apresentam à nossa mente, veneráveis irmãos, ao começar a falar-vos, nesta carta, daquele acontecimento, verdadeiramente faustíssimo, que foi o concílio celebrado em Éfeso, há quinze séculos. Nele, como foi desmascarada a astuta protérvia dos errantes, assim brilhou a firmíssima Fé da Igreja, amparada pela ajuda Divina. (…)

Mas considerando nós, atentamente, este acontecimento histórico, os factos e as circunstâncias a ele unidos, julgamos conveniente para o Ofício Apostólico, que nos foi confiado por Deus, dirigir-nos pessoalmente a vós, com uma encíclica, nesta última parte do centenário e na comemoração do tempo Sagrado no qual a Bem-Aventurada Virgem Maria deu à luz o Salvador para nós, e entreter-nos convosco sobre este argumento que certamente é da maior importância. Assim fazendo, nutrimos a firme esperança que não sòmente as nossas palavras serão agradáveis e úteis a vós e aos vossos fiéis, mas se elas forem atentamente meditadas, com ânimo sedento de Verdade, pelos nossos irmãos e filhos dilectíssimos que estão separados da Sé Apostólica, confiamos que eles, como que convencidos pela História, Mestra da vida, não poderão não experimentar, pelo menos, a saudade do único rebanho sob o único Pastor, e da volta para aquela verdadeira Fé que zelosamente se conserva sempre segura e inviolada na Santa Igreja Romana. Com efeito, no método seguido pelos Padres, e em todo o desenvolvimento do Concílio de Éfeso, ao opor-se à heresia de Nestório, brilharam especialmente aos olhos do mundo, três Dogmas da Fé Católica. Nós os trataremos de maneira especial, e são eles: Em Jesus Cristo, ÚNICA É A PESSOA, E ELA É DIVINA; TODOS DEVEM RECONHECER E VENERAR A BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA COMO VERDADEIRA MÃE DE DEUS; E FINALMENTE, NO ROMANO PONTÍFICE, ESTÁ, POR DIVINA INSTITUIÇÃO, A AUTORIDADE SUPREMA, MÁXIMA E INDEPENDENTE, SOBRE TODOS OS CRISTÃOS, E CADA UM EM PARTICULAR, NAS QUESTÕES CONCERNENTES À FÉ E À MORAL.»

 

Uma das mais graves incompreensões do nosso universo cultural, e que constitui simultaneamente uma grande heresia, é a asserção de que a Santa Igreja, tendo permanecido durante séculos intangível às vicissitudes da História, ao progresso da ciência e da técnica, e às aspirações liberais das massas, teria sido vencida, na sua mesma essência, finalmente, no concílio Vaticano 2, não logrando mais oferecer resistência à marcha do mundo.

Esta tese consubstancia, quase sem dar por isso, a afirmação da falibilidade e defectibilidade da Santa Igreja, autorizando, de pleno direito, a redutibilidade da constituição da mesma Igreja às condições de evolução do mundo. Nesse quadro conceptual, A UNIDADE DA SANTA IGREJA SERIA UMA PARTICULARIZAÇÃO DA UNIDADE DO MUNDO. Tal pressuporia que a Santa Igreja evoluiria no mundo e com o mundo. Recordemo-nos das teses modernistas ANATEMATIZADAS pelo decreto “Lamentabili”, aprovado por São Pio X em 4 de Julho de 1907: Tese LVIII- A verdade não é menos imutável do que o homem, pois evolui com ele, nele e por ele. Tese LIX- Cristo não ensinou um corpo fixo de doutrina, aplicável a todos os tempos e a todos os homens, inaugurou, ao invés, certo movimento religioso, que se adapta, ou deve ser adaptado, aos diversos tempos e lugares.

A redutibilidade da Santa Igreja ao mundo, ANIQUILA-A, RADICALMENTE, COMO PESSOA MORAL DE DIREITO DIVINO; porque, como é evidente, UMA INSTITUIÇÃO DIVINA É, ENQUANTO TAL, ABSOLUTAMENTE INCOMENSURÁVEL COM OS ACIDENTES DA HISTÓRIA, E IMUNE ÀS SUAS VICISSITUDES. E assim como só há um Deus, e só há um Cristo, assim só pode haver uma instituição de Direito Divino Sobrenatural – A Santa Madre Igreja. Entre Deus Nosso Senhor e o Seu Corpo Místico vigora uma plena analogia transcendental de unicidade.

Argumentar-se-á, que Nosso Senhor Jesus Cristo não foi imune ao mal que o mundo Lhe quis fazer. A comparação não procede, visto que Nosso Senhor, por direito, e Nossa Senhora, por privilégio, eram, intrìnsecamente, imortais e impassíveis, pois não contraíram pecado original. Nosso Senhor e Nossa Senhora, por si mesmos, pela Sua própria constituição ontológica, SÓ DEVERIAM VIVER NO PARAÍSO TERRESTRE. Mas porque quiseram, Redentor e Co-Redentora, para nossa Salvação, habitar um mundo ferido pelo pecado original, e que é também um verdadeiro oceano negro de pecados actuais, então, SUBMETERAM-SE, EXTRÌNSECAMENTE, ÀS PENOSAS CONDIÇÕES DE UM MUNDO ONDE IMPERAM A DOENÇA E A MORTE. Deve-se crer que Nossa Senhora, se morreu, não foi por causas puramente internas, no plano ontológico, precisamente, porque não contraíra o pecado original, mas tal não impedia um desgaste operado pela miséria global deste mesmo mundo. Nosso Senhor, se não tivesse morrido na Cruz, teria falecido vítima de idêntico desgaste, a menos que tal não estivesse nos planos da Divina Providência. No Paraíso Terrestre, Adão e Eva só eram imortais pela acção positiva dos frutos da árvore da vida; visto que A MORTE É NATURAL PARA UM CORPO MATERIAL, E NUM MUNDO NÃO GLORIFICADO.

Neste quadro conceptual, certamente que a Santa Madre Igreja, Corpo Místico de Cristo, deverá apresentar, obrigatòriamente, uma determinada erosão na sua face humana. Por exemplo: Em França, na primeira guerra mundial, o clero era compelido à prestação do serviço militar, possuindo a conscrição uma malha terrìvelmente densa. Portugal e Brasil não sabem o que é um recrutamento desse tipo, com severa mobilização de tropas territoriais até aos 45 anos, e pena de morte para desertores. E pior ainda: Com a morte, em combate, de um soldado em cada cinco! O que é facto é que foram mobilizados 25000 sacerdotes franceses, dos quais morreram cinco mil. Imagine-se a enorme, mesmo a descomunal, perturbação espiritual, e até moral, causada nas fileiras do clero. Porque é contrário a todo o Direito Divino Sobrenatural, bem como a todo o Direito Canónico, o simples alistamento militar de sacerdotes, a vida de caserna, quanto mais a sua participação em combates. Um sacerdote, ou um Bispo, pode dirigir superiormente uma guerra, agora que ele próprio combata – é um gravíssimo abuso. Há outras formas segundo as quais a face humana do Corpo Místico pode ser gravemente abalada, como por exemplo as grandes Revoluções de 1789 e 1848, em França, ou as grandes perseguições anti-católicas, no México e em Espanha; ou as políticas diabólicas desenvolvidas em regime de união pervertida entre a Igreja e o Estado, como sucedeu em Portugal e nos países de antiga Tradição Católica em geral, durante todo o século XIX.

