Pro Roma Mariana

Fátima e a Paixão da Igreja

fsspx IV – do erro à heresia e da (in)falibilidade ao cisma

Catecismo da Crise na Fraternidade Sacerdotal São Pio X – o veneno, qual desvio moral!

Escorpião - Símbolos

Demonstramos anteriormente que a fsspx, contra doctrina, considera um herege como membro da Igreja (vide fsspx I), é hoje, uma organização herético-cismática (vide fsspx II), apresenta duas faces (Janus). Uma, na sua política de submissão à Roma apóstata, escondendo os seus “negócios”, ora acordo, ora reconhecimento, ora com black out (silenciando ad intra), outra, para com os fiéis (vide fsspx III).

Segue o detalhe do rumo infeliz e pernicioso para os fiéis, na forma de catecismo, elaborado por um sacerdote francês.

Ficando claro que existe, sim, acordo entre fsspx e a Roma apóstata (vide fsspx III), este testemunho agora em forma de catecismo prova, entre outros aspectos, que o clérigo que defendeu Mons. Fellay no capítulo de 2012, (apoiando-o na violação da decisão tomada no Capítulo em 2006) teve o seu pagamento: hoje superior! Assim como aquele o teve por Roma, com a sua nomeação para juiz do Tribunal da Rota Romana (vide https://gloria.tv/post/QYJKJz8e28SK2QJ1HGcGVQp7M: «Francesco ha anche nominato il vescovo della FSSPX Bernard Fellay giudice della Sacra Rota Romana, il tribunale di massimo appello della Chiesa, riconoscendone così l’autorit».

Esta é exposição, de parte, da picada do escorpião e do alastramento do seu veneno!

Jean Thomas, TOP

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Tradução: Capela Nossa Senhora das Alegrias – Vitória/ES Observações a respeito da tradução, por favor: capela@nossasenhoradasalegrias.com.br

A Capela Nossa Senhora das Alegrias aproveita para renovar sua total adesão às orientações de Monsenhor Lefebvre, reconhecendo-o vivamente como o instrumento divino para a salvação da Igreja neste nosso tempo. Pedimos orações por nossa perseverança.

1- Há realmente uma crise na FSSPX? Sim. Mons. Fellay fala de “uma grandíssima provação na FSSPX” (Ecône, 02/09/2012); “uma prova maior” (Ecône, 07/09/2012), “uma dolorosa provação” com “sérios problemas” (Cor Unum, nov. 2012); “A maior pela qual nós já passamos” (01/11/2012).

2- Por que falar desses problemas em público? Pela simples razão de que nós jamais “devemos dizer que essas discussões teológicas são um assunto para especialistas e que não nos dizem respeito. Elas devem ser enfatizadas para mostrar que o caso é exatamente o oposto: porque tocam a fé, essas questões dizem respeito a todos nós, clérigos e leigos. Nós devemos, portanto nos esforçar para entender e fazer entendíveis essas questões” (Pe. de Cacqueray, Suresnes, 31/12/2008).

3- Por que lidar com este problema na forma de um Catecismo? Porque, como Mons. Fellay disse, “ciente da vital necessidade em favor das almas de pregar de novo e novamente as verdades da Fé, a Igreja Católica sempre buscou tornar disponível aos seus filhos o ensinamento das verdades eternas… Que as páginas do catecismo iluminem as almas de boa vontade…” (Prefácio ao Catecismo da Doutrina Cristã).

4- A crise na FSSPX consiste exatamente em quê? “Tem havido um desafio à autoridade, um desafio radical, já que ele acusa as autoridades de não mais direcionar a Fraternidade ao seu fim” (Mons. Fellay, Cor Unum, Nov.2012).

5- Mas a crise não foi superada no Capítulo Geral em julho de 2012? Não. “Há uma desconfiança da autoridade”. (Mons. Fellay, Ecône, 07/09/2012).

6- Por que a doença não foi tratada? Porque, como o próprio Mons. Fellay reconheceu, “Eu estou bem ciente de que isso não acontece em um dia e que é inútil dizer “Confiem em nós!”. É depois dos fatos, com ações, que pouco a pouco ela voltará [a confiança]. É seguindo os fatos, e através de ações, que pouco a pouco ela retornará”.


7- Não tem havido nenhuma ação significativa de Menzingen desde então? Mas é claro [que sim!] A expulsão de Mons. Williamson.

8- Mas isso é suficiente para concluir que a crise ainda está ocorrendo? Você tem que mostrar que, para além de algumas questões disciplinares, Menzingen continua resvalando doutrinalmente. É exatamente isso que iremos fazer: explicar como e porque Menzingen continua a prosseguir no mau caminho.

9- Por que Menzingen estaria prosseguindo no mau caminho? Porque as autoridades da FSSPX se recusam a se livrar da ambiguidade que eles mesmos criaram.

10- O que é essa ambiguidade? Ela é dupla e diz respeito aos dois atos realizados por Bento XVI que são favoráveis à Tradição de uma maneira material e que Mons. Fellay apresenta como favorecendo formalmente a Tradição.

11- O que essas palavras estranhas querem dizer? Quando se tem cimento, areia e brita, você tem uma casa materialmente falando, mas não formalmente. Esta é uma grande diferença.

12- Qual é o primeiro ato de Bento XVI que é um problema? Este é o Motu Próprio do Papa Bento XVI sobre o uso da liturgia romana anterior à reforma de 1970. Mons. Fellay reivindica que “por meio do Motu Proprio Summorum Pontificum, o Papa Bento XVI tem restaurado ao seu devido lugar a Missa Tridentina, declarando que o Missal Romano promulgado por São Pio V nunca fora ab-rogado”, (Menzingen, 07/07-2007).

13- Onde está a ambiguidade? Em realidade, o Motu Proprio diz que a missa tradicional nunca fora ab-rogada como a forma extraordinária, mas que ela foi repelida como a forma ordinária. Por meio deste ato, Bento XVI fez o rito romano da missa perder, de jure, seu status como a única forma ordinária e oficial, e relegou-o ao status de “forma extraordinária”, depois de tê-lo humilhado ao comparar sua santidade com a de um “rito bastardo”. Apesar destes fatos, não existe nenhum documento oficial proveniente de Menzingen condenando essa coabitação litúrgica.

14- Mas essa é apenas a sua maneira de ver as coisas. Não, é também a opinião do Pe. Cacqueray em sua Carta aos Amigos e Benfeitores, de 2009. O Motu Proprio, disse ele, “não corresponde, e não é uma resposta, ao primeiro requerimento da FSSPX, exceto ao se falar materialmente” (Suresnes, 31/12/2008). Além disso, Mons. Lefebvre, depois de perceber que fora um erro assinar um acordo com Roma em maio de 1988, deixou-nos em guarda após as sagrações: “Vocês podem ver claramente que eles queriam nos trazer de volta à Igreja Conciliar… Eles querem impor essas novidades sobre nós a fim de acabarem com a Tradição. Eles não nos permitem nada por estima à liturgia tradicional, mas simplesmente para enganar aqueles aos quais eles a concedem e para minar nossa resistência, para conduzir uma vanguarda no campo tradicionalista a fim de destruí-lo. Essa é sua política, sua tática…” (Ecône, 09/09/1988).

15- Então como Mons. Fellay deveria ter respondido? Da mesma forma que a FSSPX respondera uma vez a uma ação similar de Roma (o Indulto de 1984). O superior geral da FSSPX disse que esse indulto fora “ruinoso para a metafísica da lei”. Ele só poderia ser um “argumentum ad hominem”, porque “suas condições são inaceitáveis”. Um católico, “que pense com a Igreja, pode apenas considerar o indulto como o fundamento de uma requisição”. (Cor Unum, junho 1985).

16- Então, falando estritamente, a primeira condição da FSSPX não foi bem-sucedida. Com efeito, o Capítulo Geral de 2006 falou “da necessidade de haver duas condições” nas “discussões com Roma”. Uma nota relembrou a primeira: “Liberdade completa sem quaisquer condições para a Missa Tridentina”. Entretanto, a liberação da missa, para além do engodo já citado, não foi sem condições. O Artigo 2 do Motu Proprio dá essa liberdade ao afirmar que as missas que não precisam de “autorização da Sé Apostólica ou do Ordinário” são apenas as “missas que são celebradas sem o povo”.

17- Então, nós não deveríamos ter prosseguido tanto as discussões com as autoridades romanas? Se nós tivéssemos respeitado o que o capítulo geral de 2006 havia decidido, sim, é isso mesmo [não deveríamos ter prosseguido]. Contudo, Mons. Fellay fez o oposto, pois após recordar que “a abordagem hegeliana de Bento XVI, segundo a qual a mudança, que é necessária, no entanto não pode ser uma ruptura com o passado”, ele escreveu: “Quanto a Roma, sem saber como e quando a situação pode mudar, nós preferimos preparar o terreno para as discussões por meio de um grupo ad hoc e não nos deixarmos ser pegos de surpresa, caso haja quaisquer surpresas” (Cor Unum, 16/07/2007).

18- Qual é o segundo ato de Bento XVI que apresenta um problema?

É o decreto de levantamento das excomunhões lataesententiae dos bispos da Fraternidade (21/01/2009), que tampouco corresponde à segunda condição do capítulo de 2006, que diz: “A anulação do decreto de excomunhão dos quatro bispos da Fraternidade”.

Pois, já em 1988, “Para Roma, o objetivo dessas discussões é a reconciliação, como diz o Cardeal Gagnon, o retorno da ovelha perdida ao aprisco.” Quando nós pensamos na história das relações entre Roma e os tradicionalistas de 1965 até em nosso próprio tempo, somos obrigados a afirmar que é uma perseguição cruel, implacável para nos obrigar a se submeter ao Concílio. A Roma conciliar e modernista de hoje jamais poderia tolerar a existência de um ramo saudável e vigoroso da Igreja que, por sua vitalidade, condena-os” (Pe. de Cacqueray, Suresnes, 31/12/2008).

19. Mas não importa muito se as excomunhões são “anuladas” ou “levantadas”, ou importa? “A Fraternidade se recusa a pedir por um ‘levantamento de sanções’. Ela está buscando ‘a anulação do decreto de excomunhão’ – e qualquer um é capaz de ver que os termos que nós empregamos para fazer nosso pedido são dessa forma por desígnio. Nós queremos tornar manifesta nossa convicção de que as sanções são inválidas” (Pe. de Cacqueray, Suresnes, 31/12/2008).

20. Mas o resultado está aí, e apesar de tudo, é positivo! “Se nós estamos realmente falando sobre a nulidade de um decreto – e não sobre o levantamento de excomunhões – então isso será o início da reparação da injustiça sem precedentes que conhecemos, e poderemos nos regozijar. Entretanto, se é para ser um ‘levantamento de excomunhões’, então as coisas podem ser bem diferentes. Isso pode não corresponder à nossa segunda condição, e isso pode não limpar nossos bispos dos injustos processos que tem sido praticados contra eles. Se permitirmos que se pense que as penalidades pronunciadas não foram inválidas, e talvez fossem merecidas, isso não resultaria, pelo menos em um determinado sentido, em um novo mal e mais profundo? Neste caso, Roma, com uma aparência de compaixão, poderia ter removido penalidades que, por meio deste mesmo ato, foram válidas ou feitas legitimamente” (Pe. de Caqcueray, Suresnes, 31/12/2008).

21. Como Monsenhor Fellay reagiu em público ao levantamento das excomunhões? Expressou sua “gratidão filial ao Santo Padre por este ato o qual, para além da Fraternidade, beneficiará toda a Igreja (…) além de nosso reconhecimento ao Santo Padre, e a todos aqueles que o ajudaram a fazer este ato corajoso, estamos contentes que o decreto de 21 de janeiro considere ‘discussões’ com a Santa Sé como necessárias (…) Neste novo clima, nós temos a firme esperança de chegarmos em breve ao reconhecimento dos diretos da Tradição Católica” (Menzingen, 24/01/2009).

22. Alguém questionou este comunicado naquela época? Sim. Na ocasião de uma reunião de priores, um deles comentou que o comunicado contou uma mentira, estava enganando nossos fiéis e que as coisas precisavam ser clarificadas. E utilizou esta imagem: “Quando eu compro um bolo de pera, e me entregam um bolo de maçã, eu não posso dizer que obtive o que havia pedido”.

23. Mons. Fellay corrigiu publicamente a posição que ele havia tomado? Não. No ano seguinte, o prior foi silenciado e indicado como um sacerdote júnior em um novo posto. Neste meio tempo, Mons. Fellay escreveu um boletim interno para a Fraternidade: “Ao mesmo tempo em que eu entreguei ao cardeal um buquê para o Papa Bento XVI, eu recebi de suas mãos um decreto assinado pelo Cardeal Re, datado de 21 de Janeiro. Como alguém não pode ver a mão de Nossa Senhora nisso? Eu juro para vocês, ainda estou maravilhado com isso. Vai muito além das expectativas humanas, ainda que o decreto fale de remissão [perdão] das excomunhões e não da anulação do decreto de 1988, e mesmo que o texto arranje as coisas de tal forma que a Santa Sé não perca a moral. A coisa essencial ainda é que as excomunhões – que nós sempre contestamos – não existem mais, e a trajetória por nós de discussões dos problemas fundamentais (doutrina, fé, etc.) é reconhecida como necessária.

24. Mas o que importa de fato não é o efeito? Não, pois afirmar que “a coisa essencial é que as excomunhões não existem mais” é outra forma de dizer que nós estamos contentes em ter uma coisa materialmente, enquanto desejávamos tê-la formalmente.

25. Então, apesar desses “senãos”, Mons. Fellay considerou cumprida a segunda condição? Sim. Ele não apenas se engajou em discussões com Roma, como ele já havia começado a falar para os membros de uma “situação canônica, quando ela for possível” na qual “nós necessariamente temos de ter um sistema de proteção tal como Mons. Lefebvre tão sabiamente previu, com um comitê para defesa da Tradição em Roma em seu comando” (Cor Unum, 08/02/2009).

26. Então nós começamos as discussões com Roma sob um falso fundamento? Absolutamente, já que “nós não vemos a reconciliação da mesma forma. O Cardeal Ratzinger a vê no sentido de reduzir-nos e de trazer-nos de volta ao Vaticano II. Nós a vemos como o retorno de Roma à Tradição. Nós não concordamos um com o outro. É um diálogo de surdos” (Mons. Lefebvre, Fideliter, set-out 1988).27. Mas nós não estamos mais na era de João Paulo II.“Mas é o pensamento de Bento XVI melhor neste aspecto do que aquele de João Paulo II? Basta ler o estudo feito por um de nós

três, “A fé sob o perigo da razão”, para perceber que o pensamento do atual Papa também está impregnado de subjetivismo. É toda a imaginação subjetiva do homem no lugar da realidade objetiva de Deus. É toda a religião católica sujeita ao mundo moderno” (Monsenhores Williamson, Tissier, de Galarreta 07/04/2012).

28. Contudo, mesmo que ambas as condições não tenham sido estritamente cumpridas, em termos de mídia e também falando psicologicamente, elas mostraram que Bento XVI foi realmente benevolente para com a Fraternidade e sua posição doutrinária. “Para um subjetivista esse pode facilmente ser o caso, porque subjetivistas liberais podem tolerar até mesmo a verdade, mas não uma que se recuse a tolerar o erro. Ele poderia nos aceitar dentro de um quadro de pluralismo relativista e dialético, com a provisão de que nós pudéssemos permanecer em ‘plena comunhão’, em relação à autoridade e às outras ‘entidades eclesiásticas’. Por esta razão, as autoridades romanas podem tolerar que aFraternidade continue a ensinar a doutrina católica, mas elas definitivamente não permitirão que ela condene os ensinamentos conciliares. É por isso que mesmo um acordo puramente prático necessariamente silenciaria pouco a pouco a Fraternidade, impedindo-a de fazer uma crítica completa ao Concílio e à Missa Nova. Ao cessar o ataque a mais importante de todas as vitórias da Revolução, a pobre Fraternidade deixaria de se opor à apostasia universal de nossos tristes tempos e ficaria atolada” (Monsenhores Williamson, Tissier, de Galarreta 07/04/2012).

29. Mas quando Roma nos chama a tomar parte nas discussões, nós temos de ir correndo, não temos? Não! Nós não devemos ir correndo: “Serei eu a colocar as minhas condições para eventualmente continuar as conversas com Roma” (Mons. Lefebvre, Fideliter set-out 1988). Notar bem que essas condições são para voltar a entrar em contato, e não para assinar um acordo!

30. Quais foram as condições, tão sabiamente previstas por Monsenhor Lefebvre, para eventualmente continuar as conversações com Roma? “[…] Nesse momento seria eu quem imporia condições. Já não aceitaria estar na situação em que nos encontramos durante os colóquios. Isso terminou. Eu apresentaria a questão no plano doutrinal: Estão de acordo com as grandes encíclicas de todos os papas que vos precederam? Estão de acordo com a Quanta Cura de Pio IX, com a Immortale Dei e a Libertas de Leão XIII, com a Pascendi de Pio X, com a Quas Primas de Pio XI, com a Humani Generis de Pio XII? Estão em plena comunhão com estes papas e com suas afirmações? Aceitam ainda o juramento antimodernista? São a favor do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Se não aceitam a doutrina de seus antecessores, é inútil falarmos. Enquanto não tiverem aceitado reformar o Concílio considerando a doutrina destes papas que vos precederam, não há diálogo possível. É inútil. As posições ficariam, assim, mais claras.” (Mons. Lefebvre, Fideliter set-out 1988).

31. Falta clareza ao trabalho de nossos teólogos? Absolutamente não. “De nosso lado, nossos especialistas tem mostrado a oposição entre a Igreja de todos os tempos e o ensinamento do Vaticano II e do que veio dele” (Mons. Fellay, Cor Unum, março 2012).

32. Quais foram os resultados dessas discussões? As discussões tem mostrado um profundo desacordo em virtualmente todos os pontos nelas abordados” (Mons. Fellay, Cor Unum, março 2012).

33. Então por que essa “proposição feita pela congregação romana para reconhecer a Fraternidade através do estatuto jurídico de uma prelazia pessoal, com a condição de que assinemos um texto ambíguo?” (Mons. Fellay, Cor Unum, março 2012) As discussões com Roma mostraram “que eles não estão prontos para renunciar ao Concílio Vaticano II” e que eles querem “levar-nos a ele”. Entretanto, o retorno da Fraternidade poderia “ser útil” para a Igreja Conciliar, “a fim de endossar a renovação da reforma na continuidade” (Mons. de Galarreta, Albano, 07/10/2011).

34. Mas Mons. Fellay está ciente disso? Sim. “Então nós recebemos uma proposta que era uma tentativa de nos fazer entrar no sistema da hermenêutica da continuidade” (Mons. Fellay, Cor Unum, março 2012). No mesmo documento, ele afirma estar surpreso por esta proposta de Roma.

35. Surpreso ou não, o que ele decide fazer? Antes de tudo, convocar uma reunião com todos os superiores da Fraternidade (exceto Mons. Williamson) em Albano para buscar conselho (Outubro 2011).

36. O que foi dito a ele nessa reunião? Que a oferta de Roma era “confusa, equívoca, falsa e má no que concerne ao essencial”. “Seu preâmbulo doutrinal” é “pior do que o protocolo de 1988, particularmente no que diz respeito ao Concílio e ao magistério pós-conciliar”. “Dadas as circunstâncias, é certo que, no fim, após um longo palavrório, nós podemos acabar com absolutamente nada”. Continuar os contatos “significaria necessariamente algum prejuízo ao bem comum que nós possuíamos, tanto para a Fraternidade quanto para a família da Tradição” (Mons. de Galarreta, Albano, 07/10/2011).

37. Ele seguiu o conselho? Não.

38. Então Mons. Fellay mostrou uma séria falta de prudência? Sim, mas isso não foi sua única falta, porque o fazer significou ir contra a vontade do Capítulo Geral de 2006. Portanto, houve não só uma imprudência muito grande como também uma séria desobediência.