Não se nega, que em meados do século XX, existia no clero católico uma forte mal estar, com graves negligências episcopais, de que já São Pio X se lamentara. Não é absurdo sustentar que a grande maioria do clero e Bispos se encontravam, habitualmente, em estado de pecado mortal. Mas clero em pecado mortal É AINDA CLERO CATÓLICO VÁLIDO, QUANTO À ORDEM E QUANTO À JURISDIÇÃO, EMBORA ESPIRITUALMENTE MORTO. O próprio Pontificado de Pio XII foi fraco, permitindo que as metástases cancerosas se disseminasem. Mas, como referimos, A PESSOA MORAL DE DIREITO DIVINO, NA SUA UNIDADE, NA SUA INDEFECTIBILIDADE, NA SUA INFALIBILIDADE, E ATÉ MESMO NA SUA IMPECABILIDADE – PORQUE NAQUILO QUE A IGREJA POSSUI DE DIVINO, NÃO PODE PECAR, EMBORA O HOMEM PAPA NÃO SEJA IMPECÁVEL – ESSA PESSOA MORAL SITUA-SE INFINITAMENTE ACIMA DAS VICISSITUDES TERRENAS. A Santa Madre Igreja, pode fraquejar espiritualmente, porque também é humana, como fraquejou, e de que maneira, no século X, o século de ferro. Mas, ENQUANTO É A SANTA IGREJA, ENQUANTO É DIVINA, NÃO PODE NAUFRAGAR. Para PARECER cair, ferida de morte, então já não é a Santa Igreja, mas outra instituição infernal que lhe é estranha, e que lhe usurpou, extrìnsecamente, as aparências, as funções, e o próprio Nome Católico. Assim como não se pode operar uma rotura na continuidade Apostólica, assim a Santa Madre Igreja não pode soçobrar, essencialmente, perante o mundo, perante a História, perante a ciência, e perante as paixões demenciais das massas. CONSEQUENTEMENTE, NÃO SE DEVE, EM CASO ALGUM, AFIRMAR QUE A SANTA IGREJA FOI VENCIDA PELO MUNDO. ASSIM COMO NOSSO SENHOR TAMBÉM NÃO O FOI, E QUANDO MORREU NA CRUZ, FOI PRECISAMENTE QUANDO VENCEU O MUNDO, POIS QUE O REDIMIU, PELA SUA JUSTIÇA E PELA SUA MISERICÓRDIA. AS REALIDADES DIVINAS JAMAIS PODEM SER VENCIDAS, VENCEM, SIM, QUALITATIVAMENTE, FORMALMENTE, QUANDO SÃO, MATERIALMENTE, APARENTEMENTE, DERROTADAS. A GRANDE DESGRAÇA DO VATICANO 2, O GRANDE ECLIPSE DA VERDADE, FOI, EM CERTO SENTIDO, A MAIOR PROVA DA DIVINDADE DA SANTA MÃE IGREJA. É QUE AS OUTRAS, AS FALSAS RELIGIÕES DO MUNDO, ESSAS JÁ SATANÁS AS TINHA!

Nunca se deve perder de vista a perfeita analogia entre a vida de Nosso Senhor sobre a Terra, e a vida atribulada da Sua Igreja através dos séculos. As situações tipo da vida de Cristo possuem o devido correspondente na odisseia da Mãe Igreja. Agora vivemos a Paixão e Morte da Santa Igreja, sempre referidas a Nosso Senhor. Mais pròpriamente, encontramo-nos a viver, profunda e sofridamente, o tempo de Igreja correspondente ao tempo em que Jesus permaneceu no túmulo. Santo Tomás explica que se durante a morte de Jesus se consagrasse a Divina Eucaristia, o Corpo e só o Corpo do Senhor, morto, estaria no Pão, e o Sangue e só o Sangue estaria no Vinho. Logo a Alma do Senhor não estaria na Eucaristia, mas sim a Pessoa do Verbo, pois Esta se encontra hipostàticamente unida ao Corpo e à Alma. Mas o Senhor morto não cessava de irradiar a Sua Graça, e foi até a Alma separada do Senhor Quem libertou as almas dos justos do Antigo Testamento, cativas no seio de Abraão.

Não desesperemos, porque a infinitamente fecunda operação Divina, a Cabeça eminente do Corpo Místico, continua misteriosamente activa nos frutos pré-escatológicos da Santa Igreja. Eles são imensamente mais ricos, embora ocultos, do que nós sonhamos.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 14 de Agosto de 2017

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral  

 

A IGREJA CONCILIAR, O MUNDO E A TRANSCENDÊNCIA

 

  • O livro inédito do Dr. Pacheco Salles, de quase 700 páginas, descreve passo por passo, como a igreja do Vaticano 2 realizou, entre outros objetivos, o  obscuro desvio imanentista, do XIVº século, de humanizar a Transcendência para estabelecer uma amizade humanitarista com o mundo moderno.

 

 

J. B. Pacheco Salles (em «A Figura deste Mundo»)

Dialogo com o Mundo: eis a máxima de nossos dias, a grande preocupação, a última descoberta para os difíceis caminhos do Espírito. E tendo partido das alturas de onde veio, deve ser recebida como um sinal dos tempos, pois é possível que logo já não haja mais tempo, e tudo tenha de ser finalmente resolvido diretamente em face da Eternidade e da Transcendência, afastadas as sombras, as figuras, os enigmas e as astúcias.

Por isso cumpre, e é urgente, estudar para esclarecer os termos postos em presença: Dialogo – Mundo. O primeiro se apresenta hoje pejado de conteúdo emocional; é uma palavra mágica, com muito maior encantamento do que significado. O segundo, desde os tempos dos pré-socráticos é um mistério para o homem, com sua conotação ambígua e denotação cambiante e sibilina. Que é Mundo? Que não é Mundo?