39. O que isso significa? Em março de 2012, o superior geral escreveu o seguinte a todos os membros da Fraternidade: “Os poucos atos de Bento XVI ad intra afetando a liturgia, a disciplina e a moral são importantes mesmo que a implementação deles ainda deixe muito a desejar. Alguns bispos jovens mostram claramente suas simpatias para conosco… Pode ser que essas coisas sejam mais óbvias em Roma! Nós temos agora contatos amistosos nos mais importantes dicastérios, e igualmente entre aqueles próximos ao Papa!” Mons. Fellay pensa que ele está testemunhando “a restauração da Igreja. Ainda que não se possa excluir o retorno de um tipo de “Juliano o Apóstata”, não creio que este movimento possa ser impedido. Se isto for verdadeiro, e disso tenho certeza, isto demanda de nós uma nova posição em relação à Igreja oficial. Este é o contexto apropriado para considerar a questão do reconhecimento da Fraternidade pela Igreja Oficial. É uma questão de ter uma visão sobrenatural da Igreja e do fato de que Ela ainda permanece nas mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo que desfigurada por seus inimigos. Nossos novos amigos em Roma confirmam que o impacto de tal reconhecimento pode ser extremamente poderoso, ao longo de toda a Igreja, tal a confirmação da importância da Tradição para esta. Com isso, essa realização concreta requer dois pontos absolutamente necessários a fim de garantir nossa sobrevivência: o primeiro é o de que não peçam concessões à Fraternidade em nada que toque a Fé ou o que flui dela (liturgia, sacramentos, moral, disciplina). O segundo é o de que uma liberdade e autonomia de ação sejam concedidas à Fraternidade, e que lhe seja permitido viver e desenvolver-se concretamente. Essas são as circunstâncias concretas que demonstrarão quando o tempo houver chegado para tomar passos de volta em direção à Igreja Oficial. Hoje, apesar da abordagem romana em 14 de setembro e das condições anexas, isso ainda parece ser possível. Quando Deus quiser, chegará o tempo. Nós não podemos mais excluir a possibilidade, porque o Papa está colocando todo o seu peso neste assunto para que ele chegue a um rápido fim” (Cor Unum).

40. Como ele pôde justificar tal mudança de direção? Desprezando todos os avisos amigáveis e cancelando as decisões do Capítulo de 2006 que o limitariam.

41. Em quais “avisos amigáveis” você está pensando? Neste em particular: “Prosseguir na direção de um acordo prático significaria quebrar nossa palavra e nossos compromissos na frente de nossos sacerdotes, de nossos fiéis, de Roma e de todo o mundo. Tal passo demonstraria uma séria fraqueza diplomática da parte da Fraternidade, e para dizer a verdade, mais do que diplomática. Isso seria uma falta de coerência, de retidão e de firmeza, cujo efeito seria a perda da credibilidade e da autoridade moral das quais desfrutamos no presente. Apenas o simples fato de trilharmos esse caminho trará a nós desconfiança e divisão. Vários dos superiores e sacerdotes terão um problema de consciência e se oporão a ele. A autoridade, e até mesmo o princípio de autoridade, serão postos em questão e minados. Portanto, este não é o tempo para mudar a decisão do Capítulo de 2006” (Mons. de Galarreta, Albano, 07/10/2011).

42. O que a decisão do Capítulo de 2006 diz? “Os contatos que a Fraternidade mantém de tempos em tempos com as autoridades em Roma não tem outro propósito senão auxiliá-las a abraçar novamente aquela Tradição que a Igreja não pode repudiar sem perder sua identidade, e não buscar um benefício para ela mesma, ou chegar a um “acordo” impossível e meramente prático. Quando a Tradição voltar ao seu lugar de direito, a reconciliação não será mais um problema e a Igreja saltará de volta à vida”.

43. O que Mons. Fellay pensa das condições do Capítulo de 2006? “O Capítulo de 2006 deu-nos uma linha, que era o que se pode chamar de clara, mas a qual eu me arriscaria a sugerir que era abstrata demais. É uma linha clara, pois diz: ‘As discussões tem por fim ajudar Roma a retornar à Tradição e nós não queremos discutir um acordo prático; quando Roma retornar não haverá mais um problema.’ Como alguém pode entendê-la? Até onde ela vai? Ela é total ou parcial? Em quais pontos?”.

44. O que ele fez com essas claras decisões? Ele oficialmente lançou-as na lata de lixo em março de 2012, no CorUnum.

45. Como? Por meio de um sofisma.

46. Qual? Este: a chamada “nova situação” que requer uma nova “direção”; a decisão do Capítulo de 2006 não é um “princípio”, mas sim uma “diretriz que deve informar nossa ação concreta”. “Nós nos defrontamos com um raciocínio em que a premissa maior é uma afirmação do princípio de primazia da Fé a fim de permanecer católico. A premissa menor é uma observação histórica sobre a atual situação da Igreja; e a conclusão prática é baseada na virtude da prudência governando a ação humana, não buscando um acordo em detrimento da Fé. Em 2006, as heresias continuavam a emergir, as autoridades estavam propagando o espírito moderno e modernista do Vaticano II e estavam a impô-los a qualquer um, tal como um rolo compressor (essa é a premissa menor). É impossível chegar a um acordo prático sem que as autoridades sejam convertidas; do contrário, nós seremos esmagados, moídos, destruídos ou sujeitos a uma pressão tão forte que não poderíamos resistir (essa é a conclusão). Se a premissa menor mudasse, quer dizer, se houver uma mudança na situação da Igreja com relação à Tradição, isso levaria a uma mudança correspondente na conclusão, sem que nossos princípios tivessem a mínima modificação! Como a Divina Providência se expressa através da realidade dos fatos, para conhecer sua vontade nós devemos seguir atentamente a realidade da Igreja, observá-la, escrutinizar o que está acontecendo. Entretanto, não há dúvida de que, desde 2006, estamos a testemunhar um desenvolvimento na Igreja, um desenvolvimento importante e muito interessante, ainda que escassamente visível.” (Monsenhor Fellay, ‘Cor unum’,  março de 2012)

47. Onde está o erro nesse raciocínio? Em uma cegueira que se recusa a ver a realidade tal como ela é: as autoridades ainda estão, em 2012, propagando o espírito moderno e modernista do Vaticano II!

Para o Cardeal Ratzinger, “não há Tradição. Não há depósito a se transmitir. A Tradição da Igreja é o que o atual Papa diz hoje. Você tem de se submeter ao que o Papa e os bispos estão dizendo hoje. Isto é o que a Tradição significa para eles, a famosa tradição viva, o único motivo de nossa condenação… É a tirania da autoridade” (Mons. Lefebvre, citado por Mons. de Galarreta, Albano, 07/10/2011).

48. Em vista desta cegueira, houve reação, oposição? Sim, e de uma qualidade muito boa também. Como Mons. de Galarreta predisse, “vários dos superiores e sacerdotes” tiveram um “problema de consciência” e “opuseram-se” a ele. Mas eles não eram tão numerosos assim em quantidade, pois: “não vemos nós, já dentro da Fraternidade, os sintomas de uma diminuição de sua confissão de Fé?” (Monsenhores Williamson, Tissier, e de Galarreta, 7 de abril de 2012).

49. Mons. Fellay não teria sido enganado pela “contradição reinante em Roma”? (Mons. Fellay, DICI 264). Roma sempre utilizou a mesma linguagem errada, contudo clara e precisa. Em contraste, o superior-geral nos últimos anos tem utilizado de ambiguidade e imprecisão em seus comunicados oficiais e declarações de imprensa.

50. Não poderia ser que nós tivéssemos nos enganado sobre as intenções do Papa? Não!

51. Por que não? Porque em 20 de abril de 2005, no dia posterior à sua eleição, Bento XVI, diante de114 cardeais, dirigiu sua primeira mensagem ao mundo. Nela, ele elogiou o Papa João Paulo II, “com seu ensino e seu exemplo”: “O Papa João Paulo II indicou corretamente o Concílio Vaticano II como uma ‘bússola’ com a qual nós nos orientamos no vasto oceano do terceiro milênio. Portanto, enquanto eu me preparo para o serviço que é próprio ao sucessor de Pedro, eu também desejo confirmar minha determinação em continuar a colocar o Concílio Vaticano II em prática, seguindo os passos de meus predecessores e em uma piedosa continuidade com os dois mil anos de Tradição da Igreja… Os documentos conciliares não perderam nada de sua atualidade; de fato, seus ensinamentos estão se provando particularmente relevantes à nova situação da Igreja e da atual sociedade globalizada” (Osservatore Romano, 21/04/2005).

52. O que Mons. Fellay pensava de Bento XVI, quando ele [Mons. Fellay] foi eleito pela primeira vez? “Muito brevemente, deixe-me resumir o pensamento utilizando uma imagem: se nós tomarmos a alegoria de uma queda livre para descrever o pontificado de João Paulo II, nós podemos predizer que Bento XVI tentará abrir um paraquedas, mas um cujo tamanho não conhecemos. O efeito do paraquedas será o de retardar a queda em alguma medida, mas ela continuará. Essa situação pode enganar mais de uma ou duas pessoas, fazendo-as acreditar que a restauração da Igreja está em mãos. A menos que haja um milagre, este não é o caso. A tendência ainda continuará a ser o Vaticano II, assim como as amplas diretrizes da colegialidade, do ecumenismo e da liberdade religiosa, com uma ênfase sendo colocada no ‘ecumenismo’ com ‘nossos vizinhos mais próximos’, sejam eles os ortodoxos, os anglicanos ou os judeus. Com relação à questão da liturgia, nós podemos esperar um reforço da Ecclesia Dei assim como algum tipo de tentativa de ‘reforma da reforma’”.

53. E que dizer sobre 2012, quando eles estavam todos ocupados celebrando os cinquenta anos do Concílio Vaticano II, com indulgências sendo oferecidas aos fiéis que assistissem às conferências sobre o Vaticano II? “Pode-se observar uma mudança de atitude na Igreja, ajudada pelos gestos e atos de Bento XVI para com a Tradição (…) a hierarquia em favor do Vaticano II está perdendo ímpeto (…) eu tenho sido capaz de observar em Roma que, mesmo que as glórias do Vaticano II ainda estejam nas bocas de muitos e lhes sejam empurradas goelas abaixo, apesar disso elas não estão em todas as cabeças” (Carta, 14/04/2012).

54. Seja honesto: há alguma verdade nessa afirmação. Um pouco de verdade que esconde muito de falsidade. Mons. Lefebvre, em seu juízo, não omitiu a coisa mais essencial: os princípios. Em uma entrevista à revista Jesus, o Cardeal Ratzinger declarou que os “valores” de “dois séculos de cultura liberal” que “nasceram fora da Igreja” haviam “encontrado um lugar na visão da Igreja sobre o mundo”. Mas já que o clima não era mais aquele do otimismo dos anos 1960, nós temos de “continuar a procurar um novo equilíbrio”. Mons. Lefebvre tinha isso a dizer sobre o assunto:

 “Está claro: a liberdade religiosa e o ecumenismo são os ‘os direitos do homem’. Isso é satânico. E o Cardeal disse: ‘Isso é uma conquista, agora nós temos de encontrar um novo equilíbrio’. Ele não disse que nós deveríamos nos livrar dos princípios e valores que provém da cultura liberal, mas que devemos encontrar um novo equilíbrio. Este ‘novo equilíbrio’ é o equilíbrio que o Opus Dei possui: um exterior aparentemente tradicional, uma piedade exterior, um exterior de disciplina religiosa, mas com ideias liberais. Isso não é o conceito de lutar contra os ‘direitos do homem’, contra a liberdade religiosa e contra o ecumenismo. Então, por causa desse equilíbrio, eles terão de suprimir um pouco da teologia da libertação, suprimir um pouco dos bispos franceses devido ao catecismo deles; isso significará que eles terão de dar um pouco de satisfação àqueles que têm uma nostalgia real da antiga missa e Voilà! No final das contas, eles darão a impressão de querer o retorno da Tradição, quando em verdade não querem realmente fazer isso. Por isso, nós temos de alertar nossos fiéis de tal forma que eles não acabem sendo enganados, de forma que eles não se deixem levar por uma reforma exteriormente tradicional, que fatalmente os levaria a adotar o liberalismo e as idéias liberais” (St. Nicolas duChardonnet, 13/12/1984).

55. Mons. Fellay disse que ele foi enganado pelo papa porque este era por Roma. Ele pode dizer isso, mas não pode prová-lo. O Papa alertou publicamente Mons. Fellay e a Fraternidade:  “Isso deixará claro que os problemas a serem discutidos agora são de natureza essencialmente doutrinal e dizem respeito primariamente à aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério dos papas pós-conciliares (…) a autoridade de ensino da Igreja não pode ser congelada no ano de 1962 – isso deve ficar bem claro para a Fraternidade. Mas alguns daqueles que se apresentam como grandes defensores do Concílio também precisam ser lembrados de que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Qualquer um que queira ser obediente ao Concílio deve aceitar a Fé professada ao longo dos séculos, e não pode cortar as raízes das quais a árvore extrai sua vida” (Bento XVI, Carta aos Bispos, 10/03/2009).

56. Talvez o Papa Bento XVI esteja louvando o Vaticano II por razões políticas, mas no fundo não acredite realmente nele, tal como Mons. Fellay afirmou quando veio à reunião dos priores da Fraternidade em Flavigny para falar sobre a beatificação de João Paulo II? Se Bento XVI acredita no que ele mesmo fala, então ele é um modernista. Se não, é um hipócrita. Em ambos os casos, a vontade de tal pessoa não vale de nada. Em ambos os casos, é um equívoco dizer: “para o bem comum da Fraternidade, a melhor solução seria continuar com o atual status quo intermediário, mas está claro que Roma não o tolerará por mais tempo.”

57. Você vê apenas o que nos divide, e nunca o que os une. Bento XVI, no mínimo, condena a “hermenêutica da ruptura”. Você fala como um iniciante que não sabe nada sobre a doutrina modernista. Tudo é ‘vivo’ para eles, tudo é história. Tudo é uma continuidade histórica, mas não doutrinal já que, para um modernista, a verdade evolui com a vida e a Igreja é subjetiva.

58. Mons. Fellay talvez não fora mal aconselhado? Em Menzigen sim, mas não na Fraternidade como um todo. Os superiores de distrito, bispos, sacerdotes amigos e superiores de Ordens religiosas todos o alertaram. Até mesmo vozes dentro de Roma alertaram-no para não seguir na estrada que ele começava a trilhar. Entre estas últimas estava o Pe. Ferre, secretário do Cardeal Cañizares, assim como outros. (Fonte: Mons. de Galarreta, Albano, 07/10/12).

59. Mas Mons. Fellay não fez nenhuma concessão ou

ou compromisso com a Roma. Talvez sim, talvez não. Nós ainda não vimos todos os documentos. Em todo caso, há esta estranha confidência de Mons. Fellay: “A entrevista de 13 de junho com o Cardeal Levada confirmou verdadeiramente que o Vaticano” propôs para nós “um arranjo canônico” baseado em “minha carta de 14/04/12” no qual “nós teríamos que dizer que concordávamos e não concordávamos ao mesmo tempo”. “Essa carta extremamente delicada parece ter sido aprovada pelos cardeais e pelo papa” (Cor Unum, verão 2012).

60. Eu tenho de lhe lembrar que Mons. Fellay não assinou nada em 13 de junho de 2012? “Mas eu vos digo, todo aquele que olhar para uma mulher com luxúria, já cometeu adultério com ela em seu coração”. Pode-se muito bem cometer adultério espiritual por pensamento ou desejo, sem que os planos de alguém jamais cheguem a se concretizar.

61. Mas você está julgando intenções. Não! Simplesmente leio. Mons. Fellay censurou os outros três bispos por terem uma visão da Igreja que era “humana demais e até mesmo fatalista”. (Carta do dia 14-4-2012) – “Esses gestos em nosso favor ao longo dos últimos anos estão sob o governo de Bento XVI.” (O que não é verdade, como nós já vimos).

– “Agora, esses gestos indicam uma linha – nem sempre uma linha reta – mas uma linha clara em favor da Tradição”. (Essa afirmação é superficial, porque ela é material e subjetivista, e, portanto objetiva e formalmente falsa).

– “Nós estamos no processo de transformar os erros do Concílio em super-heresias, como se ele estivesse se tornando um mal absoluto, pior do que qualquer coisa… Isso é sério, porque tal caricatura não corresponde mais à realidade”. (Isso faz pensar se Mons.Fellay realmente compreendeu o combate de Mons. Lefebvre, que disse: “As respostas romanas às nossas objeções tendiam a mostrar que não havia nenhuma mudança, mas uma continuidade da Tradição. Estas são afirmações que são piores que a declaração conciliar sobre a liberdade religiosa. Esta é a real mentira oficial. Não há forma de nos entendermos um com o outro, está tudo em uma contínua evolução. Torna-se impossível falar.” (Mons. Lefebvre, citado por Mons. de Galarreta, Albano, 07/10/12).
– “Logicamente, isso terminará no futuro em um verdadeiro cisma”. (Outro sofisma desonesto, que joga com a sentimentalidade e não com a reflexão fria. Em uma carta que Mons. Lefebvre escreveu ao Mons. De Galarreta em 1989, lê-se: “Parece-me oportuno analisar a ação do diabo para enfraquecer nosso trabalho ou reduzi-lo a nada. A primeira tentação consiste em manter boas relações com o papa ou com os bispos atuais. Obviamente é normal estar em harmonia com as autoridades, em vez de estar em conflito com elas. A Fraternidade será, portanto acusada de exagerar os erros do Vaticano II, ou de criticar abusivamente os escritos e ações do papa e dos bispos, ou de estar atrelada aos ritos tradicionais com uma rigidez excessiva e finalmente de mostrar uma tendência sectária que um dia levará ao cisma. Uma vez que a palavra ‘cisma’ começa a ser mencionada, ela é utilizada como um espantalho para fazer os seminaristas e suas famílias ficarem com medo, levando-os a abandonarem a Fraternidade mais facilmente do que se padres, bispos e a própria Roma fingissem oferecer-lhes garantias em favor de algum tipo de ‘Tradição’”). 
– “E é bem possível que este fato seja um dos argumentos me empurram a não mais adiar minha resposta à pressão vinda de Roma… Quanto à questão mais crucial de todas, que é se poderemos sobreviver caso a Fraternidade seja reconhecida por Roma, nós não chegamos às mesmas conclusões que as suas”. (O que pode ser mais claro do que isso?).

62. Mas essa carta privada jamais fora destinada à divulgação pública. É mesmo? Então é certo blasfemar em privado, desde que você não o faça em público? Uma intenção perversa ainda que privada não continua sendo uma intenção perversa?

63. Menzingen disse que a pessoa responsável por esta indiscrição havia “pecado gravemente”. Pelo contrário, achamos que ela não fez nada mais do que o seu dever. Quando um líder perde sua razão, é como se o resto do grupo percebesse isso. E se houver qualquer falha envolvida: o felix culpa, que revelou as intenções do coração.

64. Estes são assuntos sérios. É necessária uma prova incontestável. Nós temos palavras muito suficientes de Mons. Fellay que revelam suas intenções mais íntimas.

65. Quais palavras? A respeito do “texto que eles apresentaram” a ele “em junho”, houveram algumas modificações desejadas pessoalmente pelo papa (as três condições: Magistério, Vaticano II, Missa Nova). “Quando eles me devolveram este documento, pensei comigo mesmo: ‘Não, eu não posso assiná-lo’” (Mons. Fellay, 01/11/2013, DICI 264).


66. Como essas palavras condenam Mons. Fellay? Se as modificações foram o que fizeram Mons. Fellay decidir que ele não poderia assiná-las, isso significa que naquele dia havia algo que ele poderia assinar. “Não, eu não posso assinar isso” significa que havia outra possibilidade: “Sim, eu irei assinar isso”.

Sendo este o caso, em outras palavras, sem as modificações papais, o que era aquilo que ele poderia ter assinado em prol da Fraternidade se não um acordo prático sem um acordo doutrinal? E isso contrário à vontade do Capítulo de 2006 e à reunião extraordinária recente dos superiores.

67. Então, sem as explicações doutrinárias adicionadas pelo papa, poderia ter havido um acordo [‘ralliement’]? Tudo indica que seria desta forma. As diversas indiscrições dos assistentes, Padres Pfluger e Nely, confirmam-no.

68. Mas, mesmo assim, Mons. Fellay não é um modernista. Obviamente. Ninguém jamais pensou isso. Mas o Cardeal Billot disse que o liberal “é incoerente; ele diz sim, ele diz não; ele não sabe exatamente; ele nunca afirma sua posição de uma forma completamente clara; ele sempre fala de uma maneira ambígua, e tudo isso devido à sua preocupação em agradar ao mundo”. Uma inclinação liberal é, portanto, suscetível à tentação de um compromisso com uma Roma não-convertida. É aqui onde o perigo mora: em um desejo de se acomodar, e não em qualquer reconhecimento direto da teoria do Vaticano II. O perigo é essa ilusão liberal que na prática busca viver em paz com o sistema conciliar.

69. Porque Mons. Fellay e o seu Conselho Geral têm mantido todas essas ambiguidades? Porque eles são tão imprudentes, chegando até mesmo ao ponto da desobediência? Porque eles têm tentado uma política tão perigosa e suicida? Porque Mons. Fellay e aqueles ao seu redor, quando tudo está dito e feito, têm mais em comum com a eclesiologia de Bento XVI do que com aquela de Mons. Lefebvre.

70. Qual é a eclesiologia de Bento XVI? É a do Cardeal Ratzinger, que já em 1988 “insistiu na existência de uma só Igreja: a Igreja do Vaticano II” (Mons. Lefebvre, 19/06/1988).

71. Mons. Lefebvre não nos alertou sobre essa falsa eclesiologia? Claro que sim! “O Cardeal Ratzinger sempre me disse, ‘Mas Monsenhor, há apenas uma Igreja, você não deve fazer uma Igreja paralela’. O que é essa Igreja para ele? A Igreja Conciliar, está claro! E se mencionarmos a Tradição a ele, o Cardeal Ratzinger responde: ‘Mas o Concílio, isto é a Tradição hoje! Vocês têm de retornar à Tradição da Igreja de hoje e não à do passado! Juntem-se novamente à Igreja de hoje!’”. E Mons. Lefebvre comenta: “Eu podia sentir muito bem que era isso o que havia em sua mente: poderia levar alguns anos, talvez, mas ele tinha que nos trazer de volta ao espírito do Concílio” (Ecône, 09/06/1988).

72. Mons. Fellay também pensa que há apenas uma só Igreja, a Igreja concreta? Sim, e ele a apregoa! “O fato de ir a Roma não significa que nós concordemos com eles. Mas é a Igreja! E é a Igreja verdadeira! Ao rejeitar as partes más, nós não devemos rejeitar tudo. Ela permanece a Única Igreja Santa, Católica e Apostólica.” (Flavigny, 02/09/2012).Esta visão éenganosa, porqueRoma perdeua fé.Portanto, não podemosfalarda Igreja de hojedeixando de ladoalgo de tamanhaimportância.Os fatos – perda da féno ápiceda Igreja -são os fatos, inclusive se eles apontam o mistério da iniquidade.

73. Isso realmente contradiz o pensamento de Mons. Lefebvre? Obviamente. “A Igreja visível é reconhecida pelos caracteres que sempre foram dados à visibilidade: una, santa, católica e apostólica. Pergunto: onde estão as verdadeiras marcas da Igreja? Elas estão mais na Igreja oficial (esta não é a Igreja visível, mas apenas a Igreja oficial) ou em nós, no que representamos, no que somos? Claramente somos nós que preservamos a Unidade da fé, que desapareceu da Igreja oficial…Não somos nós, mas sim os modernistas que estão deixando a Igreja. Quanto a falar de ‘deixar a Igreja visível’, é um erro tomar a Igreja visível como sendo a mesma coisa que a Igreja oficial. Nós pertencemos à Igreja visível, aos fiéis sob a autoridade do papa, já que nós não estamos negando a autoridade papal, mas apenas o que ele está a fazer (…) então, que dizer sobre estarmos ‘deixando a Igreja oficial’? Em um certo sentido, obviamente sim.” (Ecône, 09/09/1988).

74. Mas Mons. Lefebvre costumava ir a Roma também. Sim, mas com um objetivo muito preciso e não negociável: “Eu posso ouvi-los dizer: ‘Você exagera! Há cada vez mais e mais bispos que rezam, que têm a fé e são edificantes!’ – Como eles podem ser santos se admitem a falsa Liberdade Religiosa e, portanto o Estado laico? Ou quando eles aceitam o falso ecumenismo e admitem assim que há vários caminhos que levam à salvação? Quando eles aceitam a reforma litúrgica e assim negam praticamente o Sacrifício da Missa? E o novo catecismo com todas as suas heresias e erros? Eles não estão, em vez disso, a cooperar com a revolução dentro da Igreja e com sua destruição? (…) uma coisa apenas é necessária à continuação da Igreja Católica: bispos que sejam completamente católicos, sem qualquer compromisso com o erro, que fundem seminários católicos” (Mons. Lefebvre, Jornada Espiritual).

75. De onde essas palavras – “Igreja conciliar” – vieram? Elas vieram de uma carta de Mons. Lefebvre a Mons. Benelli (25/06/1976), e desde o tempo de Paulo VI (consistório de 24/05/1976) que via como “fora da Igreja” qualquer um que “recusasse os ensinamentos do Concílio”, e adiante na era de João Paulo II (SacraeDisciplinaeLeges 25/01/1983), que via “no Código um grande esforço para traduzir na linguagem da lei canônica a doutrina exata da eclesiologia conciliar (…) que constitui a novidade essencial do Concílio Vaticano II, em continuidade com a tradição legislativa da Igreja”, levando-nos todos até o caminho de Bento XVI, no qual há uma continuidade perfeita (senão única).

76. Por quanto tempo Mons. Fellay pensou assim? Por diversos anos. “Identificar a Igreja oficial com a Igreja modernista é um erro, porque nós estamos falando sobre uma realidade concreta.” (Mons. Fellay, Flavigny, 16/02/2009).

77. Alguma pessoa indicou esse erro a ele? É claro que sim. Em uma reunião de sacerdotes, um teólogo e um antigo professor de seminário pediram-no para se livrar dessa ambiguidade a respeito da Igreja: Católica ou Conciliar? Ouviu-se ele responder: “Estou cansado dessa contenda sobre palavras”.

78. Esta é uma resposta surpreendente. É mais do que apenas surpreendente! É angustiante! Quarenta anos de combate teológico sobre ortodoxia ou heterodoxia de palavras apenas para terminar ouvindo isso de um sucessor de Mons. Lefebvre! Que este mesmo, em uma entrevista um ano depois das sagrações, disse o seguinte: “A conversa sobre ‘Igreja visível’ de Dom Gerard e M. Madiran é infantil! É incrível que todos possam falar de ‘Igreja visível’ para se referir à Igreja Conciliar em oposição à Igreja Católica, a qual nós estamos tentando representar e continuar. Não estou dizendo que somos a Igreja Católica. Eu jamais disse isso. Mas nós representamos a Igreja Católica tal como ela costuma ser, já que estamos continuando o que sempre foi feito… Obviamente nós somos contra a Igreja Conciliar, que em termos práticos é cismática, mesmo que eles não aceitem isso. Na prática, ela é uma Igreja que é virtualmente excomungada, já que é uma Igreja modernista”.

79. É por isso que Menzigen e seus órgãos de imprensa (DICI…) sempre evitou usar termos tais como “Igreja Conciliar”, “Igreja do Vaticano II”, etc. Sem dúvida. E ainda mais preocupante, o mais recente Capítulo Geral de 2012 não quis tomar e fazer como suas novamente nem as palavras da declaração de 1974: “Recusamo-nos e sempre nos recusamos a seguir a Roma de tendências neo-protestantes e neo-modernistas, o que é manifestável claramente no Concílio Vaticano II e depois do Concílio em todas as reformas provenientes deste”, nem as palavras da carta aberta ao Cardeal Gantin: “Nós jamais quisemos pertencer a esse sistema que chama a si mesmo de Igreja Conciliar e que se identifica com o Novus Ordo Missae, com oecumenismo indiferentista e com a laicização da sociedade. Sim, nós não temos nada a ver, nullam partem habemus, com o panteão de religiões de Assis. Nós não podemos pedir nada melhor do que ser declarados excomungados…”.

80. Mas falar de uma Neo-igreja não seria perigoso para a fé de alguém? Isso não é perigoso, é necessário porqueé a realidade!  “É uma nova Igreja que se ergueu (…) eles são obcecados pela fidelidade ao Vaticano II que, para eles, é uma nova Igreja, é a Igreja Conciliar com seus próprios sacramentos, sua própria fé, sua própria liturgia, catecismos, isso tudo é aterrorizante, aterrorizante. Nós não podemos nos submeter a isso, é impossível! (…) Então, o que eu deveria pedir? Pedir aos seminaristas para fazer um juramento de submissão à Igreja Conciliar? Isso não é possível. Não, não, está claro agora que nós estamos lidando com uma Neo-igreja, uma igreja que tem doze anos” (Cospec 33B, 1976).

81. Hoje, a Igreja Conciliar tem cinquenta anos. Nada mudou desde então? Sim, uma coisa mudou. Hoje, Mons. Fellay, o superior da Fraternidade fundada por Mons. Lefebvre, pretende fazer os fiéis católicos acreditarem que essa Igreja Conciliar de cinquenta anos é a mesma realidade que a Igreja Católica, pois a primeira seria uma corrupção desta última.

82. Isso é inaceitável para você? Não só para mim. É inaceitável por si próprio. Da mesma forma que isso era inaceitável para qualquer um que assistiu as sagrações de 1988 e que aplaudiu o anátema que Mons. Lefebvre lançou contra o espírito conciliar: “O que é essa verdade para eles, senão a verdade do Vaticano II, a verdade da Igreja Conciliar? Consequentemente, está claro que a única verdade que existe hoje para o Vaticano é a verdade conciliar, o espírito do Concílio, o espírito de Assis. Esta é a verdade de hoje. Mas nós não queremos ter nada a ver com isso, por nada no mundo! Por nada no mundo!” (Seguiram-se aplausos longos e tonitruantes) (Mons. Lefebvre, 30/06/1988).

83. Para você, nem Roma nem Bento XVI deveriam ser poupados? Não sou eu quem o diz! É o próprio Mons. Lefebvre, com o qual eu concordo. Para Mons. Lefebvre, “se abandona praticamente a luta pela fé” quando cessamos “de atacar Roma” (Fideliter, citado por Mons. de Galarreta, Albano, 07/10/2011).

84. Bom, então mesmo se o líder da Fraternidade não estiver mais em seu juízo perfeito, pelo menos Roma não tentará nada novamente depois do fracasso e da recusa de um acordo pela Fraternidade? Roma pode ter perdido uma batalha, mas não a guerra. “Se eles romperem conosco, uma pausa na tensão constante que estes contatos trouxeram à Fraternidade seria bem vinda e, ao meu ver, providencial. Em qualquer caso, como eu bem os conheço, eles não ficarão muito tempo sem voltar a entrar em contato conosco.” (Mons. de Galarreta, Albano, 07/10/11).

85. É assim mesmo? Como já aconteceu, isso não leva muito tempo. Em dezembro de 2012, Mons. Di Noia enviou uma carta a todos os membros da Fraternidade a respeito de “um acordo”. Para isso, nós temos de “erguer-nos acima dos desacordos aparentemente instransponíveis sobre a autoridade e a interpretação do Concílio” a fim de “desejar verdadeiramente a unidade”. Ele nos convidou a não perder “o zelo de [nosso] fundador”. Por causa disso, nós temos de “parar de corrigir publicamente os outros na Igreja” e não “usurpar a missão do soberano pontífice”. Dessa forma, “o carisma autêntico da Fraternidade” que “consiste em formar sacerdotes” será útil à Igreja. Nós temos de abandonar nosso “desejo de autonomia” e “buscar a reconciliação”. “O único futuro para a Fraternidade”, afirma ele, “é encontrar-se no caminho da plena comunhão com a Santa Sé”.

86. O que nós deveríamos pensar disso? “O Vaticano II é a descoroação de Nosso Senhor Jesus Cristo e a negação de Seus direitos sobre as sociedades. O Vaticano II é uma ‘bondade’ imensuravelmente danosa e escandalosa às almas com respeito a essas sociedades, fábricas de erro e vício e propagadoras do Inferno, que são muito impropriamente chamadas de ‘outras religiões’. O Vaticano II é o triunfo do democratismo dentro da Igreja que torna toda a autoridade ilusória e qualquer ordem quase impossível, e que permite a proliferação da heresia e do cisma. O Vaticano II é, na realidade, o maior desastre da Igreja… Para nos recuperarmos, devemos nos livrar dele. Portanto, a Fraternidade não pode de forma alguma cessar com sua imensa luta para confessar a fé, que deve incluir a renúncia do erro. A Fraternidade deve permanecer humilde e respeitável e contudo intrépida, destemida, para continuar a dizer o que precisa ser dito, para confessar o que precisa ser confessado, para denunciar tudo aquilo que precisa ser denunciado” (Pe. de Cacqueray, Suresnes, 31/12/2008).

87. Mas já que Mons. Fellay declarou, três vezes, que ele não quer assinar, porque Roma diz que eles ainda estão esperando por uma resposta, e dando à Fraternidade mais tempo? Porque Mons. Fellay, devido à sua falsa eclesiologia e à perpétua tentação de compromisso [‘ralliement’] se recusa a denunciar Bento XVI publicamente como um instigador do erro. Ele continua aficionado nos documentos de Mons. Lefebvre de 1987 que dizem “Nós aceitamos ser reconhecidos tal como somos pelo papa e dar nossa assistência à renovação da Igreja, nós jamais desejamos romper com o sucessor de Pedro…” (Carta ao Cardeal Gagnon, 21/11/1987). Ele se recusa a ver a evolução e conclusão de Mons. Lefebvre depois de 1988; este mesmo dissera que havia ido longe demais em suas negociações com Roma.

88. Então, esta condição que Mons. Fellay adotou (a de que sejamos “reconhecidos tal como somos”) é, portanto ambígua? Sim, porque ela pode se encaixar na “hermenêutica da continuidade” e porque essa fórmula é uma forma de ecumenismo, misturando verdade e erro na mesma estrutura eclesiástica.

89. Quando essa crise na Fraternidade chegará a um fim? Essa crise chegará a um fim quando Menzingen:  – Livrar-se de suas ambiguidades;  – Chamar as coisas por seus nomes: um modernista é um modernista, mesmo que ele seja um papa; uma Igreja conciliar virtualmente cismática é uma Igreja conciliar virtualmente cismática, mesmo se ela se mostra favorável à casula e à assim chamada “forma extraordinária”;  – E decidir exigir publicamente as condições estabelecidas por Mons. Lefebvre.

– 90. Para terminar: “O que Roma fará conosco? Excomunhão? As coisas continuarão como estão? Ou a situação fluirá?” (Bp. Fellay, Econe, 07/09/2012) O próprio Mons. Fellay respondeu essa questão: “Eu direi a vocês: esperem um pouco de tudo”.

– 91. O que isso significa? Isso significa que nós não estamos fora da área de turbulência doutrinal. A prova são essas palavras de Mons. Fellay na época em que eles estavam tentando beatificar Paulo VI:  “Mas vejam, e isso é muito interessante. Quem, naquele tempo, mais se opunha a que a Igreja reconhecesse a Fraternidade? Os inimigos da Igreja (…) Posso dizer que este é o tipo de argumento que nós utilizaremos com Roma. Tentar fazê-los refletir, tentar fazê-los refletir (…) Eu não tenho absolutamente nenhuma ideia de quando haverá um acordo, e o termo “acordo” não é a palavra certa, mas sim “reconhecimento”, “normalização”… [Apesar] de tudo que não está bem, há alguma esperança. Sou otimista quanto a esta situação (…) Quer dizer, se vocês olharem para a situação da Igreja, ainda é inverno. Mas começamos a ver os pequenos sinais que começam a dizer que a primavera está chegando” (Nova Hamburgo, 28/12/2012).

92. O que nós devemos fazer? Seguir o conselho do confrade: quando se atravessa um trecho de turbulência, dizem para você “colocar seu cinto”, mas “não o afivelar”. (Boletim ‘Le Chardonnet’, julho-agosto 2012).

93.  Você é um pessimista. Não, sou um realista. Nosso superior vê o diabo trabalhando em todos os lugares da Fraternidade, exceto em Menzingen. Ele é incapaz de questionar a si mesmo. Como um confrade disse, referindo-se às injustas perseguições do Quartel-General (intimidações, advertências, procrastinação de ordenações e a expulsão de sacerdotes e de um de nossos bispos): “Em última análise, eles estabeleceram uma verdadeira ditadura na Fraternidade. Eles sabidamente ignoraram os avisos de pessoas “prudentes” que os aconselharam a não procurar um acordo prático com a Roma modernista. Eles minaram a unidade e o bem comum da Fraternidade, expondo-a ao perigo de um compromisso com os inimigos da Igreja. E finalmente eles se contradisseram ao afirmarem o oposto do que eles mesmos estavam a dizer há apenas alguns anos. Eles, portanto, traíram o legado de Mons. Lefebvre, a responsabilidade de seus deveres, a confiança de milhares de pessoas e até mesmo daqueles que, sendo enganados, continuaram a confiar neles. Eles têm manifestado uma vontade determinada em levar a  Fraternidade, custe o que custar, a um compromisso com nossos inimigos. Não importa muito se o acordo com a Igreja conciliar ainda não foi feito até hoje, ou se ele não acontecerá em um futuro imediato, ou então… Permanece um grave perigo para a Fraternidade, já que eles não se retrataram dos falsos princípios que tem guiado suas ações destrutivas…” (Pe. Ortiz, dezembro 2012).

94.  Estas são as suas últimas palavras? Não. “Para todo senhor, toda a honra”. Deixarei a palavra final ao Superior Geral, apesar de todo mal que ele tem feito. 
“Nós devemos esperar que Roma tente nos trazer para um amálgama universalista, no qual  terminaria por se oferecer a nós um lugar “entre outros” mais ou menos tal como eles já estão declarando os ortodoxos como sendo “igrejas irmãs”. Nós podemos imaginar que a tentação de reentrar na “oficialidade” possa ser muito grande, proporcional às ofertas que a Roma ecumenista pode nos oferecer; portanto, ao recusar-nos a entrar nesta confusão, poderemos parecer vilões perversos. Neste momento, isso é apenas uma hipótese…” (Bp. Fellay, Cor Unum, março 1995).

Acedido: http://beneditinos.org.br/2013/03/catecismo-da-crise-na-fraternidade/

fsspx III – do erro à heresia e da (in)falibilidade ao cisma

Fsspx, a face de JANUS: “Os fiéis têm todo o direito de saber…

Preâmbulo

A carta pública que abaixo se apresenta destina-se a elucidar, esclarecer e demonstrar, aos frequentadores das capelas da fsspx, ainda que alguns sejam sedevacantistas ocultos”, o quão pernicioso é a sua una cum seus ofícios.

Ficou demonstrado em artigo anterior (vide fsspx II) a posição doutrinária herético-cismática da fsspx

Neste artigo, a finalidade é difundir a carta aberta de Patrick Groche, Superior de la casa autónoma de Gabón e de Franck Peek, Superior de la casa autónoma de África austral, publicada em 2013, onde podemos verificar o estado da incoerente, contraditória e insustentável posição da fsspx.

Fica demonstrado pela mão destes superiores de Distrito, a ocultação das políticas e rumo desta organização aos fiéis no confronto com a evidência da falsa igreja liderada por Mário Bergólio.

Uma organização que se veio a promiscuir e perverter depois da morte de S. Ex.ª Revma Arcebispo Marcel Lefebvre (logo com a formação do GREC), qual imagem de Janus (duas faces), numa narrativa para a Roma apóstata, distinta de outra, para “alimentar” os fiéis.