E agora surge uma primeira dificuldade. Diálogo supõe, imediatamente, uma pluralidade de sujeitos dialogantes; com um só sujeito, com efeito, não se poderá obter mais do que um monólogo. Alem do mais, os sujeitos realmente distintos devem apresentar uma certa diversidade de opiniões, ou, pelo menos, de informação. Do contrário, teríamos apenas um monólogo ampliado, em que uns se limitariam a fazer eco aos outros e reciprocamente. Portanto, para dialogar com o Mundo é preciso não ser Mundo, ou ser coisa diferente do Mundo.

Mas ai surge a questão: é que o dialogo, alem de supor a pluralidade de sujeitos, supõe também um terreno comum entre eles que torne possível uma linguagem igual e perfeitamente acessível a todos. Ora, qual o terreno comum entre o Mundo e o que não é Mundo? Mesmo porque um dos sentidos legítimos da palavra “mundo” é o de ser precisamente o terreno comum daquelas pessoas que podem entre si dialogar, e na medida em que o podem.

Num certo sentido até, e numa alta generalização, pode-se conceber como sendo Mundo tudo aquilo que pode ser articulado de modo coerente e sistemático, numa linguagem comum, empregada por algum grupo social. Conforme parece evidente, não existe mundo de um só (a não ser patologicamente, como na esquizofrenia, onde a mente se precipita no caos). E ainda naqueles casos em que alguém possa estar em completo isolamento, o seu sentimento do mundo continua a ser o da cultura a que pertence.

Mundo é pois algo de essencialmente compartilhável entre muitos: dai a sua necessária correlação com a cultura e a linguagem. Por outro lado, entende-se por “mundo” um sistema ordenado e estável de referências, a criar uma perspetiva geral e uniforme, onde se pode inserir a atividade humana. É assim, por exemplo, que se pode falar no Mundo da Física, no Mundo da Matemática, no Mundo da Historia, no Mundo da Arte, no Mundo da Religião, no Mundo da vida quotidiana e até no Mundo dos mundanos, sem contar vários outros aqui não enumerados.

Haverá entre estes vários Mundos uma tal solidariedade que os torne simples manifestações de um só e mesmo Mundo básico e total? Descobrir a chave do Mundo Total tem sido a constante ambição do raciocínio científico, e, muito especialmente, a meta de todos os racionalismos. Que os vários Mundos acima enumerados não são compartimentos estanques, mas admitem múltiplas comunicações e influências, e o que parece óbvio. Mais ainda, não se pode negar a existência, até certo ponto, de uma efetiva gradação hierárquica entre eles…

A esta altura poderia alguém sugerir que o Mundo básico, do qual todos os outros seriam meras traduções, e ao qual todos deveriam ser reduzidos em última instância, seria o Mundo da Filosofia, posto que a Filosofia se aplica ao estudo dos princípios fundamentais de todo o conhecimento. Contudo, se há uma coisa que jamais os filósofos conseguiram estabelecer foi um mundo próprio.

A República de Platão, governada pelos filósofos, parece relegada definitivamente ao museu das utopias. O que, no decurso da história, os filósofos têm feito, foi, sucessivamente, colocar como sistema universal de coordenadas os princípios da Física, da Matemática, da Lógica, da História, da Biologia, da Economia, da Estética, da Tecnologia, quando não alguns princípios de nítida inspiração religiosa. (alias não seria difícil descobrir uma teologia larvada em todo sistema filosófico). E por fim veio o Existencialismo abalar a própria noção de mundo como algo coerente e sistemático, transformando-o em simples correlatum de uma consciência apavorada ou amalucada; ou ainda num enigma para ser decifrado; exatamente para ser transcendido.

Estaria, por acaso, na Religião a chave do problema, como pareceria decorrer das precedentes considerações? Mas a Religião  é caracterizada precisamente por ser extra-mundana: ela vem de fora do mundo e aponta, e é um caminho para fora do mundo. É este o traço essencial de uma reli­gião autentica (pois existem as inautênticas, como se verá). O Outro-mundo é um mundo inteiramente outro, de tal forma outro, que só por uma analogia muito distendida, senão por mero espirito de simetria, pode ser chamado “mundo”.

Em consequência, o dialogo de uma autentica: religião com o Mundo acaba tendo o aspeto de uma altercação ou de um testemunho contra esse mesmo Mundo, como é aliás fartamente documentado pela Históoria. E o Mundo de uma religião autentica tem sempre o ar mortificado de uma totalidade voluntariamente frustrada, de algo defetivo e incompleto enquanto mundo, precisamente por e para estar aberto e voltado para a Transcendência, para aquilo que não é Mundo, pois o Mundo da Religião autêntica, em lugar de um centro absoluto de coordenadas referenciais, possui um núcleo orgânico de Signos e Símbolos, de uma utilidade prática imediata assaz reduzida e de uma eficácia bastante limitada para as tarefas especificamente mundanas, mas cuja finalidade própria é projetar o homem, a sociedade, a cultura, no espaço sideral da Transcendência, lembrando-lhe a todo momento de que a sua habitação neste inundo é precária, transitória e dececionante.

O Mundo da Religião autêntica é assim apenas um pedestal sobre que se levanta majestosamente aquele núcleo de Signos e Símbolos, dando-lhe consistência; e, tal como foi dito acerca do Outro-mundo, do qual pretende ser um reflexo terreno, só por uma extremada analogia pode chamar-se “mundo”.  Assim era, por exemplo, o Mundo Gótico. Por conseguinte, o verdadeiro diálogo da Religião com o Mundo consiste em convence-lo a deixar de ser Mundo: “Não rogo pelo mundo, sinão  por aqueles que me destes, porque são vossos” (Jo 17,9); ao que Bossuet acrescentou: “O mundo, ouve esta palavra que te condena. Deixa de ser o que és para que Jesus ore por ti.”

O Mundo da religião inautêntica

Este é verdadeiramente um Mundo, com a estrutura interna que lhe é própria, tendo ainda para mais consolida-lo a aprovação de uma (qualquer) religião reconhecida, o que tranquiliza a consciência dos homens. Ficam assim autorizados a fruir amplamente de todos os bens do Mundo, e são mesmo impelidos a isso, desde que respeitados certos limites morais. além disso, são até assegurados de um lugar pelo menos confortável  no Outro-mundo. Entretanto, mesmo quando tais religiões admitem uma vida de alem-tumulo, contudo fica perdido o sentido da Transcendência, pois o fulcro dos valores é posto neste Mundo, e o Outro- mundo é concebido ao modo de um Mundo, ou de um sub-mundo, ou de apêndice deste Mundo, ou até de um pis alter, como se vê tao claramente na religião dos gregos da época clássica. (ou do prêmio em forma de sexo na fé islâmica).