Hoje, e porque a evidência não necessita de demonstração, é por todos verificável, portanto, maxime irrefutável, o silêncio insurdecedor da fsspx face ao monstruoso trabalho de demolição bergoliano e o contraste destemido de cada intervenção do Arcebispo Viganó (a qual não defendemos, apenas a referimos, como contrapeso). Qual flagelação aos fariseus hipócritas lefebvrianos, a cada sua intervenção pública.

Em próximo artigo apresentaremos os detalhes do alinhamento da fsspx com a Roma prostituta, para que em definitivo, não exista em nós falta culpável, dando a todos aqueles que lá recebem sacramentos, a oportunidade de ter uma consciência certa e verdadeira deste fausto embuste dos últimos tempos. 

Jean Thomas, TOP

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«Os fiéis têm todo o direito de saber que os sacerdotes aos quais se dirigem não estão em comunhão com uma falsificação de Igreja, evolutiva, pentecostalista e sincretista» (Carta aberta a Sua Eminência Cardeal Gantin, Prefeito da Congregação dos Bispos, Ecône, 6 de julho de 1988, Fideliter N° 64, julho-agosto de 1988, págs. 11-12)

Não se trata de um “zelo amargo” nem de “atuar com uma dureza contínua”, mas de constatar certo liberalismo na Fraternidade. Os factos estão ali e nada se pode contra os factos.

Não se trata de culpar todo aquele que não esteja de acordo com nosso ideal, se trata de constatar e de se interrogar sobre o fato de que os sacerdotes da Fraternidade não atuam segundo o ideal da Fraternidade. A conduta doutrinal excelente de tal superior, o zelo de tal prior pode esconder esta realidade ante nossos olhos, mas é um fato que, influenciados pelos exemplos e os discursos de nosso Superior Geral, certos confrades, possuindo a etiqueta “Fraternidade Sacerdotal São Pio X” se conduzem à prática como os que já aderiram à Roma, e isto até mesmo antes da adesão à Igreja Conciliar.

Os fiéis têm todo o direito de saber que um prior, durante uma sessão de teologia, notou que não podia dizer: “Bento XVI é um modernista”. Este prior confiou também a um confrade de já não poder, em consciência, rezar aos fiéis pela “conversão de Roma e dos bispos”, intenção que é parte das intenções da Fraternidade (Cor Unum nº 35)

Os fiéis têm todo o direito de saber que dois priores confiaram ao Superior de um Distrito importante que estavam prontos para celebrar a Missa Paulo VI (1º canon). O que se une à observação de Mons. Fellay ao cardeal Cañizares durante uma visita de uma badia “NovusOrdo” perto de Florença [Itália].

“Se Mons. Lefebvre tivesse conhecido como se celebrara ali, não teria dado o passo que deu”.

É zelo amargo escandalizar-se com estas reações? Os cardeais Bacci e Ottaviani não teriam aprovado o “breve exame crítico” por convite de Mons. Lefebvre, se tivessem visto “como se celebrava a Missa ali?

Os fiéis têm todo o direito de saber que em Kansas City um sacerdote repreendeu a um fiel, senhor B., por falar mal do “Novus Ordo”. Este sacerdote lhe disse: “agora já não se fala assim”. 

Os fiéis têm todo o direito de saber que em Post Falls um prior declarou recentemente que o papel da Fraternidade não era combater o Concílio Vaticano II, mas o de velar pela santificação dos sacerdotes, como se estes dois deveres pudessem ser opostos.

Os fiéis têm todo o direito de saber que em Chartres um prior, para tentar justificar a política de Mons. Fellay, tentou convencer um confrade que a beatificação de João Paulo II não foi tão grave porque “o homem é que foi exaltado” e não sua doutrina, e que a iniciativa de Assis III não foi tão escandalosa porque “o fato de que Bento XVI tenha convidado ateus manifesta que não se tratou de uma reunião religiosa”. É zelo amargo estar escandalizado com estas afirmações?

Os fiéis têm todo o direito de saber que na Flórida um prior impediu um pedido de livros contra o Concílio Vaticano II pela encarregada. Denunciado publicamente, devia, com raiva, recuar de sua ordem e encher suas prateleiras com estes livros. O mesmo aconteceu com o catálogo da Angelus Press graças à vigilância dos sacerdotes da Fraternidade de estrita observância. Assim, “Eu acuso o Concílio” e um fascículo sobre a jurisdição de suplência que haviam sido oficialmente descontinuados reapareceram no catálogo.

Os fiéis têm todo o direito de saber que o Superior do Distrito dos Estados Unidos pediu ao Angelus Press para que abandone a publicação em língua inglesa do “Sim, sim, Não, não” e vigiou, durante o congresso anual de Kansas City, que os conferencistas se submetessem às modificações impostas pela nova linha de Mons. Fellay. Pe. Rostand também pediu que se apague todo vestígio de Mons. Williamson no seminário de Winona, que difundia seus sermões, suas conferências e seus artigos. Estranha atitude, já que o mesmo Mons. Fellay disse ter por “Mons. Williamson admiração, por seus golpes geniais na luta contra o Vaticano II”…

Os fiéis têm todo o direito de saber que Pe. Cyprian, que é um sobrevivente de Barroux, passando por Denver tentou provar em um sermão que a situação na Igreja oficial estava se consertando, declaração que, graças a Deus, horrorizou ao sacerdote da Fraternidade que estava presente.

Os fiéis têm todo o direito de saber que o livro do Pe. Troadec sobre “a família católica” contém numerosas citações “aceitáveis” de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Mas, desgraçadamente, se esqueceram de relatar que Bento XVI, em 15 de dezembro de 2010, recebeu no Vaticano os pervertidos do “Gay circus” que realizaram seu espetáculo. Porque como disse São Pio X: em um modernista, uma página é católica, mas a seguinte é racionalista. A página católica não prova nada entre essa gente, cuja inteligência está corrompida.

Os fiéis têm todo o direito de saber que em Brignoles uma irmã titular rezou em sua classe por “nosso bom papa que renuncia” e se inquietou porque nas famílias se dizia que este papa não era bom, sendo que fora ele que “havia liberado a missa”. Isto confundiu a um de seus alunos, já que antes a madre dizia que este papa “ensinava erros”.

Como é que estas posições tomadas objetivamente contrárias à linha e aos princípios da Fraternidade puderam dispersar-se entre seus membros se não for pelo exemplo que vem de cima?

Os fiéis tem todo o direito de saber que o fato de afirmar, hoje em dia, junto a Mons. Lefebvre que: “Dizer ‘sair da Igreja visível’ é enganar-se assimilando a Igreja oficial e a Igreja visível’, o que implica, para numerosos superiores, o SEDEVACANTISMO que para eles representa o pecado dos pecados, enquanto se trata de uma hipótese que, segundo Mons. Lefebvre, poderia ser ‘um dia confirmada pela Igreja, porque ela tem argumentos muito sérios’”.

Com efeito, os fiéis têm todo o direito de saber que em São Nicolau, diante dos priores da França, em 9 de novembro de 2012, um confrade pediu a Mons. Fellay o esclarecimento sobre os rumores nos quais se afirmava que no dia 13 de junho havia ido a Roma para fazer acordo. Nosso Superior Geral negou que tal acordo fosse possível – porque essa não era “a maneira de se fazer” – ele havia “enviado o texto para estudá-lo…”, logo explicou que “o acordo havido sido em três tempos…” Mas os padres Lorans, Nély, Pfluger, nessa época e a várias pessoas, confiaram com alegria que no dia 13 de junho Mons. Fellay foi a Roma para fazer acordo. Mons. De Galarreta, ainda que com tristeza e apreensão, em 15 de junho disse a um confrade que esperava o anúncio do acordo pela rádio no dia 13 de junho, pela noite, já que “Ele (Mons. Fellay) havia ido a Roma para fazer o acordo”.

Os fiéis têm todo o direito de saber que os superiores do Distrito da Bélgica e da Suíça, os padres Wailliez e Wuilloud, antes de 13 de junho de 2012, fizeram uma viagem à Espanha expressamente para convencer ao Superior deste Distrito, durante dois dias, sobre a bem fundada política da adesão a Roma de Mons. Fellay. E, ao mesmo tempo, o Secretário Geral chamou por telefone ao Superior da Inglaterra para criticar suas declarações durante uma conversa privada, mas que foram transmitidas a Menzingen [Suíça]. O Pe. Thouvenot não esqueceu, durante esta conversa telefônica, de evocar a este superior a possibilidade de sua exclusão do Capítulo.

Os fiéis têm todo o direito de saber que para o Pe. Pfluger “não é somente o estado da Igreja pós-conciliar que é imperfeito, o nosso também é” (outubro de 2012). E que em novembro de 2012, Mons. Fellay confiou a um confrade que:

1) Queria um reconhecimento canônico;

2) Estava perfeitamente de acordo com Pe. Pfluger

Os fiéis têm todo o direito de saber que Pe. Schmidberger, que trabalhou mais de um mês em Roma, no protocolo de acordo, pensa o mesmo:

As discussões nos revelaram certa debilidade em nossa condição. Nós devemos ter a humildade de admitir. Nós experimentamos igualmente um processo de clarificação no interior. Nós não estamos de acordo com aqueles que rechaçam toda discussão com Roma”.

O Superior do Distrito da Alemanha parece já não estar de acordo com Mons. Lefebvre quando pôs fim às relações com Roma nestes termos:

Se não aceitam a doutrina de seus predecessores, é inútil falar. Enquanto não tenham aceitado reformar o Concílio considerando a doutrina de estes papas que os precederam, não há diálogo possível. É inútil”. (Fideliter, set-out. 1988)

Sem embargo, é verdade que a Fraternidade em sua maioria não busca a adesão a Roma, mas a comissão Ecclesia Dei que recebeu a visita do Pe. Nély no final de dezembro de 2012, bem disse: é necessária “a paciência, a serenidade, a perseverança e a confiança”. A “reconciliação” não é mais que questão “de tempo”. Seria bom que nossos superiores os dissessem que não é uma questão de tempo, mas de princípios. Mas exigir isto hoje em dia é considerado zelo amargo.

Os fiéis têm todo o direito de saber que para impedi-los de julgar, não temem nem o ridículo nem o sofisma. Um prior na França tentou convencer a seus fiéis de que eles não poderiam fazer um juízo como ato de inteligência que constata a verdade de uma coisa (a linguagem dúbia de Mons. Fellay) apoiando-se em um tratado de Santo Tomás falando do juízo, mas como um ato do juiz que dispensa a justiça. Recordou aos fiéis que “Nosso Senhor foi compassivo, paciente, condescendente” com seus apóstolos tão imperfeitos, que Ele os “repreendeu de uma maneira amável, paciente e doce, mas firme ao mesmo tempo”. Mas isto é confundir e despreciar o “sim, sim, não, não” de Nosso Senhor.

Os fiéis têm todo o direito de saber que quando um prior perguntou se a negociação da ordenação dos dominicanos e capuchinhos estava relacionada com nossas relações romanas, Mons. Fellay o respondeu:

É uma falta de confiança pessoal que experimentei no que diz respeito a estas comunidades… e é uma coisa tão grave ordenar um sacerdote, que preferi esperar…” (9 de novembro de 2012, Paris)

Para medir a grotesca e soberba desumanidade desta resposta, os fiéis têm de saber que os diáconos capuchinhos estavam em retiro com os diáconos da Fraternidade quando foram notificados da negativa de suas ordenações. Eles agora podem comparar esta reação de Mons. Fellay em relação às comunidades amigas e a reação de Mons. Lefebvre submetido à pressão romana:

Vocês sabem que o núncio veio pedir que eu não faça as ordenações, então, claro que lhe respondi: não é a dez dias das ordenações que se pode fazer uma coisa dessas, não é possível. Eu diria, inclusive falando humanamente. Estes jovens sacerdotes trabalharam durante cinco anos para se prepararem para a ordenação, e a dez dias dela, quando seus pais estão prontos para vir, quando as primeiras missas foram anunciadas por todas as partes, é nesse momento que me pedem para não fazer as ordenações. Ordenações que são legítimas. Estes seminaristas, que fizeram seus estudos de maneira regular, tem um direito natural de obterem o resultado da preparação que fizeram”. (Cospec 32A)

Não se joga com as palavras. A situação atual da Igreja pede nosso testemunho valente e inequívoco para a causa católica. As manobras de uma diplomacia duvidosa, contrária tanto ao direito como à simplicidade do Evangelho, não podem senão prejudicar nossa grande causa”. (Franz Schmidberger, 13 de maio de 1985)

A direção ambígua de Mons. Fellay indubitavelmente debilitou a Fraternidade. Está longe o tempo quando a Fraternidade, de maneira reta e caritativa, dizia:

Assim que, quando se examinam as coisas próximas, nos percebemos que existe um grupelho de liberais, de modernistas que conhecem todos entre si e que tomaram o poder. Se lemos o livro do cardeal Ratzinger “Fé cristã ontem e hoje”, descobrimos uma noção da fé completamente acatólica. É, inclusive, simplesmente herética”. (Franz Schmidberger, Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Fideliter N° 69. Mai-jun 1989. Pág. 6-7)

Mas dizer isto hoje em dia será considerado zelo amargo.

Kyrie Eleison.


Patrick Groche, Superior de la casa autónoma de Gabón,

Franck Peek, Superior de la casa autónoma de África austral.

Acedido em :http://associacaosantoatanasio.blogspot.com/2013/03/os-fieis-tem-o-direito-de-saber.html

Os argumentos antisedevacantistas da fraternidade apostata (outra versão do artigo anterior)

PRM: Para refutar esses argumentos, é indispensável conhece-los, para não actuarmos come eles (strawman argumnets).

O Problema Fundamental

Assim pois o problema fundamental da Empresa é o seguinte: toda a sua posição se apoia num julgamento privado, verdadeiramente digno dos Protestantes, que afirma que os Papas conciliares são hereges impostores, sendo claro que a própria natureza do Papado exclui tal julgamento. Ao passo que existe a possibilidade de um Concílio Geral declarar que o Papa se excomungou a si mesmo devido a heresia, a posição da Empresa não passa de um conjunto de opiniões privadas que não se podem verificar mas apenas debater ( e muitas vezes baseadas em conjecturas, do que se ouve dizer ou precipitados juízos sobre os motivos pessoais do Papa), opiniões essas baseadas na existência e nas consequências das alegadas heresias ou faltas do Papa. A Empresa simplesmente recusa-se a reconhecer os limites de um católico, quando confrontado com casos extraordinários de actos ou afirmações do Papa, que parecem contrários à Fé ou ao bem da Igreja. Estes limites permitem uma liberdade acção inteiramente suficiente para  lidar  com a crise actual da Igreja, em consciência. Por isso a Empresa não serve para lidar com a crise. Pior ainda constitui uma maciça perda de tempo e de energias que poderiam ser utilizadas  num movimento verdadeiramente construtivo de oposição à crise. Além do mais a Empresa é uma perda financeira e de outros recursos que poderiam ser empregues na verdadeira defesa da Igreja contra o escândalo e a heresia, ao mesmo tempo que causa uma divisão sem sentido entre os católicos que deveriam trabalhar todos para a restauração da Igreja.

Porque nos devemos opor à Empresa

Mas, como eu já sugeri, não basta ignorar a Empresa, como coisa inútil e deixá-la circular como coisa meramente académica. Com uma lógica superficialmente plausível e uma grande quantidade  de documentos, a Empresa tem levado parte dos crentes a um verdadeiro cisma. Este cisma nasceu com a suspeita e ilícita sagração de bispos e padres que justificam os seus poderes putativos  na base da doutrina da Empresa do desaparecimento do Papa e da Hierarquia.

Desde 1976 a Empresa sagrou ilicitamente mais de 100 bispos espalhados pelo mundo. A «genealogia» destes bispos começa com a sagração ilícita de cinco bispos do Palmar de Troia, Espanha, pelo Bispo Ngo-Dinh-Thuc (1897-1984), último Arcebispo titular de Hué (Vietnam). O Arcebispo Thuc reconciliou-se com o Vaticano em 1977, para recair no sedevacantismo logo a seguir, com a sagração ilícita de diversos bispos. Em 1982 Thuc proferiu a chamada Declaração de Munich, afirmando «que a Sede Romana estava vacante e de que estava a proceder como um bispo deve proceder para continuar a Igreja Católica e para a salvação das almas.»  Aqui vemos já a pretensão da Empresa de que é a continuadora da Igreja Católica. 

Os bispos sagrados por Thuc sagraram sucessores. Outra linha começou com a sagração episcopal ilícita em 1995 de Fr. Clarence Kelly( anteriormente pertencente à Fraternidade de S. Pio X), por Alfredo José Isaac Cecílio Francesco Mendez-Gonzalez, C.S.C., Bispo resignatário de Arecibo ., Porto Rico. Kelly até ao momento não sagrou nenhum sucessor, embora isso pareça inevitável. (Nota do moderador: Kelly Sagrou um sucessor, Joseph Santay em 2007, e os dois sagraram James Carrol.)

Os bispos da Empresa mal se unem como um corpo, mas outra é a questão da doutrina de uns e outros e da legitimidade, embora todos tenham a mesma opinião sobre o estado da autoridade  na Igreja. Por exemplo, o Bispo Kelly contesta a validade das sagrações da linha Thuc e alguns bispos da linha Thuc contestam a validade da sagração de Kelly. 

Num aspecto teórico, o Bispo Donald Sanborn ( um bispo da linha Thuc sagrado por outro da linha Thuc, o bispo Robert McKenna em Junho de 2002) parte de uma linha estritamente sedevacantista – de que a Sede de Pedro se encontra literalmente vazia desde 1958- e sustenta que os Papas a seguir a Pio XII são validamente eleitos materialmente, mas não são formalmente papas por heresia.  Este argumento, concebido para obviar aos absurdos resultantes da tese sedevacantista, será discutidos mais abaixo.

A Fraternidade de S. Pio X não é sedevacantista

É necessário distinguir radicalmente os quatro bispos não sedevacantista sagrados por Monsenhor Lefebvre para a Fraternidade de S. Pio X, em 1988, dos bispos da Empresa. (Na realidade a Fraternidade de S.Pio X declara-se vigorosamente contra a tese sedevacantista). O Vaticano reconhece as quatro sagrações como válidas (embora não como lícitas), assim como as ordenações realizadas pelos Bispos da Fraternidade. Além disso os Bispos da Fraternidade estão empenhados em discussões com o Vaticano que têm por fim uma «regularização» do status da Fraternidade, apesar do motu próprio de João Paulo I I de 1988, Ecclesia Dei Adflicta, que declara a excomunhão latae sententiae (automática) de Monsenhor Lefebvre e dos 4 Bispos ( mas não dos sacerdotes da Fraternidade nem dos leigos aderentes) por violação do Cânon 1382 que proíbe a sagração de bispos sem o mandato papal. 

Devemos salientar aqui que o mesmo Código de Direito Canónico  que impõe a excomunhão automática pela sagração de bispos sem mandato  papal, também isenta das penas latae sententiae (automática), como a excomunhão,  aquele que age por motivo de necessidade, mesmo que a sua boa fé referente à necessidade esteja errada  (Cânon  1323 4º e 7º). Ora dado que Monsenhor Lefebvre professou que agia de boa fé, julgando que a sagração de quatro bispos católicos tradicionalistas era uma necessidade urgente perante a crise sem paralelo que a Igreja atravessa,  – e ninguém está em posição de julgar o estado da sua mente nesta questão – pode dizer-se em sua defesa que esta  boa fé o isenta da excomunhão automática, mesmo admitindo que ele estava errado.

Ironicamente os bispos da Empresa não podem apelar para o Cânone citado, dado que eles afirmam que o Código de Direito Canónico de  1983 é um produto herético do Vaticano II e como tal nulo. Além do mais a violação do Cânone 1382 por Monsenhor Lefebvre poderia ser invocada apenas sob o aspecto técnico já que o Arcebispo tinha sido assegurado de que pelo menos um bispo da Fraternidade poderia ser  sagrado com mandato papal.

Em absoluto contraste da maneira como é considerado o caso da Fraternidade de S.Pio X,   o Vaticano recusa-se a reconhecer como válidas quer as sagrações quer as ordenações que foram realizadas pelos membros da Empresa, – um número de cujas sagrações teve lugar sob circunstâncias suspeitas, como o facto de o ritual ter sido realizado em casas privadas  sem uma pública cerimónia com os tradicionais dois consagrantes , necessário para garantir a validade. Em consequência, quando um sacerdote decide regularizar a sua situação deixando a Fraternidade o Vaticano apenas lhe destina um lugar em qualquer lado, enquanto os sacerdotes da Empresa apenas se podem regularizar como leigos.

A Última Aberração

A expansão da hierarquia paralela da Empresa levou a uma última aberração : o conclavismo. De acordo com a marca conclavista da Empresa, uma vez que a estrutura oficial da Igreja deixou de existir, os restantes sedevacantistas terão de eleger um papa. Graças aos conclavistas há pelo menos 20 conhecidos antipapas, espalhados pelo mundo, dos quais pelo menos só na América cinco reclamam o trono de Pedro.( o que é outro testamento da América para o espírito empresarial). ( Deve notar-se que o  «Papa», Clemente Dominguez Y Gomez, sagrado pelo Arcebispo Thuc não foi eleito por um conclave. Segundo ele afirma, Deus informou-o pessoalmente de que era Papa. Clemente que tomou para si mesmo o nome de Gregório XVII também realizou concílios e fez cardeais. (23)

Mesmo sendo o conclavismo um rebento aberrante que a própria Empresa renega, ele tem origem na sua própria lógica. Se realmente , conforme a Empresa afirma, os sedevacantistas são a única parte da Igreja que reconhece a heresia manifesta dos últimos quatro ou cinco Papas, porque razão não hão-de estes únicos crentes restantes da Fé eleger um Papa, em vez de esperarem indefinidamente por um milagre que o providencie ?

Em suma, o cisma é o presente envenenado da Empresa. A Empresa não só dissemina noções académicas sobre o estado da autoridade da  Igreja, como também promove graves erros com consequências sérias para a Igreja. Além do mais eles tendem a pensar ou mesmo afirmar que os que não se juntam a eles perderam a  Fé e que os que aceitam João Paulo II ou Bento XVI como papas, estão a caminho do inferno. Por todas estas razões e apesar do absurdo evidente das suas conclusões,  devemo-nos opor à Empresa pelo bem da Igreja.

As três linhas de argumentos dos sedevacantistas

A Empresa segue três linhas básicas de argumentos para concluir que a sede de Pedro está vaga desde a morte de Pio XII. (24)

  1. A primeira linha de argumentos , que já apresentámos, é a de que o papa já era herético  antes da eleição ou se tornou herético depois , razão porque perdeu neste caso o cargo por heresia, dado que nenhum herético pode ser papa.
  2. Muito semelhante a esse argumento é o de que o aparente Papa em questão promulgou legislação prejudicial para toda a Igreja, uma coisa que nenhum verdadeiro Papa pode fazer;
  3. Que a própria  eleição papal foi inválida em si mesma por algum impedimento na pessoa do aparente Papa ou por algum defeito ocorrente no processo da eleição.

Como que para dar mais força às suas posições, os apresentadores da Empresa combinam estes argumentos numa única apresentação,  exactamente como faz um advogado que usa todos os recursos numa batalha legal: o aparente Papa era herético, logo não podia ser Papa; ou , então, se se puder dizer que ele não era estritamente  herético, ele não podia ser Papa , pela legislação perigosa para a Igreja por ele aprovada e que nenhum verdadeiro Papa podia aprovar;  ou então se nenhum destes dois argumentos for decisivo,  a eleição foi inválida por algum impedimento ou defeito processual.

Deste modo a Empresa  constrói argumentos concêntricos de modo a poder afirmar-se que João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI  não sãop verdadeiros Papas.

 Com este sistema de argumentação a fortaleza sedevacantista  torna-se virtualmente  inatacável na mente dos seus defensores, dado que nenhum adversário conseguirá abrir brecha nestes três anéis da argumentos . A opinião central sedevacantista torna-se assim inatacável, como um verdadeiro axioma irrefutável. 

Para aqueles que não pertencem à Empresa e estão razoavelmente informados acerca da Fé, no entanto, a refutação é uma coisa simples. Na parte seguinte deste ensaio eu examinarei mais detalhadamente o primeiro dos argumentos da Empresa : o de que a Sede de Pedro está vaga desde 1958 por manifesta «heresia» papal.

Notas

Notas

  1. Os 33 dias de João Paulo I são geralmente incluídos na tese sedevacantista apesar do pouco tempo do reinado deste papa.
  2. Todas citações dos sedevacantistas são tiradas textualmente das suas fontes, embora não se faça a atribuição por não ser relevante para o nosso trabalho.
  3. «Satis Cognitum», (1896) n.º 12
  4. Michael Davies « The Sedevacantists», The Angelus , Fevereiro de 1983 Vol IV, n..º 2
  5. Um herege material não tem a consciência, ao contrário de um herege formal, de negar uma verdade de Fé. Ver discussão adiante.

Alguns teóricos sedevacantistas , demonstrando a sua grande capacidade inventiva, argumentam que os bispos sagrados pelo Arcebispo Lefebvre não foram validamente sagrados, porque ele mesmo não era bispo ! Eles afirmam que o Cardeal Lienart que sagrou  o Arcebispo Lefebvre  era maçon e portanto estava excomungado e inapto para a sagração episcopal. Estes teóricos esquecem que houve dois bispos co-sagrantes com Lienart, de tal maneira que a desqualificação de Lienart é irrelevante. Na verdade, por isso mesmo, a Tradição exige mais de que um bispo a sagrar outros bispos, ainda que seja suficiente apenas um. Além disso ainda que Liénart tivesse sido o único bispo sagrante, a excomunhão por ser membro da maçonaria não o tornava inapto para realizar a sagração, assim como os bispos ortodoxos não estão privados deste poder.-

6_Outros sedevacantistas argumentam que o Arcebispo Lefebvre  não podia ter sido sagrado bispo porque não era sacerdote. Não era sacerdote porque tinha sido ordenado pelo mesmo Liénart. No entanto o facto de ser maçon não o privava do poder de ordenar. A isto respondem com a mais infundada especulação: que Liénart sendo maçon, não podia ter a intenção de ordenar Lefebvre como padre, porque um maçon nunca poderia ter essa intenção. Evidentemente que nunca se pode argumentar com aqueles que estão sempre a inventar argumentos sem outra base que a mera especulação sobre causas escondidas.

De qualquer modo estes sedevacantista parecem desconhecer que quando Marcel Lefebvre recebeu a sagração episcopal, por Liénart e dois co-sagrantes, (eliminando assim qualquer causa de invalidez), ele recebeu a ordenação sacerdotal ainda que não ativesse recebido antes, porque a sagração episcopal confere a plenitude do sacerdócio assim como os poderes de bispo. ( Conforme a lei da Igreja, a ordenação para o diaconado e presbiterado são para ser realizadas separadamente, mas se alguém é imediata e directamente sagrado bispo ele também é padre, embora tal procedimento possa ser irregular. Aqui os sedevacantistas revelam ignorância da teologia sacramental.

  1. -De Romano Pontifice , II,30
  2. « A Bula de Excomunhão, Exsurge Domine, tinha sido estabelecido,  a 15 de Julho. Ela condenava 41 proposições estabelecidas nos escritos (de Lutero),  ordenava a destruição dos livros que continham os erros, e avisava Lutero para se retratar durante os próximos sessenta dias ou receberia a pena máxima eclesiástica de excomunhão. » De «Martinho Lutero» Catholic Encyclopedia  (1917)
  3. Ver o exemplo histórico de da condenação póstuma de Honório I por um Concílio Geral, que se discute abaixo.
  4.  Primeiro Concílio Vaticano , Sessão IV, Constituição Dogmática I, em Igreja de Cristo, Capítulo IV, Denziger , 1839.
  5. Nem toda a aparente falta de ortodoxia consitui heresia formal. A Igreja Católica emprega diferentes graus de censura que dependem dos diferentes graus de erro em relação à doutrina católica. Conforme é explicado em Fundamentals of Catholic Dogma, do Padre Ludwig Ott : «as censuras usuais são como se segue: Proposição Herética, (propositio heretica). Isto significa que a proposição é contra um dogma formalmente; Proposição Próxima de Heresia ( propositio heresi proxima) que significa que a proposição se opõe a uma verdade que é próxima da Fé (Sent. fidei proxima ) ; Proposição com sabor ou suspeita de heresia (propositio haeresim sapiens vel de haeresi suspecta); Proposição errónea (prop. erronea), isto é oposta a uma verdade que é proposta pela Igreja como uma verdade intrinsecamente ligada com uma verdade revelada (error in fide ecclesiastica) ou oposta ao ensinamento comum dos teólogos (error teologicus); Proposição falsa (prop. falsa), isto é que contradiz um facto dogmático; Proposição Temerária (prop. temeraria), isto é que se desvia do ensinamento geral; Proposição ofensiva para os ouvidos pios (prop. piarum aurium offensiva) ; Proposição mal expressa (propositio male sonans), isto é sujeita a ser mal entendida, por razão do método de expressão;  Proposição Capciosa ( prop.capciosa),  repreensiva por causa da ambiguidade: Proposição escandalosa (propositio scandalosa)» ver Fundamentals of Dogma ,(Tan) p. 10.
  6. Conforme o Patriarca Católico do Iraque, Bidawid referiu à Agência de Imprensa do Vaticano : « A 14 de Maio eu fui recebido pelo Papa, juntamente com uma delegação composta pelo Imã xiita  da Mesquita de Kadhum e pelo Presidente do Conselho de Administração do Banco Islâmico do Iraque. No fim da audiência o Papa inclinou-se para o Livro Santo do Islão, o Corão,  que lhe foi apresentado pela delegação e beijou-o como sinal de respeito. A foto desta gesto foi mostrada repetidamente na Televisão Iraquiana, e demonstra não só que o Papa está ciente do sofrimento do Povo Iraqui, mas também que ele tem um grande respeito pelo Islão (Fides news agency, Roma, 4 de Junho de 1999) Alguns católicos negam obstinadamente o inidente, enquanto outros tentam explicá-lo. As Fotografias do facto são muitas. Ver p.e. www.garykah.org./html/Pope
  7. Eric John, The Popes, A Concise Biographical Historie (1964) , repr.,Harrison, NY; Roman Catholic Books,1994, pag 253.
  8. Ibidem p 115
  9. Hubert Jedin, Ecumenical Councils of  the Catholic Church; An Historical Survey, trans. Ernest Graf, O.S.B. ( New York; Herder and Herder,1960) pag. 47, 48, Warren H. Carrol, A History of Christendom, vol 2: The Building of Christendom College Press, 1987) pag 252 a 254; «Honorius I, Pope,» Catholic Encyclopedia, 1913
  10. Summa Theologica, Q. 33 Art.V , pt II.II
  11. S. Roberto Belarmino, De Pontifice Romano, Livro II, Cap, 29
  12. A Empresa nunca admite que declara a deposição dos cinco papas impostores, mas insiste que ela meramente observa a sua suposta auto-deposição por  heresia que também é supostamente manifesta. Assim a Empresa está realmente a articular julgamentos privados, mais do que apenas observando um acto manifesto. Este artifício será discutido na segunda parte deste ensaio.
  13. De Fide, Disp. X,Sec VI, N.16
  14. E deve ser notado que Paulo VI nunca actualmente anulou legalmente os ritos da Igreja baseados na Tradição Apostólica. Conforme  é relatado em Latin Mass magazine, Catholic Family News e The Fatima Crusader, João Paulo II foi avisado deste facto pela Comissão de Cardeais que ele criou para considerar o status legal da Missa tradicional  em 1986. A  comissão, por oito votos contra um , determinou que Paulo VI nunca tinha proibido a Missa Tradicional.. Por 9 votos contra 0 , a comissão determinou  que qualquer padre podia rezar licitamente a Missa tradicional. A existência e a votação foram publicamente reveladas pelo Cardeal Afonso Stickler , um dos membros da comissão.
  15.  De facto, o Código  de Direito Canónico de 1983  é ainda mais indulgente que isto.  O Cânon 1324 dispõe  no § 1:  o que pratica uma violação,  não está isento da pena, mas a pena legal ou de preceito deve ser diminuída, ou substituída se a ofensa foi cometida por, §5  quem esteja compelido por medo grave, ainda que apenas relativo, ou por razão de necessidade ou grave inconveniência, ainda que o acto seja intrinsecamente mau ou prejudicial para as almas ,§ 8 alguém que erroneamente , mas culpavelmente , pensasse que era presente alguma das circunstancias mencionadas no Can  1323, nn 4 ou 5, §3 Nas circunstâncias mencionadas no § 1 , o violador não está sujeito a pena de latae sententiae.  O Código de Direito Canónico do próprio João Paul II  providencia para que ninguém esteja sujeito a pena de latae sententiae, (automática), por uma violação, ainda que o estado de convencimento de necessidade seja erróneo e culpável, ainda que a violação seja intrinsecamente má ou prejudicial para as almas. Se esta provisão parece indulgente, ela reflecte uma tendência legítima contra as penas de latae sententiae, sem um processo canónico. Em tal caso, não há qualquer pena até que tenha lugar um processo para impor a pena. O arcebispo Lefebvre nunca foi sujeito a qualquer processo. Assim a própria lei da Igreja, exclui qualquer pena contra ele ou contra os bispos por ele  sagrados. E nenhuma pena pode ser aplicada sem processo.
  16. Eis como um bispo da Empresa argumenta :  O Concilio Vaticano II manifestou-se como um falso concilio….. a natureza herética deste concilio confirma-se pelo Código de Direito Canónico de 1983….que demonstra heresias contra a unidade da Igreja…. 
  17. Cf. Sedevacantism A False Solution to a Real Problem,( Angelus Press Kansas City MO 2003 pp 8. 9)
  18. Conforme já foi referido, trataremos noutra secção deste ensaio a teoria do papa material e do papa formal .

PROBLEMÁTICA DA INVALIDADE DA BULA CUM EX APOSTOLATUS OFFICIO INVOCADA PELA FSSPX

Resumo do artigo sobre a oposição declarada da FSSPX à validade da Bula Cum Ex Apostolatus Officio (promariana.files.wordpress.com/2020/09/cum-exapostolatus_portugues-do-brasil_-trad.-homero-johas.pdf), de 15 de Fevereiro de 1559 do Papa Paulo IV (ver artigo detalhado abaixo):

  1. A FSSPX defende e propaga a tese de que a Bula Cum Ex Apostolatus Officio do Papa Paulo IV (1559) perdeu a sua validade por causa da Constituição Vacante sede apostólica (https://promariana.files.wordpress.com/2020/09/1904-12-25_ss_pius_x_constitutio_vacante_apostolica_sede_lt.pdf) de Sao Pio X (1904) e da promulgação do Código de Direito Canónico de 1917.

O artigo demonstra e detalha os erros desta tese, esclarecendo que a dita bula permanece válida.

  1. A FSSPX afirma ainda que não se podem aceitar os ensinamentos autorizados por Paulo IV em 1559, os quais estabelecem que, em caso de heresia pública e manifesta ou apostasia da fé católica, um Papa deixa automaticamente de ser Papa (isto é, sem necessidade de qualquer intervenção da Igreja, pois deixa automaticamente de pertencer à Igreja).
  2. Nos afirmámos que mesmo se a bula fosse ab-rogada, o senso comum não pode ser nem ab-rogado. E o senso comum está a ditar que um homem para ser papa (a cabeça da Igreja) primeiro deve ser membro da mesma, ou não pode ser papa. Tal e qual como a cabeça do autor não pode ser também a cabeça do leitor, simplesmente porque não faz parte do mesmo corpo. Logo, o quem não é católico, não pode ser papa, mesmo se a bula fosse ab-rogada. Isto é de senso comum. Mas como eles não estão a abordá-lo, pergunta-se se eles têm senso comum. A minha resposta é negativa, e constata-se mais uma vez que o cérebro dos membros daquela seita mesmo não passa de adubo natural.

O artigo abaixo também demonstra que os ensinamentos autorizados por Paulo IV em 1559 são compatíveis com a Tradição.

Na prática, os ensinamentos tradicionais da Igreja Católica implicam que se reconheça que:

– após a morte de Pio XII, o Vaticano foi ocupado por uma força de tendência maçónica e marxista, estrangeira à Igreja Católica;

– essa força estrangeira à Igreja Católica estabeleceu uma nova religião (mascarada de catolicismo) com as suas próprias doutrinas (vaticano 2.º etc.) e os seus próprios ritos (nova missa etc.) e a sua própria moral (abominações sexuais etc.);

– essa nova religião é promovida e propagada por líderes hereges (falsos “papas” Roncalli, Montini, Luciani, Wojtyla, Ratzinger, Bergoglio) e por uma hierarquia igualmente herege que os elege e aceita (precisamente porque querem líderes hereges);

– é ilegítimo para qualquer católico reconhecer os líderes dessa nova religião, segui-los ou prestar-lhes homenagem sob qualquer forma que seja.

– se, por milagre, algum líder dessa nova religião se converter ao catolicismo, irá prová-lo rejeitando publicamente e sem hesitação as doutrinas falsas (vaticano 2.º etc), os ritos inválidos (nova missa etc.) e a moral perversa (abominações sexuais etc.) dessa mesma falsa religião. O artigo abaixo também demonstra que os ensinamentos autorizados por Paulo IV em 1559 são compatíveis com a Tradição e que não é legítima a ousadia de os contradizer. Agora vejamos o artigo.

Caro Amigo,

Avé Maria Puríssima

À questão colocada a 22 de Setembro, onde apresentou a tese da fsspx que afirma a ab-rogação da Bula Cum Ex Apostolatus Officio, de 15 de Fevereiro de 1559 do Papa Paulo IV, venho agora dar-lhe uma resposta, breve, e mais detalhada possível sobre esta problemática.

1.    Ao que parece a Bula está ab-rogada, i.e., revogada.

  1. Segundo a fsspx, apoiando-se num trabalho dos Dominicanos de Avrillé, sustenta que «algunos estudios han demostrado que esta constitución perdió su validez legal cuando se promulgó el Código de Derecho Canónico de 1917. Ver, por ejemplo, el artículo del P. Albert, O.P., en Sel de la terre, verano del 2000, pp. 67-78. Lo que permanece en vigor de esta constitución es su enseñanza dogmática. Y, por lo tanto, no puede decir más que el argumento teológico que ya hemos examinado»[1].
  2. Ademais, afirmam em 2013, ter sido a Bula ab-rogada por Pio X e pela Constituição Vacante sede apostolica du 25/12/1904[2].
  3. E também, segundo os Dominicanos de Avrillé em 2019, e depois de fundamentar a temática nos mais ilustres doutores da Igreja e ainda nos CIC 1917 e 1983, afirmam: «des auteurs sedevacantistes ont sotenu qu’un pape perd automatiquement la charge papale à cause de l’heresie publique, sans que l’intervention de l’eglise soit requise ou permise. Cette opinion n’est pas compatible avec la Tradition et la théologie catholiques et doit être rejetée»[3].

2.    Com efeito, a tese da alegada ab-rogação da Bula, tem por fundamento e pretende anular, a perda de cargo, ipso facto, de todo o clérigo que é herege público e manifesto. Em particular, o Pontífice Romano.

3.    Além disso, fica claro que em 2000, se afirma que ter sido ab-rogada a Bula aquando da promulgação do Codex Iuris Canonici 1917 (CIC 1917), pela Constituição Vacante sede apostólica de S. Pio X em 1904.

4.    Sed contra, se Bula tivesse sido abrogada não deveria estar citada no CIC 1917. De factoe como evidência arrolada nesta refutação, toma-se a referência de rodapé de página n.º 2 do Can. 188, §4 do CIC 1917, onde se encontra a citada a Bula.