As religiões inautênticas da imanência tendem para o eudemonismo e para o humanitarismo, em que acabam dissolvendo-se, restando ao final do processo, já uma vaga animação espiritual, já um resíduo declaradamente mágico ou chamanista, pelo qual os adeptos procuram obter vantagens puramente terrenas, nada porém que de longe se assemelhe a um acesso a Transcendência. Deve-se observar aqui que as religiões podem ser autênticas ou inautênticas de fato ou de direito, conforme o sejam pelo seu próprio sentido espiritual intrínseco ou pelo eventual estado de espírito dominante em seus adeptos numa determinada época.

É assim que vemos surgir gradualmente um anseio de transcendência entre os gregos, no culto dos mistérios. Seja como for, autêntica ou inautêntica, essa religião se revela, tanto quanto a Filosofia, incapaz de resolver o problema. O Mundo continua sem a sua chave de cúpula; em lugar dela, aparece uma incômoda multiplicidade de tentativas de cúpulas particulares, que, embora até certo ponto se escorem e mesmo se articulem, não entram no mesmo projeto e por isso não chegam a fundir-se numa só cúpula global, que dê ampla e adequada proteção ao homem.

E a situação é de fato paradoxal, pois, como vimos, a ideia de Mundo implica uma Totalidade final; mas com meros totais parciais de quantidades alíquotas, uma vez que de estruturas diferentes, totais estes que tendem a estender-se ilimitadamente e não a integrar-se num total final, o Mundo será sempre uma tentativa inacabada ou um wishful thinking, nunca uma realidade plena e atual. Será sempre algo dependurado num futuro mais ou menos próximo ou remoto. É a perpétua esperança de um mundo melhor; o que atesta que o mundo presente não é satisfatório, não é o que se desejava que ele fosse. E, quando por qualquer motivo não há mais futuro, também não há mais esse Mundo.

Parece até que sem alguma dose de sonho não há mundo possível. Talvez isto explique a voga do uso de estupefacientes, da Science-Fiction, a revivescência dos cultos mágicos e esotéricos, e a moda do marxismo. Será que a chave será encontrada, por ventura, no Mundo da vida quotidiana ou quiçá mesmo no da vida mundana? Na falta de melhor, convêm  não desprezar nenhuma hipótese! Ora, para o Mundo da vida quotidiana vivemos todos solidamente assentados sobre a Terra, a qual por sua vez se acha solidamente encastoada no Sistema Solar, sob a proteção reconfortante de Leis e Princípios de uma inabalável validade, ainda que extremamente complexos e de árdua compreensão, se é que não de todo herméticos.

Igualmente na Terra tudo esta minuciosamente regido por outras Leis e Princípios que se revestem da mesma seriedade dos primeiros. E isto tudo é universalmente verdadeiro para todos os lugares e todos os tempos. Em consequência, o Sol nascerá sempre na hora prevista e seus eclipses serao cronometricamente exatos; as estações se sucederão na ordem e na época assinaladas; o pão será entregue todas as manhãs e com igual regularidade serão pagos os ordenados e os rendimentos dos capitais e dos bens; o Progresso continuara garantindo um sempre maior bem estar, graças às descobertas milagrosas da Ciência, possibilitadas pelo aparecimento constante de Gênios em todos os seus ramos; a inteligência e habilidade dos economistas evitará o surto de novas crises; a ONU conjurará o perigo de uma nova guerra mundial; nenhuma bomba nuclear será deflagrada; e, num plano mais doméstico, a Polícia garantirá com eficiência os direitos dos cidadãos, que se verão também ao abrigo das perseguições dos potentes, e nem correrão o risco de serem esmagados por alguma engrenagem desregulada da Administração Pública; a Justiça Social triunfará sempre mais completamente, cada vez mais eliminando e por toda a parte as desigualdades, de maneira que em breve todos poderão possuir as mesmas geladeiras elétricas, os mesmos rádios, televisores, automóveis, verdadeiros portentos mecânicos, aptos a tornar felizes os homens.

A Medicina marcará triunfos espetaculares, conseguindo vencer males até agora incuráveis como o cancer; e, enquanto isso não acontece, sempre se alimenta a esperança, fundada numa crença secreta, de que, até lá, não se será atingido, bem como de que não haverá terremotos, maremotos e demais cataclismas, sendo que a própria morte aparece como algo recuado e confuso, possibilidade quase improvável para os cautelosos. Para roborar essa crença, que consolida e da o toque final ao Mundo da vida quotidiana, é de muito recurso a religião, isto é, a inautêntica.

E assim parece termos conseguido por fim uma imagem global do Mundo, que articula num só sistema coerente de referências a realidade natural juntamente com as atividades humanas. Contudo, é de todo em todo patente a precariedade de suas suposições, a partir dos postulados fisico-matemáticos até a crença totalmente irracional numa “boa sorte”, que é o seu coroamento. Pode ser considerado um exemplo tipico de wishful thinking, ingenuamente centrado num futuro para fugir ao presente, em que (tal sorte e harmonia) é dolorosamente desmentido a cada momento.

Conclusão preliminar do Autor (por AD)

O capítulo seguinte, – A Transcendência, incia: «Poderia parecer, a vista das análises precedentes, ser impossível escapar, quer ao perspectivismo, quer ao ceticismo; mas não é verdade. Semelhante conclusão só seria procedente no caso de se identificar Mundo com Realidade. Acontece, porém, que “Mundo” é o termo justamente menos satisfatório de tomar consciência da realidade, como aliás, a esta altura, já se podia prever. Evidentemente, não é aqui o lugar para se fazer um levantamento completo dos vários modos e níveis da consciência. Para o fim que nos interessa, ou seja, a caracterização do que seja – “Mundo”, basta lembrar alguns princípios fundamentais. Antes de mais nada, deve-se ter em vista a sábia advertência de Sto.Tomas de Aquino: “Quia vero rerum essentiae sunt nobis ignotae, – virtutes autem earum innotescunt nobis per actus, utimur frequenter nominibus virtutum vel potentiarum ad essentias significandas” (De Veritate, Q. 1, a. 1 c). (Dado que a essência das coisas não nos é conhecida, nem os seus poderes são revelados pelos seus atos, frequentemente limitamo-nos ao uso de nomes para dar significado a sua essência e potências, nomeando Realidade =Mundo).

Ora, o «Mundo» desconhecendo a essência do homem, desconhece o ator central na realidade deste mundo, pode conhecer suas ações, que são efeitos, mas não a sua causa que está “na essência da alma, isto é, no que é mais intimo ao homem e onde mais, por conseguinte, se pode esperar a possibilidade de uma visualização fenomenológica. Dado pois que, se pela Religião revelada podemos conhecer o que Deus nos revela de Sua, de nossa, e da essência do mesmo mundo, é através de Sua Transcendência e não da imanente visão do mundo que podemos conhecer as realidades desta vida neste mundo. A perda ou renúncia da noção de Transcendência e de absoluto pela entidade conciliar, priva esta da capacidade de ensinar decentemente, como deveria, a Realidade do mundo que se espelha na Palavra divina. Por isto tremem diante até a verdade contida na Mensagem profética de Fátima.

ATÉ EM MOSTEIROS TRADICIONALISTAS VIGE HOJE UMA ESPIRITUALIDADE IMANENTE

Arai Daniele

O Deus da transcendência absoluta não pode sequer ser divisado pela nossa inteligência finita, mas apenas induzido como condição necessária da existência e sentido deste mundo. E tanto mais de Sua Igreja neste mundo. Tal conhecimento induzido que obtemos de Deus, mesmo se segue o sentido verdadeiro, isto é, que se reconheça sempre que Deus excede infinitamente tudo o que possamos pensar e dizer d’Ele, é inevitavelmente deficiente.

Conhecemos, porém, as obras de Deus no mundo, como explica São Paulo:

«A ira de Deus se revela do Céu contra toda impiedade e perversão dos homens que com a injustiça sufocam a verdade; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto aos homens, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos através da inteligência por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis…” (Romanos 1:18-20).

Na Suma Contra os Gentios, Santo Tomás de Aquino explica que há três modos pelos quais o homem pode conhecer às coisas divinas. “o primeiro, enquanto o homem mediante a luz natural da razão e pelas criaturas sobe até o conhecimento de Deus; o segundo, enquanto a verdade divina que excede o intelecto humano, desce até nós pela Revelação, não para ser vista como demonstração, mas para ser crida como pronunciada com palavras divinas; o terceiro, enquanto a mente humana é elevada à perfeita intuição das coisas reveladas”.

Mais adiante nesta Suma contra os Gentios, Santo Tomás faz uma analogia entre Deus e a arte: “Pela meditação sobre as obras podemos admirar de algum modo e considerar a sabedoria divina: as coisas realizadas pela arte são realizadas à Sua semelhança”. De modo a continuar com o pensamento que o homem conhece a Deus pela luz natural da razão e pela suas obras, entre as quais os atributos criativos que concede ao homem. Estes refletem o seu Autor, e por isso Santo Tomás ensina: “Ora Deus, pela sua sabedoria, deu o ser às coisas, razão por que é dito: Tudo fizestes com sabedoria (Sl 103,24). Daí podermos, pela consideração das obras, recolher a sabedoria divina, que está como que espelhada nas criaturas por certa comunicação da sua semelhança”. Se o homem como artista produziu uma obra de arte quer dizer que a sua  capacidade supera o que fez e esta demonstra que há nela traços que indicam os inefáveis reflexos de seu Autor. Especialmente na música. Santo Tomás o explica: Como o bem perfeito do homem consiste em conhecer a Deus de algum modo, foi-lhe dado um caminho pelo qual pudesse elevar-se ao conhecimento de Deus, reconhecendo como todas as perfeições descem de Deus, sumo vértice delas, de Deus ao homem, ordenadamente; partindo de coisas inferiores e subindo gradativamente, de modo a que se progrida no conhecimento de Deus.

A verdade divina que excede o intelecto humano, desce até nós pela Revelação, para ser crida como palavras pronunciadas por Deus. A instituição da Sua Igreja terrena e da Cristandade é parte essencial da obra de Deus, estando presentes nela claros sinais de Sua Transcendência, como seja a presença direta de Sua Autoridade infalível. Relativizar o poder pontifical seria pois crer numa Igreja imanente: Deus põe e os homens dispõem!

“Adúlteros, não sabeis que a amizade deste mundo e inimiga de Deus? Assim, todo aquele que quiser ser amigo deste seculo, constitui-se inimigo de Deus.” (lac. 4:4)

Uma aversão rebelde à Transcendência – Sabemos pela História como a influência do conceito de Transcendência seja o mais constante e universal; em todos os tempos e lugares sempre se acreditou na divindade e na vida que transcende o que se conhece. Contudo é o que mais obstinadamente procura o homem no seu «progresso» mascarar, controverter ou negar. E nisto ele é poderosamente auxiliado pelo fato de que, se a existência mesma da Transcendência se impõe a todo o momento, a sua natureza é, entretanto, de si mesma, obscura e enigmática.

Ora, a religiosidade humana é a ideia constante ligada à de Transcendência, mas em si é sentimento humano que se eleva ao desconhecido e obscuro; não é a Religião que vem de Deus ao homem. Qualquer exemplo que se observe nas diversas religiões, sob os mais diferentes modos e sentidos, encontra-se a mesma preocupação primária do homem exilado de encontrar um lugar seguro, – ao abrigo da Transcendência -, ou, pelo menos, em algum terreno comum onde entrar em termos religiosos com ela, como se isso não representasse nega-la objetivamente, mesmo sem intenção expressa de fazê-lo. Nestes termos essa aversão transparece também nas diversas interpretações do Culto no Cristianismo, de modo aberto nas várias religiosidades das seitas protestantes.

O Cristianismo católico está isento dessas variações enquanto fiel à Igreja como esta foi instituída, tendo por Cabeça invisível Nosso Senhor Jesus Cristo e na terra a visível no Seu Vigário. Não importa a pessoa humana do Papa em si, mas o que ele representa como sinal vivo da Transcendência invisível ao mundo. De fato seu poder não vem nem da Igreja nem dos homens, mas imediatamente de Deus ao aprovar a sua eleição.

Podia ter dado o Seu poder, desde 1958 ao presente, a clérigos «eleitos papa» para mudar e é devastar a Sua Igreja neste curto período, mais do que poderiam ter feito em séculos todos os heresiarcas e inimigos da Igreja? Se isto fosse possível então seria como dizer que Deus não conhecia as intenções desses indivíduos e que permitia positivamente que Sua Igreja guiasse à perdição, o que entra no nível da blasfémia.

Diga-se do poder da infalibilidade de seu Magistério o mesmo, isto é, concessão imediata de um poder invisível, mas impossível aos homens; só possível a Deus. Desse sinal deriva tudo o mais na Igreja, do Culto aos Sacramentos. Tudo isto ocorre la esfera certa mas invisível da Fé, suscitada em cada alma diretamente por Deus mesmo. Logo, relativizar a Transcendência do poder do Sumo Pontífice significa referir-se a outra igreja cujo chefe seria como o chefe de governo nas sociedades humanas; como se este cargo não fosse exercido para a representação na fé e para a Fé, a missão ditada pela Transcendência para a qual o cargo existe. Assim uma Igreja com um papa reconhecido herético seria uma contradição. Só numa igreja imanente poderia ser cogitado um chefe com missão própria, desviada em questões de Fé e de Culto . Eis que a igreja do Vaticano 2 e seus papas, sendo desligada da Transcendência, isto é da razão de seu mesmo poder, deixa de ser a Católica, mas passa a ser uma entidade imanente como tantas. Assim a abertura conciliar ecumenista, faz com que estejam na mais vasta companhia onde “só falta Deus transcendente, substituído por uma ilusão imanente”!