5.    Sed contra, temos ainda como evidência irrefutável, e portanto, contradição insanável[4], que a Constituição Vacante sede apostólica de S. Pio X em 1904, não ab-roga a Bula Cum Ex Apostolatus Officio.

  1. De facto, a citada Constituição de S. Pio X apenas estabelece as normas que regem a administração da Santa Sé no período de Sede Vacante onde durante este período,  o governo da Igreja fica confiado ao Colégio Cardinalício para o despacho dos assuntos ordinários e para a preparação de tudo necessário para a eleição do novo Pontífice, regendo-se pelo princípio nihil innovetur (que não se inove nada).

b.        Ademais, a proposição em 1.a. de que a Bula perde validade aquando da promulgação do CIC 1917, é contrária ao “acto administrativo” de ab-rogação. Pois que, validade e abrogação, apesar de tornarem nulas as normas, não têm o mesmo significado jurídico; e ainda, não consta a existência de motu proprio ou outra decisão, que ab-rogue a citada Bula.

c.         Além disso, evidencia ainda contradição insanável quando Pio IV, in fine, impede ab-rogação – diz-se que há ausência de eficácia revogatória – quando determina que: «a homem algum seja lícito infringir esta página de Nossa Aprovação, Inovação, Sanção, Estatuto, Derrogação, Vontade, Decreto, ou por temerária ousadia contradizer-lhes. Porém se alguém pretender atentar, saiba que haverá de incorrer na indignação do Deus Onipotente e de seus Santos Apóstolos Pedro e Paulo» e ainda, «não tem nenhum efeito para estas disposições as Constituições e Ordenanças Apostólicas, assim como os privilégios e letras apostólicas, dirigidas a bispos, arcebispos, patriarcas, primazes e cardeais, nem qualquer outra resolução, de qualquer teor ou forma, e com qualquer cláusula, nem os decretos, também os de motu próprio e de ciência certa do Romano Pontífice, ou concedidos em razão da plenitude apostólica, ou promulgados em consistórios, ou de qualquer outra maneira; nem tão pouco os aprovados em reiteradas ocasiões, ou renovados e incluídos no corpo do direito, ou como capítulos de conclave, ou confirmados por juramento, ou por confirmação apostólica, ou por qualquer outro modo de confirmação, inclusive os jurados por Nós mesmos».

d.        Por último, aflige a mente sã e ofende a razão, poder admitir que a citada Constituição datada de 1904, possa abrogar uma Bula por uma lei (CIC1917), dando um período de supressão da lei”[5] de 13 anos, em matéria tão grave para a Igreja.

6.    Sed contra, onde se afirma em 1.c. que “um Papa perde automaticamente o ofício papal em caso de heresia pública, sem intervenção da Igreja e sua permissão, não é compatível com a Tradição e teologia”, pela evidência irrefutável e ausência de eficácia revogatória sancionada pela autoridade de (I) Paulo IV na Bula Cum Ex Apostolatus Officio (1559); (II) pelo CIC 1917, na disposição do Cânon 188 §4, Código de Direito Canónico de 1917ondedetermina que «em virtude de renúncia tácita (silenciosa) admitida pelo mesmo direito, caem ipso facto, e sem nenhuma declaração, de qualquer ofíciose o clérigo: (…) §4 apostata publicamente da fé católica»; (III) por transcender o direito positivo, é portanto, de jure divino, cita-se a Sagrada Escritura em Gálatas 1,8: «Se alguém vos anunciar um Evangelho diferente daquele que recebestes, seja anátema»; e em 2 Jo 1, 9-11: «Todo o que se aparta e não permanece na doutrina de Cristo (não tem) união com Deus, o que permanece na doutrina, este tem (união íntima com) o Pai e o Filho. Se alguém vem a vós, e não traz esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis. Porque quem o saúda, participa (em certo modo) nas suas obras más». Ademais, e tomando a ambiguidade da fsspx em manter referências aos dois códigos, o de 1917 e 1983, omite que segundo o CIC 1983, que segundo a disposição do Cân. 1364 — § 1. o apóstata da fé, o herege e o cismático incorrem em excomunhão latae sententiaei.e.ipso facto, ou seja, sem necessidade de declaração.

Conclusio.

Confutatio 1.aBula Cum Ex Apostolatus Officio não perdeu validade aquando da promulgação do Codex Iuris Canonici 1917.

Confutatio 1.b. A Constituição Vacante sede apostolica du 25/12/1904 de Pio X não abrogou a Bula Cum Ex Apostolatus Officio.

Confutatio 1.c. A perda de ofício do Romano Pontífice éipso facto, i.e., latae sententiae  ou seja, sem nenhuma declaração, se incorre em heresia pública e manifesta ou apostata publicamente da fé católica.

Se alguém tiver a audácia de alegar que o Pontífice Romano está acima do Código de Direito Canónico e que por isso não se pode julgar o Papa com base no mesmo Código:

direi que se o sujeito a ser julgado for o legítimo Papa Católico, verdadeiro Sucessor de S. Pedro, jamais alguém poderá julgá-lo, pois que segundo o can. 1556 da Bula e definido solenemente no Concílio Vaticano I …«a todos julga e não é julgado por ninguém…»;

2.º

mas caso seja herege manifesto e público, ou tenha apostatado, ou incorrido em cisma, aí sim, ele já foi julgado por juris divino e será condenado nos termos das penas aplicáveis e constantes no direito positivo.

Se alguém tiver a audácia de alegar que o Pontífice Romano, incorrendo em pública e manifesta heresia, continua a ser Pontífice da Igreja Católica, digo:

1.º

Conforme define o Catecismo de Trento, herejes não pertencem à Igreja Católica.

2.º

Pelo que, segundo o Papa Leão XIII, em Satis Cognitum, 15, 29 de Junho de 1896[6] «…é absurdo imaginar que aquele que está fora possa comandar dentro da Igreja».

3.º

E ainda, ao Pontífice Romano não se lhe pode imputar dubia de heresia formal ou material, porque, tendo a assistência especial do Divino Espírito Santo, não pode errar, pois que segundo Pio XI em Quas Primas (ex- cathedra) «…é perfeita e perpétua a imunidade da Igreja ao (I) erro e (II) heresia».

Anexos:

FSSPX – BULLETIN DES PRIEURES DE FABREGUES ET PERPIGNAN, n.º 63, Fevrier 2013; 76

Constituição Vacante sede apostólica, 25/12/1904: Pii X Pontificis Maximi Acta, III (1908), 280-281

Codex Iuris Canonici 1917

Bula Cum Ex Apostolatus Officio (1559)-português do Brasil

Bula Cum Ex Apostolatus Officio (1559)-Latin/Espanhol

1 Cfr. https://fsspx.mx/es/breve-catecismo-sobre-el-sedevacantismo, acedido em: 24set2020, 16h50.

2 Cfr. nota de rodapé n.º 6 de FSSPX – BULLETIN DES PRIEURES DE FABREGUES ET PERPIGNAN, n.º 63, Fevrier 2013; 76: Constituição Vacante sede apostólica, 25/12/1904: Pii X Pontificis Maximi Acta, III (1908), 280-281.

3 Editorial do Sel de la Terre (n.º 109), Avrillé, 2019.

4  Há contradição insanável da fundamentação quando, através de um raciocínio lógico, se conclua pela existência de oposição insanável entre os factos provados, entre estes e os não provados, ou entre a fundamentação probatória da matéria de facto. A contradição insanável entre a fundamentação e a decisão, por sua vez, ocorre quando, também através de um raciocínio lógico, se conclua pela existência de oposição insanável entre os meios de prova indicados na fundamentação como base dos factos provados ou entre a fundamentação e o dispositivo da decisão.

5 As modalidades de cessação da vigência da lei são: (I) costume contra legem; (II) invalidade superveniente; (III) caducidade e (IV) revogação.

6 Cfr. Raleigh, Carlen. The Papal Encyclicals. The Pierian Press, 1990, Vol. II (1878-1903), p. 401.

Addendum

Ainda sobre a problemática que vos enviei sobre o erro/falsidade da fsspx considerar nula a Bula de Paulo IV.

Não abordei este ponto no texto, por não ter eficácia na refutação. É o seguinte!

Como evidências, de facto, temos que a fsspx:

  1. Em 2000, considera que a Bula de Paulo IV perdeu a validade aquando da promulgação do CIC 1917 (vide 1.a. do texto). E ainda hoje mantém esta posição pois ela é verificável em: https://fsspx.mx/es/breve-catecismo-sobre-el-sedevacantismo, acedido em: 24set2020, 16h50.
  2. Em 2013, consideram a Bula ab-rogada por Pio X nos termos da Constituição Vacante sede apostolica du 25/12/1904.

Estes dois factos permitem-nos concluir mais uma contradição insanável, pois que a Bula não pode ter sido ab-rogada em 1904 (num documento que não revoga a Bula, é certo!), e perder a validade em 1917, por promulgação de nova lei, i.e., CIC1917 (que não encontra fundamento de invalidar a Bula. Também certo!).

É caso para dizer à fsspx: entendam-se!!! pois que não sabem o que andam a escrever…ou, tudo serve para enganar, ludibriar,…

Os argumentos antisedevacantistas da fraternidade apostata

PRM: Para refutar esses argumentos, é indispensável conhece-los, para não actuarmos come eles (strawman argumnets).

Em defesa do Papado
Contra a Organização Sedevantista

I Parte – Introducção
Este ensaio refuta a tese que se tem desenvolvido no meio de alguns católicos, como expicação da
profunda crise de fé e disciplina que se estabeleceu na
Igreja depois do Vaticano II: a tese do sedevacantismo, um termo que deriva do latim – sede vazia ou
vagante.
Os defensores do sedevancantismo, estão de acordo em geral, que todos os papas desde 1958 -João
XXIII, Paulo VI, João Paulo I(1), João Paulo II e agora Bento XVI – não podem ser verdadeiros
papas, porque são manifestamente heréticos ou
porque aprovaram mudanças perigosas na Igreja, o que nenhum verdadeiro Papa poderia ter feito.
Para citar um portavoz do sedevacantismo : « Os católicos tradicionais têm tentado explicar de
várias formas como os erros e os males das mudanças oficialmente aprovadas pelo Vaticano II
podem ter origem naquilo que parece ser a autoridade infalível da Igreja. A posição sedevacantista
mantém que a única explicação coerente para este estado de coisas , uma vez que o erro e o mal não
podem provir de uma Igreja indefectível e infalível, é que os eclesiásticos que promulgaram estas
mudanças – desde o Papa por aí abaixo – em certo ponto
perderam o seu cargo e autoridade por heresia.»(2)
Como vemos, a afirmação fundamental é perfeitamente lógica se aceitarmos como verdadeiras as
premissas: a) que os erros e os males da mudanças do Vaticano II foram actualmente impostas de
jure à Igreja pelo Papa e pelos eclesiásticos seus subordinados, que actuaram em áreas dentro do
campo da infalibilidade da Igreja; b) que os papas e restantes eclesiásticos envolvidos nas «mudanças
do Vaticano II» eram manifestamente culpados do pecado pessoal de
heresia. Pois como poderia a Igreja ser infalível, ou como poderíam os eclesiásticos, incluindo o
Papa, serem católicos se são heréticos ?
UM EVIDENTE ABSURDO
Demonstraremos mais adiante que as premissas e portanto as conclusões são falsas. Mas ainda sem
tal demonstração, deve ser acentuado desde o princípio
que a tese sedevacantista é claramente insustentável, porque depois de tudo dito e explicado, a tese
chega a esta conclusão:que desde 1958 toda a Igreja
Católica aderiu a uma série de papas e bispos impostores, com excepção de uns poucos
sedevacantistas que foram os únicos a identificar estes eclesiásticos
como heréticos formalmente.
Ter a totalidade da Igreja aderido durante quase meio século a cinco papas consecutivos heréticos, e a
um episcopado igualmente herético seria um autêntico escárnio das promessas de Cristo à Sua Igreja
: que as portas do Inferno não prevaleceríam contra Ela e que Ele estaria com Ela todos os dias até à
consumação do mundo. (Mateus 28,20). Sem o Papa à sua cabeça e os bispos em comunhão com ele,
deixaria de existir uma Igreja visível, e Cristo ter-nos-ia enganado.
Concedemos que poderá muito bem acontecer que a Igreja venha a ficar reduzida a um pequeno
grupo de fiéis, no tempo do Anticristo. Mas mesmo este pequeno grupo terá um Papa como cabeça e
um certo número de bispos em comunhão com ele, no tempo em que o Anticristo apareça e se afirme
a si mesmo. Se assim não fosse este reduzido número não seria a Igreja, mas apenas um grupo de
crentes acéfalo e difuso, exactamente como os protestantes julgam que deve ser a Igreja. Muito
simplesmente: se não existe Pedro não existe Igreja. Como o Papa Leão XIII afirmou na sua
monumental Encíclica sobre a Igreja, Satis Cognitum : « é claro que por ordem e vontade de Deus, a
Igreja assenta sobre S. Pedro, da mesma forma que um edifício assenta sobre os fundamentos. Ora

é próprio da natureza dos fundamentos ser o princípio da coesão das diversas partes do edifício. Os fundamentos são a condição necessária da estabilidade e da robustez. Se se removem os fundamentos, todo o edifício se desmorona.» (3)É certo que há interregnos  entre a morte e a eleição de um novo papa, durante a qual a Igreja fica temporariamente sem Papa. Mas a tese sedevacantista mantém que os últimos cinco papas eleitos não foram papas, e não parece à vista ter fim a sua reivindicação da impostura de papas e de vacância da Cadeira de Pedro.Esta ideia contradiz a definição infalível e o anátema  do Concílio Vaticano I, que afirma a perpetuidade e a visibilidade da sucessão papal: « e para que na verdade o episcopado fosse uno e indiviso, e para que se conservasse na unidade da comunhão e da fé toda a multidão dos fiéis através  dos sacerdotes unidos entre   si, ao colocar o Beato Pedro à frente dos outros apóstolos, nele instituíu o perpétuo princípio e fundamento visível da unidade, sobre cuja fortaleze se iria construir o eterno templo…..(Vaticano I Denziger 1821)

E aquilo que o Senhor Jesus, Chefe dos pastores e grande Pastor do rebanho, estabeleceu no beato Pedro para a perpétua saude e bem perene da Igreja, pelo mesmo autor, é necessário que dure perenemente na Igreja, que fundada sobre a rocha se manterá firme até ao fim dos tempos…..(Vat.I,Denziger 1822)

Se alguém disser que não é de instituição de Cristo Senhor ou de direito divino que o beato Pedro tenha perpétuos sucessores no primado sobre toda a Igreja : ou que o Romano Pontífice não é o sucessor de Pedro no mesmo Primado: seja anátema.»(Vaticano I, Denziger 1825)

Assim parece que os sedevacantistas não levam a sério o anátema do  Vaticano I, que condena e exclui da Igreja todo aquele que ponha em causa a perpétua sucessão do papado como visível fundamento de toda a Igreja. Longe de ser  « a única explicação coerente» para a crise da Igreja, a tese sedevacantista é impensável- se não herética.

Nunca na sua história , até ao momento esteve a Igreja sem o sucessor de Pedro, validamente eleito após a morte do também eleito predecessor. Na verdade, o interregno mais longo entre dois papas na história da Igreja foram dois anos e cinco meses, entre a morte do Papa Nicolau IV ( 1292) e a eleição do Papa Celestino V ( 1294). Mesmo durante o grande Cisma do Ocidente, que durou 38 anos (1379-1417), sempre houve verdadeiros papas reinando ao mesmo tempo que uma série de antipapas, até que o cisma acabou com a resignação do antipapa João XXII e a eleição de Martinho IV.

Agora querem os sedevacantistas fazer-nos acreditar que a Igreja foi atingida por uma série de não menos que cinco antipapas, reinando desde 1958, que no entanto toda a Igreja de alguma maneira reconheceu como legítimos; temos assim um período de 47 anos sem qualquer sucessor de Pedro.  É dificil imaginar contradição mais evidente com o infalível magistério do Vaticano I, sobre a sucessão perpétua de Pedro.

Em face das promessas divinas, portanto, a posição sedevacantista, por mais «lógica» que pareça aos seus aderentes, tem que ser puramente abandonada como um evidente absurdo. 

Defender um absurdo evidente é às vezes tarefa de advogados de renome generosamnete pagos para convencer um juri ou  um juiz de que um absurdo óbvio é uma coisa aceitável ( como por exemplo a inocência  de Mr. S.). Mas ainda que a tentativa resulte, o absurdo mantém-se sempre absurdo. É o caso da tese sedevacantista. Como comenta Michel Davis com admirável concisão: «Poderá algum católico, qualquer pessoa com noção do que é ser católico considerar seriamente uma tal insensatez ? »(4)

Na obra prima Ortodoxia, diz Chesterton : «Um louco não é um homem que perdeu a razão. Um louco é um homem que perdeu tudo excepto a razão.» Tal homem, escreve Chesterton, « está numa prisão; na prisão de um só pensamento.» Tendo desenvolvido todos os argumentos lógicos a favor desse pensamento,  « as explanações do louco acerca de uma coisa são sempre completas, e até num aspecto meramente racionl, são satisfatórias». Daqui, conclui Chesterton «quando se argumenta com um louco é extremamente provável que não se leve a melhor com isso, pois a sua mente não se preocupa com as coisas que conduzem a um bom julgamento das coisas.»

Assim acontece com os múltiplos  e cada vez mais elaborados argumentos dos sedevacantistas. Não quere isto dizer que os sedevacantistas sejam literalmente loucos na apresentação das suas ideias. Não é isto o que eu pretendo sugerir, como não é o que Chesterton pretende explicar a respeito dos esfoços da mente moderna acorrentada pela «lógica» do sistema materialista. Quero dizer antes que que os sedevacantistas demonstram o pensamento impenetrável, encerrado sobre si mesmo, como acontece com os loucos, ainda que eles sejam perfeitamente sãos e em muitos casos muitíssimo inteligentes. O sedevacantismo é perfeitamente lógico para os sedevacantistas mas é totalmente insano para qualquer católico que, apreciando esse sistema plausível inerentemente , mas de fora, é capaz de exercer um bom julgamento àcerca das suas afirmações.

Desde pequenos começos

As primeiras publicações daquilo a que eu chamo a «empresa sedevacantista» ( para a frente referimo-nos apenas a Empresa) emergiu por volta de 1976, como reacção contra o curso inegavelmente desatroso da «reforma» da Igreja post-Vaticano II, autorizada ou tolerada pelo Papa Paulo VI em nome do Concílio convocado pelo Papa João XXIII. A Empresa Começou a partir de uma hipótese teológica de S. Roberto Belarmino, que é comumente aceite pelos teólogos: de que um Papa perderia a sua sede, se se tornasse verdadeira e formalmente herético, isto é, se notória e pertinazmente (aberta e obstinadamente) negasse ou duvidasse de um artigo da Fé Católica e Divina, tal como a existência das três Pessoas da Santíssima Trindade. (A profissão de alguns erros teológicos menores, não constituem formalmente heresia, dado que nem todos os ensinamentos da Igreja são artigos de Fé.) (5)

Perdeu Paulo VI a Sede por heresia formal ou nem sequer a ocupou por heresia preexistente? Teria igualmente João XIII caído ou nem sequer ter ascendido à Sede por heresia ? Seria isto a explicação porque estes dois ocupantes da Sede de Pedro teríam aprovado ou permitido tal destruição da Igreja- isto é ter-se-ia dado o caso de terem dois impostores ocupado a Sede de Pedro ? Muito embora sobre outras questões a Empresa não tenha uma unidade teórica, é unânime pela afirmativa a essas duas. E assim de pequenos começos a Empresa avançou para um vasto sistema de argumentação que afirma não somente que não houve Papa desde a morte de Pio XII em 1958( ou literalmente ou pelo menos «formalmente»), mas também que desde então não houve Cardeais validamente creados, nem padres nem bispos ordenados ou sagrados segundo «ritos» inválidos aprovados usados pelos antipapas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

Em outras palavras, a Empresa propõe que não só a Igreja não tem cabeça há 47 anos, mas também que praticamente não há padres, bispos ou cardeais, na estrutura canónica das dioceses da Igreja, mas também que os poucos eclesiásticos validamente ordenados ou sagrados pelos ritos preconciliares, mesmo esses perderam os seus cargos pela sua manifesta adesão às mudanças do Vaticano II e aos Papas impostores. Chega-se mesmo a pôr em causa a validade das ordenações de presbíteros e a sagração dos bispos da Fraternidade de S.Pio X ( devido ao alegados impedimentos da sagração episcopal do seu fundador, o Arcebispo Marcel Lefebvre)(6). A Empresa efectivamente declara que apenas o punhado de padres e bispos sedevacantistas, vistos como legitimados pela Empresa, são os verdadeiros membros do que resta de uma  Hierarquia Católica.