A questão pode ser colocada de maneira diferente na pergunta: onde a espiritualidade dos que aceitam uma igreja com «papas» duvidosos, senão abertamente portadores de doutrinas estranhas à continuidade apostólica da Igreja de Deus, encontram sinais de sua Transcendência? Se esta não aparece onde deveria ser mais clara, pois representa Jesus Cristo mesmo na Sua perfeição de Chefe e Mestre absoluto, onde podem ver esse Sinal, nos sacramentos? Mas a legitimidade destes não dependem do Poder supremo?

Aqui o dr. Pacheco Salles, autor da «Figura deste Mundo», faz notar que, “para muitos adeptos do movimento litúrgico, a Liturgia católica não seria só uma forma de culto mas também o próprio objeto do culto, pois seria o prolongamento ritual da Encarnação de Deus na humanidade, que teve o ponto de partida no Cristo histórico, mas cuja realização prossegue no Cristo litúrgico e comunitário, pela participação dos fieis. O exercício da liturgia seria assim o prosseguir da -vida de Cristo. E, na medida em que a vida de alguém se identifica com esse mesmo alguém, a liturgia seria de algum modo o próprio Cristo. O que foi mais acentuado na nova missa, em que a presença de Cristo é posta muito mais na celebração coletiva do que numa transubstanciação efetiva das espécies.” Nota também, ser comum nas religiões arcaicas essa identificação do divino com o ritual, identificação que vai diminuindo a medida que aparecem formas religiosas mais elevadas. O que não deixa de ser curioso é essa revivescência no âmbito da Igreja Católica. de sentimentos arcaicos. Em tudo isso se manifesta a mesma tendência de se apropriar a Transcendência para de algum modo dar-lhe dimensões humanas, fazendo-a entrar na imanência do mundo.

São diversas manipulações espirituais humanas perante a Transcendência, que denotam os esforços compulsivos com que se procura construir a nova ordem do mundo, dentro do – qual esta possa realizar-se plenamente, sem a interferência de fatores extrínsecos. E aqui pode-se aludir à Torre de Babel, empreendimento titânico pelo qual tentou o homem sobrepor-se aos cataclismas e à cólera divina. È o paradigma que se repete na lenda de Prometeu que sacrifica-se para redimir a humanidade da mesquinharia – dos deuses olímpicos, ensinando-lhe as artes da civilização. São os salvadores que entendem libertar os homens da ignorância para edificar uma nova humanidade mais livre e justa.

Foi descrita acima em breves linhas a tendência que se manifestou nos últimos séculos para emancipar os homens do Cristianismo através da Filosofia, da Ciência, da História e chegou nos nossos tempos a estabelecer a operação de engano para fazê-lo através da mesma Religião. Deixemos que seja um seu feroz inimigo a descrever a operação atual. Trata-se de Ludwig Feuerbach no seu «A Essência do Cristianismo»: “O homem só será feliz quando finalmente terá liquidado aquele Cristianismo que o impede de ser homem. Mas não será por meio de perseguição que se poderá matar o Cristianismo, pois estas o alimentam e reforçam. Não. Será através de uma transformação interna irreversível do Cristianismo num humanismo ateu com a colaboração dos mesmos cristãos, guiados por um conceito de caridade que não terá nada a ver com o Evangelho”.

O católico já conhece de há muito esse plano posto em prática por ideologias ateias como o comunismo. Eles sabiam que deviam minar o Cristianismo na sua cultura e para isto basta citar a operação Gramsci e da Escola de Frankfurt. Mas ainda antes destes a da Maçonaria que sabia ser necessário minar a hierarquia da Igreja ao ponto de obter o papa de seus pensamentos. Tudo isto é conhecido e se tivessem faltado avisos naturais, os católicos tiveram também os sobrenaturais das aparições marianas. Não, o que faltou e falta é mesmo a visão da Igreja Transcendente que nada tem com aquela que insere o imanente na Sua mesma Autoridade, Doutrina, Liturgia e estrutura. Há os filósofos que divulgam a meia transcendência e imanência e até se dizem tomistas mas pensam em termos relativos quanto a autoridade do «papa»: este até podia ser meio herege mas ai é o direito canônico que deve provar e prover! Enfim, acreditam numa igreja acéfala de Sua origem mesma na Transcendência, porque teria por chefe, vigário de Cristo, um clérigo qualquer; não só alheio ao absoluto de sua posição, mas avesso a essas ideias, simbolizadas pelo «trirregno», ou por tronos, etc., estes incomodam sua «humildade pessoal», porque pretendem incarnar, não representar o Salvador!

A espiritualidade de uma resistência ao erro e à heresia desligada da visão desses clérigos desviados, recolhe-se na conservação da Santa Missa e nos Sacramentos, enquanto em Roma desabam as barreiras da Cidadela Católica. Querem alienar-se desse atentado ao coração da Igreja, como se pudessem ignorá-lo ao nível da Fé.

Se pelo menos nessas celebrações tradicionalistas invocassem com força a ajuda de Deus para que livre Roma de tanto mal inaudito! Mas não, para essa infeliz maioria dos que se crêem resistentes na missa deles, no momento mais solene do ato pronunciam a comunhão na fé com o anticristo no Vaticano, atual autor da pior demolição. Como poderiam pedir um Papa se já têm um operante plenamente na destruição? Sendo tão apegados ao poder da Santa Missa, o que é justo, deveriam saber que é através dela que a Igreja pede e recebe. Resta, ao invés, que nem menos têm consciência que pronunciam uma maldita mentira diante de Deus no centro do Santo Sacrifício de Seu Filho.

Iniciamos tratando do Mistério excelso da Igreja de Deus Transcendente para terminar com a observação da atual ambígua «espiritualidade» até de Conventos, naturalmente imanentes sem que percebam em que abismos andam e levam os fieis.

Que Deus tenha piedade dessa geração que aos poucos foi levada pela mais tortuosa das revoluções, do imanentismo clerical, a ser um apêndice da mesma igreja conciliar que combatem, permanecendo na comunhão com a sua «autoridade» de devastação!

Pedissem ao menos em suas orações que estas desaparecessem para que volte a haver um Papa Católico, aquele que será reconhecido na consagração que fará para a conversão da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, fato impossível nessa igreja imanente!

COMO TENTAR EXPLICAR A TRANSCENDÊNCIA DIVINA

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Escutemos o Papa São Pio X, num trecho do seu Motu próprio “Sacrorum Antistitum”, promulgado em 1 de Setembro de 1910:

«Antes de tudo, importa que a filosofia Escolástica, que nós ordenamos seguir, seja entendida, precìpuamente, a de Santo Tomás de Aquino; em torno da qual, tudo o que o nosso Predecessor estabeleceu, entendemos que deve permanecer em pleno vigor, e se necessário, renovamo-lo, confirmamos,  e severamente ordenamos que seja observado por todos. Se nos Seminários isso foi transcurado, caberá aos Bispos insistir e exigir que no futuro se observe. O mesmo ordenamos aos superiores das Ordens Religiosas. Advertimos depois os que ensinam, para se persuadirem que distanciar-se de São Tomás de Aquino, especialmente no que se refere à Metafísica, não ocorre sem grave dano. “UM PEQUENO ERRO NO INÍCIO”,assim fala Tomás, “NO FINAL TORNA-SE GRANDE” (De Ente et Essentia, proemium).

Posto assim o fundamento da Filosofia, edifique-se com suma diligência o edifício teológico. – Veneráveis irmãos, promovei com todo o tipo de criatividade possível o estudo da Teologia, para que os clérigos, saindo dos Seminários, levem consigo alta estima e grande amor, e tenham para com ela grande afecto. “Porque na grande e multíplice abundância de disciplinas que se apresentam à mente ansiosa de Verdade, de todos é sabido, que à Sagrada Teologia pertence de modo tal o primeiro lugar, que é antigo o dito dos sábios a atribuir às outras ciências e artes a função de servi-la, prestando-lhe auxílio como servas.”(Leão XIII, ap.in magna, 10/12/1889)

Agregamos aqui os que nos parecem também dignos de louvor: Os que, salvo o respeito à Tradição, aos Padres, ao Magistério Eclesiástico, com sábio critério, e com normas católicas (aquilo que nem sempre por todos é observado), procuram ilustrar a Teologia positiva, auferindo luz da História autêntica. Certamente, à Teologia positiva deve-se agora reservar parte mais ampla do que no passado; isso sem que em nada se perca da Teologia Escolástica, E SEJAM DESAPROVADOS COMO FEITORES DE MODERNISMO OS QUE TANTO ELEVAM A TEOLOGIA POSITIVA, PARECENDO QUASE DESPREZAR A ESCOLÁSTICA. (…)

Qualquer que, de algum modo, esteja infectado de modernismo,  sem descanso mantenha-se longe dos ofícios de dirigir e ensinar; se já estiver exercendo tal cargo – seja removido.

do mesmo modo seja feito com qualquer que favorecer o modernismo, em segredo ou abertamente, seja louvando os modernistas, seja atenuando sua culpa, seja criticando a escolástica, os Padres, o Magistério Eclesiástico, seja recusando a obediência à Autoridade Eclesiástica; assim também seja feito com quem se mostra amante de novidade Histórica, Arqueológica e Bíblica; e finalmente, com os que não cuidam dos estudos sagrados, ou parece que a esses antepõem os profanos.»

 

Não há univocidade entre Deus e o mundo, entre Deus e as Suas criaturas; ou seja: Deus e as criaturas não podem ser compreendidos mediante um conceito comum.

Nós possuímos, por exemplo, o conceito de homem, sob o qual cabe qualquer homem, mulher ou criança, passado, presente, ou futuro, saudável ou não, virtuoso ou não. A operação abstrativante da nossa inteligência retém certas notas perfeitamente definidoras da espécie humana, não considerando outras notas não essenciais à formação desse conceito. Assinale-se que os conceitos formados pela inteligência humana POSSUEM FUNDAMENTO VERDADEIRAMENTE OBJECTIVO, NÃO CONSTITUEM FICÇÕES DA MENTE. Além dos conceitos pròpriamente universais, como o de homem, em que a extensão varia na razão inversa da compreensão, temos ainda a considerar os conceitos análogos ou colectivos, como o de civilização europeia, por exemplo, nos quais, para idêntica luz intelectual, a compreensão é directamente proporcional à extensão. O conceito de Civilização mundial é mais extenso, mas também mais rico, do que o de civilização portuguesa.

Os Anjos são criados já na posse de espécies inteligíveis, representativas do universo sensível. Em virtude do grande potencial intelectual angélico, as espécies inteligíveis análogas possuem uma grande extensão concomitante a uma grande definição do particular. E QUANTO MAIS PERFEITO É O ANJO MAIS RICAS, MAIS EXTENSAS, E MENOS NUMEROSAS, SÃO AS SUAS ESPÉCIES ANÁLOGAS. Porque nos Anjos não existe, nem pode existir, qualquer raciocínio, dedutivo ou indutivo, porque sendo puros espíritos, não necessitam de mediação discursiva, tudo neles é caracterizadamente intuitivo, incluindo a conceituação dos universais. A multiplicação de espécies inteligíveis implica sempre uma menor profundidade intelectual.

MAS NEM O ANJO, NEM O HOMEM, PODEM CONCEITUAR, ÙNIVOCAMENTE, DEUS E AS CRIATURAS. PORQUE QUER NO CONCEITO LÓGICO, QUER NA PRÓPRIA REALIDADE OBJECTIVA, NENHUMA MENTE PODE APURAR UMA ESSÊNCIA ESTRITA COMUM À INFINITA SIMPLICIDADE DE DEUS E À COMPOSIÇÃO DAS CRIATURAS, SEGUNDO UM SÓ SENTIDO. NEM MESMO NO SIMPLES CONCEITO DE SER, VISTO QUE DEUS É, NECESSÀRIAMENTE, O SEU SER (ASSEIDADE), E A CRIATURA NÃO É, NEM PODE SER, O SEU PRÓPRIO SER (ABALEIDADE). No próprio conceito lógico de Deus, mesmo como espécie Sobrenatural, ressalta necessàriamente a incomensurabilidade entre a espécie criada, em si mesma, e o seu conteúdo Incriado. Tal constitui um grande progresso na conquista da objectividade.  

Segundo os Escotistas, Deus e a criatura podem convir, negativamente, na univocidade do ser; porque para estes, a Essência Metafísica de Deus não é a Asseidade (Tese Tomista) mas sim a infinitude. Insiste-se, que as Teses Tomistas são absolutamente preferíveis.

A Transcendência de Deus só se pode definir, precisamente, pela Sua Asseidade, mediante a qual Deus É o Seu Ser.  

Mas a Infinitamente objectiva realidade de Deus NÃO É EQUÍVOCA, NEM UNÍVOCA, COM O MUNDO – É ANÁLOGA! O PRÓPRIO SER É METAFÌSICAMENTE ANÀLOGO.