Consequentemente a Empresa informa-nos que será impossível a eleição de um Papa válido novamente sem a intervenção miraculosa de Deus. Efectivamente, a Igreja já não existe como sociedade visível , dado que não tem nem uma cabeça nem uma hierarquia que a governe. As promessas de Cristo são ignoradas a favor de uma hipotético deus ex machina que supostamente ressuscite a Igreja de uma verdadeira extinção. 

Nas melhores publicações da Empresa estas proposições são suportadas por argumentos aparentemente plausíveis e até uma impressionante erudição. Mas se estas proposições não pertencem à categoria do « evidente absurdo», então nada é absurdo.

É no entanto, necessário discutir os méritos da tese sedevacantista,  porque neste tempo de confusão na Igreja, há muitos católicos que não reconhecem um absurdo teológico quando algum se lhe depara. Podem ser enganados por argumentos fáceis e por uma documentação aparentemente esmagadora. Vamos assim proceder à refutação das afirmações da Empresa na esperança de ajudar os incautos.

Julgando a Heresia Papal

É certamente plausível que se um Papa se tornasse herético deixaria de ser Papa, porque os herejes não são católicos, e os não católicos não podem ser papas. Como já atrás notámos, esta possibilidade teórica é aceite de forma comum pelos teólogos. S. Roberto Belarmino resume assim este consenso teológico : « Um Papa que é  manifestamente herético  ipso facto cessa de ser Papa e Cabeça, porque deixa de ser automaticamente cristão e membro da Igreja …»

O problema, no entanto, é duplo : primeiro, o Papa deve ter declarado uma verdadeira e manifesta heresia, que requere a negação de um artigo de Fé Divina e Católica, como por exemplo a Trindade e não apenas qualquer outro erro contra o ensinamento de Igreja. Segundo, O Papa deve, ao declarar a heresia, ser culpável do pecado pessoal de heresia, pelo qual com perfeito conhecimento e pertinácia (obstinadamente) nega o artigo de fé. Uma pessoa que pense que a sua falsa fé é conciliável com a Fé Católica, não pode ser acusado do pecado de heresia formal. É apenas um hereje material que permanece no entanto membro da Igreja.(7)

Segundo a máxima Prima Sedes a nemine judicatur, – ninguém julga a Primeira Sede, como é que um membro isolado da Igreja determina por si só, que estão presentes as condições para uma heresia formal? Que ninguém pode julgar o Papa – isto é, o seu pecado pessoal de heresia, mesmo apesar do significado herético das suas palavras, é uma verdade fundamental da nossa religião assim como um ditado da razão. E isto é assim porque por vontade do divino Fundador da Igreja, não há na terra nenhum poder acima do Papa.

Sendo assim como é possível que membros isolados da Igreja  tenham conhecimento certo de que um Papa que proferiu uma heresia, não tenha perdido o juizo, não tenha cometido apenas um erro na escolha das palavras, ou não tenha sido sujeito a ameaças à sua vida, ou mesmo não esteja persuadido de que a sua opinião não vai contra a Fé ? Na ausência de um procedimento para investigar o caso e as circunstâncias que o rodeiam, incluindo uma directa pregunta ao Papa, com uma oportunidade para ele se retratar, seria impossível julgar este assunto de maneira suficiente e clara. Na verdade o próprio Lutero foi convocado para defender as suas opiniões e a seguir foram-lhe dados sessenta dias para se retratar das quarenta e uma heresias, antes de receber a sentença de excomunhão(8). Quem exactamente poderia ter este procedimento com o Papa ? Ou entendemos que o que tem a missão de Papa terá de ser tratado com menos justiça que Lutero ?

Um Remédio

Isto não significa que a Igreja não tenha qualquer solução no caso de uma manifesta heresia do Papa que publicamente negasse um ou mais dogmas de Fé.

Mas ainda que este remédio tivesse que ser utilizado para um Papa ainda vivo(9), segundo uma opinião teológica, ensinada por Santo António de Florença e S.Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, se um Papa na realidade pronunciasse ou ensinasse uma manifesta heresia, poderia reunir-se um Concílio Geral para verificar tais afirmações ou alegadas afirmações atribuidas ao Papa. Se se convocasse um tal Concílio deveria ser dada oportunidade ao Papa para explicar as suas palavras e retratar-se delas, e a recusa do Papa em se apresentar ao Concílio poderia constituir prova de pertinácia. O Concílio poderia então declarar que o Papa, pelos seus próprios actos, se tinha excluido a si mesmo da Igreja, cessando assim de ser Papa, de tal maneira que se poderia então proceder com segurança à eleição de um novo Papa. Este procedimento não constituiria um julgamento da pessoa do Papa, mas apenas uma mera sentença declaratória verificando  o que o Papa tinha feito a si mesmo abraçando a heresia e recusando uma explicação e retratação, tendo-lhe sido dada oportunidade para o fazer. Verificado o facto de que o Papa com conhecimento e obstinadamente negasse um dogma de Fé definido, sabendo que esta opinião teológica pessoal contradizia a Fé, a própria definição dogmática ( ex sese, para usar o termo do Vaticano I ),

constituiria uma sentença contra o Papa. Isto porque as definições dogmáticas da Igreja são irreformáveis ou «inalteráveis»(10), como o Vaticano I declara ao definir o infalível magistério do Romano Pontífice ( que se aplica também às definições dos concílios ecuménicos confirmados por um Papa. Por isso as definições dogmáticas estão sempre ligadas a anátemas, que declaram que qualquer que negue um dogma de fé : «seja anátema» – isto é seja maldito e excluido da Igreja.Mas mesmo concedendo que um ou mais Papas depois de Pio XII tenham mantido alguma manifesta heresia, não houve nenhum concílio convocado para apreciar ou determinar a pertinácia de qualquer Papa acusado de heresia. Mas a Empresa apesar de todos os seus esforços não conseguiu identificar qualquer manifesta heresia de entre as múltiplas ambíguas declarações e factos perturbadores (ou mesmo escandalosos) realizados por João Paulo II ou Paulo VI; e muito menos no que respeita a João XIII e João Paulo I. Por exemplo, uma lista intitulada: «101 heresias de do Antipapa João Paulo II», que é típica da literatura da Empresa, é apenas um catálogo tendencioso de interpretações de declarações  ambíguas do Papa sem apresentação de uma clara proposição herética, ou então trata como heresias manifestas acções escandalosas do Papa, como o facto de ele ter beijado o Corão(11). (Este último facto não é suficiente para constituir uma heresia formal, dado que o facto de beijar o Corão não constitui por si uma contumaz negação de um artigo da Fé Católica, e provavelmente foi um gesto, impetuoso e certamente ultrajante, de respeito para com os delegados islâmicos, que deram o livro como presente.(12)) O facto de atribuirem a João Paulo II sessenta manifestas heresias a  mais do que o Concílio de Trento foi capaz de encontrar nos escritos de Lutero, não serve de um pouco de relfexão aos amadores detectives de heresias da Empresa. Umas atrás das outras eles seguem descobrindo  manifestas hersias em João Paulo II. 

É necessário relembrar: para definir heresia manifesta é necessário, primeiro que seja negado um artigo de Fé, divina e católica, como a Trindade, e não apenas um erro contra o ensinamento da Igreja. Em segundo lugar, o Papa ao declarar uma heresia deve ser culpado do pecado pessoal de heresia, com perfeito conhecimento e pertinácia na negação do artigo de Fé. E, mais, uma pessoa que acredita que a sua opinião pessoal não vai contra a Fé Católica, não pode ser acusado de pecado de heresia formal. É apenas um hereje material que permanece membro da Igreja. Comparemos a falta de sucesso da Empresa em encontrar heresias manifestas nas declarações dos papas conciliares, com o caso do Papa João XXII. Em 1331, certos teólogos franceses e o cardeal Orsini denunciaram João XXII como herético, quando numa série de sermões, este Papa ensinou que as almas dos bemaventurados, depois de cumprido o tempo do purgatório, não viam Deus até ao juizo final. O cardeal Orsini apelou para um Concílio Geral para pronunciar o Papa como hereje,  precisamente segundo o que ensina S. Afonso Maria de Ligório e Santo António de Florença, como já expusémos, em que se propõe um Concílio Geral para tratar de uma heresia papal. Assim confrontado, Joao XXII respondeu que não tinha tido a intenção de impôr à Igreja  a doutrina dos seus sermões, e encarregou uma comissão de teólogos para estudar o assunto. A comissão informaou o Papa de que estava errado, e ele retratou-se do erro alguns anos mais tarde, no dia antes da sua morte(13). E assim, apesar de ter sido denunciado como hereje e ameaçado com um Concílio Geral para declarar a sua heresia, João XXII nunca deixou de ser considerado pela Igreja como Papa, e a História da Igreja devidamente o recorda como tal.

Outro exemplo instructivo é o do Papa Honório I (625 a 638). Honório aprovou umas fórmulas ambíguas propostas por Sergius, Patriarca de Constantinopla, que favorecíam a heresia Monotelista, segundo a qual Cristo tinha apenas uma vontade divina mais do que uma vontade divina e humana distintas. Embora laborasse em erro avaliando deficientemente a importância da fórmula de Sergius, Honório sujeitou-se a ser acusado como hereje(14). Daqui o Terceiro Concílio de Constantinopla (680-81) condenou Honório postumamente, juntamente com Sergius, por ter mantido a heresia. O Papa Leão II confirmou a condenação do Concílio, mas mostrou que a condenação se deveria entender no sentido de que …« Honório…, conforma convem à autoridade Apostólica, não extinguiu a chama da heresia logo nos seus inícios, mas encorajou-a com a sua negligência, concordando com uma fórmula ambígua, que silenciava o essencial da questão.(15) » Embora tendo sido condenado por um Concílio como hereje, a Igreja nunca considerou que ele tivesse deixado de ser Papa, apesar da acusação ter sido feita durante o seu reinado.

Pode resistir-se aos Papas

Os exemplos de João XXII e Honório, mostram-nos o modo católico com que se deve resisitr ao Papa, quando ele está no erro ou pratica acções que ameaçam o bem comum da Igreja: Cada um de nós pode resisitr a um Papa contumaz, mas (a não ser no caso em que um Concílio Geral  pronuncia uma sentença declaratória), não podemos nem julgá-lo nem declarar a sede vacante.

S. Tomás de Aquino ensina que há o dever positivo de repreender ou corrigir mesmo o Papa, quando há perigo para a Fé, mas que não se pode declarar que perdeu a sua autoridade. Na Summa Theologica, acerca da questão: «Se uma pessoa pode corrigir o seu Prelado», S. Tomás conclui assim : «Deve observar-se, no entanto, que se a Fé corre perigo, uma pessoa deve repreender o seu Prelado, mesmo publicamente. Por isso S. Paulo, que estava sujeito a Pedro, repreendeu-o publicamente, tendo em conta o perigo iminente de escândalo relativo à Fé…» (Pedro tinha escandalizado os que se podíam converter e tinha ameaçado a missão da Igreja parecendo que aceitava as leis de Moisés sobre a comida e recusando tomar refeições com os gentios.) S. Tomás observa aqui que a repreensão pública de um Prelado «poderia ter parecido orgulho mas que neste caso não houve qualquer presunção, por julgar melhor sobre algum aspecto, pois nesta vida ninguém é isento de faltas. Também devemos lembrar que quando alguém repreende o seu prelado caritativamente, isso não quere dizer que uma pessoa se julgue melhor que outro, mas apenas que essa pessoa oferece ajuda a outra que , estando em posição superior, também está em maior perigo, como Agostinho observa na sua Regra, acima referida.»(16)

No entanto fica implícito na doutrina de S.Tomás  que o Papa que comete escândalo referente à Fé continua Papa, embora possa ser repreendido e corrigido, como João XXII. Este princípio católico está resumido pelo grande Doutor da Igreja S. Belarmino, que escreve na sua obra De Romano Pontifice: «Assim como é lícito resistir a um Pontífice que nos agride o corpo, também é licito resisitir a um que ameaça as almas ou atenta contra a ordem civil, ou, sobretudo, que tenta destruir a Igreja.» Ele diz  que «é lícito resistir-lhe não fazendo o que ele ordena e impedir que as suas ordens sejam executadas; todavia não é lícito julgá-lo, puni-lo ou depô-lo , pois estes actos são próprios de um superior.»(17)

Um sedevacantista, comentando a passagem citada de S. Belarmino, argumenta que ele está a referir-se aos «Reis ou aos Concílios» que resistem a um Papa «que ameaça a ordem civil ou que mata as almas com mau exemplo» e que Belarmino não se refere ao caso de Heresia. Mas em nenhuma parte ensina Belarmino que os Reis ou os Concílios e muito menos os membros isolados da Igreja, podem julgar um Papa de heresia. Na verdade se, como este sedevacantista admite, Belarmino ensina que que nem os Reis nem os Concílios podem julgar ou depôr o Papa mesmo em caso de flagrante violação da ordem política ou  por manifesta imoralidade, mas que apenas lhes é lícito resitir, com que direito julga o Papa ou o considera deposto(18) no caso mais grave de heresia – quando depôr o Papa por esta matéria, está para além da competência de Reis e Concílios? Ou ainda, como poderia um Papa acusado ser sujeito a  procedimento se até herejes como Martinho Lutero estão de acordo em relação a um Papa não poder ser julgado privadamente como herético, ser inibido ou deposto de facto por quaisquer membros, sejam simples fiéis ou da hierarquia.

O célebre teólogo do Sec. XVI Francisco Suarez, chamado piedoso e eminente teólogo,(eximius et pius) pelo Papa Paulo V, explicou o princípio segundo o qual se deve resisitir a um Papa contumaz desta forma: «E nesta segunda maneira um Papa pode ser cismático, se ele não quiser estar em normal união com todo o corpo da Igreja, como acontece se ele tentasse excomungar toda a Igreja, ou, conforme observam Caetano e Torquemada, se ele desejasse derrubar os ritos da Igreja baseados na Tradição Apostólica(….)Se(….)desse ordens contrárias aos rectos costumes não deveria ser obedecido; se ele tentasse fazer alguma coisa manifestamente oposta à justiça e ao bem comum, seria legal resistir.lhe….)(19) 

É notável como um teólogo tão considerado no Sec. XVI, tivesse discutido como matéria de facto a possibilidade de que  um Papa culpado de actos cismáticos pudesse obrigar os fiéis a resitir-lhe. No entanto em nenhuma outra parte ensina Suarez que qualquer membro dos fiéis, mesmo padre ou bispo, possa declarar que o Papa esteja actualmente em cisma e deixe de ser Romano Pontífice. Pelo contrário Suarez fala inteiramente e apenas na resistência a uma pessoa que se mantêm Papa apesar dos seus actos ciismáticos.

Claramente, neste caso, excluindo o caso pouco usual de um concílio com este fim, só a resistência  – e não julgamento ou deposição – é a única opção para resistir a um Papa aparentemente herético. O pensamento da Igreja a este respeito foi expresso pelo Magistério Papal , por Paulo IV, na sua Bula Cum Ex Apostolatus Officio (1559). Considerando com gravidade que, no meio da rebelião protestante, um futuro Papa pudesse sucumbir à heresia protestante, Paulo IV declarou que « o Romano Pontífice, que na terra representa o nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, que tem a totalidade do poder sobre todos os povos e reinos, que pode julgart todos, mas não pode ser julgado por ninguém neste mundo, pode no entanto ser contradito se se encontra que ele se desviou da Fé. 

Trata-se de uma notável declaração por duas razões. Primeiro, confirma o constante ensino da Igreja de que ninguém pode julgar a Primeira Sede, mesmo quando confrontado com alegados desvios da Fé. Em segundo lugar, ele admite no entanto a possibilidade de que um Papa se possa desviar da Fé, permanecendo Papa. Em tal caso o Papa que erra deve ser apenas contradito e não julgado. Voltaremos de novo a esta Bula para discutir as provisões de Paulo IV que respeitam a  qualquer um que  sendo conhecido como manifestamente herético antes do Conclave que o eleja como Papa, mas por agora basta dizer que o Magistério confirma que enquanto os fiéis podem resistir a um Papa contumaz, não têm o direito de o julgar do pecado pessoal de heresia e declarar a Sé vacante.

O Problema Fundamental

Assim pois o problema fundamental da Empresa é o seguinte: toda a sua posição se apoia num julgamento privado, verdadeiramente digno dos Protestantes, que afirma que os Papas conciliares são hereges impostores, sendo claro que a própria natureza do Papado exclui tal julgamento. Ao passo que existe a possibilidade de um Concílio Geral declarar que o Papa se excomungou a si mesmo devido a heresia, a posição da Empresa não passa de um conjunto de opiniões privadas que não se podem verificar mas apenas debater ( e muitas vezes baseadas em conjecturas, do que se ouve dizer ou precipitados juízos sobre os motivos pessoais do Papa), opiniões essas baseadas na existência e nas consequências das alegadas heresias ou faltas do Papa. A Empresa simplesmente recusa-se a reconhecer os limites de um católico, quando confrontado com casos extraordinários de actos ou afirmações do Papa, que parecem contrários à Fé ou ao bem da Igreja. Estes limites permitem uma liberdade acção inteiramente suficiente para  lidar  com a crise actual da Igreja, em consciência. Por isso a Empresa não serve para lidar com a crise. Pior ainda constitui uma maciça perda de tempo e de energias que poderiam ser utilizadas  num movimento verdadeiramente construtivo de oposição à crise. Além do mais a Empresa é uma perda financeira e de outros recursos que poderiam ser empregues na verdadeira defesa da Igreja contra o escândalo e a heresia, ao mesmo tempo que causa uma divisão sem sentido entre os católicos que deveriam trabalhar todos para a restauração da Igreja.

Porque nos devemos opor à Empresa

Mas, como eu já sugeri, não basta ignorar a Empresa, como coisa inútil e deixá-la circular como coisa meramente académica. Com uma lógica superficialmente plausível e uma grande quantidade  de documentos, a Empresa tem levado parte dos crentes a um verdadeiro cisma. Este cisma nasceu com a suspeita e ilícita sagração de bispos e padres que justificam os seus poderes putativos na base da doutrina da Empresa do desaparecimento do Papa e da Hierarquia.

Desde 1976 a Empresa sagrou ilicitamente mais de 100 bispos espalhados pelo mundo. A «genealogia» destes bispos começa com a sagração ilícita de cinco bispos do Palmar de Troia, Espanha, pelo Bispo Ngo-Dinh-Thuc (1897-1984), último Arcebispo titular de Hué (Vietnam). O Arcebispo Thuc reconciliou-se com o Vaticano em 1977, para recair no sedevacantismo logo a seguir, com a sagração ilícita de diversos bispos. Em 1982 Thuc proferiu a chamada Declaração de Munich, afirmando «que a Sede Romana estava vacante e de que estava a proceder como um bispo deve proceder para continuar a Igreja Católica e para a salvação das almas.»  Aqui vemos já a pretensão da Empresa de que é a continuadora da Igreja Católica. 

Os bispos sagrados por Thuc sagraram sucessores. Outra linha começou com a sagração episcopal ilícita em 1995 de Fr. Clarence Kelly (anteriormente pertencente à Fraternidade de S. Pio X), por Alfredo José Isaac Cecílio Francesco Mendez-Gonzalez, C.S.C., Bispo resignatário de Arecibo ., Porto Rico. Kelly até ao momento não sagrou nenhum sucessor, embora isso pareça inevitável.