A analogia é constitutiva de uma semelhança, mais ou menos próxima, mais ou menos afastada. Nada impede e tudo exige uma certa semelhança, mesmo na Ordem Natural, entre Criador e criatura espiritual. A própria Sagrada Escritura o certifica (Gn 1,27).

A acção de criar consiste em Deus manifestar fora de Si, em forma contingente, algumas das Suas Infinitas perfeições. Mas essa manifestação não é nem pode ser arbitrária, visto processar-se, hieràrquicamente, no absoluto respeito pela verdade metafísica das essências imutáveis. Tais essências não dependem de um capricho da vontade Divina, PORQUE SÃO CONSTITUTIVAS DA SUA ASSEIDADE.

No acto de criar, o Princípio Metafísico ESSE outorga a existência concreta a determinadas essências, segundo a Vontade de Deus e as disposições da Divina Providência; consequentemente, na criatura, mesmo a mais perfeita, verifica-se a composição metafísica ESSE-ESSÊNCIA. Em Deus, o Seu ESSE é a Sua Essência, e a Sua Essência é o Seu ESSE.

Neste quadro conceptual, Deus não se pode afirmar como imanente ao mundo, até porque o conhecimento que Deus possui desse mesmo mundo opera-se na Sua própria Essência, independentemente da realidade em si mesma, e tal conhecimento é metafìsicamente indissociàvel do único Acto pelo qual Deus Se conhece a Si mesmo, gerando o Seu Verbo.

A transcendência de Deus não deve ser pensada como uma incomunicabilidade metafísica com o mundo, à maneira do Acto puro de Aristóteles, ou do Uno de Plotino. É certo que a relação de Deus com o mundo é uma relação de razão, não porque o mundo não seja absolutamente real, mas porque todo o ser do mundo É VIRTUALMENTE EM DEUS. Já a relação da criatura com Deus É TRANSCENDENTAL.

Fundamentalmente, Deus comunica-Se com o mundo, precisamente, elevando-o à Ordem Sobrenatural. A capacidade da natureza criada para ser elevada à Ordem Sobrenatural denomina-se Potência Obedencial. Possui a sua mais sublime expressão na Encarnação do Verbo de Deus, em que uma Natureza Humana, como substância incompleta, no plano filosófico, é elevada, hipostàticamente, a uma existência e dignidade Divina. No Mistério da Redenção, Nosso Senhor satisfez condignamente a Deus pelos nossos pecados, merecendo-nos a Graça, pela qual participamos da Natureza Divina, da Inteligência Divina, da Santidade Divina. Consequentemente, Deus fez-Se substancialmente Homem, para que o homem, acidentalmente, fosse elevado a uma vida Divina, a uma vida Sobrenatural.

Mas também estas realidades não significam que Deus seja imanente ao mundo, porque a vida Divina, na Sua Asseidade, na Sua Eternidade, na Sua Imutabilidade, na Sua Simplicidade, encontra-se a uma distância metafìsicamente infinita da Sua criatura. Mas na Sua Infinita Bondade, a Deus não apenas aprouve fazer reflectir as Suas Divinas Perfeições na Ordem Natural criada, como ainda, maravilha das maravilhas, deu-Se a Si mesmo, acidental, mas realmente, outorgando à criatura espiritual a possibilidade de ser Eternamente admitida na intimidade familiar da Santíssima Trindade. Porque na elevação ao estado Sobrenatural a criatura espiritual é como que RECRIADA. Pois que na criação o ente finito, na sua contingência, infinitamente aquém do seu Criador, participa do ser em geral, reflecte as perfeições Divinas, mas não participa da vida de Deus. Só pela Graça Sobrenatural poderá ser beatificado com essa infinita felicidade. Deus Nosso Senhor aproxima-se ontològicamente da Sua criatura, ainda que conservando toda a infinita distância Metafísica.         

Transcendência, Analogia, Participação Sobrenatural; nestes conceitos reside a chave, não para uma plena compreensão, mas para pensarmos o Mistério de Deus o menos imperfeitamente possível.

A presença de Deus na nossa alma pela Graça, denominada inabitação do Espírito Santo, é a mais santa, a mais rica, a mais profunda, depois da Presença Real no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, pela Qual toda a Santíssima Trindade se encontra presente POR UM TÍTULO ESPECIALÍSSIMO, QUE SUPERA INFINITAMENTE A OMNIPRESENÇA NATURAL DE DEUS, OU A PRESENÇA NA SARÇA ARDENTE, OU NA NUVEM SOBRE A ARCA DA ALIANÇA. Mas constitui uma presença ESSENCIALMENTE TRANSCENDENTE, porque Nosso Senhor não se encontra presente como os corpos naturais, circunscritos e limitados pelo espaço, mas imediatamente pela própria substância. Só o Criador e Conservador do Universo pode realizar tal presença.

A própria acção da Providência Divina É ESSENCIALMENTE TRANSCENDENTAL, Logo a começar pela Predestinação. Este conceito seria aberrante se a acção Divina NÃO FOSSE INFINITAMENTE INCOMENSURÁVEL COM OS FACTORES HUMANOS E TERRENOS. A MESMA LIBERDADE HUMANA É TRANSCENDENTALMENTE CONSTITUÍDA POR DEUS: SOMOS VERDADEIRAMENTE BONS PORQUE SOMOS PREDESTINADOS, SOMOS VERDADEIRAMENTE MAUS PORQUE NÃO FOMOS PREDESTINADOS. Uma das grandes conquistas do Tomismo radica-se neste conceito da absoluta transcendência fundamentante da Causa Primeira, Redentora e Consumadora do mundo, mas também Finalidade transcendente e Eterna da Criação.

Assim de conclui que a asserção em como Deus Nosso Senhor seria, de alguma maneira, imanente ao mundo – é inteiramente falsa. Presente no mundo, sem dúvida, como já observámos, MAS É UMA PRESENÇA POR TRANSCENDÊNCIA E NÃO POR PERTENÇA, POR COMENSURABILIDADE, POR RADICAÇÃO. É esse equilíbrio entre o ser e o conhecer, entre o Espírito Incriado e o espírito criado, entre a Criação e o seu Criador, que permite à inteligência moralmente bem formada proceder às provas filosóficas da existência de Deus, para ulteriormente melhor O conhecer e amar por via Sobrenatural. O agnosticismo só brotaria de um pensamento, equívoco, atomizado, carcomido pelo nada. Mas a analogia entre o finito e o infinito explica maravilhosamente a abençoada Presença de Deus Nosso Senhor neste paupérrimo mundo.

Aqueles que argumentavam que não valia a pena serem virtuosos porque Deus Nosso Senhor já predestinara os que se haveriam de salvar, respondia Santo Tomás de Aquino: “Ama Sobrenaturalmente a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor de Deus – E SERÁS PREDESTINADO!

 

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 20 de Agosto de 2017

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral  

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