Os bispos da Empresa mal se unem como um corpo, mas outra é a questão da doutrina de uns e outros e da legitimidade, embora todos tenham a mesma opinião sobre o estado da autoridade  na Igreja. Por exemplo, o Bispo Kelly contesta a validade das sagrações da linha Thuc e alguns bispos da linha Thuc contestam a validade da sagração de Kelly. 

Num aspecto teórico, o Bispo Donald Sanborn (um bispo da linha Thuc sagrado por outro da linha Thuc, o bispo Robert McKenna em Junho de 2002) parte de uma linha estritamente sedevacantista – de que a Sede de Pedro se encontra literalmente vazia desde 1958- e sustenta que os Papas a seguir a Pio XII são validamente eleitos materialmente, mas não são formalmente papas por heresia.  Este argumento, concebido para obviar aos absurdos resultantes da tese sedevacantista, será discutidos mais abaixo.

A Fraternidade de S. Pio X não é sedevacantista

É necessário distinguir radicalmente os quatro bispos não sedevacantista sagrados por Monsenhor Lefebvre para a Fraternidade de S. Pio X, em 1988, dos bispos da Empresa. (Na realidade a Fraternidade de S.Pio X declara-se vigorosamente contra a tese sedevacantista). O Vaticano reconhece as quatro sagrações como válidas (embora não como lícitas), assim como as ordenações realizadas pelos Bispos da Fraternidade. Além disso os Bispos da Fraternidade estão empenhados em discussões com o Vaticano que têm por fim uma «regularização» do status da Fraternidade, apesar do motu próprio de João Paulo II de 1988, Ecclesia Dei Adflicta, que declara a excomunhão latae sententiae (automática) de Monsenhor Lefebvre e dos 4 Bispos (mas não dos sacerdotes da Fraternidade nem dos leigos aderentes) por violação do Cânon 1382 que proíbe a sagração de bispos sem o mandato papal. 

Devemos salientar aqui que o mesmo Código de Direito Canónico que impõe a excomunhão automática pela sagração de bispos sem mandato papal, também isenta das penas latae sententiae (automática), como a excomunhão, aquele que age por motivo de necessidade, mesmo que a sua boa fé referente à necessidade esteja errada (Cânon  1323 4º e 7º). Ora dado que Monsenhor Lefebvre professou que agia de boa fé, julgando que a sagração de quatro bispos católicos tradicionalistas era uma necessidade urgente perante a crise sem paralelo que a Igreja atravessa,  – e ninguém está em posição de julgar o estado da sua mente nesta questão – pode dizer-se em sua defesa que esta  boa fé o isenta da excomunhão automática, mesmo admitindo que ele estava errado.

Ironicamente os bispos da Empresa não podem apelar para o Cânone citado, dado que eles afirmam que o Código de Direito Canónico de 1983 é um produto herético do Vaticano II e como tal nulo. Além do mais a violação do Cânone 1382 por Monsenhor Lefebvre poderia ser invocada apenas sob o aspecto técnico já que o Arcebispo tinha sido assegurado de que pelo menos um bispo da Fraternidade poderia ser sagrado com mandato papal.

Em absoluto contraste da maneira como é considerado o caso da Fraternidade de S.Pio X,  o Vaticano recusa-se a reconhecer como válidas quer as sagrações quer as ordenações que foram realizadas pelos membros da Empresa, – um número de cujas sagrações teve lugar sob circunstâncias suspeitas, como o facto de o ritual ter sido realizado em casas privadas  sem uma pública cerimónia com os tradicionais dois consagrantes , necessário para garantir a validade. Em consequência, quando um sacerdote decide regularizar a sua situação deixando a Fraternidade o Vaticano apenas lhe destina um lugar em qualquer lado, enquanto os sacerdotes da Empresa apenas se podem regularizar como leigos.

A Última Aberração

A expansão da hierarquia paralela da Empresa levou a uma última aberração: o conclavismo. De acordo com a marca conclavista da Empresa, uma vez que a estrutura oficial da Igreja deixou de existir, os restantes sedevacantistas terão de eleger um papa. Graças aos conclavistas há pelo menos 20 conhecidos antipapas, espalhados pelo mundo, dos quais pelo menos só na América cinco reclamam o trono de Pedro. (o que é outro testamento da América para o espírito empresarial). ( Deve notar-se que o  «Papa», Clemente Dominguez Y Gomez, sagrado pelo Arcebispo Thuc não foi eleito por um conclave. Segundo ele afirma, Deus informou-o pessoalmente de que era Papa. Clemente que tomou para si mesmo o nome de Gregório XVII também realizou concílios e fez cardeais. (23)

Mesmo sendo o conclavismo um rebento aberrante que a própria Empresa renega, ele tem origem na sua própria lógica. Se realmente , conforme a Empresa afirma, os sedevacantistas são a única parte da Igreja que reconhece a heresia manifesta dos últimos quatro ou cinco Papas, porque razão não hão-de estes únicos crentes restantes da Fé eleger um Papa, em vez de esperarem indefinidamente por um milagre que o providencie ?

Em suma, o cisma é o presente envenenado da Empresa. A Empresa não só dissemina noções académicas sobre o estado da autoridade da  Igreja, como também promove graves erros com consequências sérias para a Igreja. Além do mais eles tendem a pensar ou mesmo afirmar que os que não se juntam a eles perderam a  Fé e que os que aceitam João Paulo II ou Bento XVI como papas, estão a caminho do inferno. Por todas estas razões e apesar do absurdo evidente das suas conclusões,  devemo-nos opor à Empresa pelo bem da Igreja.

As três linhas de argumentos dos sedevacantistas

A Empresa segue três linhas básicas de argumentos para concluir que a sede de Pedro está vaga desde a morte de Pio XII. (24)

  1. A primeira linha de argumentos , que já apresentámos, é a de que o papa já era herético  antes da eleição ou se tornou herético depois , razão porque perdeu neste caso o cargo por heresia, dado que nenhum herético pode ser papa.
  2. Muito semelhante a esse argumento é o de que o aparente Papa em questão promulgou legislação prejudicial para toda a Igreja, uma coisa que nenhum verdadeiro Papa pode fazer;
  3. Que a própria  eleição papal foi inválida em si mesma por algum impedimento na pessoa do aparente Papa ou por algum defeito ocorrente no processo da eleição.

Como que para dar mais força às suas posições, os apresentadores da Empresa combinam estes argumentos numa única apresentação,  exactamente como faz um advogado que usa todos os recursos numa batalha legal: o aparente Papa era herético, logo não podia ser Papa; ou , então, se se puder dizer que ele não era estritamente  herético, ele não podia ser Papa , pela legislação perigosa para a Igreja por ele aprovada e que nenhum verdadeiro Papa podia aprovar;  ou então se nenhum destes dois argumentos for decisivo,  a eleição foi inválida por algum impedimento ou defeito processual.

Deste modo a Empresa constrói argumentos concêntricos de modo a poder afirmar-se que João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI  não sãop verdadeiros Papas.

Com este sistema de argumentação a fortaleza sedevacantista  torna-se virtualmente  inatacável na mente dos seus defensores, dado que nenhum adversário conseguirá abrir brecha nestes três anéis da argumentos . A opinião central sedevacantista torna-se assim inatacável, como um verdadeiro axioma irrefutável. 

Para aqueles que não pertencem à Empresa e estão razoavelmente informados acerca da Fé, no entanto, a refutação é uma coisa simples. Na parte seguinte deste ensaio eu examinarei mais detalhadamente o primeiro dos argumentos da Empresa : o de que a Sede de Pedro está vaga desde 1958 por manifesta «heresia» papal.

Notas

  1. Os 33 dias de João Paulo I são geralmente incluídos na tese sedevacantista apesar do pouco tempo do reinado deste papa.
  2. Todas citações dos sedevacantistas são tiradas textualmente das suas fontes, embora não se faça a atribuição por não ser relevante para o nosso trabalho.
  3. «Satis Cognitum», (1896) n.º 12
  4. Michael Davies « The Sedevacantists», The Angelus , Fevereiro de 1983 Vol IV, n..º 2
  5. Um herege material não tem a consciência, ao contrário de um herege formal, de negar uma verdade de Fé. Ver discussão adiante.

Alguns teóricos sedevacantistas , demonstrando a sua grande capacidade inventiva, argumentam que os bispos sagrados pelo Arcebispo Lefebvre não foram validamente sagrados, porque ele mesmo não era bispo ! Eles afirmam que o Cardeal Lienart que sagrou  o Arcebispo Lefebvre  era maçon e portanto estava excomungado e inapto para a sagração episcopal. Estes teóricos esquecem que houve dois bispos co-sagrantes com Lienart, de tal maneira que a desqualificação de Lienart é irrelevante. Na verdade, por isso mesmo, a Tradição exige mais de que um bispo a sagrar outros bispos, ainda que seja suficiente apenas um. Além disso ainda que Liénart tivesse sido o único bispo sagrante, a excomunhão por ser membro da maçonaria não o tornava inapto para realizar a sagração, assim como os bispos ortodoxos não estão privados deste poder.-

6_Outros sedevacantistas argumentam que o Arcebispo Lefebvre  não podia ter sido sagrado bispo porque não era sacerdote. Não era sacerdote porque tinha sido ordenado pelo mesmo Liénart. No entanto o facto de ser maçon não o privava do poder de ordenar. A isto respondem com a mais infundada especulação: que Liénart sendo maçon, não podia ter a intenção de ordenar Lefebvre como padre, porque um maçon nunca poderia ter essa intenção. Evidentemente que nunca se pode argumentar com aqueles que estão sempre a inventar argumentos sem outra base que a mera especulação sobre causas escondidas.

De qualquer modo estes sedevacantista parecem desconhecer que quando Marcel Lefebvre recebeu a sagração episcopal, por Liénart e dois co-sagrantes, (eliminando assim qualquer causa de invalidez), ele recebeu a ordenação sacerdotal ainda que não ativesse recebido antes, porque a sagração episcopal confere a plenitude do sacerdócio assim como os poderes de bispo. ( Conforme a lei da Igreja, a ordenação para o diaconado e presbiterado são para ser realizadas separadamente, mas se alguém é imediata e directamente sagrado bispo ele também é padre, embora tal procedimento possa ser irregular. Aqui os sedevacantistas revelam ignorância da teologia sacramental.

  1. Os 33 dias de João Paulo I são geralmente incluídos na tese sedevacantista apesar do pouco tempo do reinado deste papa.
  2. Todas citações dos sedevacantistas são tiradas textualmente das suas fontes, embora não se faça a atribuição por não ser relevante para o nosso trabalho.
  3. «Satis Cognitum», (1896) n.º 12
  4. Michael Davies « The Sedevacantists», The Angelus , Fevereiro de 1983 Vol IV, n..º 2
  5. Um herege material não tem a consciência, ao contrário de um herege formal, de negar uma verdade de Fé. Ver discussão adiante.

Alguns teóricos sedevacantistas , demonstrando a sua grande capacidade inventiva, argumentam que os bispos sagrados pelo Arcebispo Lefebvre não foram validamente sagrados, porque ele mesmo não era bispo ! Eles afirmam que o Cardeal Lienart que sagrou  o Arcebispo Lefebvre  era maçon e portanto estava excomungado e inapto para a sagração episcopal. Estes teóricos esquecem que houve dois bispos co-sagrantes com Lienart, de tal maneira que a desqualificação de Lienart é irrelevante. Na verdade, por isso mesmo, a Tradição exige mais de que um bispo a sagrar outros bispos, ainda que seja suficiente apenas um. Além disso ainda que Liénart tivesse sido o único bispo sagrante, a excomunhão por ser membro da maçonaria não o tornava inapto para realizar a sagração, assim como os bispos ortodoxos não estão privados deste poder.-

6_Outros sedevacantistas argumentam que o Arcebispo Lefebvre  não podia ter sido sagrado bispo porque não era sacerdote. Não era sacerdote porque tinha sido ordenado pelo mesmo Liénart. No entanto o facto de ser maçon não o privava do poder de ordenar. A isto respondem com a mais infundada especulação: que Liénart sendo maçon, não podia ter a intenção de ordenar Lefebvre como padre, porque um maçon nunca poderia ter essa intenção. Evidentemente que nunca se pode argumentar com aqueles que estão sempre a inventar argumentos sem outra base que a mera especulação sobre causas escondidas.

De qualquer modo estes sedevacantista parecem desconhecer que quando Marcel Lefebvre recebeu a sagração episcopal, por Liénart e dois co-sagrantes, (eliminando assim qualquer causa de invalidez), ele recebeu a ordenação sacerdotal ainda que não ativesse recebido antes, porque a sagração episcopal confere a plenitude do sacerdócio assim como os poderes de bispo. ( Conforme a lei da Igreja, a ordenação para o diaconado e presbiterado são para ser realizadas separadamente, mas se alguém é imediata e directamente sagrado bispo ele também é padre, embora tal procedimento possa ser irregular. Aqui os sedevacantistas revelam ignorância da teologia sacramental.

  1. -De Romano Pontifice , II,30
  2. « A Bula de Excomunhão, Exsurge Domine, tinha sido estabelecido,  a 15 de Julho. Ela condenava 41 proposições estabelecidas nos escritos (de Lutero),  ordenava a destruição dos livros que continham os erros, e avisava Lutero para se retratar durante os próximos sessenta dias ou receberia a pena máxima eclesiástica de excomunhão. » De «Martinho Lutero» Catholic Encyclopedia  (1917)
  3. Ver o exemplo histórico de da condenação póstuma de Honório I por um Concílio Geral, que se discute abaixo.
  4.  Primeiro Concílio Vaticano , Sessão IV, Constituição Dogmática I, em Igreja de Cristo, Capítulo IV, Denziger , 1839.
  5. Nem toda a aparente falta de ortodoxia consitui heresia formal. A Igreja Católica emprega diferentes graus de censura que dependem dos diferentes graus de erro em relação à doutrina católica. Conforme é explicado em Fundamentals of Catholic Dogma, do Padre Ludwig Ott : «as censuras usuais são como se segue: Proposição Herética, (propositio heretica). Isto significa que a proposição é contra um dogma formalmente; Proposição Próxima de Heresia ( propositio heresi proxima) que significa que a proposição se opõe a uma verdade que é próxima da Fé (Sent. fidei proxima ) ; Proposição com sabor ou suspeita de heresia (propositio haeresim sapiens vel de haeresi suspecta); Proposição errónea (prop. erronea), isto é oposta a uma verdade que é proposta pela Igreja como uma verdade intrinsecamente ligada com uma verdade revelada (error in fide ecclesiastica) ou oposta ao ensinamento comum dos teólogos (error teologicus); Proposição falsa (prop. falsa), isto é que contradiz um facto dogmático; Proposição Temerária (prop. temeraria), isto é que se desvia do ensinamento geral; Proposição ofensiva para os ouvidos pios (prop. piarum aurium offensiva) ; Proposição mal expressa (propositio male sonans), isto é sujeita a ser mal entendida, por razão do método de expressão;  Proposição Capciosa ( prop.capciosa),  repreensiva por causa da ambiguidade: Proposição escandalosa (propositio scandalosa)» ver Fundamentals of Dogma ,(Tan) p. 10.
  6. Conforme o Patriarca Católico do Iraque, Bidawid referiu à Agência de Imprensa do Vaticano : « A 14 de Maio eu fui recebido pelo Papa, juntamente com uma delegação composta pelo Imã xiita  da Mesquita de Kadhum e pelo Presidente do Conselho de Administração do Banco Islâmico do Iraque. No fim da audiência o Papa inclinou-se para o Livro Santo do Islão, o Corão,  que lhe foi apresentado pela delegação e beijou-o como sinal de respeito. A foto desta gesto foi mostrada repetidamente na Televisão Iraquiana, e demonstra não só que o Papa está ciente do sofrimento do Povo Iraqui, mas também que ele tem um grande respeito pelo Islão.»(Fides news agency, Roma, 4 de Junho de 1999) Alguns católicos negam obstinadamente o inidente, enquanto outros tentam explicá-lo. As Fotografias do facto são muitas. Ver p.e. www.garykah.org./html/Pope
  7. Eric John, The Popes, A Concise Biographical Historie (1964) , repr.,Harrison, NY; Roman Catholic Books,1994, pag 253.
  8. Ibidem p 115
  9. Hubert Jedin, Ecumenical Councils of  the Catholic Church; An Historical Survey, trans. Ernest Graf, O.S.B. ( New York; Herder and Herder,1960) pag. 47, 48, Warren H. Carrol, A History of Christendom, vol 2: The Building of Christendom College Press, 1987) pag 252 a 254; «Honorius I, Pope,» Catholic Encyclopedia, 1913
  10. Summa Theologica, Q. 33 Art.V , pt II.II
  11. S. Roberto Belarmino, De Pontifice Romano, Livro II, Cap, 29
  12. A Empresa nunca admite que declara a deposição dos cinco papas impostores, mas insiste que ela meramente observa a sua suposta auto-deposição por  heresia que também é supostamente manifesta. Assim a Empresa está realmente a articular julgamentos privados, mais do que apenas observando um acto manifesto. Este artifício será discutido na segunda parte deste ensaio.
  13. De Fide, Disp. X,Sec VI, N.16
  14. E deve ser notado que Paulo VI nunca actualmente anulou legalmente os ritos da Igreja baseados na Tradição Apostólica. Conforme  é relatado em Latin Mass magazine, Catholic Family News e The Fatima Crusader, João Paulo II foi avisado deste facto pela Comissão de Cardeais que ele criou para considerar o status legal da Missa tradicional  em 1986. A  comissão, por oito votos contra um , determinou que Paulo VI nunca tinha proibido a Missa Tradicional.. Por 9 votos contra 0 , a comissão determinou  que qualquer padre podia rezar licitamente a Missa tradicional. A existência e a votação foram publicamente reveladas pelo Cardeal Afonso Stickler , um dos membros da comissão.
  15.  De facto, o Código  de Direito Canónico de 1983  é ainda mais indulgente que isto.  O Cânon 1324 dispõe  no § 1:  o que pratica uma violação,  não está isento da pena, mas a pena legal ou de preceito deve ser diminuída, ou substituída se a ofensa foi cometida por, §5  quem esteja compelido por medo grave, ainda que apenas relativo, ou por razão de necessidade ou grave inconveniência, ainda que o acto seja intrinsecamente mau ou prejudicial para as almas ,§ 8 alguém que erroneamente , mas culpavelmente , pensasse que era presente alguma das circunstancias mencionadas no Can  1323, nn 4 ou 5, §3 Nas circunstâncias mencionadas no § 1 , o violador não está sujeito a pena de latae sententiae.  O Código de Direito Canónico do próprio João Paul II  providencia para que ninguém esteja sujeito a pena de latae sententiae, (automática), por uma violação, ainda que o estado de convencimento de necessidade seja erróneo e culpável, ainda que a violação seja intrinsecamente má ou prejudicial para as almas. Se esta provisão parece indulgente, ela reflecte uma tendência legítima contra as penas de latae sententiae, sem um processo canónico. Em tal caso, não há qualquer pena até que tenha lugar um processo para impor a pena. O arcebispo Lefebvre nunca foi sujeito a qualquer processo. Assim a própria lei da Igreja, exclui qualquer pena contra ele ou contra os bispos por ele  sagrados. E nenhuma pena pode ser aplicada sem processo.
  16. Eis como um bispo da Empresa argumenta :  O Concilio Vaticano II manifestou-se como um falso concilio….. a natureza herética deste concilio confirma-se pelo Código de Direito Canónico de 1983….que demonstra heresias contra a unidade da Igreja…. 
  17. Cf. Sedevacantism A False Solution to a Real Problem,( Angelus Press Kansas City MO 2003 pp 8. 9)
  18. Conforme já foi referido, trataremos noutra secção deste ensaio a teoria do papa material e do papa formal .

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Fátima e a Paixão da Igreja